Mais um dia

Ariel e Erlan estavam começando mais um dia. Eles eram Silvani e Ealetra já não lhes fazia nenhum favor. Exilados de uma nação que quis lutar contra o resto de Ealetra, eles eram o símbolo de um povo que era tudo de errado que o Consórcio foi criado para consertar, e no entanto, viviam na nação que o consórcio construiu: A Trifronteira.
Irmãos, da cidade Silvani conhecida como Serenidade, esse era seu sobrenome, o que em geral não fazia diferença. Raros aqueles que os chamavam pelo nome. Eles eram simplesmente "aqueles Silvani ali", e sua rotina era acordar, procurar o desjejum que o ontem deu, e procurar uma oportunidade de conseguir o sustento do outro dia.
Agentes independentes de recuperação, seu trabalho parece importante, mas em essência eles eram mercenários trabalhando em coleta de inteligência e gerenciamento de perdas. Seu trabalho era essencialmente caçar devedores, de dinheiro, de favores, de vergonha na cara, e proceder onde a lei não poderia, ou não deveria.
Aquele particular dia eles começaram na pocilga que chamaram de alojamento na noite anterior. Um hotel barato que ficava na fronteira leste da Divisão Beruana da Trifronteira.
O lugar era bem longe da cidade movimentada que compunha a área metropolitana, onde os negócios a gente civilizada ficava. Ali era quase já no deserto do Beru, bem ao sul da região.
Oficialmente, a Trifronteira era classificada como uma Cidade-Estado, esculpida em parte do Reino de Tirayon, a terra natal dos Silvani. O lugar onde estavam um dia foi parte de sua própria cidade onde seus ancestrais um dia cultivaram uma floresta verdejante e cheia de vida. Onde estavam, naquele momento, era um barroso fim de mundo cheio de cicatrizes de guerra onde nada nasce, e tudo morre muito antes do que devia.
Eles andavam no silêncio isolado que caminhava nas conversas do velhos Beruanos que trabalhavam ali. Silvani, eles não falavam a língua local, e os locais não tinham razão para falar com eles. Seriais e sons de confirmação era tudo que precisavam.
Sua estada ali era apenas uma conveniência pelo contrato que tinham. Recompensas da Armada Erítria pelos espiões dissidentes que informavam saqueadores e outros dissidentes sobre os movimentos militares.
Seus seriais não eram como os dos outros povos. O Consórcio não emitia seriais para Silvani. A Armada Erítria emitia seriais anônimos de seu próprio tesouro pra esses mercenários, o que possibilitava o pagamento, mas não a inclusão social dos outros serviços. Seus pontos pessoais era simplesmente comunicadores que poderiam usar para deixar informações com os militares para quem trabalhavam.
Não havia muito escapatória dessa vida. Não falavam os idiomas locais, não tinham contatos se não os militares da Armada. Exilados, não poderiam voltar ao que restava de Tirayon, e já haviam encontrado, entregado ou matado suficientes dissidentes para que não pudessem tornar-se dissidentes.
Restava apenas isso. E era assim que o dia seguiria, e os outros dias depois daquele.
Enquanto Ariel e Erlan sentavam ali apreciando o pouco de tranquilidade que o desinteresse humano permitia, Ariel organizava os instrumentos para o trabalho. Os pequenos e clandestinos estabelecimentos forneciam os suprimentos genéricos que precisavam, miudezas eletrônicas, sem o escrutínio das lojas oficiais, e sem perguntas sobre os seriais. Comércio Beruano em sua forma peculiar.
— Está pronto irmão. Precisamos ir, que eles irão mover logo logo. — Ariel disse, quase puxando o irmão no meio de um gole de café.
— Precisa disso? Esse pessoal é preguiçoso. Ninguém vai estar movendo merca essa hora da manhã. — Erlan respondeu irritado.
— A saída sul está interditada. Eles terão que sair pela pedreira, e não iriam passar por lá sem a luz do dia.
— Tá certo, irmã. Adianta discutir contigo?
O objetivo deles ficava além do alcance das avenidas banhadas pelo brilho piscante dos neons, escondido no abraço escuro da periferia, onde o pulso da Grande San Juan se desvanecia em ruído branco dos imensos geradores e arrefecedores do sistema de maquinário subterrâneo.
Os dois pegaram suas motos, uma concessão da Armada Erítria, velhas e usadas, as duas eram motos rústicas, duráveis, mas barulhentas demais para qualquer serviço sigiloso. A aproximação teria que ser a pé.
Eles seguiram a estrada sul que ligava a Trifronteira ao planalto do Beru, a terra onde os nômades Beruanos controlavam a terra, as águas, e os céus. E onde os estrangeiros tinham poucas esperanças de sobreviver, exceto os Harata, e quem quer que os acompanhassem.
Os irmãos Silvani seguiam para uma parte mais afastada. A região era marcada pelos mercados de hardware e negócios de toda classe. Onde há propriedade e valor, há crime, mas como todos os Beruanos tem um fascínio por tecnologia e mercados negros, isso cria uma demanda para crime, e para mercenários. Nessas partes mais periféricas porém dominavam os equipamentos industriais de grande porte, e os recessos escuros onde era fácil esconderem-se os marginalizados e os marginais.
Os nômades eram tecnocratas, e também os únicos que conseguiam com seus poderosos sistemas de criptografia e excelência em engenharia, manter comunicação remota e via satélites. E sua solução era simples: Ninguém mais tinha acesso, ninguém mais tinha esquemas e desenhos, e ninguém mais tinha seu poder, vantagem em números e mobilidade para desafiar seu monopólio.
­— Mais ou sul tem uma velha saída leste, que dá na vala que segue até o pé da montanha. Aposto que por lá sairão. — Ariel disse para Erlan, observando ao longe.
— Essas batedeiras velhas não vão aguentar ... — Erlan começou a responder quando foi interrompido.
— Elas vão ter que aguentar. — Ariel retrucou resoluta.
Eles seguiram nas motos por onde podiam, saindo pela trilha leste e entrando na vala que descia suavemente como se antes fora o leito de um rio, e agora apenas a terra arenosa sobrava.
Ariel, com seu rifle de alta precisão observava de um ponto mais alto a pequena vila abandonada mais a frente. O local marcado no contrato estava à frente. Era a hora.
Ariel subiu para o ponto que haviam planejado, seu posto entre os cabos grossos de uma antiga torre de comunicação que ladeava a vila. Da escuridão acima, seus olhos varreram a extensão das ruínas e prédios abandonados, enquanto esperava o movimento que estavam buscando.
— Eles estão indo para a segunda casa do norte da vila, uma que tem a janela faltando e um buraco logo embaixo. — Ariel descreveu.
Abaixo, Erlan se moveu, girando os ombros em antecipação. Não havia necessidade de palavras mais. Erlan simplesmente enviou um pulso vocal de confirmação.
Eles moveram-se para mais perto do local, pelas ruínas da vila. O andar silencioso e praticado de quem teve uma vida de fugas e espreitas. Os irmãos estavam perfeitamente coordenados, como uma dupla de felinos na espreita do sustento.
Chegando no ponto, Ariel separou-se de Erlan, subindo com um parkour invejável na construção que erguia-se em frente ao alvo.
Erlan subiu a trilha na direção oposta, sua presença se mesclando com as ruínas. Seus passos deixaram de fazer som, não por magia, mas pela graça de um sistema nervoso treinado, há muito acostumado a se mover sem ser detectado. O zumbido dos grandes tubos de ventilação ao longe tecia um véu sônico sobre as pequenas perturbações de seu movimento, mascarando sua passagem enquanto ele circulava em direção ao seu ponto de observação.
À frente, os dissidentes caminhavam, com a postura de homens que não esperavam companhia nem censores. Moviam-se com propósito, entrando no prédio em ruínas, alheios ao fato de que Ariel vigiava.
A estrutura abandonada era um refúgio adequado: fora da rede central da metrópole, esquecido, seu silêncio um escudo contra o mundo exterior.
Nesse mesmo silêncio residia o ponto de falha: não haveria reforços, nenhuma interferência casual para pender a balança a seu favor. Eles estavam sozinhos. E sem comunicação de longa distância.
Erlan se manteve nas sombras, acompanhando o movimento deles à distância. Então, com a certeza calma de quem já executara esse programa antes, ele atravessou a rua com passadas largas. Ele chegou ao seu posto rapidamente sem ser notado.
Ariel também facilmente desceu de seu posto na torre, suas mãos e pés encontrando apoio nos contornos da estrutura. Ela não tocou o chão por muito tempo antes de também encontrar um novo ponto de visão ampla em um prédio abandonado adjacente, sua estrutura corroída pelo tempo, mas ainda oferecendo altura e visão. Como Erlan, ela escalou a parede externa, entrando por uma abertura. Dali, ela podia ver tudo.
Dentro das ruínas, os dissidentes haviam se acomodado em uma pequena sala ainda inteira, suas vozes baixas, suas palavras apressadas. Falavam de rotas de dados e chaves de criptografia, de patrulhas e pontos cegos na malha fonográfica de segurança.
Os dissidentes haviam estendido uma malha fonográfica pelas entradas, que detecta vibrações e provavelmente movimentos próximos. Mesmo silencioso em termos humanos, aquela peça iria perceber a aproximação de Erlan.
Como uma sombra, Erlan se moveu.
Antes que o dissidente pudesse registar o aviso da malha, o rapaz Silvani já estava sobre ele, de um único passo encontrando-o no contrapé. Sua mão agarrou o pulso do homem antes que a lâmina que ele segurava pudesse ser usada. Com um movimento fluido, ele a torceu, cravando sua própria lâmina na direção da mão livre, cortando qualquer chance de contra-ataque.
O segundo homem avançou, mais rápido que seu companheiro, mas ainda lento demais. Um ruído estalou no ar, um som sutil e deliberado. O estilhaçar de cerâmica. O instinto o traiu. Ele se virou na direção do barulho, seus olhos focados nos estilhaços do recipiente que antes estava em cima da prateleira.
Erlan agiu por instinto. Ele forçou o dissidente mais alto para a frente, empurrando-o na direção do disparo.
Enquanto o outro dissidente desviava, das sombras, veio o segundo tiro. O projétil atingiu em cheio, cravando-se nas costas do homem que Erlan empurrava, sua armadura de polímero atenuando o impacto, mas não por completo. Um momento depois, outra carga de metal se seguiu, deslizando no espaço desprotegido na base de seu pescoço. O estalar do ar chegando depois de sua queda.
O dissidente restante investiu, sua lâmina buscando Erlan. O Silvani já estava preparado para esquivar-se do golpe. Sem outra coisa com que se preocupar na vida, ele fazia de artes marciais seu estilo de vida. Para Erlan, tudo era mais claro, movimento agora parecia lento, telegrafado, previsível.
Erlan se esquivou suavemente do golpe, seu antebraço interceptando apenas o suficiente para desviá-lo de seu corpo. Então, sem interromper o passo, ele passou uma perna por baixo dos pés do homem, fazendo-o desabar no chão.
O momento era tudo. Erlan se abaixou, sua lâmina invertida, um movimento cruzado buscando as travas do capacete do inimigo. Antes que o homem pudesse sequer ofegar, o movimento rápido de Erlan para o lado cortou a intenção, e a outra mão com a lâmina, o pescoço. Forma limpa e certeira.
A luta terminara antes que Ariel o alcançasse, minutos depois, para o inventário.
— Checagem de perímetro, irmãozinho, ainda teremos que voltar antes do anoitecer com a carga.
Ariel não perdeu tempo em começar a procurar pelo ambiente, seus olhos procurando os menores detalhes relevantes trabalhavam rápido. Ela podia olhar para uma marca de arrasto no chão ao mesmo tempo que olhava para onde ela apontava. Em poucos minutos eles recolheram material que apontava para as atividades da célula dissidente.
— Irmã, algumas dessas coisas aqui podem valer mais no mercado negro do que no quartel. Não acha?
— O serviço da Armada é o que paga melhor. Prefiro a confiança do que arriscar um negócio mal feito com um mercador que me odeia. — Ariel respondeu sem nem dignificar com um olhar.
Erlan não teve uma resposta imediata. Seu corpo ainda vibrava com os resquícios da luta, seus pensamentos ainda nublados pelo calor persistente do combate e recuperação de suas modificações aquecidas. Mas mesmo através disso, ele não podia negar a verdade das palavras.
Seu protesto era mais por teimosia do que por ignorância. Todos sabiam que os Urbani se integraram com os Harata, e os Onatra se uniram aos conglomerados comerciais dos Harata durante as primeiras hostilidades dos Silvani. Para eles a confiança era uma moeda rara que não podia ser desperdiçada.
Entre os itens que os dissidentes possuíam havia um banco de dados com informações como os diagramas cifrados que os Silvani tradicionalmente usavam em cerimônias de integração social, e os diagramas dos suportes de energia solar que eles acreditavam ser os únicos a ter. Parecia estranho nas mãos de um grupo dissidente, mas os diagramas em si eram um pouco distintos, com componentes de selênio ao invés de cádmio, que não era o estilo Silvani de fotocondução.
A fonte de energia principal, no entanto, não era um disco solar, mas um diagrama de um reator de fusão melhorado. Ariel não queria demorar, e sua opinião não seria desejada ou necessária. Entretanto aquilo agitou sua calma interior, assim como a estrutura de metal que isolava o reator.
Por fim ela deu de ombros: a Armada saberia o que fazer.
Os Silvani pegaram tudo o que puderam encontrar sobre a atividade dissidente e a possível identidade dos derrotados ali, e marcharam de volta para suas motos. Precisariam de toda a tarde de viagem para chegar a base da Armada na Divisão Beruana, e o pagamento era mais importante que impressões pessoais.
Era melhor chegar pelo menos na área metropolitana antes da noite cair, pois ali era a lei do cão, e eles não estavam dispostos a dar sopa para o azar.