Os tremores sutis das mudanças do dia ondulavam suavemente pela casa segura e seus ocupantes. Nushala, agora confrontada com a dura realidade de não ser mais uma princesa, adaptava-se cuidadosamente à delicada incerteza de sua nova posição, embora sua brincadeira com Tarja sugerisse uma tranquilidade que talvez ela não sentisse genuinamente.
Do lado de fora, no jardim, Ariel postava-se afastada dos outros, seus olhos traçando as luzes distantes da cidade, observando-as piscar como pequenas estrelas presas em uma teia de intriga distante. Ela esperava em silêncio, sabendo que Valaravas em breve deixaria claro o próximo movimento no intrincado jogo que os unia a todos.
Nandi se aproximou por trás de Ariel, os passos quase silenciosos, sua presença um calor sutil que se acomodou tranquilamente ao lado da Silvani. Por um momento, ambas as mulheres permaneceram em silêncio, seus pensamentos se alinhando em uma apreensão compartilhada.
Nandi foi a primeira a quebrar o silêncio, sua voz baixa, carregando o peso de verdades mais antigas que qualquer um deles.
— Orgulho, serenidade. Muito bem.
— Alguém precisa ser. Agora esse alguém sou eu, ao que parece. Ela compartilhará o destino do pai se não trouxermos ela para nós. — Ariel disse com certo pesar.
Apesar de tudo, ela via muito de si mesma em Nushala, e de certa forma queria poupar a garota de uma vida como a dela seria sem eles, sem Valaravas.
Ariel fez uma pausa, respirando lenta e medidamente antes de continuar.
— Rentaniel deve estar desesperado. Humilhado, amargurado. Eu conheço essa raiva. É maior que Urbani, Silvani, até Onatra. Questão de tempo até que ele provoque o Val. E se tiver que fazer uma escolha, eu sei que Val o matará. Se ele tiver que escolher, um de nós, até mesmo ela, os amores Harata, estaremos sempre primeiro. Ele o matará.
Nandi permaneceu em silêncio por mais um instante, seu olhar se aprofundando, penetrando Ariel como se visse além da mera carne e osso.
Nandi apontou para os Guardas Reais que casualmente passavam pelas ruas fora da casa.
Ele não viria aqui. Ele sabe que a Mãe nos protege, que ela não quer que ele venha.
Ariel sentiu o arrepio que veio com aquelas palavras, a clareza do entendimento se instalando em seus ossos. Sua expressão escureceu ligeiramente, a constatação pesando em seu coração. Quando falou em seguida, sua voz era suave, mas carregava aço sob sua superfície.
— E eles estão errados. Seria melhor que o deixassem vir. Seria melhor que ele tivesse uma última chance de ser convencido, pelo Val, por nós. Pela filha. — Ariel falou com a experiência da vida no exílio. — Isso o fará se afastar, longe o suficiente não para ser morto, mas, pior. Matarão sua alma, muito tempo antes de seu corpo.
O entendimento passou silenciosamente entre elas, pesado, compartilhado. Sem palavras, elas se viraram uma para a outra, abraçando-se firmemente, permitindo que a gravidade de sua constatação mútua as ancorasse contra a maré de incertezas que se acumulava em torno de seu pequeno e frágil santuário.
Juntas, elas permaneceram, suportando o peso da consciência de que a teia acabara de se tornar mais emaranhada, mais perigosa, e agora, incluía mais um inimigo.
Em acordo tácito, elas partiram do jardim, passando pelos portões em direção ao mercado movimentado que ladeava a mesma rua da casa. Cada uma se preparando silenciosamente para o que o futuro inevitavelmente reservava.
No jardim, Nushala ria com Tarja, sua camaradagem mascarando preocupações mais profundas que nenhuma desejava reconhecer abertamente. A política tinha pouco apelo para ambas, e nesses momentos, as duas escolheram ignorar suas correntes sombrias, saboreando em vez disso a frágil ilusão de liberdade dos papéis impostos a elas por nascimento ou dever.
Erlan postava-se à distância, observando em silêncio, seus pensamentos à deriva, considerando quão rapidamente a vida havia mudado sob seus pés. Antes, ele fora consumido pela simplicidade da tradição, mas agora, olhando para Tarja e Nushala, a Carpata e a Urbani que compartilhavam seu pão e abrigo, ele sentiu uma mudança silenciosa dentro de si, um novo entendimento criando raízes. E uma nova responsabilidade de vida. Uma casa cheia.
Seu devaneio foi interrompido ao notar Ariel e Nandi deixando os terrenos da casa segura. Uma preocupação breve e familiar o atingiu, era uma necessidade silenciosa de cuidar de sua irmã. Antes que pudesse decidir, o olhar de Tarja encontrou o seu, a diversão clara enquanto ela lhe mostrava a língua de brincadeira. Seu gesto provocador o tirou de suas preocupações, puxando-o de volta para o momento.
Balançando a cabeça com leve divertimento, ele decidiu que Ariel poderia se cuidar, como sempre, e voltou sua atenção para as duas mulheres, juntando-se a elas em suas risadas despreocupadas, permitindo-se, por um breve momento, a ilusão de que tudo estava, se não seguro, pelo menos tranquilo.
Valaravas estava ausente disso, concentrado em sua conversa nos terminais do escritório. Os relatórios para a Lâmina seguiam. Notícias sobre tudo, relatórios sobre a posição de Nushala, sobre Rentaniel.
— Eu já disse que não. Rentaniel tem sua utilidade. Sasha tem sua utilidade. Não vamos ter uma oportunidade melhor. Fala com a Melica, ela pode colocar tudo em movimento com aquele pai Onatra dela. — Valaravas dizia aos conselheiros.
As instruções recebidas pelo fone, evitar que alguém ouvisse.
— Ele não tem escolha. A Fáscia está fechada para ele, Svetlana sabe que ele não pode fazer o que Sasha pensa que ele pode. Ela sabe. Ela fez de propósito. Ela é do Leste, lembra? — Valaravas respondeu ao fone com urgência.
— Deixe apenas alguns agentes aqui, só por acaso. Ele não virá, mas podemos ter problemas. — Valaravas disse, enquanto anotava outras instruções. — Eu preciso do Rafiq. Eu não quero saber de onde vão ter que tirar, ele tem que lidar com isso, e ele tem autonomia. Minha autoridade.
— Claro. No aguardo. Terminamos aqui.
Valaravas desligou. Ele estava genuinamente preocupado. Eles estavam seguros na Fáscia de algum ataque aberto, ou de Rentaniel querer mostrar poder. Mas não estariam isentos de uma operação tática, ou de algum tipo de golpe de engenharia social.
Depois de alguns minutos pensando, ele se levantou e foi até a garagem. Tomou algumas armas e equipamentos táticos dos armários, e voltou para preparar a casa. Não para uma guerra, mas para último recurso.