O arquiteto do destino

A varanda estava silenciosa, banhada pela primeira luz do dia. O orvalho da manhã se agarrava às trepadeiras que se entrelaçavam nas vigas de madeira, as folhas brilhando como esmeraldas lapidadas.
Na outra extremidade, Valaravas descansava em seu habitual recosto irreverente, uma bebida cristalina na mão, a garrafa sem rótulo pousada perto de seus dedos. A luz do sol atingiu a borda de seu copo, enviando raios quebrados pela madeira polida da mesa. O reflexo de seus anéis adicionava um tom mais místico à cena, que parecia tranquila, quase pacífica demais para as correntes subterrâneas de intriga que entravam pelo salão do térreo.
Ariel evitou encará-lo, mas algo no homem parecia familiar. Não era apenas o conhecido charme Harata, ou a graça nativa de sua etnia. Havia algo mais, algo que ela não conseguia identificar. Era uma familiaridade que ela só experimentara agora, mesmo contando com seu próprio irmão. Algo parecia convidar e desarmar preconceitos e medos.
A voz de Valaravas os saudou como uma brisa quente da manhã.
— Que bom que chegaram cedo. Bom dia! ­— Ele gesticulou para as cadeiras perto dele. — Muitas vezes eu invejo a visão que vocês tem do mundo planejado. Tem suas vantagens. Mas gostaria que pudessem ver como eu vejo um novo dia.
Uma figura que nunca tinham visto igual pessoalmente como surgida da própria sombra pairou como se criada pelas palavras de Valaravas. Uma mulher escura como a noite, olhos profundos e mesmo que tudo nela fosse escuro e sombrio, ela emanava bem estar com sua presença. Era como um prisma para as palavras de Valaravas.
— Nós, Harata, vemos o novo dia como uma nova vida, novas oportunidades. O ontem deixando apenas o que é proveitoso, e ficando o resto para trás. — O Harata disse com uma voz que parecia ecoar dentro deles.
Como suas palavras descreveram, o calor e a segurança do sol através da varanda, estranhamente brilhante na atmosfera geralmente escura e sombria da Cidade do Luar. A tensão e a mágoa dos eventos passados simplesmente desapareceram de suas mentes.
Ela conhecia esta voz. Conhecia esta presença. Mas havia mais. A sensação deslizava ao redor como uma sombra logo além do alcance. A forma e a silhueta de Valaravas, sua postura, a maneira como ele falava, tudo parecia pertencer a uma memória fora de foco. A memória se recusava a se solidificar. E um toque poderoso como nenhum que fosse físico, mas somente sentido, e com uma capacidade de reconhecer de onde sua presença a chamava.
Valaravas deslizou um arquivo pela mesa, sua capa etiquetada com um nome que enviou um solavanco agudo pelo peito de Ariel.
[Anarquistas do Sul]
Valaravas mudou. Sua voz mudou, ainda charmosa, mas tingida de severidade.
— Você reconhece esses operativos, tenho certeza. Essas informações vem da Armada, e vocês trabalharam com eles.
Os dedos de Ariel pairaram sobre a pasta enquanto seus olhos verdes se estreitavam. Uma rápida visão pela pasta, e as informações se viam familiares. Eram as mesmas que ela há muito tinha ponderado que não importava sua análise.
Valaravas sabia que isso faria ressurgir sua memória, e que os detalhes se alinhariam com suas experiências passadas como caçadora de recompensas. Era, afinal, uma das razões pelas quais ela estava ali.
— Sim, Mestre Valaravas. Sabemos quem são. — Ariel disse com cuidado no seu Onatri.
Ariel então se lembrou das palavras de Obravar sobre Valaravas, dando um sentido concreto a elas. Ele era alguém que ela nunca esqueceria se o visse, mas a familiaridade ainda pairava. E mais, o respeito e o tom quase terno.
Ela então pensou no fato de que agora tinha uma desculpa para olhá-lo, estudá-lo e descobrir o que tudo aquilo significava, para o passado e para o futuro. Os olhos quase dourados marcaram como os do estranho mascarado, mas os Harata tinham olhos âmbar misteriosos, talvez isso fosse apenas uma característica incomum, mas não única.
Então, um pensamento surgiu: Harata nunca mente. E dada a luz que agora brilhava sobre sua presença, ele não teria motivo para mentir.
Valaravas trouxe Ariel de volta ao momento com sua voz charmosa, mas imponente.
— Os Anarquistas do Sul são dissidentes. Mas nem todos são meros piratas. Entre eles figuram Harata, como nós. Como eu. Estamos em toda a parte de Ealetra, e as Ilhas do Sul não são exceção.
Ariel e Erlan ouviram atentamente enquanto ele continuava.
— Os capitães pirata são como um governo nas Ilhas do Sul. Entre eles um Carpata, dois Harata e um Silvani. O Conselho, como eles gostam de se chamar. Grande decisão para um grupo que 'odeia' o Consórcio, nossa 'opressão'. — Valaravas riu-se tomando um gole de sua bebida.
— Eles imperavam em Suyantara e em Magenta. — O Harata adicionou.
— Até que vocês a tomaram. — Erlan retrucou.
— Exatamente. — Valaravas disse apontando para Erlan com reconhecimento de valor.
A expressão de Erlan escureceu. Ele apontou a Ilha que se podia ver diretamente no Horizonte distante no Mar que se apresentava pela janela, ao sul.
— E é lá que estaremos indo então? — Perguntou.
— Os Anarquistas estão se arrastando em direção à Magenta. Vocês estarão na ponta de lança. A Armada patrulha o Mar Estreito até Magenta, mas não pode inspecionar todos os barcos. Estaremos esperando algum Anarquista que seja tolo o suficiente para desembarcar em Magenta.
— Trabalhamos para você agora então? — Erlan disse como um golpe de uma faca cega. — E os laceradores Urbani?
O leve sorriso de Valaravas não vacilou. Havia um traço de divertimento ali, indulgente, como se entretivesse as queixas de uma criança.
— Se você preferir não passar um tempo em uma Ilha maravilhosa, com pessoas bonitas, charmosas e acolhedoras a serviço de uma das organizações mais poderosas de Ealetra — Valaravas tomou um gole lento de sua bebida — é seu direito recusar. Eu pense que já tinham decidido, mas ...
Ariel levantou a mão em um sinal misto, seja para Erlan se acalmar, ou para Valaravas notá-la.
— O que meu irmão realmente estava interessado era em saber sobre os Laceradores. Eles tem a ver com nosso trabalho? Ou trabalhamos para você? — Ariel tentou ser diplomática.
— Os laceradores Urbani não são sua preocupação. Eles não lhes farão nada. O Consórcio lhes garante. Entendo sua preocupação como Silvani. Não faz mal.
Então, Ariel fez uma pausa. E quando falou novamente, seus grandes olhos se fixaram em Valaravas como se fossem miras de rifle.
— Já nos conhecemos?
A expressão de Valaravas permaneceu agradável, mas algo mudou. Um cuidado em sua postura. Uma precisão em seus movimentos.
— Vocês, Silvani, tem uma aspereza intrigante. Eu mesmo acho fascinante. Curtos, direto ao ponto. Eficientes. Nos falta, os Harata, esse foco.
Ele gesticulou em direção ao cais.
— Selecionem equipamento tático para dois dias. Roupas e equipamento. Provisões não são necessárias. Há um barco esperando. Tenho alguns negócios a tratar, mas me juntarei a vocês depois. Ponto pessoal sincronizado. Estaremos em contato.
Ariel continuou olhando para ele, esperando a resposta para sua outra pergunta, sem saber se ele responderia ou desviaria, mas dizem que os Harata nunca mentem. Ela o estudou até notar que ele a olhava diretamente.
Valaravas sorriu, seu sorriso caloroso que eles já esperavam.
— Sim, nos conhecemos já. Eu estava com vocês quando resgataram o garoto. Julgamos necessário o reforço observando a movimentação deles. Não queríamos que corressem riscos desnecessários.
Ariel ficou abalada. Ela entretivera muitos pensamentos sobre o estranho misterioso, e agora estava cara a cara com ele, e ele era tudo o que ela esperava que fosse, e vendo seu rosto, seu corpo e sua postura, ele era ainda mais do que ela esperava. Mais pensamentos do que os que ela esperava fluíram por sua mente, como memórias que ela nunca teve de algo que ansiava.
— Eu intervir pessoalmente era a única maneira de garantir o sucesso da missão. — Valaravas adicionou mantendo o olhar de Ariel.
Erlan exalou bruscamente, os olhos nublados. Ele notou como sua irmã olhava para o Harata. Quase não conseguiu o esforço para formar as palavras claras.
— A única maneira, ou a maneira como você queria que fosse? — Erlan novamente ácido e direto.
Valaravas não hesitou.
— 'Harata não se esconde. Harata sempre sabe onde. Se é a única maneira, é a maneira que quero que seja. — Valaravas disse com o olhar mais direto para Erlan. — A mão do destino as vezes precisa de uma forcinha.