Quando um barco deixa o Mar do Sul para encontrar o Mar do Leste, a transição é sentida claramente. Sajó e Caracará já estavam preparados para executar os ajustes necessários. A água de peso e salinidade diferente que contorna a corrente da coroa do Mar do Sul causa uma repentina mudança das forças no casco e nos ventos atravessando pela proa.
Chegando perto do Mar do Leste, a sombria atmosfera de Jangunaray se dissipava, e a claridade voltava a ser vista.
Era outra manobra que Sajó e Carcará demonstravam, mas que seria uma constante se fossem todos trabalhar naquela rota.
Enquanto Carcará ajustava as saídas dos motores de empuxo, ele avistou ao fundo uma sombra. Com a Lente Espiã, ele observou que havia uma embarcação parada mais ao longe, mas como essas lentes são óticas e de baixa magnificação, não era possível identificar.
Ao terminarem a manobra, Sajó recolheu-se à cabine, protegido do sol que começava a despontar com seu esplendor do meio-dia sobre o barco que fugia das garras da escuridão.
Dentro os sensores de navegação não alertavam nada, mas uma mudança para o sonar tático identificava um contato na direção do barco.
Sajó e Carcará se entreolharam.
— Temos contato, capitão. Ni Armada, Consórcio, Nacional. — Sajó disse.
— Interceptação? Tempo estimado? — Karak respondeu incorporando de volta o pirata que era.
— Não. De volta, dois quintos, 90 minutos, para menos. — Sajó aliviou-se por não precisar explicar.
— Seguimos o curso, acompanhe. Mantenha menos, dois quintos a um terço, 45 minutos. — Karak respondeu.
— De certo capitão. — Sajó respondeu já tomando o posto na navegação.
— Capitão, devemos preparar o motor. — Carcará adicionou.
Karak assentiu. Ele já tinha o domínio pelo menos do console de comando.
— Motores, preparar para comando imediato. — Karak disse pelo comunicador.
Na sala de máquinas, Lateral e Barisi foram os trancos e barrancos se levando pelos controles que haviam aprendido para iniciar os tubos de vapor crítico. A lista de checagem ajudava, mas ainda era uma nova experiência. Não foi tão fácil quanto quando ajudada por Sajó e Carcará.
Sajó decidiu descer para ajudar nos motores enquanto Malek tomou seu lugar ao lado de Carcará nos comandos de navegação e táticos.
Raila seguia observando. Alguma coisa nisso tudo não caía bem com a Sangamani, mas ela podia ver pelo amplo campo da plataforma de comando que havia uma embarcação presente de fato.
Carcará deixou Malek familiarizado com os controles enquanto veio ao comando, pedindo permissão de entrada, ao que Karak assentiu. Ali ele demonstrou onde estavam os instrumentos, entre eles o controle do Magnificador da Ponte.
Karak e o mestiço começaram a trabalhar em focar a embarcação suspeita, procurando com a tecnologia melhor identificar a ameaça, se existia.
O outro barco era mais longo e mais estreito que o deles, provavelmente mais ágil, se não mais rápido. Apresentava o mesmo tipo de casco e o mesmo tipo de entradas de ar e saídas mecânicas. Ele era motorizado. Não era qualquer pirata ou aventureiro independente.
Carcará voltou aos instrumentos. Ele monitorava os dados, possíveis ataques ou drones lançados por ar ou por água.
Eles ainda podiam ver ao lado esquerdo a névoa já distante porém presente, que significava ainda estarem ao sul da Fáscia.
— Extrapolando presente curso, encontro seria ... Nordeste da Fáscia, 300, 450. — Malek disse já familiarizado com os instrumentos.
— Independente, monitoramos até chegar na latitude do sul da Fáscia, e mantemos distância, se necessário entramos na área da Marinha Real, e comunicamos ameaça. Temos os documentos agora! — Karak disse com um tom humorado.
O humor da tripulação ali aliviou-se um pouco. Saber o que a embarcação queria era menos importante que completar a rota. Talvez a volta pudesse ser mais interessante, dado comunicação. Onde estavam, apenas a base em Porto, Jangunaray, podia obter dados, e eles podiam obter dados, mas não tinham acesso o suficiente para comunicarem-se pelos satélites Beruanos. Apenas os Harata e Armada tinham.
Eles seguiram por mais de duas horas, e o barco ao longe permaneceu ao longe, corrigindo o curso para mover o ponto de previsto encontro, o que dizia à Karak que eles não estavam indiferentes, eles estavam ativamente mantendo a distância.
— Temos o registro do que esse Magnificador vê? — Ele perguntou à Carcará.
— O botão na interface, círculo vermelho. — Ele respondeu sem olhar.
— Precisamos de melhores ferramentas se vamos trabalhar assim. Estamos um degrau ou dois acima do que eram os piratas que a Armada queimou. O barco pode ser mais forte e mais armado, mas operamos tão cegos quanto eles. — Malek considerou.
— E o que você sugere, Harata? — Carcará perguntou.
— Pelo menos melhores equipamentos. Se temos o interesse de um Harata com essa interesse todo, transportando milhões do seu UMJN em mercadoria, deveria ter mais seguro do que Magnificador Padrão e radar tático simples. — Malek disse com desdém.
— De toda a razão que você possa ter, não somos nós que temos que pensar nisso. — Carcará virou-se para Karak. — Não é verdade, Capitão?
— É uma questão de valor. — Sajó entrou vindo da sala de máquinas abaixo. — Primeira viagem, uma aposta de milhões de UMJN é nada para Ravantes. Estamos carregando 'cascalho químico' Onachinia vai usar como agregado miúdo em qualquer fim de mundo.
— Quer dizer que estamos sendo testados, cinzento? — Raila disse cruzando os braços.
— Homens como Ravantes não confiam em ninguém de graça. — Sajó continuou. — Esse barco já teve outra tripulação. A sua change veio com o fracasso deles. A chance de outros virá se vocês fracassarem.
— E a aposta é resolvermos os problemas antes de sermos facilitados soluções? — Malek cruzou os braços também.
Carcará voltou-se para a área de navegação, dando um tapinha encorajador no ombro de Malek.
Eles seguiram a viagem. Para todos os outros era uma simples questão de aprender suas funções e entender o instrumento.
Karak e Raila, por outro lado, entendiam que se a carga não era importante, ou a viagem em si, o risco também seria baixo. Aquele barco ao longe talvez estivesse apenas mantendo algum tipo de vigia, ou observando a rota. Eles ainda não tinham o suficiente para entender que posição estavam no jogo.
Uma coisa que ambos entendiam era que disputarem quem está mais seguro entre eles dois seria o caminho mais fácil para estar em risco os dois.