Negócios Harata

Enquanto o time tático da Sutay lutava com os invasores Silvani, Karak estava seguindo pelas vias de terra batida, prensadas como artérias na Ilha, levando ao centro.
Os Anoa da gerência estavam seguros do sol em suas construções fechadas com janelas em camadas, uma abertura e uma placa de concreto na frente. Parca luz que entra, mas ainda assim circula o ar.
— Precisamos informar o outro lado de incursão. — Karak disse entrando pelo nível térreo, com os chefes das obras reunidos.
— Não vejo necessidade. Apenas contingência natural de trabalhar nessas ilhas. — O Anoa disse, sem nem levantar o rosto do ponto pessoal.
— Eles sabendo há menos surpresa do que para nós. — Karak indignou-se.
— Se é tão importante Harata, tome o carro de serviço, e avise-os pessoalmente. — Um dos Anoa disse apontando para a recepcionista Aborada.
A mulher pegou o controle do carro e jogou para o Harata.
— Que sua vida vália mais que o preço da sua morte, Harata. — O homem disse encerrando o assunto.
Karak não viu razão para gastar mais sua voz. Ele pegou o controle e saiu com Raila.
Enquanto se dirigiam à fronteira central de Suyantara, foi quando receberam a mensagem de Malek e responderam.
Ao chegarem a borda de ilha, Karak parou o carro ainda do lado de Suyantara Leste. 
— Não podemos atravessar. Temos que conversar com alguém deste lado. — Karak disse com preocupação.
— Seu jaitak? — Raila perguntou.
Karak assentiu, procurando o controle de fronteira da comissão de Tegravas no território.
— Nós já sabemos, velho. — Uma voz familiar para Karak chamou sua atenção.
— E o que você está fazendo aqui? — Karak virou-se para Zavandras.
— Tegravas, sabe como é. Outra terra, outro Cântaro. Alguém tem que ensinar os novos. Mas você é um rosto que não pensei ver nunca mais. — Zavandras respondeu com olhos nostálgicos.
— É. Depois do que fizemos. Mas você ainda está com eles. Braço direito de Tegravas. Eu fui jogado pra fora. — Karak respondeu reticente.
Raila estava quieta, apesar de saber segundo a memória compartilhada de Karak que aquele era Zavandras, outro agente da Lâmina, atuou com Karak na primeira tentativa, frustrada, de tomar Magenta.
— Decidiu imitar o ídolo da Lâmina, caro amigo? — Zavandras disse olhando para Raila. — Se aparecer com uma Silvani, vou pensar que virou ídolo.
Os dois riram-se.
— Longa história, Zavandras. Mas se sabem sobre a incursão, já tiveram alguma. — Karak mudou de assunto. — Esperamos mais problems?
— Eles estão desesperados. O Grêmio tomou Tirayon, e estão já entregando as chaves. Tegravas e os Beruanos já estão dentro. Se Ravantes conseguir um pedaço do bolo, talvez você consiga encontrar 'velhos amigos'.
— Não é um reencontro que procuro, Zavandras. Estou velho demais para disputas de território. Ele é a nova estrela. Prefiro o seu caminho. Retirar para o balcão e olhar os outros se arriscarem. — Karak riu-se.
— E ainda assim, arrumou uma vidente igual a dele. — Zavandras disse olhando para Raila.
— Vidente? Nandi é acuidá. Uma coitada. — Raila parecia irritada com a comparação.
— Até onde a prima diz, Nandi é poderosa. Ela foi quem abriu Tirayon. E os Fáscia confirmam. Fáscia, sua gente. — Zavandras cruzou os Braços.
Karak tirou seu ponto pessoal, exibindo para Zavandras.
— Não somos Fáscia. Ravantes, talvez, mas somos Jangunaray. — Karak disse com cuidado.
— Harata? De Jangunaray? Outro distrito? A bruxa velha não vai gostar disso. Ela já está fazendo barulho por causa dessa Ilha. — Zavandras tinha uma cara apreensiva.
— Eu pensei que Harata era Harata, velho amigo. Desde quando um distrito 'provoca' um Barão? — Karak olhou Zavandras cético.
— Conversa é que Tegravas e Ravantes pagaram pelo serviço do Grêmio, o que resultou em esses distritos, Tirayon, e agora você me diz Jangunaray. — Zavandras disse como em confidência. — Eu não sei sobre Jangunaray, mas não é Tegravas. Isso quer dizer que eles estão crescendo sobre Garoana em conjunto aqui, e em Tirayon, mas Ravantes está crescendo sobre Tegravas em Jangunaray.
— Até onde sei, apenas eu e outro Harata somos reconhecidos por Jangunaray. — Karak retrucou.
Zavandras não respondeu, ao invés, consultou seu ponto pessoal. Outro Harata chegou, eles conversaram por um momento.
— A Armada acabou de informar que interceptaram mais transportes no Mar Estreito, o que pode ser os amigos da sua incursão. Aqui tivemos duas já, mas há alguns dias. — Zavandras conferia no ponto. — Eles talvez procurassem alguma coisa que estava aqui. Talvez algo que ainda estivesse do tempo que vocês, piratas, ainda viviam aqui?
— Não havia nada de importante desse lado da ilha que vocês estão. Era nossa base, mas a Armada destruiu tudo que talvez interessasse. 
— E do seu lado? — Zavandras questionou com interesse.
— Minas, escravos, prisões. Nada ... — Karak interrompeu-se.
Raila discretamente apertou o lado de Karak como se estivesse sendo sapeca, mas o velho entendeu a mensagem.
— Isso. Minas, escravos, prisões. — Karak virou para Raila. — Você sabe que eu tenho cócegas aí mulher. 
Zavandras virou os olhos impaciente.
— Você, e ela, são velhos demais pra isso. — Zavandras riu-se. — Mas, além disso. Ravantes registra o distrito, naturalmente, mas o seu distrito é considerado Jangunaray, velho. Aqui é a Fáscia.
— E ? — Karak perguntou, honestamente curioso.
— Ravantes está abrindo nova região administrativa. Não é proibido, mas seria 'educado' entrar em contato com a Cabeça e discutir antes de sair abrindo Administrações. Não temos nem mesmo registro de contingente da Lâmina pra sua região. — Zavandras disse mostrando os dados para Karak.
— Ou é uma questão de contingência. Não havia tempo. Ou Ravantes está mesmo ficando ousado. — Karak riu-se.
— Esse tempo na pirataria te deixou lento, velho. Estamos aqui, não mais que cinco metros da 'fronteira' entre a Fáscia e Jangunaray, e distritos de Ravantes e Tegravas. E não tem uma dúzia de conselheiros vasculhando as prefeituras. O que você acha?
— Que eles todos sabem, e que concordam. E que a Cabeça concorda com eles. E que o problema será em outro lugar. — Karak disse com tom fatos na mesa.
— Exatamente. Há algo muito importante nessa terra aí, velho. Algo que vale a pena irritar Garoana, e algo que vale a pena para a Cabeça, a Fáscia e Jangunaray não se importarem com o jogo de Ravantes e Tegravas, e é algo que Vale teria muito interesse. — Zavandras disse recolhendo seu dispositivo.
Zavandras bateu madeira da passarela onde estavam três vezes, e caminhou lentamente de volta para o seu lado da fronteira.
— Espero que a sua vidente seja tão boa quanto a dele, para o seu bem, velho. — Zavandras falou em voz alta enquanto se retirava.
Raila praguejou em Sangamani resmungando.
— Precisamos conversar, mas não aqui. — Raila disse puxando Karak para o carro.
Ao entrar no carro, eles preparavam para retornar. Raila estava impaciente.
— Eles não podem saber. — Raila puxava Karak com o olhar. — É o ...
— Eu sei mulher. O 'templo' dos escravos. — Karak disse, saindo em disparada.