Nos mares do sul, um efeito interessante acontece pela peculiar geografia de Ealetra. Os dois continentes, Purvatara e Pasvara, ficam quase totalmente acima da linha equalizadora, que passa no sul de Sangamá em Pasvara, no Ocidente, no Sul do Beru, em Purvatara, no Oriente.
Completamente abaixo da linha estão apenas as chamadas Ilhas Livres, Magenta e Suyantara.
O livre fluxo do Mar do Sul, recebendo a água já enxurrada do Mar Estreito, e vindo de uma sobra do vasto oceano que separa o Leste do Continente Leste e o Oeste do Continente Oeste, o resultado é que os Mares do Sul são impiedosos, tempestivos, turbulentos e com águas pesadas. Ao bater na 'ponta de Purvatara', ele cria um recuo que aprisiona barcos, correntes e clima. O resultado, Jangunaray, a terra perpetuamente nublada, enevoada, em cuja flora, se é que se pode chamar disso, é quase completamente fungal.
Rentaniel, em sua fuga para o Sul não iria conseguir utilizar um barco pequeno, discreto. Ele teria que viajar em um barco potente. Sem acesso à frota da Fáscia, ele teve que render-se aos esquemas de traficantes do sul para chegar ao porto, na Cidade do Porto, em Jangunaray.
Era fácil chegar lá, pois todas as correntes levam para ali nos mares costais do sul. A questão era ele ir pelo Mar Estreito dali. Contra o fluxo do Mar do Sul, aberto, indo para o Leste, e do Mar Estreito, correntes sul, sendo que ele queria chegar ao Norte, em Khadija, extremo norte de Pasvara.
O porto comercial Anoa, de médio porte, grande o suficiente para barcaças, mas não grande o suficiente para proezas comerciais, era oculto o suficiente para suas maquinações, mas não permissivo o suficiente para sua falta de habilidade. O barco chegando denunciava a pressa e falta de prática de seu piloto, anunciando em sopros de turbina a identidade do infeliz.
Os habitantes das Terras Baixas são em grande parte um povo comerciante que não lida com violência. Não são fisicamente imponentes como os Onatra ou ágeis como os Harata, então seu poder está no subterfúgio, nos venenos e nos acordos de bastidores. Eles nunca se envolvem em grandes manobras geopolíticas, apenas fornecem as ferramentas para isso, mas são protegidos pela Fáscia e pela horda Marata.
Os Marata, um grupo conservado no tempo, dos nômades da Caatinga se separaram há milênios. São os Marata conhecidos por seu reinado implacável sobre seu território e seu interesse em combate pelo combate. Para a maioria de Ealetra são apenas Beruanos selvagens e exóticos, insignificantes para todos, exceto para os Harata e os Anoa.
O porto que Rentaniel decidiu conduzir seus planos era o mais afastado Jangunaray, quase fora das rotas todas. Vantagem por um lado, desvantagem por muitos outros. Não que Rentaniel soubesse ou se importasse com detalhes.
Para evitar a estupides que o Urbani iria fazer, os Harata lidavam com o poder de perto. Ricos, pobres, influentes, anônimos, mercadores, empregados, velhos, jovens, todos sabiam do crime, da violência, a política e das verdades do mundo. Urbani, sua nobreza era criada em domos de luxo e ilusão.
Ali onde estava aquele porto, era terra de maioria Aborada, os nativos da terra que foi dominada pelos Anoa. Em Jangunaray, os Aborada eram elites extrativistas e senhores dos interiores, enquanto os Anoa dominavam as cidades.
Rentaniel desembargou na beira do cais, sua postura rígida, a impaciência fervendo logo abaixo de sua fachada cuidadosamente composta. As tábuas gastas sob seus pés rangiam em protesto enquanto ele mudava de peso, sua madeira escurecida se fundia com o solo argiloso marrom, e o céu sem estrelas em que a lua apenas se mostrava quando seu ciclo mais alto tornava sua luz mais forte que o perpétuo nublado do céu.
O marinheiro diante dele era uma sombra de homem, uma daquelas figuras que vivem nas bordas da civilização, nunca pertencendo verdadeiramente ao grupo civilizado, mas meramente existindo nos espaços intermediários. Sua voz era rouca, baixa, pesada com a neutralidade cuidadosa de alguém que aprendera há muito tempo a não fazer perguntas. Suas falas eram uma sequência de fatos como uma central de inteligência.
Esperamos. O governo está conduzindo patrulhas neste porto. — O homem cinza como todo o Aborada falou com a voz cinza condizente.
Rentaniel zombou, balançando a cabeça, a própria noção ofensiva a seus ouvidos.
— Jangunaray trabalha para os Urbani. Para mim! — Rentaniel exclamou, com petulância.
O marinheiro não vacilou com a arrogância, apenas inclinando a cabeça ligeiramente, como se tolerasse os delírios de uma criança.
— Estamos longe da Fáscia, e longe da Cidade do Porto. Melhor não forçar a sorte. — O homem disse sem se importar muito.
— Assim que eu chegar ao Reino, os Senadores saberão disso. — O Urbani seguia praguejando, mais pelo orgulho ferido.
O Aborada não dignificou com uma resposta. Seu trabalho ali era simplesmente seguir ordens, de quem fosse. Pouco importava onde e como elas eram definidas.
O marinheiro aponto para um barco que era praticamente uma produção impressa de resina e metal em um monobloco com o formato flutuante, e uma turbina simples de carbóleo. Era silenciosa e simples, servindo para a noção que Rentaniel tinha de subterfúgio, mas até o Aborada ali sabia que ela nunca chegaria a Khadija. Teria sorte se saísse do litoral de Jangunaray.
O marinheiro olhou de volta para o cais. Um pálido Anoa em roupas escuras apenas sinalizou que estava tudo liberado. Era um auditor do governo. Sua presença garantia que os locais não se importariam com os próximos acontecimentos sob sua vigilância. O balanço, no que lhe dizia respeito, estava fechado.
A comitiva de Rentaniel moveu-se rapidamente, sua presença uma estranheza neste lugar onde a nobreza era um conceito estrangeiro. A urgência de seus passos os traía, propositais demais, antinaturais demais para um porto acostumado a um perigo mais lento e preguiçoso. Eles não notaram como o movimento nas docas havia mudado, como o caos começara a se concentrar, como o aleatório se tornara deliberado.
Quando sentiram a armadilha, ela já havia sido acionada.
Da periferia, do abrigo de caixotes e dos recessos ocos das barracas de mercado, eles emergiram. Silvani, Harata, Onatra, altos e baixos, cabelos claros e escuros, unidos não por parentesco, etnia ou cultura, mas por um propósito singular.
Os guardas reais nem tiveram tempo para preparar seus eficientes armamentos para um combate. Os piratas, acostumados à emboscadas na noite já tinham a memória muscular de engatilhar seus revolveres forjados em simples pilhas de pedra e carvão, formados pela batida do martelo e folgados em sua montagem.
A diferença era que as armas simples e imprecisas dos piratas atiravam cheias de terra, molhadas, sujas de óleo, quentes, frias, danificadas levemente, ou mesmo depois de atingidas por tiros. As Armas dos Urbani eram feitas para combate organizado e movimentos militares, não para a guerrilha.
Rentaniel por outro lado tinha outro reflexo. Nobre Urbani, ele correu para longe da violência, enquanto seus guardas 'bravamente' davam suas vidas por ele. O que não demorou muito, dado que os guardas realmente habilidosos já o abandonaram quando sua mãe suspendeu seu contingente de nobre.
Mesmo assim, ele não foi rápido o suficiente. Ele sentiu primeiro o toque eletrizante característico de armas que conhecia bem, algemas de contenção, empunhadas por mãos enluvadas em dissipadores de corrente, por um Silvani.
Uma sombra se destacou do caos, mais rápida que as outras, movendo-se com a graça sobrenatural que não apenas corria, mas plantava sua forma em cada passo que dava. Rentaniel mal percebeu o movimento antes de ser agarrado, um aperto de ferro travando em seu pescoço, com um aperto que suprimiu o controle sobre suas extremidades.
Um brilho de prata quando suas pequenas armas foram lançadas para as figuras que o cercavam, e suas posses de valor rapidamente distribuídas, com o devido tributo separado ao Aborada e seu ajudantes que ali o receberam.
Ele lutou, mas a força contra ele não cedeu, não vacilou. Apenas quando o capuz foi puxado para trás, ele congelou.
A pele fosca, cor de areia, e aqueles olhos, aqueles grandes olhos verdes cerosos, indiferentes à exibição de arrogância Urbani, intocados pelo medo que deveria estar ali. Eles o encararam não com raiva, não com satisfação triunfante, mas com algo pior. Desdém.
Ao contrário dos outros Silvani ali, aquele era de uma cepa antiga. Ele era ainda intocado pela civilidade que Tirayon clamava para si na modernidade. Ele era rústico, a pele grossa, escura, um tipo de Silvani que vivia há gerações já nos mares do sul, desde antes de os Urbani sequer existirem. Acadêmicos Urbani sabia da existência deles, mas consideravam raros demais para ser uma etnia Silvani. Ao invés, os chamavam de selvagens, como Rentaniel acreditava todo Silvani ser.
O Urbani concluiu rapidamente que perto de um Silvani realmente selvagem, Tirayon era um poço de civilização.
Uma respiração lenta, medida, escapou dos lábios do Silvani. E então, em uma voz que só som lixava os sentidos do nobre Urbani se pronunciou.
— Sente-se, pequeno rei.
Rentaniel não se moveu.
Os dedos em volta de seu pulso apertaram o suficiente para lembrá-lo de que não tinha escolha.
O Silvani se inclinou, a voz mais baixa agora, não uma ameaça, mas uma verdade simples e inabalável.
— Viver para você é uma escolha. Como dizem os locais: Que a sua vida valha mais que sua morte.
Rentaniel engoliu em seco. E, pela primeira vez em sua vida, ele obedeceu.
Não havia necessidade de conter Rentaniel. Vinte homens, entre os quais três guerreiros Sangamani que provavelmente poderiam enfiar seu rosto em seu crânio com as mãos nuas, e um Silvani que poderia mostrar seus olhos um ao outro antes que ele perdesse a visão. Isso não terminaria bem, não da maneira que ele planejou.
Rentaniel viu quando o que parecia ser o líder jogou um bloco serial para o guarda Urbani que o acompanhou, mas sobreviveu. Quando Rentaniel o encarou, o guarda simplesmente acenou em despedida. Enquanto o guarda se afastava, imperturbável, ele pôde perceber que era uma mulher Urbani, exageradamente exuberante em sua saída, provavelmente sabendo que era observada.
Os piratas ali observaram a saída da Urbani.
— Jezabella é uma joia rara do seu povo, reizinho. Se afogue naquela figura. Será a última bela Urbani que verá, provavelmente. — Disse o Silvani Selvagem rindo-se.
Rentaniel ponderou seu erro. Todos os seus guardas eram Urbani, e ele estava tão consumido por sua soberba que assumiu a identidade étnica como uma segurança em si mesma.
Enquanto navegavam para o oeste sob a cobertura da escuridão, o Urbani ponderou seu destino. O que quer que fosse acontecer, ele era necessário vivo. Não havia nada mais que explicava sua preservação. Ele já havia sido extirpado de tudo de valor que tinha, até suas roupas mais externas.
Pela primeira vez, ele teve um vislumbre de consciência emocional normal e pensou no fato de que, se Valaravas não tivesse levado sua filha, ela estaria ali, com ele, e arrastada para essa situação, quisesse ela ou não.
Um leve sorriso dançou em seus lábios, e um pensamento fugaz veio à sua mente: Harata nunca mente. A palavra Harata é permanente.
Valaravas uma vez lhe prometeu cuidar de sua filha, incondicionalmente, mas ele nunca pediu ao Harata para cuidar dele, tão orgulhoso estava de que era ele quem cuidava do Harata.
Haveria muita reflexão para Rentaniel, já que o destino, Suyantara, ficava a um dia de viagem dali naquele barco, que nem mesmo qualquer motor tinha. Era movido por baterias mecânicas de roda volante movendo pás de madeira em sua retaguarda. Silencioso, inofensivo, geralmente ignorado pelas patrulhas da Armada.