O canto da sereia

Os dias passavam preguiçosos na Fáscia, tudo virando uma rotina conhecida do grupo. A ausência de Rentaniel contribuía para que tudo ficasse mais tranquilo. Ausente seu chefe, e muitos de seus seguidores, a política da Fáscia tornou-se ainda mais isolacionista, e tudo ainda mais voltado para dentro. Uma rara vista de um Onatra ou Anoa era o pouco que se via da existência de algo fora da nação. Até mesmo os navios de guerra patrulhando no mar aberto eram quase invisíveis por trás da Doma, a grande construção de colunas que fechava a falésia das águas de fora.
Os últimos remanescentes da guarda real leais a Rentaniel tinham fugido noite adentro ou encontrado seu fim no fio de uma lâmina. Audren permanecia tão reclusa como sempre, permitindo que a mão invisível e os mercadores da Cabeça restaurassem silenciosamente a nação, revertendo-a em um enclave com toques Urbani sob o domínio silencioso dos Harata.
A cada segunda lua cheia do mês, um representante da Armada chegava para as reuniões do Consórcio, assim como faziam em Magenta a cada terceira lua cheia. Aqui, nem Svetlana nem Valaravas tinham qualquer papel a desempenhar. 
O Leste é tão unido que o representante do Consórcio da Armada vive na Fáscia.
Nos últimos dias, movimentos agitaram-se nos confins ocidentais de Purvatara: a Trifronteira, o Luar e o extremo oeste de Erítria, onde o Zhefaq se entrincheirava.
Mas nada disso atraiu a atenção de Valaravas. Seu foco estava em outro lugar, fixado na cuidadosa integração de Nushala, o papel que ela estava destinada a herdar moldando o curso de seus dias. O pai dela fizera sua escolha há muito tempo, colocando ambos em caminhos dos quais nenhum poderia voltar atrás.
Dias se passaram desde que os laceradores foram enviados para levá-la, desde que seu pai atacou a equipe com a eficiência fria de um homem que não tinha intenção de deixar trabalho inacabado para trás. E, no entanto, o peso incômodo persistia. Ela não conseguia afastar a sensação de que seu pai ainda tinha mais jogadas a fazer.
Nushala ainda se sentia um tanto deslocada dentro do grupo, mesmo enquanto os outros aprofundavam seus laços. Só ela permanecia sem um vínculo natural, passando seus momentos de reflexão e descanso em solidão. No entanto, ela se adaptara. Entendia o ritmo do grupo agora, suas deixas não ditas, a maneira como suas dinâmicas mudavam como as correntes subterrâneas de um mar calmo. Isso não a impedia de observar, de juntar as peças de onde ela poderia se encaixar nesta intrincada teia de companheirismo.
Tarja, sempre inquieta, parecia mais inclinada a dormir no chão do que em uma cama de verdade. Ela se instalara com Erlan. Tornara-se o santuário deles, não apenas um lugar de meditação silenciosa, mas um espaço inteiramente deles, longe do olhar do mundo. Ela, uma Carpata, abrira mão de uma cama para estar onde Erlan estava, nos costumes que ele tinha.
Ariel, por outro lado, seguira o caminho oposto. Onde antes se irritara ao saber que Valaravas e Nandi dividiam um quarto, agora ela se mudara para aquele mesmo espaço. A amargura que antes a corroía, substituída por algo mais próximo do pertencimento. Em vez de se retirar para um quarto seu, como era seu costume, ela escolheu mover-se para o lado de seus companheiros.
As noites na Fáscia eram tranquilas, guardadas sob o olhar sempre vigilante da Lâmina. Não havia necessidade de eles permanecerem nos espaços comuns após o anoitecer.
A manhã se desenrolava rotineira. Tarja e Erlan iam para os preparativos do desjejum juntos, e tomavam seu tempo em brincadeiras e provocações carinhosas enquanto administravam os diferentes gostos culinários do grupo.
Ariel, geralmente a primeira a acordar, já havia iniciado seu ritual matinal habitual: verificar as informações nos terminais em busca de mensagens. Na maioria das manhãs, as notas não continham nada de importante, apenas atualizações sobre as operações diárias. Mas hoje, algo estava diferente. As palavras a perturbaram.
Enquanto Valaravas e Nandi desciam as escadas para a refeição, Ariel os chamou, sua voz tingida de uma urgência silenciosa.
[O Homem de Vime foi sacrificado. O Homem de Lata se move. Busquem a Sereia.]
O olhar de Nandi foi com severidade para Valaravas enquanto Ariel declamava a mensagem que recebera.
— Minha leoa, agorá é a sua vez! — Nandi murmurou.
A Sangamani segurou o ombro de Valaravas, e passando por Ariel, e direcionou gentilmente para ele enquanto saía. Eles precisavam conversar.
— Homem de vime é Rentaniel, isso eu sei. — Ariel disse. — Homem de Lata? Sereia?
Valaravas pegou a mensagem que Ariel oferecia, e observou outros dados, data, hora e códigos. Nada importante exatamente.
— Homem de Lata é Sasha. O do Zhefaq. Aparentemente ele é o próximo. — Valaravas disse deixando no ar o resto, com um sorriso.
— E a Sereia? — Ariel perguntou dando um soquinho no ombro do Harata.
— Alguém que seria muito bom você encontrar. — riu-se Valaravas.
— Ei! Você não respondeu a pergunta, você sabe. — Ariel fez beicinho.
— A Sereia, uma dama, que vive nas águas do Mar. — Valaravas sorriu satírico levemente.
— E tomando em conta que Harata nunca mente, isso tem que ser verdade de alguma forma, não é? Safado. — Ariel riu-se.
A Silvani se inclinou e apertou os lábios nos dele, em um breve beijo, pontuando-o com um estalar de língua displicente.
Juntos, eles foram para aproveitar a refeição da manhã. Sem discussões pesadas, sem assuntos urgentes a tratar. Apenas a mistura habitual de conversa trivial, o humor afiado de Tarja e a compreensão silenciosa de que, por enquanto, todos estavam exatamente onde deveriam estar.
Nushala ainda estava preocupada com seu futuro. Viver e ter a família agora não era a totalidade de sua vida. O destino de seu pai impactaria sua vida de qualquer maneira, ou assim ela acreditava. Independentemente disso, ela se permitiu esquecer o máximo que pôde, confiando que Ariel e Valaravas resolveriam a situação.
Quando terminaram de comer, era hora de cada um se dirigir às suas respectivas tarefas. Erlan e Tarja passavam o tempo como sempre: fazendo coisas aleatórias pela casa, treinando juntos, alegremente despreocupados com a política. As complexidades mais sutis do mundo além do deles não os preocupava até que fossem chamados.
Nushala decidiu começar a treinar suas habilidades para ser útil ao grupo de mais maneiras do que simplesmente sendo ela mesma.
Para Valaravas e Ariel, no entanto, a manhã tinha um propósito maior. Eles tinham uma sereia para encontrar. Sua primeira parada, como Valaravas sugerira, foi o mercado. Era lá que encontrariam Syvis.
Andando pelas ruas da Fáscia, Ariel estava tranquila e agora podia prestar atenção no ambiente sem temer as sombras. Ela observava o tempo explicando a vida mais do que palavras. Era ela agora que andava com Valaravas, recebendo acenos e consideração. Vendedores oferecendo amostras de frutas e toques em tecidos. Era ela que causava conversas sussurradas por estar ao lado de Valaravas. Era ela que os guardas reais patrulhando acenavam em reconhecimento. Era ela que era diferente de qualquer habitante da Fáscia, e no entanto não atraía raiva, ao contrário, notada como se fosse parte da consciência coletiva da nação.
Ela ainda não via os agentes da lâmina, ou infiltradores Urbani, e os garotos Harata correndo eram como pontos aleatórios de divertidas peripécias sem grandes consequências.
Valaravas por seu lado estava andando casualmente. Eles procuravam Syvis, mas ele estava andando como se nada houvesse para fazer.
Eles se moviam pela multidão, o zumbido rítmico do comércio enchendo o ar. Barracas repletas de produtos frescos, bugigangas e sedas se espalhavam pelas ruas, os comerciantes anunciando suas mercadorias em uma sinfonia de vozes de pechincha. Algumas voltas propositais os levaram em direção à casa de auditoria, onde Syvis esperava na porta.
Ela mal lhes dirigiu um olhar antes de falar.
— A sereia? Tem certeza? — Syvis parecia tensa.
Syvis sorriu para Ariel, mas deu uma olhada na Silvani de cima a baixo, como se procurasse algo.
— E ela vai caminhar pela primeira vez direto com a Sereia? — Syvis disse ainda mais preocupada.
— Syvis, ela vai estar comigo. — Valaravas disse casualmente.
— Você não é .... — Syvis começou.
— Ayla. Lembra? — Valaravas pontuou com um olhar de 'assunto encerrado.'
Syvis considerou isso por um momento antes de assentir.
— O acesso ao carro será liberado na sua autoridade, 'Vossa Excelência', espero que saiba o que está fazendo, para o bem de todos nós.
Syvis olhou para Ariel, com um olhar inquisitivo.
— Espero que esteja preparada, Silvani.
E assim, Syvis voltou ao seu posto, sinalizando que a conversa havia terminado.
Ariel, agora familiarizada com tais protocolos não ditos, simplesmente se virou e seguiu Valaravas enquanto ele passeava pelo mercado. Ele examinava ociosamente as barracas, sem pressa, esperando pelas perguntas inevitáveis.
Ariel não decepcionou.
— O que tem de tão especial sobre essa 'Sereia' Val? — Ariel perguntou casualmente.
— Pra mim? Nada. Eu a conheço. Para você? Digamos que sua vida nunca sera a mesma depois de conhecê-la, o que quer que aconteça. Ela é a única pessoa que pode te dar o que ela vai te dar, e você a única pessoa que pode dar a ela o que ela vai pedir a você.
— E como sempre, isso tem que ser verdade de alguma forma. Te odeio Harata! — Ariel riu-se com vontade.
Eles andaram um pouco mais, provavelmente fingindo passear, Ariel julgava, mas provavelmente indo em direção a algo.
— Homem de vime, homem de lata, sereia. Qual é o meu codinome? — Ariel perguntou divertida.
— Você não tem um. As pessoas não falam de você umas com as outras, só das outras para você. — Sua voz carregava algo entre divertimento e uma reverência silenciosa. — A sereia irá ajudá-la a entender o quão importante você é.
Havia um peso em suas palavras, algo cuidadosamente colocado, mas ainda não totalmente destinado a que ela compreendesse. Mas Ariel, por enquanto, tomou isso como nada mais do que uma brincadeira de amantes, descartando-a com um sorriso. Ela ainda não aprendera a pensar tantos passos à frente no jogo que ele jogava.
Eles caminharam em silêncio por um tempo, misturando-se ao vai e vem do mercado. Valaravas se viu observando-a, estudando seu andar, sua postura, a facilidade com que ela se movia entre a multidão. Ela caminhava com leveza, em todos os sentidos, mas não era mais a Ariel que ele conhecera.
Na época que ela era uma atiradora assertiva, apenas, por baixo disso, era uma mulher perdida, uma que nunca tivera a chance de se tornar adulta, forçada em vez disso a uma vida de sobrevivência, responsável por seu irmão, pela luta deles para se manterem vivos. Amadurecer em certos aspectos, mas não em outros.
Agora, ela andava como se pertencesse, como se tivesse se despojado do peso daquele passado e entrado em algo maior. Confiante, firme, à vontade em sua própria pele. Sensual em seus próprios termos, despojada do medo de julgamento da sociedade.
Um pensamento cruzou sua mente então, considerando que ela poderia rivalizar com Ayla em admiração. Ele já contemplava a questão dela entender o legado que possuía para deixar, e a responsabilidade que isso seria. Ainda que Ariel mesma não fizesse a mínima ideia.
Ele deve ter olhado por tempo demais, porque Ariel de repente se virou para ele, fechando a distância entre eles em um piscar de olhos, sua agilidade tão natural quanto respirar. O movimento súbito atraiu alguns olhares dos que estavam por perto, sussurros seguindo em seu rastro, mas ela não lhes deu atenção.
— O que está olhando hein, safadinho? — ela provocou, inclinando a cabeça com um sorriso de lado, malicioso.
Seus grandes olhos Silvani vagarosamente baixando para os lábios do Harata, e depois encarando diretamente.
— Gostou do que viu, foi?
Valaravas mal teve tempo de reagir antes que ela se inclinasse, pressionando um beijo rápido e astuto em seus lábios.
— Olhos aqui em cima!
Ela se virou, continuando a caminhar como se nada tivesse acontecido. Ao redor deles, alguns espectadores trocaram sorrisos, alguns sussurrando, outros meramente observando.
Ariel não se incomodou. Ela simplesmente andou, serpenteando pelo mercado como se nunca tivesse sido nada além de uma parte dele. Ela estava feliz.
Essa percepção se instalou no peito de Valaravas, embora tenha sido rapidamente interrompida pela próxima observação de Ariel.
— Nós não nos mudamos para a Fáscia, Val. — ela ponderou. — Estamos começando a ficar relaxados, descuidados.
Valaravas exalou, sua postura descontraída mudando para uma mais medida.
— Você realmente quer saber? Está preparada para a verdade tal como o Harata diz a verdade? Entender que o que eu disser sempre foi a realidade, e que o saber é novo, mas o fato é antigo?
Ariel encontrou seu olhar, sem se intimidar.
— Se eu vou estar ao seu lado, preciso ver o mundo como você vê, 'meu leão' — Ariel disse fazendo garras e imitando rugido.
Valaravas riu-se.
— Isso é definitivamente macabro quando você faz.
A expressão de Ariel se suavizou.
— Eu nunca vou fingir que entendo sua história com a Nandi. Real, ilusória, antiga, mística, seja o que for. Só esperado que haja espaço na sua história para uma entre nós dois. Na minha, sempre haverá para você.
Valaravas olhou ao redor, como abrangendo o espaço em suas mãos.
— Alguns metros atrás do meu ombro esquerdo, olhe discretamente. Aquele é um agente da Lâmina. Em alguns segundos um garoto deixará um papel cair, e ele o pegará, e sumirá na multidão.
Ariel observava como se uma realidade profética desenrolasse ali.
— Syvis não é Harata. Ela também faz parte disso tudo. Parece.
— Os Harata controlam a Fáscia. Audren apenas assina as coisas que pedirem, sob a condição de que a Fáscia se isole. Bom para ambos os lados. A Fáscia é o mercado de informações e acordos que não se afeta com seus resultados.
— E quem sou eu nesse seu mundo, Harata? — Ariel perguntou casualmente.
— Precisamos ter essa conversa de forma adequada. Não aqui, nem agora. Mas o que quero que lembre-se sempre é: Não importa quem você é no jogo, estamos juntos pelo que você pra mim.
— O que você quer dizer? Parece macabro você agora!
— Nosso relacionamento não tem nada a ver com o jogo, mas o jogo irá se colocar entre mim e você. Quando isso acontecer, temos que ser fortes. Muito em breve, você, não eu, tomará frentes. E temos que estar preparados para isso, antes que aconteça.
Eles pararam, seus olhares se encontrando. Algumas coisas ainda não podiam ser ditas, mas foram entendidas da mesma forma. 
— Esse é o 'canto da sereia'. Ela colocará as coisas em movimento, para nós e para o que deve ser feito. Depois dela, sua vida, nossa vida, nunca mais será a mesma. E não haverá retorno ao antes.
Ariel não respondeu. Ela simplesmente caminhou ao lado dele, o peso das promessas não ditas se instalando entre eles. Eles continuaram em silêncio, um silêncio que se estendeu por mais tempo do que era confortável, até que, finalmente, chegaram ao refúgio. Havia um carro, parecia mais robusto, como um carro militar, com o emblema de Seldanar, esperando.
Era como se o que ele disse era o que estava esperando dizer antes de partir para a tal missão da Sereia.
Seguindo ruas conhecidas, o passou por caminho bloqueado por muros e portões, abertos à sua aproximação. Uma leve mudança de cadência e um túnel, Ariel mais que Valaravas sentiu a mudança. A impressão do barulho da estrava como seria ouvida sob o carro mudava, para um ritmo diferente. Eles estavam em um caminho que outros carros não poderiam viajar, pelo menos não com aquela facilidade.
Um pequeno impacto e sentia-se o carro mudando propulsão e movendo partes quaisquer que fossem por baixo.
Ele estava seguindo pela água, ainda dentro da Doma, mas já na água salgada do Mar do Leste, que invadia a falésia da Fáscia.
O motor mais uma vez mudou sua configuração, e eles agora deslizavam, gentilmente balançando sobre as ondas, estabilizados pelos suportes laterais, a água espumando gentilmente contra as laterais laqueadas do veículo.
A água estava estranhamente calma. Nenhuma voz ecoava sobre sua superfície, nenhum som além do ondulado e suave barulho dos transformadores e turbinas, e o barulho de aves procurando por seu sustento nas águas cristalinas.
As estruturas indistintas que observaram ao longe quando entraram na água agora aproximavam-se, delineando suas formas e chamando a atenção de Ariel, que pela janela observava curiosa. Era uma vila construída em madeira e metal, como se flutuando no meio da baía que a falésia formava. Uma ilha construída onde apenas o mar antes havia.
A aldeia se erguia sobre palafitas acima da água, suas passarelas de madeira conectando casas construídas com uma elegância distinta, simples, mas duradoura. Mas não foi a arquitetura que lhe tirou o fôlego, mas os habitantes. Eram Silvani.
Não apenas um punhado. Quase todos na aldeia eram Silvani. Seus cabelos, seus olhos, seu andar, todos estranhamente familiares às memórias de Ariel, como se ela estivesse entrando em um pedaço de Tirayon deitado sobre a costa da Fáscia.
Ariel olhou para Valaravas com olhos surpresos como nunca antes. O momento tirando qualquer atenção ao fato de que aquilo poderia ser desconfortável para o Harata.
Eles não estavam ali como exilados. Eles estavam ali vivendo como em uma cidade Silvani por direito.