Karak chegou no porto com tudo que havia ouvido e recebido. Sajó teve uma introdução rápida, e os documentos foram entregues a cada um dos novos cidadãos de Jangunaray. O Aborada já tinha os seus, e sua presença era já uma constante no que dizia respeito a Idris.
Sajó mostrou para eles como acessar suas informações pelo serial no barco. Cada um tinha um saldo de 7000 UMJN, que é a moeda de Jangunaray na Razão Global.
— E o que isso significa em termos de 'o que eu consigo' com essa grana? — Karak perguntou.
— Comida, como sustento, mínimo, que sua gente consiga comer aqui, é só ir nas horas do meio e do começo, e comer. Você não precisa de dinheiro para isso. — Sajó disse com tom neutro. — Se quiser algo de fora, comida, bebida, 'diversão' ou outras coisas, depende muito de quem consegue, quando e onde.
— Não ajuda muito. Além de 'o que eu quiser que não seja sobreviver', com o que se gasta dinheiro aqui? — Karak disse com uma certa irritação. — Não ia ter miles de qualquer coisa aqui se não precisasse gastar com algo.
— Coisas pessoais. A maioria dos cidadãos de Jangunaray tem quase tudo mínimo pelo valor que tem. Trabalha-se, garante-se saúde, comida mínima, alojamento mínimo. Qualquer coisa que se queira a mais gasta-se o que 'estiver disponível' pelo preço que for. — Sajó disse com um tom quase sarcástico.
— Onde nessa cidade se bebe? — Karak perguntou com falsa Urgência.
— Em qualquer lugar para nós. Para vocês, esperar algo que não seja literalmente veneno, melhor tentar o 'Média Ponderada' na Cidade do Porto. As vezes há bebida da sua gente. — Sajó disse, com um certo tom de escárnio.
— E qual o estrago que isso fará nos meus 7000? — Karak perguntou cético.
— Em geral bebidas fermentadas vão por centavos o litro. Fermentar aqui é simples. Você conseguir que suco não fermente é que é o problema. Um litro de suco de laranja fresco por aqui, vai te custar uns 50, dependendo da época, até 200. Uísque Nacional do Porto, .50 o litro, até menos, se for com algo caro, tipo frutas frescas ou nozes.
— Se vamos viver aqui precisamos nos acostumar com a 'comida local' não é verdade? — Malek disse com seriedade.
— Qualquer comida local que você ingerir, se é a sua primeira vez, serão seis dias de diarreia explosiva e febre. O microbioma dessa terra vai lutar contra o que vive nas suas tripas e vai ganhar. Melhor já manter sempre água limpa de reserva. A adaptação vai levar algum tempo e muita dor.
— Melhor que a vida nas ilhas. — Lateral disse em tom baixo.
— A bebida pelo menos é sempre limpa e sem perigos. Se vocês tem alta tolerância ao álcool, quero dizer. Aqui toda levedura é hipertrópica, e a cerveja mais fraca vai por 18%, as vezes raramente 16%. — Sajó comentou com orgulho.
Karak abriu um sorriso predador, o humor finalmente retornando aos seus olhos.
— Eu sou Harata, meu amigo. Isso não é um problema, é um convite. — Karak disse já rumando para o patamar de saída, apontando para o veículo escuro que os aguardava na doca. — Onde fica esse Média Ponderada?
Malek deu um tapinha nas costas de Lateral com um sorriso sombrio.
— Deve ter algo pra você, amigão.
Lateral sentou-se encolhido no banco de trás do carro com Malek. Karak e Sajó sentaram no banco da frente. O Aborada tomou o controle para levá-los.
Os dois na frente seguiram conversando sobre o lugar. Os dois no banco de trás já iam observando a paisagem, descobrindo que o ambiente lúgubre do porto não era uma exceção, mas a regra.
Conforme a cidade foi aproximando, raros os Aborada e mais numerosos os Anoa, em seus casacos pesados sob a garoa fina. Muitos carros e mais luzes fracas nos muitos negócios que permeavam os andares mais baixos das construções. Mesmo os prédios de residência eram sempre os dois primeiros andares de negócios variados, sem muito alarde, apenas placas funcionais com o nome, tipo de negócio e horário de funcionamento.
O carro reduziu a marcha ao entrar em uma viela ligeiramente mais larga, ladeada por estruturas que pareciam galpões de maquinário pesado adaptados para o comércio. O zumbido dos compressores de ar era constante.
Sajó parou o veículo diante de uma construção térrea e retangular de concreto nu. Uma única placa de metal balançava levemente sob um exaustor, o nome "Média Ponderada" gravado com um corte a laser preciso e sem qualquer floreio tipográfico.
O grupo desceu. O cheiro da rua os atingiu imediatamente após o isolamento do carro. Era o mesmo cheiro do porto, mesmo distante do mar, ainda com aquela mistura de camarão cozido, salmoura e plantas velhas na lama.
A entrada do bar não tinha portas elegantes, apenas uma entrada aberta com um recuo para deixar casacos e guarda-chuvas. No interior, o cheiro novamente os deixou, substituído por ar mais puro, artificialmente.
O interior do lugar era uma divisão entre o que poderia constar como uma padaria logo na entrada, e um tipo de bar e restaurante no fundo.
Não havia música, e as paredes eram do mesmo tipo de concreto cinza, bem acabado, mas sem nenhum tipo de arte.
As mesas estavam dispostas com um espaçamento metódico e encontravam-se chumbadas ao chão. As cadeiras acompanhavam a estética: espaçosas, forjadas em metal escuro e assentos de pedra polida. Toda a mobília exibia o mínimo acabamento funcional para garantir a resistência, projetada para acomodar tranquilamente corpos pesados de setenta a cento e cinquenta quilos, mas não oferecia conforto algum além do apoio firme e do espaço necessário para esticar as pernas.
As conversas no salão mantinham um murmúrio baixo e contido. As expressões nos rostos dos frequentadores e na postura atenta das anfitriãs Aborada deixavam claro que, naquele espaço fechado, trabalho e negociações logísticas eram a verdadeira diversão local.
Sajó indicou o bolso onde Karak tinha seu ponto pessoal, e o balcão de entrada onde uma elegante, embora naturalmente imponente, mulher Aborada esperava.
Ao tocar o ponto no balcão, a mulher rapidamente chamou uma anfitriã do salão para acompanhá-los, e eles foram direcionados a uma mesa ampla no canto, que tinha sua própria iluminação, ligeiramente mais alta que o chão geral do lugar, e cercada por uma estrutura que a mulher com eficiência levantou, tornando o espaço mais privativo do grupo.
— Convidados do Grupo Somnikan, é uma honra servir tão valorosos membros de nossa comunidade. Eu sou Brigita, e serei sua anfitriã nesta visita. Utilizem os pontos de acesso para escolher como podemos trazer valor para sua visita. Estarei aqui para qualquer consulta. Nada do que ouça sairá desse espaço, como sua gente bem sabe. — Ela curvou-se e retirou-se para um canto do espaço.
— Demorou, mas a nossa estadia está mostrando alguma vantagem. — Karak disse já puxando a tela para conferir as bebidas.
Malek estava intrigado pela questão do de como tudo aquilo encaixava no ambiente geral que haviam visto.
Lateral, alheio às maquinações de segurança do lugar, estava totalmente absorvido pela tela brilhante embutida na pedra. O Onatra atípico vasculhava o imenso catálogo com uma curiosidade relaxada. Uma surpresa agradável o atingiu ao descobrir uma vasta seção de bebidas e alimentos exóticos que não continham álcool. Era reconfortante constatar que nem toda a fermentação hipertrófica daquela terra precisava embriagar, um conceito botânico que seus antigos companheiros de pirataria nos mares do sul jamais teriam capacidade de processar.
— Quem é o dono desse lugar? — Malek perguntou repentinamente.
— É um negócio local. — Sajó disse sem importar-se muito.
— Você não sabe, ou está enrolando? — Malek retrucou, trazendo autoridade para o tom.
— Cuidado Harata. Anda em terreno liso. — Sajó disse buscando sobrepujar o Harata.
A mulher Aborada que estava presente apareceu tão leve quanto para nem mesmo ser percebida chegando.
— Não é nenhum segredo. Nosso Média Ponderada é um empreendimento local da Associação dos Funcionários do Porto, e patrocinado generosamente pelos Fundos Luar. Sua gente, acredito. — A mulher disse olhando entre os dois.
— Fácil, não? — Malek disse olhando para o Aborada.
— Minha preocupação era você, Harata, não algum segredo. — O homem cinza disse sem alterar seu tom.
Malek seguia preocupado, mas ainda segurando suas razões para si mesmo. Ele decidiu recuar por enquanto e tentar seguir Lateral em focar-se nas ofertas do local.
Karak por outro lado tomou para si fustigar o assunto. Ele era então líder do grupo, e cabia a ele liderar. Estanho que antes era líder numa posição mais autocrática, apenas dando ordens, e agora via-se como um líder mais transformacional, tentando converter um bando de piratas minimamente civilizados em jogadores do jogo que ele mesmo foi um liderado no passado.
— Não estamos no média ponderada por que por acaso somos estrangeiros em sua terra. Estamos aqui porque é o lugar que deveríamos estar. — Karak disse agora encarando o Aborada.
— Agora eu entendo porque és o líder. Até agora não entendia porque o esperto do grupo recebia as ordens. — Sajó riu-se.
— Harata não faz exigências, Harata aceita consequências. — Karak disse cruzando os braços.
— Conhecemos seu livro sagrado, Harata. O Média Ponderada é um espaço que visitaremos bastante. Aqui as paredes tem menos ouvidos. — O Aborada disse já marcando que pediria.
Karak e os outros estavam satisfeitos por ora. Era uma situação mais lógica.
Alguns minutos depois, seus pedidos chegando, um outro anfitrião do local, Anoa, talvez ajudante ou cozinheiro, veio junto.
— Senhores, novamente, bem-vindos ao Média Ponderada. Como cortesia de nosso estabelecimento, temos aqui Graça do Sol, um tipo de fungo muito apreciado em nossa terra. Ele ajudará seu corpo a adaptar-se à vida aqui, sem a necessidade de grandes sofrimentos. — O Anoa disse oferecendo uma cuia adornada com os fungos em um caldo que tinha o odor característico.
Apesar do cheiro terroso com notas amadeiradas, o fundo era de um caldo cítrico leve, convidando a pelo menos experimentar. Enquanto Karak e Malek, como Harata, mais acostumados com gostos fortes de temperos, e doces bem exagerados, foram mais comedidos, Lateral se interessou ávidamente pelo prato.
O Anoa não pode esconder a satisfação com a voracidade do Onatra em escavar uma porção generosa com gosto.
Karak e Malek preferiram mais a bebida, comendo o que pediram e a cortesia da casa com uma parcimônia maior.
Alguns minutos de admiração sobre o surpreendente fácil jantar, eles iriam pelos doces que tanto agradam os Harata.
— Nada disso faz qualquer sentido! — Karak disse confabulando com Malek.
— Nenhum 'doce' por aqui. Como vamos saber se não é 'creme de pasta de madeira' ou 'larvas de besouro caramelizadas'? — Malek riu-se.
— Estimados amigos, posso sugerir algo? — A mulher Aborada disse como se aparecendo do nada entre eles.
— Desde que seja doce, muito doce. — Disse Malek com cuidado.
— Cultura Mãe é um doce que os estrangeiros gostam. Ele é a base das bebidas doces e não alcoólicas que temos. Elas tem um gosto doce, ácido, similar a frutas, dependendo do cultivo assemelham a pedaços de cajá. — A Aborada disse com um sorriso.
— Pois é Malek? Não era você que defendia acostumar com a comida local? — Karak riu-se.
— Não tendo que enfrentar dias de problemas com isso, pode ser. — Malek disse com mais seriedade.
Eles deixaram a mulher arranjar os doces e seguiram seus assuntos leves sobre as impressões do lugar e da comida.
Quando seus doces chegaram, o cheiro, novamente, era impactante. Eram massas levemente esponjosas, com cheiro de frutas passadas, mas com um fundo surpreendentemente adocicado.
A textura demorou a concordar com o paladar dos Harata, mas o gosto era realmente como o de cajá ou jaca, como se fosse um pedaço de borracha macia com gosto de fruta.
— Isso não tem fruta? Não tem gosto artificial? O que isso? — Malek disse surpreso com como era saboroso.
— Está certo que quer ouvir o que é que está na sua boca agora, Harata? — Sajó riu-se.
A mulher Aborada sorriu, esperando a resposta.
— Se vamos viver aqui, melhor saber. — Malek disse com tom de autoajuda.
— São cultivos de bactérias selecionadas nas mesmas leveduras hipertrópicas que fazem a cerveja. Açúcar e paciência, e esse é o resultado. — A mulher sorriu.
— De onde viria o açúcar daqui? Não creio que muitas plantas doces crescem nessas partes. — Malek indagou com uma certa curiosidade.
— Insetos produzem soluções açucaradas. Existem vários tipos. — Sajó disse, rindo com a mulher Aborada.
— Como mel ... — O Harata disse com cuidado.
— É. — Sajó não segurou a risada. — Como mel.
Karak estava observando a troca, não muito interessado nos detalhes culinários da terra que agora era literalmente um de seus mais novos cidadãos, mas uma verdade que estava por baixo de todos aqueles fatos da cultura local.
Tudo ali era feito para inserir quem quer que interessasse no contexto da cultura local rapidamente, eficientemente. Uma minimização de riscos e desperdícios. Quando mais rápido alguém se adapta a Jangunaray, mais rápido qualquer outro lugar se torna estranho.
— Será que tudo aqui tem um gosto exótico e cativante? — Karak perguntou, olhando para mulher Aborada.
— Talvez, mas tudo aqui requer acostumar-se. — Os olhos cinza da mulher não se afetaram pelo olhar castanho do Harata. — Ou entregar-se.