Os Silvani retornaram com o garoto Harata para a Taverna do Luar. Obravar deu as ordens aos seus rapazes para devolvê-lo à sua família. Os irmãos guardaram seu silêncio e retornaram aos seus quartos na estalagem. O silêncio entre eles era maior que sua natural economia de palavras.
O quarto era iluminado apenas pelo brilho trêmulo de uma única lâmpada recarregável pendurada em um carregador, sua luz lançando sombras inquietas pelas paredes. Ariel sentou-se na borda de seu Ta’khame, uma perna dobrada, a outra esticada, os dedos traçando padrões distraidamente contra o tecido. Do outro lado do quarto, Erlan recostou-se no parapeito da janela, sua silhueta contornada contra as ruas escuras da Cidade do Luar.
— Fizemos a nossa parte, e teríamos resolvido tudo. Não falhamos. A ajuda foi bem vinda. — Ariel refletiu, mais para si mesma.
O olhar de Erlan permaneceu nas ruas abaixo, embora ele tenha virado a cabeça ligeiramente, considerando suas palavras.
— Independente. Agora só falta o pagamento. — Erlan respondeu secamente.
— Temos um teto, equipamento, e ninguém está nos cobrando nada. Não temos tanta pressa de pagamento assim.
— Deixa eu adivinhar? Está pensando no seu salvador Harata. Minha irmã, babando por um Harata.
— Sentimentos são uma coisa. Mas ele era efetivo.
— Amerille também deve ter pensado que o Onatra era "efetivo".
Ariel fez uma careta, lançando-lhe um olhar afiado.
— Nada a ver uma coisa com a outra, Erlan. Nada a ver.
— Meu nome? É mais sério do que eu pensei, 'Ariel'.
— E seu eu quiser um Harata? Beijar a boca Harata dele? Sentar no colo Harata dele? É problema meu! Deixa de ser criança Erlan.
— De novo? Ele realmente te afetou. Mas vamos falar sério então.
Ariel franziu a testa.
Erlan prosseguiu.
— Ele sabia onde devíamos deixar o garoto, e não se surpreendeu porque somos Silvani.
— E? — Ariel nem olhou para o irmão.
— Ele sabia quem somos, o que estávamos fazendo, e quem estava nos esperando.
— E você quer dizer que devemos confiar nele por isso? Ou que não devemos confiar nele por isso? — Ariel disse voltando-se para Erlan.
— Só digo que não devemos esquecer com quem estamos lidando, irmã.
A luta fácil demais, o oportunismo do Harata era preciso demais. Ele não era apenas mais um mercenário. Ele estava esperando por eles. E isso, mais do que qualquer outra coisa, deixava Ariel e Erlan desconfortáveis. Na mesma intensidade, mas por motivos diferentes.
— Mas também — concluiu Erlan — não devemos cultivar inimigos onde eles não faltam.
Ariel levantou as mãos como se rendendo a razão do irmão.
Erlan sorriu de canto. Dançando os olhos parodiando a expressão da irmã quando olhou para o Harata, exacerbando que ela parecia encantada.
Ariel jogou um casaco no irmão e sorriu sem graça.
Erlan pegou o casaco e colocou de lado como se fosse ficar sério, e depois voltou a parodiar uma expressão exagerada de encantamento imitando a irmã.
— Perderei outra irmã para os estrangeiros. Sina da minha vida.
Erlan pegou o casaco que ela tinha jogado e jogou nela de volta.
Ariel e Erlan riram por um tempo. Um riso que vinha do fundo, guardado por longos anos de sofrimento na Trifronteira. Ali, naquela lugar feio e sombrio, eles tinham comida e bebida de qualidade, instalações confortáveis, e não estavam contando seriais míseros na fim do dia para assegurar um teto pela noite.
— Será que é aqui, agora, irmão. Vamos finalmente descansar.
O irmão não respondeu, apenas encorajou a irmã com gestos para quarto, para as coisas. Aquele momento era um momento, o futuro parecia prometer, mas ainda era só isso, uma promessa.
Ariel sentou-se no Ta'khame em posição para meditar e repousar enquanto Erlan preferiu pensar olhando pela janela.
Dos olhos de Ariel, uma lágrima solitária traçou uma linha brilhante na sua pele, marcando um traço que descia como uma lembrança. Dormir com a segurança de que ali estaria segura, não porque estava preparada para lutar ou para fugir, mas porque estava em um lugar seguro.
Erlan observou em silêncio. Talvez a irmã feliz valesse mais a pena do que ter razão sobre os Harata. Talvez fosse melhor que ela não fosse decepcionada, não ainda.