No beco escuro

Andrei tinha o domínio de seu cruzador, e de sua tripulação, mas sua ronda não era só ir e vir pelo mar. Há muito ele deixara de confiar na paz nesta parte do mundo. Seu dever o compelia em direção ao posto avançado, onde relatórios precisavam ser entregues, mapas atualizados e o cuidadoso equilíbrio de poder mantido. A estrada era familiar sob suas botas, o ar fresco do crepúsculo se infiltrando após um dia de calor sufocante. Deveria ter sido uma caminhada simples. Não foi.
Ele não ouviu nada antes de Elmund vê-lo.
Um incômodo familiar, a sombra Urbani, esgueirando-se onde era menos desejado. Andrei nunca tinha certeza se Elmund o encontrava por acaso ou se o seguia o tempo todo. A agilidade do Urbani por vezes superava os seus olhos de Oficial da Armada e, ainda para um Onatra como ele, a idade começava a embotar as arestas mais afiadas de seus instintos.
— Você tem dificultado as coisas, velho. — Elmund murmurou, entrando em seu caminho. Sua voz era amarga, mais pesada que o usual.
Andrei não diminuiu o passo.
— Eu apenas tenho algo que você precisa: senso de integridade.
Elmund zombou, seu lábio se contorcendo.
— Onde está sua cocotinha Harata agora, velho? — Elmund abria os braços.
Andrei exalou lentamente. Duas figuras saíram das sombras, posicionando-se atrás de Elmund. Mais Urbani, infiltradores, movendo-se intencionalmente como ameaça. Cercando-o. Fechando suas saídas.
— Ela pode protegê-lo da Armada, mas não somos soldados, e você tem muito que explicar para o nosso povo, velho. — Elmund continuou com os olhos brilhando.
Andrei não precisou de mais esclarecimentos.
Eles haviam planejado isso. Uma escassez de patrulhas, uma janela de silêncio, um alvo isolado. Eles haviam feito os cálculos. Mas também cometeram um erro: subestimá-lo.
Ele não tinha ilusões sobre suas chances em uma luta prolongada. Urbani eram mais rápidos, mais precisos. Mas ele era mais forte, mais pesado, treinado para vencer lutas contra aqueles que se moviam como sombras. Ele aprendera há muito tempo que não se deve caçar fantasmas; você os arrasta para o chão antes que possam desaparecer.
Suas mãos já estavam se movendo antes que o pensamento se formasse completamente.
Ele avançou, agarrando um dos infiltradores pelo braço e puxando-o com força para a frente, usando seu próprio impulso para arremessá-lo contra o muro de pedra a alguns metros de distância. O Urbani mal teve tempo de reagir antes que o punho de Andrei o encontrasse, uma vez, depois outra, bem entre os olhos. O segundo impacto produziu um som nauseante, o corpo Urbani amolecendo em seu aperto.
Uma pontada aguda ardeu no flanco de Andrei. A dor pontiaguda amenizada pela proteção da veste sob seu uniforme.
Ele se virou a tempo de ver o segundo infiltrador recuando, uma adaga sendo retirada de suas costelas. A proteção absorvera a maior parte do golpe, mas a dor era real, avisando-o de que deixara um deles chegar perto demais.
Com um grunhido, ele empurrou o infiltrador para trás, com força, fazendo-o cair sobre Elmund. Ele deu dois passos rápidos para trás, reavaliando as chances. Havia derrubado um, mas os outros dois eram rápidos, rápidos demais.
Elmund se moveu primeiro. Um vulto de movimento, a lâmina mirando baixo. Andrei mal conseguiu se torcer a tempo, sentindo a faca raspar a parte inferior de suas costas, mas a proteção do uniforme absorveu o impacto.
Então o segundo infiltrador estava sobre ele, prendendo-o contra o mesmo muro onde seu primeiro oponente agora jazia inerte. Andrei rangeu os dentes, deslocando seu peso, preparando-se para se libertar.
— Precisamos dele vivo! — Elmund exclamou.
O infiltrador não teve tempo de reagir. A próxima coisa que passou pela cabeça de Elmund foi uma bala de um calibre que fosse, metade de seu crânio voando metros de distância.
Uma voz cortou o beco, poderosa, nítida, mas feminina, quase sedutora.
— Mas eu preciso de você morto, desgraçado. — Danila disse entrando ao lado de seu capitão.
O corpo de Elmund se contorcendo violentamente no lugar. Caindo como se estivesse ainda decidindo se morreria ou não.
Andrei mal teve tempo de registrar antes que a forma espasmódica de Elmund fosse atirada de lado como um saco de lixo. E ali, de pé onde ele estivera, estava a Tenente Danila.
Com sua armadura de serviço, fina folha de aço azul Urbani, ela estava claramente chegando com o objetivo claro, e definido. Ela veio matar Elmund, Andrei sabia. Só não sabia se ele foi usado como isca, ou seja ela o protegeria de qualquer Urbani.
O esguicho de sangue ainda fresco em suas manoplas dizia que este assassinato não era o primeiro da noite. Era satisfatório. Seu sorriso perverso brilhava na luz fraca, mechas de seu cabelo grudadas de sangue enquanto ela as afastava do rosto.
O segundo infiltrador desapareceu na escuridão. Andrei e Danila não baixaram suas posturas.
O ar mudou, uma tensão ainda densa no beco. O sobrevivente estava circulando, esperando. Um predador ferido, e mais perigoso por isso.
Andrei virou-se ligeiramente, suas costas agora em ângulo com as de Danila. Ela deu sua adaga ex oficio para Andrei, sacando um Katar metálico. Nenhum deles iria sair dali sem o oponente morto. Se o atacante quisesse atacar novamente, teria que enfrentar um deles diretamente.
O momento se estendeu. O infiltrador se moveu.
Ele avançou sobre Danila, procurando tirar sua arma. Quando ele torceu sua mão com a pistola, ela usou-a como gancho, torcendo o braço do oponente, mas ele conseguiu desarmá-la, mesmo que ela tenha chutado a arma longe para que ele não a pegasse.
Andrei tentou ajudá-la mas o oponente usou o corpo do velho para bloquear Danila.
Os dois se desvencilharam, mas o Urbani ainda estava ali, e tinha a vantagem de estar em seu elemento, onde agilidade contava mais que força.
Mas estratégia sempre conta mais que qualquer coisa.
Andrei era velho, sim, mas forte. Danila era jovem, e treinada.
Os dois se seguraram pelo braço esquerdo, e Andrei usou Danila como uma arma, jogando-a contra o atacante, que teve que distanciar-se.
Após o giro completo, Andrei partiu para o Urbani, e com a adaga atacou-o, rápido, mas não o suficiente.
O Urbani esquivou-se, vendo Danila ao longe, ele puxou Andrei pelo braço enquanto tentava cortá-lo com a faca na outra mão.
Andrei não resistiu, ao contrário, deixou-se atacar prendendo a mão com a faca entre sua veste, a lâmina que carregava, e a sorte de não deixar-se ferir.
Ele jogou seu peso, prendendo o oponente pelo braço, e puxando sua perna, para ficarem lado a lado.
Com precisão, Danila fez o disparo com a arma que recuperou. Metade da cabeça do Urbani foi parar no chão, perto de onde Elmund já tinha encontrado seu leito final.
A Tenente foi verificar se Andrei estava ferido. Certa de tudo ter resolvido, ela ainda deu mais um tiro em Elmund e seus comparsas. Era sempre bom ter certeza, ela diria.
Um sorriso perverso brincava em seu rosto enquanto ela admirava o trabalho.
Ela se virou para Andrei e algo mudou, sua expressão agora mais séria.
— Vai, Capitão. Você nunca esteve aqui. Diga oi à sua filha Harata por mim quando falar com ela. É melhor que fale, logo.
Andrei ficou parado por um longo momento, respirando pesadamente.
Danila usou a voz de comando dos Onatra.
— Vai, Capitão.
Ele nunca tinha sido afetado por aquela voz. Sua mente simplesmente obedeceu, e ele já se retirava mesmo processando o que estava fazendo.
Uma última olhada e ele a viu, usando uma faca apropriada para tornar os corpos irreconhecíveis, com uma habilidade de quem já havia feito isso muitas vezes antes.
Ainda quando partia um arrepio em sua nuca pelo barulho que ouvia. Desmembramento, batidas em ossos sendo quebrados.
As ruas da Trifronteira começavam a mostrar a tensão de tempos difíceis. A Armada estava ficando impaciente. As patrulhas haviam dobrado, a tensão no ar era densa o suficiente para ser saboreada, e a certeza da lei, o tipo que antes governava os postos avançados com fria eficiência, começava a se fragmentar. As pessoas se moviam com uma cautela desconfiada, seus olhares aguçados, seus passos medidos. Algo estava por vir. Todos podiam sentir.
Andrei estava seguro. Por enquanto. Mas enquanto caminhava pelas ruas, sua mente remoía o peso de suas opções.
Seu envolvimento com Rentaniel fora um ponto de virada. Até agora, seus pequenos desvios do dever haviam sido inconsequentes: um relatório não escrito aqui, um inventário ausente não verificado ali. Coisas pequenas. Coisas que podiam ser esquecidas.
Rentaniel não era pequeno.
Danila fora enviada para limpar a situação, enviada por alguém. Andrei não tinha dúvidas sobre isso agora. Ela trabalhava para uma força superior. A questão era quem. Ele apenas esperava que fosse Melica e os Harata, e não algo pior.
Ele considerou suas escolhas.
Poderia tentar assumir um posto seguro da Armada, em algum lugar mais profundo em sua rede, longe da Trifronteira, longe da influência Harata. Poderia terminar seus anos em uma obscuridade silenciosa, aposentar-se em Onachinia, viver seus últimos dias com nada mais do que arrependimentos distantes.
Mas não era assim que as coisas funcionavam aqui. Não com essas pessoas. Não com os Harata.
Ele aprendera algo em seus anos entre eles. Os Harata não governavam pela força, governavam fazendo as pessoas precisarem deles. O truque não era fugir. O truque era se tornar valioso o suficiente para ser protegido.
Uma ideia se formou. Andrei se arrumou, vestiu seu uniforme mais bem ajustado e marchou em direção ao Cântaro Dourado. Não havia espera. Ele colocaria as coisas em movimento.
Dentro do Cântaro Dourado, Melica se movia entre as mesas, sua presença uma coisa fluida e natural, parte do ritmo do próprio lugar. Ela estava sempre dois passos à frente da conversa, um sorriso à frente da expectativa.
Mas então, um bilhete chegou às suas mãos. Era de Zavandras.
Seus dedos agarraram o pequeno papel dobrado e, por um breve segundo, seu sorriso vacilou.
Ela olhou para Zavandras, que simplesmente gesticulou em direção à varanda externa. Através do espaço aberto, ela viu Andrei do lado de fora.
No momento em que o reconheceu, ela se esqueceu de todo o resto.
Sem pensar duas vezes, ela correu para ele, passando por clientes surpresos, deixando suas tarefas inacabadas para trás.
Ela se jogou nos braços dele, abraçando-o com força.
— Já fiquei sabendo. — ela murmurou, a voz cheia de alívio, os dedos pressionando suas costas. — Você está bem? Dá pra sentir as ataduras. O que aconteceu?
Andrei exalou, firme, sua voz comedida.
— Nada demais. A Tenente estava comigo.
Melica se afastou, seus olhos dourados perseguindo os dele.
— Você precisa se cuidar, pai. — Sua voz se suavizou, tornando-se frágil. — Eu não posso te perder.
Ele pousou uma mão firme no ombro dela, seu tom indecifrável.
— Querida, preciso te pedir uma coisa.
Ela engoliu em seco, sentindo a mudança em sua postura, a finalidade em suas palavras.
— Do que você precisa, pai?
— Preciso sair do campo, — Andrei admitiu. — Eles me pegaram. Você sabe o que foi feito em meu nome. Não tenho para onde correr, apenas você.
Ela piscou, o peso daquilo se assentando. Ela sabia. Sempre soubera.
— Eu sei o que aconteceu, — disse ela. ­— Eles te devem. Vou te proteger, pai. Sempre.
Ele assentiu uma vez, mas a tensão em seus ombros permaneceu.
— O que devo fazer? Com quem devo falar?
— Deixe comigo, — disse ela com firmeza. "Apenas tire alguns dias de folga. Fique seguro. Fique no posto. Um alojamento nele. Não se exponha nos próximos dias.
Ele hesitou por um breve segundo, depois a puxou para um abraço mais apertado, pressionando um beijo em sua testa antes de se afastar. Sem outra palavra, ele marchou de volta em direção ao posto da Armada.
Melica voltou para o bar, sua mente correndo à sua frente. Ela precisava pensar. Mal notou quando Zavandras se encostou no balcão ao seu lado. Sua expressão era calma, mas seus olhos, preocupados.
— Ele quer sair? — Zavandras murmurou, a voz baixa. — Não há saída. Não para ele. Você sabe.
Melica exalou lentamente, os dedos se apertando na beirada do bar.
— Eles tem uma dívida com ele, comigo. Ele fez o que pediram. Eu garanti que ele fizesse. Não é justo, nem para mim nem para ele. Se eu precisar falar com o Val, eu vou. Eles vão ter que colocar ele em segurança. Agora!
Zavandras a estudou cuidadosamente.
— Certo, calma. Não precisamos envolver o Valaravas nisso. Podemos oferecer a ele um bom acordo. Mas não podemos simplesmente deixá-lo sair.
Ela se virou para ele, seu olhar dourado e aguçado.
— Que tipo de acordo? — Melica pressionou Zavandras, seus olhos firmes.
Zavandras permitiu-se um sorriso lento e medido.
— Melica, eu era agente da Lâmina você nem tinha nascido ainda. Você acha que seus olhinhos funcionam comigo garotinha? Deixe comigo. Vou garantir que ele fique seguro o dia todo, o suficiente para que se torne intocável. Mas ele vai entrar no jogo, mesmo. Sem subterfúgio. Ele vai pra dentro, fundo.
Melica exalou, sua expressão indecifrável por um momento. Então, um sorriso lento, seu charme felino habitual retornando, embora o peso em seus olhos permanecesse.
— E o que quer que seja, Danila vai com ele, segura com ele. — Melica apertou as mãos dele com firmeza. — Obrigada, Zava. Você é o melhor.
Zavandras apenas murmurou um reconhecimento, inclinando seu copo em direção a ela em um brinde silencioso antes de tomar um gole.