No escuro, toda moral é cinza

Na costa nordeste da Fáscia, onde o vento subia afiado do mar e a névoa se estendia por muito tempo sobre as colinas de vinhedos, a antiga propriedade da Família Heleyan perdurava, não como uma sede nobre, mas como uma casca de riqueza reabitada pelo silêncio.
O nome em livros pertencia a um mercador de posses consideráveis, mas era sabido, para aqueles que traficavam em discrição, que o mercador era apenas um véu. A verdadeira mão por trás da propriedade pertencia ao Grupo Somnikan, um esquivo sindicato de Jangunaray, cujas operações estrangeiras se estendiam profundamente nas soberanias distantes.
A propriedade permanecia silenciosa da maneira que apenas lugares tocados por dinheiro antigo, e segredos mais antigos, conseguem. Nenhum pássaro cantava perto dos beirais. Nenhum eco vivia nos salões. Em sua sala de estar com paredes aveludadas, suavemente silenciosa, sem espelhos por design, um único conjunto de chá permanecia intocado sobre a mesa entre Aran e Syndra.
Syndra não estava calorosa naquela noite. Seu tom carecia de sua cor habitual. Seu sorriso, aquele lampejo de luz Urbani, estava ofuscado pelo peso do pensamento.
— Sou mais esperta que querer saber motivos, mas alguma coisa tem pra compartilhar, Aran? Era esperado? Não podia mandar notícias? — Syndra indagava com uma preocupação pessoal.
— Você sabe que não podemos usar mensageiros controlados pelos Harata. — já respondeu Aran gentilmente, logo abaixo do sorriso sincero. — A Fáscia é muito vigiada. Todo sussurro tem um ouvinte. Eu só tinha meu próprio pessoal, e eles não estão perto.
— É difícil se agarrar à esperança em silêncio — disse ela, a voz mais suave agora.
— Nossa situação é delicada, minha querida. Mas não é impossível.
— Precisamos de uma maneira de nos comunicar, sempre. Saber.
— Existe uma maneira. — disse ele, sorrindo fracamente. — Uma maneira que sempre saberemos onde e como estamos, além do escrutínio de qualquer um. Você já pensou nisso?
— Se eu fosse imprudente o suficiente para oferecê-lo. — Syndra falou por baixo de um suspiro.
— Eu seria imprudente o suficiente para aceitá-lo. — Aran respondeu em sequência.
— Você entende as implicações, não é verdade?
— Eu sou um dos melhores guardadores de segredos que o meu povo conhece. — Aran disse com um sorriso soberbo.
— Mas expor o nosso relacionamento para a política que ambos estamos infectados é convidar o perigo. Estaria preparado para isso meu querido?
— Nos seria uma prova a mais do que o nosso sentimento pode suportar, ou não. Se isso nos separasse, era porque não era pra ser.
Syndra refletiu um pouco. Ela estava visivelmente preocupada.
— Mas é uma decisão que não tem volta. Não tem volta, pela vida!
— Uma vida que só você dá sentido, Syndra de Miralamar, minha vida!
Syndra e Aran se abraçaram, o calor isolado daquela pedra fria de que o castelo era feito, numa das muitas noites úmidas e geladas pelos ventos dos pontos mais altos da Fáscia.
— Meu povo há muito é desligado dessa herança cultural. Você precisará aprender a fazer o ritual e o que é necessário. — Aran disse já mudando para o seu lado pragmático.
— E o meu povo é ligado nessa herança cultural. Se eu procurar os materiais necessários, será óbvio o que pretendo fazer. Com quem, seria fácil de descobrir. — Syndra respondeu sem encarar Aran.
— Não se preocupe, minha vida. Eu irei procurar o que for necessário, através de nossos contatos fora do Consórcio, apenas preciso saber o que é.
— Está certo. Não nos preocupemos mais com esse assunto por agora. Vamos aproveitar nosso tempo escasso, então decidimos essa parte. — Syndra já decidida terminou o assunto.
Os dois seguiram tirando o máximo proveito da companhia um do outro, mas Syndra ainda estava com a preocupação no ar. O que Aran propunha era sim uma solução para seu problema, mas um custo muito grande.
Anoa são mestres com os custos, ele deveria saber o que estava fazendo. Mas Syndra, será que ela mesma entendia o que estava concordando?