Enquanto Valaravas os conduzia de volta à oficina, Ariel sentiu seu conforto aumentar, mas não era a mesma coisa de antes, não era Valaravas, mas algo mais poderoso. Algo que não invadia sua alma de fora, emanava dela. Não era ela, ou nela, mas uma corrente que passava por ela, através de Nandi.
A Sangamani se movia sem hesitação, sua presença ao mesmo tempo leve e absoluta. Ela passou por eles quase como se não notasse que existiam, seus olhos fixos, sua marcha firme, quase etérea.
Ariel parou, a curiosidade a enraizando no lugar.
Valaravas ficou ao lado dela por um momento, sua presença um consolo silencioso, mas ele não interrompeu. Ele ficou ao lado dela, permitindo-se criar espaço para que Ariel se apoiasse nele. Eles observaram com algo quase como admiração.
Nandi pegou seu japamala, as contas deslizando por seus dedos enquanto ela amarrava suas mãos em um gesto ritualístico. Seus olhos se moveram, rolando para cima como se olhassem para algo além da visão. Ela cantava como a natureza, o som não perturbava os sons naturais, mas se somava a eles.
De repente, ela olhou para cima e seu canto mudou para algo sobrehumano, profundo, um som feito através da garganta que não era para ser feito por seres humanos, ressoando em seu peito em vez de em sua boca. Enviou uma vibração pelo ar, algo que se instalou nos ossos, algo que parecia vibrar com o ar ao seu redor, inegável.
Com um movimento súbito, Nandi separou as mãos, circulando em um único movimento como se se libertasse de grilhões invisíveis, e seu som parou.
Erlan se levantou como se puxado por cordas invisíveis, seu corpo então se endireitou como se despertado pelo estrondo de um trovão e relâmpago. Seu olhar fixo no de Nandi, o olhar profundo e escuro dela encontrou o dele sem expectativa, sem explicação.
Ele não disse nada, não vacilou. Ele apenas entendeu, o que quer que tivesse acontecido, ele entendeu. E como se Nandi sumisse de seu campo visual, ele se virou, caminhando em direção a Ariel, seus movimentos seguros, como se guiado por algo que só ele podia ver.
Nandi observava em silêncio, sem interagir com o mundo naquele momento.
Ariel estendeu a mão, segurando Erlan pelos ombros, estabilizando-o tanto quanto a si mesma.
Por um momento, eles ficaram em silêncio, o único som o leve crepitar das brasas da forja atrás deles.
Então, Erlan olhou para Nandi e de volta para Ariel.
Valaravas voltou, seu gesto fluido enquanto pegava a mão de Nandi, guiando-a com uma facilidade que parecia tanto casual quanto reverente.
E juntos, todos marcharam de volta para se juntar aos outros.
Os Silvani ainda estavam se livrando da admiração, suas mentes se recuperando, tentando formular as perguntas certas, mas isso foi interrompido pelas vozes e ruídos da vila quando a porta externa da oficina que Valaravas acabara de abrir.
Um movimento súbito quebrou a linha de pensamentos em suas mentes: Situ correu direto para Valaravas, seus braços se jogando ao redor dos dele, agarrando-se a ele sem hesitação, como se nada tivesse acontecido.
Seu brilho infantil, sua inocência, cortou os resquícios da batalha como um raio de sol perfurando nuvens de tempestade.
Era como se Valaravas soubesse que isso aconteceria, como se ele tivesse orquestrado isso tão sem esforço quanto tudo mais, deixando a risada de Situ puxá-los da névoa do combate, de volta para o mundo mais simples, mais leve. Mas ao mesmo tempo era tão natural que não tinha a marca de manipulação.
Um por um, eles sentiram isso, pegando-se sorrindo com a brincadeira da jovem, sua feliz ignorância das batalhas travadas ao seu redor.
Ariel observou. O calor fácil, a risada, a maneira como Valaravas simplesmente era. Parecia um sonho febril, que pela primeira vez em muito tempo, Ariel não tinha certeza se queria acordar. A vida vivida assim era mais fácil e mais interessante do que a vida arrancada das garras do destino.
Erlan estava saboreando o momento, mas era como perseguir fumaça, intangível, escorregando por seus dedos enquanto tentava agarrá-lo. Seu coração batia forte, não com esforço, mas com uma emoção que ele não conseguia nomear. Ele repetiu o momento em sua mente novamente, não uma, mas duas vezes, forçando sua memória a repeti-lo com clareza perfeita.
O Silvani continuava revivendo a luta em sua memória, e por mais que pudesse observar tudo o que aconteceu, a sensação era de que outra pessoa havia tomado posse de seu corpo e executado cada movimento. Ele podia sentir que era obra sua, sentir que sua memória fosse a sua própria.
Erlan girou uma faca entre os dedos, tentando replicar o mesmo movimento. Ele podia sentir a forma dela em sua mente, mas quando se movia, algo estava faltando. Tinha sido muito rápido, muito instintivo. Como se, naquele momento, a decisão não tivesse sido sua. Agora, comparando, o movimento era irregular, lento.
Ele se virou, avistando Valaravas, que ainda estava parado calmamente, seus olhos castanhos brilhando como duas joias polidas. Não havia surpresa neles. Nenhuma admiração, nenhuma pergunta. Ele simplesmente estava.
Ele tinha feito isso? Ou Valaravas já sabia o resultado no momento em que colocou as mãos em seus ombros?
O calor do sol banhava a vila enquanto Tarja se aproximava da oficina, sua estrutura imponente lançando longas sombras pela rua de pedra batida. Ariel e Erlan, parados por perto, a avistaram e trocaram um olhar.
Tarja tinha sua própria cadência, suas tranças se destacavam como uma chama contra o fundo iluminado pelo sol, sua constituição larga e musculosa a marcava como alguém moldada pela força e pelo trabalho. Uma forasteira, como eles. E, no entanto, havia algo de enraizado em sua presença, como se, apesar de ser nova neste lugar, ela já pertencesse a ele.
Erlan a notou. Pensou no que havia feito um momento atrás e pensou em como aquela mulher era, à sua maneira, uma guerreira. Se ele fez o que fez, e ela possuísse a força igual à sua agilidade, potencializada por qualquer mandinga que Valaravas tivesse feito nele, eles seriam uma força que não podia ser ignorada. A mente de Erlan quase perdeu de vista que ele estava encarando, e ela poderia notar.
Dentro da oficina, Valaravas a cumprimentou com seu charme fácil de sempre, sua presença preenchendo o espaço sem esforço.
Erlan saiu de sua contemplação, sutilmente aliviado quando Valaravas redirecionou a atenção da mulher para outro lugar.
— Perfeito. Tarja, estes são Erlan e Ariel. Erlan e Ariel, esta é Tarja. — O Harata apontou um para o outro como se deixasse-os tomar suas conclusões.
Carpata, ela não tinha a rivalidade enraizada por Silvani que uma Onatra teria, mas também não tinha a disposição que uma Harata teria. Sua reação era mais neutra até que estivessem mais conhecidos.
Os Silvani já tinham uma certa predisposição à serem reservados com gente das montanhas, mas as circunstâncias amenizavam um pouco aquela acidez.
Valaravas, como todo bom Harata, sabia que precisava de um redirecionamento rápido para o momento.
— Pessoas notáveis, vocês. Todos fizeram a diferença hoje, por essas pessoas, e por vocês mesmos. Ouso dizer que juntos, faremos mais que coisas notáveis. — Valaravas disse já conduzindo por inércia a dinâmica do time.
— Quem sabe, até nos divertiremos no processo. — O Harata acrescentou.
Antes que pudessem pensar sobre isso, ele os empurrou levemente para a frente, guiando-os em direção às portas abertas da oficina.