A espera deles não foi longa, mas a novidade daquilo era opressiva nos Silvani. Ao descerem para a sala de embarque privativa dos Fundos Luar, a evidente importância do patrocínio era impressionante.
Eles tinham ali melhores acomodações do que jamais estiveram. Era uma sala VIP como qualquer outra, mas para os Silvani, e mesmo para Tarja, era algo fora de seus universos imediatos.
Valaravas e Nandi seguiam como se fosse algo corrente e natural. Os Silvani começavam a acreditar que eles dois se comportavam daquela maneira por serem assim e não por estarem habituados à tudo que experimentavam.
Salas espelhadas com telas imitando paisagens davam a impressão de estarem frente a um campo com sons de aves e movimentos naturais nas janelas, e não dentro de um buraco na rocha.
Tarja decidiu que o que quer estivesse ali, o importante era a comida. Ela já conhecia o trajeto com uma certa dose de experiência, só estava com mais luxos.
Os Silvani porém nunca 'enfrentaram' o Verme, e a porta maciça de metal intimidava. Era como se fossem ser trancados em uma prisão de segurança máxima.
Valaravas curtia seu vinho com Nandi ao seu lado, conversando nos tons baixos que sempre conversavam.
Os Silvani ainda estavam absorvendo o ambiente.
As anfitriãs Harata estavam ali apenas esperando qualquer eventualidade. Sabiam não precisar 'entreter' convidados já acompanhados de outro Harata, até que este as instruísse de alguma forma.
Algum tempo passou antes que as portas de metal abrissem com o barulho de pressão característico.
Nandi e Valaravas já iam se preparando para entrar, seguidos por Tarja, e logo atrás os Silvani ainda meio indecisos de como proceder.
Ali era um espaço destinado aos Harata convidados, portanto a Armada não fazia sua presença como nos outros setores.
Eles entraram, os Silvani mais longe de seu ambiente do que jamais estiveram.
— É isso o 'Verme' ? É um trem simples. — Erlan disse com desdém.
— Não garotão, isso é o elevador que vamos descer para o Verme. — Tarja disse com divertimento.
Era como mesmo com um trem, mas que viaja verticalmente. Bancos, janelas, barras de segurança e apoio, mas ao invés de ir para frente, vai para baixo.
Ao descerem a macies admirava os Silvani.
Ao abrir a porta depois de atingir o nível do Verme, o corredor era floreado e enfeitado com plantas e perfumando com incenso Harata. O cheio amadeirado e a umidade artificial davam tranquilidade, mas a dimensão do trem era tudo menos tranquilizante para os Silvani.
— Esse vagão é maior que o da Eletrochinia. Esses Harata. — Tarja riu-se.
O vagão com suas portas abertas mostrava por dentro um espaço elevado, como se algo fosse montado em um chão falso dentro do espaço.
Subindo as pequenas escadas eles encontraram os ambientes divididos em seis cabines privativas, e um espaço comum com comida, acessórios, e até mesmo uma tela onde uma imagem relaxante de pontos turísticos da Fáscia eram mostrados.
Apesar de todo o luxo Harata dentro do vagão, a pintura negra pelo lado de fora, com o brasão do Dragão Vermelho e os dizeres "Não seguimos, Lideramos" denunciava a origem Erítria do Verme.
Ao entrarem, cada um foi escolhendo uma das cabines privativas para tomar por aquela viagem, mas rapidamente os Silvani foram atraídos pelo espaço central onde todo o tipo de coisas que nunca haviam visto nem mesmo lá em Magenta estavam em mostra.
Rapidamente entenderam que ali eles não estavam reproduzindo a comida, os costumes e os motivos de Erítria, Trifronteira, ou mesmo os Urbani que conheciam. Aquilo era um ambiente imitando a identidade única cultural da Fáscia de Seldanar. A comida era mista da cultura Urbani e Harata. Tudo estava escrito no dialeto Silvani dos Urbani e em Harata. Era inconfundível os caracteres abaulados e artísticos do Harata natural, assim como as linhas duras das letras Silvani.
As portas se fecharam com um suave som de fluxo de ar e motores elétricos.
O silêncio tornou-se absoluto. Era possível conversar em sussurros dentro do vagão. Os Silvani estavam admirados. Não era só a guerra, mas uma qualidade de vida que Tirayon nunca havia visto, pelo que sabiam.
O sistema de som tocou um tom que deveria ser algum tipo de curto de uma música Harata. Tinha a melodia inerente ao idioma e à cultura.
O anúncio veio na linguagem Urbani e depois em Harata.
— Estimados convidados. Estamos finalizando os preparativos para partir para o Vostochnaya Khara. Eu sou Akala, e é meu prazer comandar a equipe que lhes servirá durante seu tempo conosco no Leviatã Transaveriano. Serão 12 horas de viagem em que estaremos a disposição para qualquer dúvida ou qualquer apoio que precisem. Por favor, tomem seus assentos em suas cabines com seus cintos travados. Assim que estivermos em cruzeiro, as travas das portas serão abertas, e o ambiente central estará disponível com alguns itens de conforto e restauração oferecidos por nós como cortesia aos nossos mais estimados convidados. Obrigada.
A voz era com certeza humana, de uma Harata dizendo em ambas as línguas.
Uma das anfitriãs Harata entrou na cabine, certificando-se com Valaravas antes de chamar outras duas para auxiliar os passageiros ali a firmarem-se em suas cabines.
— Porque temos que estar dentro da cabine travados? Isso é seguro? — Ariel perguntou a moça Harata que a assistia.
— É seguro sim Mestre Ariel. Mas se qualquer eventualidade aconteça, enquanto o trem é feito para absorver impactos e dano, suas cabines são feitas para resistir até uma explosão de Rij Ynis. Tudo é feito para garantir a sua segurança. Todos os nossos convidados são da mais alta importância para nós.
E mais uma vez a voz, o olhar, e o Silvani impecável da anfitriã deixaram Ariel tão segura ela se questionava sobre a audácia de questionar a segurança do trem.
Após tudo checado e todos em seus lugares, as portas das cabines fecharam-se com o barulho inconfundível de travas de metal denso.
A tela dentro de cada sala avisava dos processos de partida. Um som e ambientação relaxante ativaram dentro das cabines. Para os outros era apenas mais luxo sobre algo que com certeza já havia feito, mas para Erlan e Ariel era um outro mundo.
Uma leve sensação de movimento que Valaravas e Nandi nem se importariam, e que Tarja já estava se acostumando, consumia Ariel e Erlan conjecturando se estaria tudo certo.
Alguns minutos que pareceram uma eternidade para os Silvani até que o sistema de som os deixou respirar novamente.
— Estimados amigos, já estamos em cruzeiro. Destravaremos suas portas e podem aproveitar a viagem. Antes da chegada avisaremos o procedimento de chegada. Novamente, eu sou Akala, e é meu prazer comandar a equipe que lhes servirá durante seu tempo conosco no Leviatã Transaveriano. Serão 12 horas de viagem em que estaremos a disposição para qualquer dúvida ou qualquer apoio que precisem. Tenham uma prazerosa viagem.
As anfitriãs movimentavam-se abastecendo as comodidades do trem, vasculhando qualquer item fora do lugar, qualquer item necessitando recolher, qualquer necessidade que os convidados, o time, tivessem.
— Valaravas, como a 'garota do trem' sabe quem eu sou? — Ariel já veio com a questão mal avistou Valaravas.
— Todas as nossas informações tem que ser submetidas para viajar no Verme. Melhor que usem para personalizar o serviço também, não acha? — Valaravas riu.
— 12 horas? — Erlan aproveitou o ensejo.
— É. — Valaravas respondeu. — É o que disseram.
— É garotão. Engenharia Carpata. O Verme, ou Leviatã Transaveriano, atravessa as montanhas de Avéria a uma velocidade média de 500km/h e um pico de 650km/h. Ele viaja em um tubo de malha asfáltica de Carbóleo pressurizada, eliminando ao máximo resistência do ar, e utilizando motores supercríticos de vapor e elétricos supridos por reatores atômicos modulares. — Tarja disse com uma voz entediada como se fosse óbvio para o mundo todo, menos para eles.
— E você sabe tudo isso de cabeça? Todo Carpata é engenheiro agora? — Erlan retrucou com tom cético.
— Muito bem, Mestre Tarja, é exatamente correto. — Uma das anfitriãs Harata disse ao passar.
— É Erlan, essa é pra casar. — Valaravas riu-se.
Ariel quase engasgou com a risada. Então ela se recompôs, e apontou para atrás de Erlan onde o que Tarja acabara de dizer estava escrito em um painel.
— Você tinha que ver sua cara agora, garotão. — Tarja bateu no ombro de Erlan.
Se o objetivo era fazer os Silvani esquecerem que estavam em terreno inimigo, centenas de metros abaixo do chão em um tubo de metal indo mais rápido que já foram em toda a vida à qualquer lugar, tinham conseguido.
Eles seguiram com conversas amenas, talvez procurando não criar mais tensão do que a viagem já era para os Silvani. Entretenimento, comida, espaço para descanso, era o que precisavam pelo momento.
Algumas perguntas as anfitriãs Harata estavam mais que preparadas para responder.
Ao chegarem próximos, já mais habituados, os Silvani já foram ocupar seus lugares. A rotina como sempre, todos em suas cabines, travados, o Verme fazia sua chegada, e uma meia hora hora depois estavam saindo, com seu senso de propriedade adiantado pela condição de VIPs dos Fundos Luar.
Como chegavam pelo Verme e não pelo Dragão Vermelho, teriam que subir por fora do Khara e entrar pelos portais externos. Apenas acesso de entrada ao Verme era facultado diretamente de dentro do Khara. Segurança Erítria.
Os portais eram placas de pedra e aço impossíveis em tamanho. Operados por correntes, cujo peso puro delas exigia quatro soldados para operar, cada elo mais grosso que o torso de um homem. O metal gemia sob a tensão, o som mais parecido com o deslocamento de montanhas do que com o movimento de algo feito por mãos mortais. E quando os portões se abriram, o brasão da Armada captou a luz do sol poente, lançando uma marca de fogo reluzente sobre o comboio que se aproximava.
O time ainda longe dos portais podia entender a dimensão dos portais pois um Rodotrem estrava chegando ali no exato momento.
Esses caminhões de quatro ou cinco carrocerias eram comuns em Erítria. Carregados de minerais, combustíveis, e outros produtos vindos das operações extrativas das montanhas.
O carro também oferecido pelo Barão Harata da Fáscia os levou até a entrada, que mais uma vez teria que ser feita a pé.
Além dos portões, havia uma cidade onde cada alma era um soldado.
Até os artesãos carregavam a presença endurecida de guerreiros. Não havia comércio ocioso, nenhum movimento desperdiçado. As ruas se moviam com intenção, cada passo parte de algo maior. Centenas de falanges se moviam em sincronia perfeita, suas armaduras brilhando enquanto se deslocavam pela fortaleza em colunas organizadas, como uma máquina viva.
Nenhum círculo ritual, nenhum monumento, nenhuma estrutura que Erlan já conhecera poderia se comparar à torre central. Ela não alcançava os céus como as espirais nas antigas terras de Tirayon, ela penetrava as alturas com pedra negra.
Poderia jogar uma pedra da sala mais alta da torre, e ela provavelmente cairia em solo como uma bala de canhão, dada a impossível altura.
Erlan não falou. Não conseguia. Estava observando a verdade do mundo se desenrolar diante dele, inegável, imóvel, inescapável.
Tarja ainda estava presa na emoção da descoberta, sua mente correndo com perguntas. Como as muralhas foram feitas, como as máquinas de guerra funcionavam, como um único lugar podia conter a força de mil exércitos e permanecer intocado pela passagem do tempo.
Ariel, no entanto, estava em silêncio.
Para ela, isso não era novo. Há muito ela entendia o que Erlan só agora começara a compreender. Ela sempre soube que os Silvani haviam começado uma guerra que nunca poderiam vencer. Ela já havia feito as pazes com a constatação de que, se o Consórcio pôde esmagar suas defesas maciças, e estabelecer a Trifronteira em uma fatia de Tirayon do tamanho de toda a Cidade da Serenidade, isso significava que o Consórcio os havia superado há muito tempo.
Para ela, o Khara não era nem mesmo uma medida de defesa, era uma declaração não apenas para eles, mas para todos os outros: Nós somos inexoráveis.
As armas da Khara não ostentavam adornos, nenhuma ornamentação de artesanato do velho mundo. Foram construídas com propósito, não com arte. Cada rifle, cada lâmina, cada bala, uma simples bandoleira ou coldre. Eles eram feitos para serem respeitados, não para adaptar-se ao uso de um específico operativo.
O aço com que trabalhavam, aço Urbani, não era usado em sua forma bruta, mas reforjado, retemperado. Uma liga de tom azulado, refinada através de forjas aprimoradas com uso de indução ativa e moldada pela maestria metalúrgica ancestral dos Carpata. Como o Bronze azul Urbani, era feito para eficiência, e sua cor inspirava admiração e medo pelo conhecimento.
Através desse processo, aço outrora reluzente escurecia, ganhando uma densidade que era ao mesmo tempo resiliente e leve, em camadas finas, permanecia maleável, adaptável a designs intrincados e artesanato fino, mas quando em camadas densas e agrupado em massa, tornava-se cada vez mais inflexível, uma base imóvel contra a força.
Isso era mais do que metal. Era uma personificação física da própria Falange, individualmente flexível, mas juntos, indestrutíveis.
Foi uma constatação silenciosa que se abateu sobre Erlan enquanto ele traçava os dedos sobre o aço de um karambite, a curva da lâmina antinatural mesmo para mãos expertas, e mortal em sua simplicidade. Ele o levantou, sentindo seu equilíbrio, seu peso, sua diferença. Silvani, forjava armas que honravam o portador, lâminas que se harmonizavam com o movimento, que se tornavam uma extensão do eu. Onatra, essa lâmina não era feita para facilitar o uso, era feita pra ser eficiente pela letalidade. Não se importava com graça, com elegância. Importava-se apenas com a morte.
Ao lado dele, Ariel procurava por rifles. Os Onatra não usavam atiradores de elite, preferiam os esquadrões de demolição Maz Ynis, que lançavam garrafas incendiárias, ou os canhões de mão aprimorados com máquina. Eram destrutivos demais para trabalho estratégico. Mesmo os rifles como ela comprava no seu tempo de trabalho mercenário, agora pareciam grosseiros em comparação ao Rifle que Valaravas lhe deu.
Valaravas percebeu a frustração de Ariel e apontou para as armas Urbani que eram feitas primariamente para Venda. Os Rifles aprimorados com machina, nos quais múltiplos módulos eram compostos. O Rifle era um quebra-cabeça que praticamente convidava mentes astutas a montar sua própria arma. Ela testou o protótipo montado, era leve, parecia não ser nem de verdade. Era de liga azul dos vários metais ali forjados com apliques de polímero, e a mira, ao invés de eletrônica assistida, era puramente ótica com apenas algumas informações refletidas nas próprias lentes. Era uma arma feita para tanto letalidade e precisão quanto agilidade do portador. Ela simplesmente puxar pelas áreas indicadas e o rifle se dobrava para transporte em instantes. Perfeito para trabalho tático em campo hostil.
As barras de projeteis eram um mostrador à parte. Desde os calibres normais, .300 até .500, havia projeteis anti blindado, Rij, Maz e curiosamente um rotulado Ljud Ynis, mas ele não brilhava. Ariel lembrou-se dos documentos que havia lido em Magenta, Ljud Ynis reage violentamente com Sulfetos, e é corrosivo e tóxico.
Tarja, enquanto isso, não hesitou em sua escolha. Ela encontrou exatamente o que sempre quis: Bastões de trovão.
Uma arma Baluarte perfeita. Um escopeta nem um pouco tática, nem um pouco precisa, mas extremamente potente com um coice que apenas um baluarte poderia segurar. Sua construção é feita de denso e pesado metal forjado com massa asfáltica de resíduo de carbóleo. Sem cargas, ela ainda serve como uma arma contundente capaz de literalmente 'rachar cabeça'.
Nandi, que estava apenas acompanhando Valaravas, encontrou uma coisa que não procurava. Sua função era suporte e elaboração, ela não tinha uma arma que um Onatra pensaria em manter por perto. Mas por outro lado, algo que nem mesmo pensava foi o que encontrou: A amarra do sol invicto.
Ela ergueu a corrente dourada e seu medalhão, inscrito com as palavras em Onatri: 'Todos estamos sob o Sol Invicto.'
Era pequeno. Despretensioso. E, no entanto, ela sabia. Este não era um simples símbolo. Os Onatra o carregavam sob suas armaduras, não como um detalhe, mas como algo fundamental para seu ser. Não era uma decoração, nem um adorno religioso arbitrário. Isso era algo tradicional que remontava à épocas antes dos Onatra serem Onatra.
Seus dedos se apertaram em torno do pingente. A maneira como se conectava às pulseiras, a forma como a fina corrente de ouro as unia, não era apenas uma marca de unidade. Era um vínculo, um símbolo de algo muito mais cultural do povo das montanhas que o próprio Khara.
Havia uma conexão mística tecida no próprio metal, inegável para aqueles que ainda podiam ver. Mas os Onatra não pareciam saber. Nandi fechou os dedos em torno dele, reivindicando o que agora seria seu, que tivessem esquecido seu significado, ela não.
Ao anoitecer, a equipe havia reunido suas provisões e garantido seus alojamentos dentro do complexo habitacional da Khara, uma estrutura que, embora acomodasse, ainda carregava a inconfundível austeridade do design militar. A diferença era que ao contrario do Zhefaq, ela ampla e espaçosa, como se o tamanho fosse uma constante prova do poder da Armada.
Amanhã, eles partiriam para o Vale do Silício, onde o Templo os aguardava.
Um santuário antigo, predatando a descida das águas. Era dedicado a um passado que os Onatra modernos haviam praticamente descartado, um lugar que chamavam de Criador de Reis, uma noção de superstição e meias-verdades.
Mas Valaravas sabia mais. Ele sabia o tipo de verdades que o tempo podia enterrar, e enquanto se preparavam para a jornada à frente, havia um pensamento que assombrava a todos: O que acontece quando uma civilização se constrói sobre o medo de se perder?