Era uma ironia perversa do destino que os Harata haviam, definitivamente Andrei julgava, respondido sua súplica. Ele agora estava em um posto que nunca pensaria chegar, não sem a política de escritório que tanto odiava. Ele agora estava completamente protegido por dezenas de baluartes e falanges que contavam dukhovne entre os seus, e também estariam interessados na sua continuada sobrevivência.
Mas ele sabia que sua presença ali não era apenas proteção. Ele era dukhovne ele mesmo agora, fantasma, infiltrado por poderes superiores, aqueles consagrados pelo poder sem a necessidade de patentes, rostos ou protocolos. Seu posto não era um favor, era a feliz coincidência de ele precisar de algo, e poder dar algo em troca.
Ele já conhecia a disputa Leste e Oeste, e também sabia a posição de Aleksandr em muitas questões da Armada, principalmente no que dizia respeito aos Urbani, à Fáscia, aos Harata. Andrei já havia visto muitos oficiais reagirem ao que parece um rebaixamento. Aleksandr seguia sendo um Coronel, apenas Andrei era mais do que ele agora, mas aquilo sentia em Aleksandr como uma perda.
Andrei no seu lado sabia da implicação silenciosa da história de Aleksandr, o fato de que a maioria do Estado-Maior de Erítria era do Leste, e vivia no Leste, sem qualquer afinidade com os ideais do Oeste.
Ele sabia qual era a sua nova função: carcereiro dos indisciplinados.
Os Harata não podiam permitir que Aleksandr agisse sem controle, mas também não podiam arriscar removê-lo completamente. Útil demais, perigoso demais. Em vez disso, eles provavelmente lhe encontraram uma guerra para lutar, um campo de batalha para desaparecer. E até que esse momento chegasse, até que o mandassem para longe ou ele encontrasse sua própria destruição, Andrei estava ali para vigiá-lo. Um lembrete, silencioso, mas inescapável, de que se ele falhasse em conter Aleksandr, Danila o conteria à seu modo.
A confirmação chegou na tinta de ordens confidenciais.
[Classe C - Situacional. Força dissidente no corredor do Mar Estreito. Proteger Divisão Norte da Trifronteira.]
Ali estava. A Armada se preparava para tomar o lado Silvani da Trifronteira, avançando com a eficiência silenciosa da inevitabilidade. E os Harata? Estavam garantindo que esta fosse a única terra tomada, a menos, é claro, que pretendessem o contrário. Talvez permitissem que a Divisão Norte caísse, apenas para reivindicá-la sob sua própria autoridade quando a poeira baixasse.
Outra mensagem pousou em sua mesa, pouco mais de duas horas depois, aguçando os contornos do que estava por vir.
[Classe C - Situacional. Forças do Destacamento Norte: Redirecionar - Proteção do Porto da Trifronteira. Fechamento total.]
Os reforços que deveriam ter fortificado o norte de Erítria, o Reino Urbani e as Terras Altas de Pasvara estavam, em vez disso, sendo redirecionados para o Mar Estreito. Não para fortalecer, não para defender, mas para garantir que nada entrasse ou saísse. O movimento era cirúrgico, preciso. Sem estandartes erguidos, sem declarações feitas. Apenas um aperto lento, como um laço sendo puxado por mãos cuidadosas.
E, no entanto, sob as diretivas oficiais da armada, havia outra ordem. Uma única linha, rústica e sem polimento em sua apresentação, deslocada em meio ao formato disciplinado e rígido do comando militar. Não era protocolo da Armada. Não era para ser.
[Deixe o convidado acompanhar a Major ao baile.]
Enquanto Andrei assinava as ordens, garantindo que o Zhefaq permanecesse plenamente ciente da manobra de isolamento de Tirayon, uma percepção se cristalizou dentro dele. Se a Armada fosse fazer um movimento, se houvesse qualquer ação decisiva em relação a Tirayon, seria através do Zhefaq. E isso significava que seria através dele. Qualquer um que quisesse movimento naquela frente que não fosse a Armada, também seria através dele.
Então, outro pensamento se assentou, um mais pessoal, mais insidioso em sua clareza. Sua nomeação aqui nunca fora sobre tirá-lo das trincheiras, sobre removê-lo da guerra. Ele não escapara da batalha. O campo de batalha apenas mudara.
Ele ainda estava tomando as mesmas decisões que tomava na ponte de seu navio, só que agora, as tomaria de uma mesa no Zhefaq. Não lhe serviria de nada fingir que não era o que era. Ele finalmente entendeu por que Melica era como era, e a verdade dos sentimentos dela por ele.
Ele caminhou até a sala contígua onde estava sua assistente, a Major Danila, mexendo em suas adagas, entediada. Ele bateu na porta aberta. Ela ergueu os olhos, como uma hiena selvagem esperando a próxima presa se mostrar.
Andrei mal ergueu o olhar ao jogar a mensagem dobrada em direção a ela.
— Espero que tenha trazido seu melhor vestido. — Disse ele com um sorriso.
Danila pegou o pedaço de papel sem olhar, seus lábios se curvando em algo entre divertimento e expectativa.
— Eu sabia que nos daríamos bem, 'Pai' — ela murmurou, a voz tingida de zombaria.
Andrei parou por um momento, sem ação. Foram frações de segundo que descarregaram em sua mente as palavras de Melica, sobre ele, sobre Danila. E a resignação fria caindo sobre seus pensamentos.
Ele sorriu de lado. Sua compreensão do jogo colorindo sua expressão, o que fez Danila mudar seu comportamento zombeteiro para um mais respeitoso. Os olhos dele eram ainda mais perversos que os dela.
Andrei tomou um sorriso com a ironia do momento.
— Não se atrase, querida. — Ele disse com uma voz de autoridade informal.
Danila retornou com seu sorriso maníaco uma vez mais, e nada precisava ser dito.
A chave havia virado em Andrei. Ele agora sabia o papel que tinha que representar, e decidiu fazê-lo da melhor forma possível. Um oficial que tinha uma disciplina e dedicação ao serviço da Armada simplesmente virou toda a sua mentalidade militar e os princípios sob os que vivera até ali na fria mecânica dos dukhovne. Ele seria então o melhor dukhovne que poderia ser, como foi o melhor capitão de cruzador que poderia ser.
Do outro lado da Trifronteira, ao sul de Tirayon, os movimentos que motivaram o acionamento de Andrei estavam se desenvolvendo.
Sorya estava na luz fraca das lamparinas do posto avançado Silvani na fronteira, o peso das notícia s recentes pressionando suas costelas como uma mão invisível. À sua frente, Yadora permanecia imóvel, sua expressão indecifrável enquanto deixava o silêncio se estender entre elas.
Eletricidade e outros confortos já estavam longe de serem esperados. Era o prelúdio do que viria. Até mesmo as rotas clandestinas de carbóleo foram fechadas cedo naquele dia.
— Ariel está viva. — Sorya repetia como para si mesma. — E precisamos encontrá-la antes que a Armada encontre.
O olhar de Yadora vacilou, mas ela não parecia impressionada.
— Se o papo de Ariel estar na Fáscia, como dizem os sussurros, for verdadeiro, então ela não é mais nossa preocupação. Qualquer que seja o destino que a aguarda, nós não temos parte nele.
— Temos que ter. Seja ela amiga ou inimiga, sua mera existência é uma ameaça existencial à Tirayon. — Sorya dizia desesperada.
— E o que você sugere? — Yadora cruzou os braços.
— Nós vamos à Armada primeiro. Oferecemos alternativas para tirá-la dos alvos deles. Vamos apresentando isso como um gesto para estabilizar o Reino.
— E o que te faz pensar que eles já não sabem o quão importante ela é? — Yadora riu-se secamente.
— Porque se soubessem, nós já estaríamos mortas.
Os olhos de Yadora se estreitaram. Uma réplica se formou em seus lábios, mas morreu antes que pudesse ser dita.
A porta se abriu com um baque, fazendo a chama da vela piscar descontroladamente.
Um lacerador Silvani entrou, sua respiração ofegante de urgência. Ele se curvou até o ouvido de Yadora, sussurrando palavras rápidas demais para Sorya captar.
O rosto de Yadora mudou instantaneamente. Seus olhos se arregalaram, o estoicismo se quebrando em algo próximo ao horror.
Ela se levantou abruptamente, sua cadeira arrastando no chão de madeira.
— O que foi? — Sorya falou atônita.
A voz de Yadora era como pedra se partindo sob pressão.
— Os dissidentes estão montando um cerco em Tirayon, e a Armada está apenas fechando as saídas. — Ela disse com morbidez no olhar.
Sorya sentiu o sangue sumir de seu rosto.
Yadora não esperou por mais discussão. Ela se virou, saindo da sala em passos rápidos e decididos, sua escolta de laceradores seguindo logo atrás.
Sorya permaneceu congelada por mais um instante, sua mente processando o peso daquelas palavras.
Então, sem pensar duas vezes, ela pegou suas armas e a seguiu.
Do outro lado de Purvatara, graças a tecnologia nômade, a Fáscia já estava devidamente informada dos acontecimentos do Oeste.
Audren, que já antecipava a Armada e Khadija, e já estava adiantada em criar a Fáscia que os Harata haviam planejado, e da qual ela concordara em participar. Ela recebia cada nova informação apenas como confirmação de tudo que esperava.
Triste por seu filho não poder confiar nela e, em vez disso, exigir um poder que não poderia ser seu, ainda assim, Audren sabia que pelo menos sua neta levaria seu legado ainda mais longe do que seu filho jamais poderia.
Syvis tinha relatado notícias dos movimentos. Seu povo estava pronto para a eventualidade de a Armada se mover para assegurar o espaço Silvani na Trifronteira e deixar Tirayon queimar, para limpar tudo depois e tomar o controle, efetivamente, em suas mentes, removendo qualquer presença Silvani significativa.
— Eles estão se movendo, Grande Mãe. Se chamarmos a atenção deles, eles avançarão sobre nós também. — Syvis disse, preocupada.
— Os Harata não permitirão. Fique tranquila. — Audren disse com ternura.
— Estamos fazendo alguma coisa? Ou vamos apenas assistir Tirayon queimar? — Syvis perguntou, cética.
— Os únicos Silvani que me importam estão seguros e felizes na Fáscia. — Audren disse como a coisa mais trivial. — Ariel resolverá todo o resto.
— Espero que esteja certa, Grande Mãe, espero que esteja certa. — Syvis disse, curvando-se antes de sair.
— Não é uma questão de esperança, é uma questão de tempo.
A guarda saiu, passando pelas muralhas do castelo e observando as luzes da cidade naquela manhã. Longe, no Leste, estavam distantes demais de Tirayon para fazer qualquer coisa além do que fizeram no passado, e continuavam fazendo de certa forma. Os exilados, refugiados de um povo que antes era seu inimigo, guardados em segredo, para este preciso momento.
Enquanto Syvis cruzava o jardim do castelo, retornando ao seu posto na cidade, um mensageiro a encontrou para entregar uma pequena mensagem, que trazia o símbolo da Armada, mas não seu protocolo. O mensageiro tinha que ser legítimo, era um batedor real, mas a mensagem não era típica da Armada como ela a conhecia, apenas uma frase.
[Antigos laços ainda perduram, o Leste permanece unido. S.S.T.]
Syvis deixou escapar um fantasma de sorriso, seus olhos brilhando apertados com felicidade. Suas preocupações tinham esmaecido. Leste com o poder de mover a Armada à vontade.
Syvis jogou a mensagem para queimar numa barraca de comida próxima e marchou novamente, esperançosa. Se o remetente era quem ela estava certa de ser, isso viraria a favor deles de mais maneiras do que esperavam.
Em Tirayon, no entanto, as coisas estavam ficando realmente tensas, e o tempo estava sempre contra eles.
O ar estava denso de tensão, mais pesado que as nuvens carregadas se acumulando no horizonte distante. Ao longo da fronteira, o chão se eriçava com fortificações, barricadas, torres de vigia, linhas de piques cravados no solo congelado como as presas de uma fera se preparando para morder. Do lado de Tirayon, a presença de guerreiros Silvani havia triplicado nos últimos dias, um aviso silencioso escrito no aço de suas armas e na quietude vigilante de seus arqueiros. Em frente a eles, a Armada permanecia igualmente rígida, suas máquinas de guerra posicionadas como sentinelas inabaláveis, suas ordens claras: um comando de voz, e um tiro fatal. Sem exceções.
Através desta paisagem gélida, um único carro, antigo, batido, mas insistente, avançava pela estrada bem guardada. As duas mulheres na frente, Yadora e Sorya, sentavam-se à vista de todos, suas posturas compostas, rostos treinados em uma neutralidade praticada. Sob a cobertura de um pano grosso e cuidadosamente arrumado, seis outros estavam escondidos, um pequeno grupo de Silvani, duas crianças aninhadas entre dois casais, sua presença oculta pelo ardil de serem meros pertences.
À medida que se aproximavam dos postos de controle, guardas Silvani se moveram para interceptá-los, mas o reconhecimento brilhou em seus olhos ao verem as oficiais. Sem hesitar, eles se afastaram, concedendo passagem sem uma palavra. O padrão se repetiu em cada posto avançado subsequente, a tensão diminuindo momentaneamente, até que a verdadeira barreira se ergueu diante delas: a fronteira da Federação.
Aqui, não havia reconhecimento silencioso, nem aprovação implícita. Os guardas eram da Armada, e Armada não se curva com facilidade, muito menos aos Silvani.
O Oficial de plantão, uma figura imponente como todo Onatra da Armada, perfeitamente posturado, deu um passo à frente. Ao longe, atiradores preparados com rifles de precisão presos à vigas de concreto, denotando seu poder, esperavam com suas miras diretamente no carro invasor.
Canhões de Maz Ynis e Baluartes completavam o cenário avassalador que contemplava o destino daquele carro.
— Silvani, vocês não podem cruzar a fronteira. Este é território da Federação. Retornem, imediatamente. — O oficial dizia com a voz de comando treinada.
Yadora olhou fundo nos olhos do oficial.
— Temos autorização, somos emissárias diplomáticas. Estamos aqui para falar com a Armada em caráter oficial.
— Não temos instruções sobre isso. Vocês não tem autorização. Retornem. Não repetirei. — O oficial insistiu.
— Pelo menos verifique com seus superiores. Pode ter havido algum imprevisto. Foi tratado agora mesmo, pode ter ficado na burocracia. — Sorya disse com a voz suplicante.
Por um momento, o olhar frio do oficial alternou entre elas, avaliando. Ele não estava convencido, mas era disciplinado. Ele se virou e caminhou em direção ao prédio mais próximo, onde o comando superior estaria estacionado.
Minutos depois, ele retornou com duas figuras ao seu lado, um guarda real de Khadija, e um oficial da Armada de certa patente.
O Urbani se moveu primeiro, seu longo casaco impecável, seu comportamento tingido de uma arrogância silenciosa. Ele examinou a carruagem, inspecionando seu exterior com a precisão afiada de quem está acostumado a descobrir enganos. Seus olhos demoraram-se nas mulheres à sua frente, avaliando, calculando. Então, sem uma palavra, ele circulou o veículo, seus dedos passando levemente por sua estrutura, como se procurasse compartimentos ocultos.
Dentro do carro, os Silvani escondidos mal ousavam respirar. Yadora e Sorya sentaram-se rígidas, sabendo que se o Urbani decidisse procurar mais a fundo, o ardil se desfaria em um instante.
O Urbani terminou sua inspeção, mas algo em sua expressão traía suspeita. Ele se aproximou, falando baixo com o Onatra ao seu lado, um sussurro trocado fora do alcance dos ouvidos Silvani. O que quer que tenha sido dito, encontrou concordância.
Então, o Urbani se virou, dirigindo-se a elas diretamente.
— Eu sei quem vocês são, mas como posso saber se suas intenções são legítimas? Como saber se não é subterfúgio de autoridades do seu povo?
Yadora já estava visivelmente alterada.
— Estamos aqui para uma reunião com o comandante do Zhefaq, Orlov, Andrei, algo, Orlov.
— O problema é que, veja bem, o comandante do Zhefaq não tem esse nome. E o oficial aqui não sabe nada sobre tal arranjo. Talvez precisemos revistar 'o interior' desse veículo, e talvez, até mesmo de vocês.
Yadora abriu a boca, pretendendo argumentar, mas antes que pudesse, o Urbani ergueu as mãos em um gesto lento, quase casual, afastando-se da carruagem. Ao redor deles, os oficiais Onatra se endireitaram em atenção rígida. Os guardas nas cristas fixaram o olhar à frente, cessando sua observação casual.
De trás da carruagem, uma presença emergiu.
Um homem Onatra alto avançou, sua aproximação medida, inexorável. Ele trazia as cicatrizes da guerra, entre elas, uma longa marca quase vertical marcando o lado direito do seu rosto, e outra, cortando seu couro cabeludo raspado. Sua armadura, embora simples, carregava o peso do comando, usada não para exibição, mas por um propósito. Sua postura era inabalável, e quando ele falou, sua voz soou como um trovão, rolando pelo ar congelado. Era a voz de comando, numa versão que nenhum deles, Onatra, Urbani ou Silvani, tinha jamais ouvido.
— Quem são vocês e quem as convocou aqui? — Sua voz soou com dez homens. Até seus próprios homens se alertaram à sua autoridade.
Yadora, pela primeira vez, respirou com um certo alívio.
— Yadora da Coragem, esta é Sorya da Coragem. Somos emissárias para falar com o comandante do Zhefaq. O nome Andrei Orlov estava nas instruções.
O homem não respondeu imediatamente. Seu rosto mudou um pouco. Um leve sorriso de escárnio se fez notar.
Em vez de perguntar mais, ele se moveu com conhecimento de causa. Sua figura imponente bloqueou a visão dos outros oficiais enquanto ele se esticava para a frente, sua mão deslizando para dentro do carro.
Yadora se moveu como se fosse detê-lo, mas o olhar dele encontrou o dela como uma chuva gelada das montanhas que cercavam. Ela murchou sob ele. Sua respiração falhou, seu corpo se encolhendo em medo instintivo. Sorya, mais acostumada aos Onatra, foi apenas um pouco menos afetada, mas, ainda assim, não se moveu.
Ele olhou diretamente nos olhos do homem e da mulher Silvani escondidos. A verdade estava exposta, e seus olhos demoraram até que os Silvani piscaram, e baixaram suas cabeças, resignados com o destino aparentemente certo.
O Onatra então ajustou novamente a cobertura como para certificar-se que cobria realmente todos eles.
— Major, abra caminho na terceira baia. Eu tomarei a frente nesta questão. — O alto oficial recém chegado disse.
O Urbani deu um passo à frente, pronto para argumentar, mas o oficial Onatra o interrompeu antes que ele pudesse falar.
— E você, Urbani — Ele voltou a usar a voz de comando, mais esmagadora — Certifique-se de que seus homens não incomodem nossos convidados, e entendam que nossa hospitalidade não é submissão. Você é aqui observador. Pergunte, tome notas, mas não presuma ter qualquer autoridade. Somos a lei em nosso solo, e aqui, eu digo, você obedece.
Os lábios do Urbani se comprimiram em uma linha fina. Ele deu um passo à frente, como que para reivindicar espaço para uma discussão.
O oficial Onatra baixou uma algema, conhecida pelos Urbani, uma elegante coleira de metal preto conhecida pelos Onatra como coleira pneumática, que usa essa tecnologia para 'conter' um prisioneiro que se distancia do oficial de custódia, utilizando uma pequena bomba que imediatamente enforca até detectar a perda de consciência. Seu apelido entre os oficiais: Sapeca Urbani.
O oficial se virou então, sua atenção se voltando para o tenente Onatra.
— Tenente, tome uma viatura e conduza os visitantes para a baia, e siga de maneira que não haja interferências. Com a minha autoridade.
O oficial tocou seu ponto pessoal na placa com o nome do tenente, para efeito nos sistemas de leitura e segurança.
A ordem foi executada imediatamente. Com a eficiência da Armada, o carro foi escoltado através do posto, autorizadas elas foram a entrar. Escoltadas para a enorme construção da terceira baia, entre as baias que recebiam transportes do interior de Erítria.
Enquanto o Urbani observava, sua frustração mal disfarçada, o coronel dos Onatra que estava por perto permitiu-se um sorriso de satisfação. Ele havia gostado daquilo.
Ao chegarem, dentro da baia, suboficiais da comitiva daquele Coronel certificaram-se que a Baia estava selada antes de permitir que os Silvani embarcassem no carro que ali estava. Ao contrário do que esperavam, era um veículo colorido, claramente de origem Harata. Espaçoso e desenhado em padrões chamativos.
Elas estavam incertas a respeito daquilo. Seus passos cuidadosos. Os suboficiais esperavam. Certas de que não havia escapatória, elas puxaram os clandestinos, ao que os suboficiais simplesmente conduziram para dentro do carro como se soubessem e esperassem a situação.
— Aguardem aqui. Ainda há alguns protocolos a seguira. Uma hora no máximo e estarão à caminho do Zhefaq. Tenham uma boa viagem. — Disse o líder do destacamento, deixando a zona do veículo e juntando-se aos oficiais que guardavam a entrada da baia.
O coronel no posto de fronteira se retirou quando a resposta de que os Silvani estavam dentro da baia designada, e fora do alcance dos Urbani, chegou pelo ponto pessoal
Entrando no recinto, ele fechou a porta da sala administrativa e sentou-se na cadeira principal, recostando com um semblante cansado, e as mãos percorrendo seu rosto. Então dirigiu-se ao homem que ali o esperava nos largos sofás que ladeavam a sala.
— A culpa disso é sua Tegravas. — o coronel resmungou com a voz divertida mas ainda com o traço de autoridade. — Você mimou Elmund por tempo demais, e agora que ele está comendo capim pela raiz, os outros querem o posto dele.
Tegravas, encostado na pesada mesa de madeira, apenas riu. O som era leve, divertido, não incomodado pela tensão que permeava o ar. Ele nunca fora um homem de se abalar facilmente.
— Pelo menos assim você sai um pouco lá de Karaya. Aquele lugar maldito. Aqui é mais divertido, não é?
A risada que se seguiu foi baixa, afiada, carregando o peso da história entre eles. Um entrou, o outro se afastou noite adentro.
Os lábios do coronel se contraíram, não exatamente um sorriso de escárnio, não exatamente uma careta.
Tegravas permaneceu um momento mais, respirando o ar de um mundo que ainda jogava bem suas peças. Ele era Harata, sim, mas com sua fortuna, poderia comprar tudo o que um homem poderia querer, exceto por noites como estas. Noites onde o jogo seguia, onde as peças ainda se moviam, onde a tensão permanecia esticada, pulsando sob a superfície de alianças e rivalidades.
O coronel sentou-se ali, despreocupado.
— Karaya é onde a ação vai estar, Harata. E provavelmente onde o seu povo vai achar muito dinheiro. É a porta de entrada do Vale.
— Meu caro Yegor, o Vale está lá, guardado. Estamos abrindo o mais fácil primeiro. Sua gente vai nos ajudar. Acho que você saberia, se não estivesse tão à vontade na sombra de sua mãe. — Tegravas alfinetou.
— Eu nunca estive na sombra dela. Eu sou meu próprio oficial. — Yegor disse com um certo ar de revolta.
Tegravas inclinou a cabeça, um divertimento sombrio brilhando em seu olhar.
— Ah, claro, que fique registrado: o grande Yegor Svetlanovich Sedov é seu próprio homem.
Ambos acabaram por rir-se e seguir em conversa amigável.