Nenhum rei é pra sempre

Obravar estava em sua posição como gerente, atrás do bar, quando um visitante incomum apareceu. Sua entrada silenciou e perturbou a maioria dos clientes presentes. Um Urbani, seu traje ostentando a majestade de um tecido azul como nenhum outro, que se ergue como um símbolo de nobreza e ousadia.
Cortada em uma silhueta régia, a vestimenta possuía adornos dourados que se enrolavam ao longo de suas bordas como filigranas tecidas de poder ancestral. Mangas largas caíam com a graça sem esforço, própria de vestimentas intocadas pelo trabalho, suas dobras sussurrando de insígnias usadas em salões muito distantes da penumbra daquela cidade. Sob a luz fraca, o azul profundo brilhava como o céu do crepúsculo antes de uma tempestade, um presságio de domínio e desafio. Quem quer que usasse tal traje não era meramente uma figura dentro da história, mas alguém ligado a poderes que escreviam-na.
Obravar inclinou a cabeça com a devida reverência.
— Que Vossa Graça bendiga essa humilde casa de comércio. — Obravar disse com um tom artificial, mas respeitoso.
Rentaniel o encarou com uma precisão fria, seu acenar de cabeça quase imperceptível, um gesto de reconhecimento, nada mais.
— Servidor, — ele entonou, sua voz como cinza e braza. — Dizem que meu magistrado caminha por essa terra de ócio e perdição.
— Pior ainda, sou levado a pensar que um investigador foi perdido quando sua última tarefa era um visita a essa precisa 'casa de comércio'. — Rentaniel prosseguiu com um tom médio.
— Vosso magistrado — Obravar ecoou o título, intencionalmente. — Ele não está presente no momento, mas se for de vossa vontade e benevolência, posso enviar um dos rapazes para convocar seu conselho.
— Isso não será necessário, Servidor. — Rentaniel disse em tom mais relaxado. — Há rumores que ele congrega com bárbaros, e que os protege. Que verdade há nisso?
— O magistrado vê utilidade neles, vossa graça. — Obravar seguia em seu tom ensaiado mas cauteloso. — Não é meu lugar questionar vosso magistrado.
— Tem razão, Servidor. Não é seu lugar questionar.
Outro momento se passou, o silêncio pairando como uma lâmina invisível.
— Pois bem. Servidor, informe-o de minha passagem. Lembre-o que seus atos refletem como legado de minha irmã, e de minha mãe. A Casa de Seldanar observa.
Rentaniel examinou todo o lugar, e Obravar. Uma pequena pausa.
— E que você também se lembre disso, Servidor.
Sem outra palavra, Rentaniel virou-se, partindo com passos medidos.
Sua escolta permaneceu do lado de fora na forma de figuras silenciosas, invisíveis, mas não ausentes. Obravar bem sabia que pelo menos uma dúzia de Laceradores Urbani montava guarda, sua presença uma sombra na periferia, garantindo a segurança de Rentaniel de Seldanar, irmão da Mestre Ayla de Seldanar e filho da Grande Mãe da Fáscia, Audren de Seldanar.
Como uma cultura matriarcal, em geral os irmãos cedem sua influencia se eles tem uma irmã mais nova, que então torna-se a primeira de uma família nobre. Audren, mãe de Ayla e Rentaniel, teve a desgraçada fortuna de perder duas filhas e amargar restar apenas com um filho. Fato considerado entre Urbani como um mau agouro.
Rentaniel não era ignorante desse desgosto, mas ambos mantinham uma aura de normalidade. O nobre saía da taverna suja onde não pisaria se as circunstâncias não fossem imperativas.
A certeza se abateu sobre ele como uma névoa fria: os Silvani haviam entrado em um jogo muito maior do que eles.
Obravar foi afetado. Algo não estava correndo como costumava ou deveria. Obravar entendeu por que Rentaniel viera. O que ele não entendeu foi que mão havia colocado Rafiq em movimento, guiando os eventos que levaram a este momento.
Como todos os Harata, Obravar depositava sua fé na Alquimia Universal, a inevitabilidade de forças além do controle dos seres. Resistir ao que deve ser era tolice. A única sabedoria residia em moldar o que podia ser moldado. E assim, ele fez o que estava ao seu alcance para garantir seu contínuo bem-estar, deixando as preocupações de poderes maiores para poderes maiores.
Rentaniel, por sua vez, não demoraria muito em Luar. Sua casa ficava longe, a leste, na Fáscia de Seldanar, do outro lado do continente de Purvatara. Luar, com toda a sua decadência, era uma cidade com sua própria classe alta: Barões, ricos, poderosos, mas não nobres.
Os Urbani, como Rentaniel, pertenciam a uma elite diferente. Afastados das arestas brutas do poder, eles o observavam à distância, preferindo ler sobre derramamento de sangue em relatórios em vez de testemunhá-lo em primeira mão.
Os Harata viam isso como uma fraqueza. Aquele que comanda a violência deve entender a violência, racionalmente, sim, mas também pessoalmente. E isso, Obravar sabia, era a diferença entre eles. O comando Harata entendia a linguagem da violência como todos os níveis de sua sociedade.
Uma dúzia de Laceradores Urbani escoltava Rentaniel, mas em algum momento, ele provavelmente não notaria que apenas onze restaram. Ele provavelmente nem sabia seus nomes, apenas o de seu capitão e seu tenente imediato. Se um fosse substituído, se um tivesse desaparecido, ele sequer perceberia.
Os ricos mercadores Harata usualmente conhecem até seus faxineiros pelo nome. Era nesse sentido que um homem corpulento de feições castigadas pelo sol, mas mantendo seu charme Harata, adentrou o Taverna do Luar. Obravar olhou para o visitante com um ar de reconhecimento, como um velho amigo. O visitante trazia consigo homens e mulheres Harata que seguiram para as mesas na varanda do mezanino. O aparente líder do grupo parou para conversar no balcão.
— O tempo tem sido generoso com você velho amigo. Poucos com a sua história viveram tanto tempo. — O homem disse apontando para Obravar com um sorriso displicente.
— E o banco com você. — Obravar disse guardando os copos.
— O que trouxe o cabeça-de-ouro aqui? — O homem perguntou mais casualmente que deveria.
— Valaravas, quem mais. Está jogando com a sorte. — Obravar disse como aquilo tivesse mínima importância.
— Valaravas está aqui? — O homem falou já procurando algo em sua túnica.
— Ele está preparando o novo Grêmio. Algo grande. — Obravar comentou.
— Diga a ele que Ravantes deixa seus cumprimentos. — O homem disse já entregando um serial com linhas douradas para Obravar.
— Certeza? Você sabe que Tegravas já está investindo na campanha. Esse vai diluir a parte dele, deveras. — Obravar disse com um certo escárnio.
— Nesse caso. — Ravantes entregou ainda outro serial. — Deveras ainda mais.
— Tegravas tem o Cântaro. — Ravantes prosseguiu. — Isso aí é o que ele ganha lá em um dia. Valaravas com certeza tem muito mais do Cântaro do que podemos oferecer em um ano.
O homem seguiu rindo para o mezanino, como se tudo aquilo fosse apenas um joguinho entre amigos.
— Você é quem manda Chefe, você é quem manda. — Obravar disse colocando os seriais na caixa.