Mais que palavras

Os Harata em sua maioria fazem as coisas conforme elas acontecem, baseados em poucos princípios que todos os Harata seguem para tudo. A palavra, a comunidade, a função, o valor e a sociedade. Os cinco Vs na língua Harata: voz, vok, vuk, vant, vrеrаk.
Uma vila Harata era geralmente uma grande propriedade de algum Barão Harata, onde viviam as pessoas que mantinham a propriedade, e outras que não incomodassem a coesão social do lugar.
Barões Harata eram os ricos mercadores que tinham fortunas de gerações, mas que para um Harata não significa herança. Um Harata não vive com seus pais. Nessas propriedades podem haver grupos que criam crianças de pais unicamente Harata. Eles criam as crianças e mantêm educação, cultura e os princípios. Alguns Harata por outro lado são criados por Urbani, que tem o costume de adotar crianças Harata, geralmente mulheres Urbani de alta classe, já no terço ou quarto da vida.
Na cultura Harata, quanto maior é a comunidade de um Barão Harata, maior é o seu poder. Tegravas, um dos donos do Cântaro Dourado, é também um dos maiores donos de terras em Ealetra, e assim, é um dos Barões mais poderosos. Mas isso não significa que depositar gente gera vantagens. Eles são livres para mudar de comunidade, e ceder o poder "do povo" para outro Barão. O Harata vota com a sua vida. Ele decide onde viver, e isso define quem tem o poder executivo por todas as comunidades de seu povo.
O Cântaro é um lugar extremamente alegre e bem gerenciado porque todos ali são como cidadãos do Cântaro, moradores do Cântaro, e diretamente influenciados pelo sucesso do Cântaro. A condição de vida de Tegravas e de uma mera garçonete do Cântaro varia de acordo com a renda que o negócio traz, e com o conjunto dos negócios que os sócios, como Tegravas, tira de todos os seus negócios.
Naquela manhã era mais um dia começando na Trifronteira, naquela fazenda, de propriedade de Ravantes, outro sócio do Cântaro e o dono, literalmente, da Cidade do Luar. Todos os dias para os Harata é uma mistura de mais um passo para um objetivo, e um novo completo dia. Alheios ao que fizeram ontem, ou ao que fizeram em suas vidas, os pescadores preparam-se para sair antes da primeira luz do dia, e as mulheres da cozinha preparam-se para fazer toda a comida necessária para alimentar as centenas de pessoas que vivem naquela fazenda.
A cultura Harata é completamente desligada de qualquer desculpa cultura. Eles aplicam que certas tarefas são masculinas, outras femininas. Crianças trabalham, idosos trabalham. Famílias não existem como o resto de Ealetra pratica, e homens e mulheres são livres para relacionar-se, ora com um, ora com outro, ou mesmo com uma mesma pessoa por uma vida. Homens com homens, ou com mulheres, ou com os dois, a dois, a três. Eles não tem a cultura de "multiplicar-se", pois um Harata sabe que cada filho que gera é como um ponto de poder para alguém, então contraceptivos fazem parte da vida Harata, naturalmente cultivados, seus métodos são simples, naturais e eficazes. Uma Harata só engravida se e quando quer.
Quando o sol nasce e os pescadores já estão no mar, e o desjejum já está feito, a manhã tem seus rituais e suas diversões em cada parte. Ali naquela fazenda de Ravantes, onde Valaravas estava como visita, mas indiferente, como se fosse parte da família, os jovens se preparavam para um jogo de Taurocatapsia, uma prática cultural que jogam os homens, fazendo acrobacias com os bois no pasto.
Valaravas estava vestido em roupas casuais de linho desbotado, e mesclava-se no meio de todos ali, como se fosse mais um dos muitos familiares no lugar. Ele alongava seu corpo esguio, observando os outros no pasto.
Os trabalhadores observavam ansiosos, em meio às suas tarefas, o conhecido agente da Lâmina começar sua brincadeira, que era sempre um espetáculo.
Os jovens Harata estavam lá, correndo e manobrando ao redor dos touros, nada espetacular. Mais do que feitos físicos, eles usavam seu poder de sugestão e exímia leitura corporal para controlar os animais. Eles jogavam com os pequenos bois como se os animais entendessem a brincadeira. Corriam, desviavam, e quando iam descansar ou parar a brincadeira, era como se os animais entendessem a pausa.
Valaravas terminou seu aquecimento, já de olho em Korin, um dos grandes touros na manada. O animal estava ao longe, observando a brincadeira. Alguém poderia jurar que ele estava esperando Valaravas, apenas observando de canto de olho.
Quando ele entrou no pasto aberto, Valaravas era como um leão, abrindo espaço entre pessoas e feras pela mera presença. Ele caminhou até Korin com passos leves, mas diretos. Eles se olhavam, mas não havia ansiedade neles, apenas algo como um reencontro de velhos amigos.
Valaravas acenou para Korin, circulando a mão como se para estabelecer o local para os jogos. O touro começou um movimento, vagaroso, balançando a cabeça e batendo as patas, não em agressividade, mas reconhecimento.
Os dois assumiram suas bases de apoio. Respiraram fundo, e enquanto o Harata respirava lentamente, Korin bufou e partiu para a investida. Seus passos eram pesados, e sua cabeça baixa, vindo para o impacto.
Valaravas esperou ele se aproximar, e com um movimento preciso, ele desviou da fera somente o suficiente para evitar impacto, conseguindo até deslizar sua mão pela lateral da fera enquanto passava por ele.
O touro fez meia volta, e encarou Valaravas novamente. Uma pessoa mais crédula poderia pensar que a fera estava sorrindo.
Valaravas girou o corpo e encarou Korin novamente. A fera investiu novamente, e dessa vez Valaravas correu na direção de Korin.
Quando estavam para se encontrar, e o touro ia levantando sua cabeça para o golpe, Valaravas se apoiou na base dos chifres do touro, usando o impulso para pular por cima do animal, esticando seu corpo no ar enquanto a fera passava direto por ele. O Harata caiu numa cambalhota, finalizando com um gracioso levantar.
Valaravas e Korin seguiram naquela dinâmica, como os Harata acreditavam, era um exercício benéfico para ambos, e uma forma de criar laços entre os animais e os homens.
Korin era um touro já de idade. Eles não são vegetarianos, mas a fé Harata fala em tipos de alimentos, e a carne é considerada um alimento de agressividade. Para eles, animais em geral são criados para viverem vidas longas e produtivas, invés de servirem para corte. Uma vaca viva alimenta muitas pessoas, um boi morto alimenta poucas.
Ao ter bastante diversão para o dia, Valaravas cumprimentou Korin se curvando levemente ante o animal, que respondeu com o mesmo gesto, claramente entendendo que sua brincadeira havia terminado.
O touro voltou a sua posição anterior, apenas observando Valaravas enquanto ele ia se afastando. Ele estava seguro dando as costas à Korin, sabendo que a fera entendia o contrato social silencioso que compartilhavam.
Como todos, Valaravas foi se refrescar nas cascatas artificiais que ladeavam a propriedade. Elas eram feitas com água distribuída da cidade, mas imitavam as corredeiras naturais. Seu corpo esguio e atlético exposto era de pouca impressão comparado aos outros similares. Para o Harata, a figura humana é um fato da vida, e a nudez raramente é por si só uma questão para nota.
O sol já fazia um quarto de sua caminhada diária, era hora de Valaravas encarar a rotina burocrática de sua vida. Ele vestiu-se vagamente mais elegante do que a roupa surrada que usava na manhã, e dirigiu-se até o veículo que o esperava para levá-lo até o Grande Bazar, na Grande San Juan. Um veículo de fabricação Erítria originalmente militar, mas aquele convertido para uso civil, famoso por sua capacidade fora de estrada.
A viagem era curta, e Valaravas estava já no meio do Bazar alguns minutos depois. Ele ia andando pelo meio do mercado, cumprimentando vendedores, recebendo propostas de preços especiais, amostras grátis. Seu objetivo porém estava no Salão do Grêmio.
Acumulado a sua função na sociedade Harata de Agente da Lâmina ele era também um dos juízes apontados pelo Consórcio, substituindo a posição de sua antiga parceira, Ayla de Seldanar.
Valaravas estava adiantado para seu compromisso ali. Não tinha pressa, nem muito interesse nos jogos políticos dos outros, apenas nos do seu povo. A comitiva de Erítria já estava instalada, e ele estava em casa, como seu povo sempre se sentia em qualquer lugar que estivesse, mas mais ainda onde houvesse comércio, comida e intriga.