Jogo de Representação

Os primeiros raios da manhã despertaram o time, com a entrada no sul da Trifronteira, e o aviso de que em alguns momentos estariam chegando à estação. Chegar era já sem cerimônia, apenas propósito. O grupo tinha coisas importantes para buscar na Trifronteira, e Valaravas, assuntos que resolver.
Eles já tinham de tudo que precisavam em equipamento, e a Fáscia seria mais fácil achar tecnologia e conforto do que mesmo a Trifronteira, mas ali eles tinham uma coisa que não iriam achar em lugar algum de Ealetra: Informação.
Eles permaneceriam na Trifronteira durante aqueles dias, e a Estalagem Cântaro Dourado parecia uma escolha adequada. Eles iriam pegar o Verme e atravessar até o Khara, onde tomariam outro trem para a Fáscia.
Ao chegarem, Ariel e Erlan se viram passando por um limiar que nunca lhes fora permitido cruzar antes. Este lado do Cântaro Dourado sempre estivera fora de seu alcance, mas hoje, as portas estavam abertas.
Não era um luxo. Os quartos de Magenta haviam sido mais finos que este. Mas havia algo peculiar em adentrar um conforto que eles sabiam há muito tempo que existia, mas nunca lhes fora dada a oportunidade de desfrutar. Por enquanto, era apenas um lugar para guardar seus pertences e descansar na taverna abaixo.
No bar, Valaravas bateu os nós dos dedos duas vezes na madeira, gesticulando para Zavandras. Um sinal simples. O homem atrás do balcão deu um aceno de cumplicidade.
Tarja seguiu, absorvendo tudo com um escrutínio silencioso. Isso não era nada como o negócio em que ela trabalhara. A Panificadora era uma casa de comércio, respeitável, estruturada. O Cântaro era diferente, um estabelecimento mergulhado em intriga, um covil de trocas sussurradas e intenções veladas. E, no entanto, estranhamente, havia menos violência aqui. Como se uma regra tácita mantivesse o lugar sob controle. Como se todos entendessem o preço de sair da linha.
Ariel e Erlan os seguiram, pairando nas bordas, incertos. O desenrolar dos eventos os deixou confusos, embora contivessem suas perguntas.
Então, enquanto subiam a escadaria, a compreensão surgiu. Eles estavam sendo levados para a varanda superior, o mesmo lugar que eles só haviam vislumbrado do andar térreo, de trás de mesas de madeira baratas, imaginando o dia em que sua sorte lhes concederiam tal privilégio. Na época, parecera inatingível. E, no entanto, hoje, aqui estavam eles.
Uma jovem Harata, de modos naturalmente encantadores, aproximou-se e os guiou até uma mesa ampla na seção com vista externa, um dos dois lugares mais cobiçados de toda a estalagem.
Ela falou com Valaravas com a familiaridade fluida que todos os Harata pareciam compartilhar. Ele trocou algumas palavras silenciosas com ela. Discretamente ele entregou um serial de linhas azuis na mão da garota. Enquanto suas mãos se tocavam, ele disse algo no ouvido dela, e ela assentiu.
Com uma facilidade casual, Valaravas sentou-se ao lado de Nandi, ambos virando o olhar para a vasta extensão da Trifronteira, emoldurada pela varanda ao ar livre.
Pela primeira vez naquele dia, houve um longo momento de silêncio.
Erlan estava curioso para onde a garota iria após aquela troca. Acompanhando-a, literalmente com o canto do olho, Erlan a viu entregar algo, provavelmente o serial, para um Harata corpulento do outro lado do mezanino, onde Harata com muitas joias, e companhias jovens, se regavam de vinho luxuoso, enquanto conversavam com o que parecia ser Aristocracia Urbani.
A garota Harata retornou, movendo-se com graça e leveza, uma delicada jarra de cristal na mão. O recipiente brilhava fracamente sob a luz ambiente, cheio da tonalidade pálida e cremosa de limonada Harata, uma bebida tradicional de leite, frutas cítricas e xarope de cana. Ao lado, ela pousou duas garrafas esguias de vinho Vista Exotica.
Ariel o reconheceu imediatamente. Quando Melica, a prima de Valaravas, lhe presenteara com a experiência de tal indulgência. Isso fora quando ela ainda hesitava, ainda se perguntava se deveria procurar trabalho entre os Harata. Um convite a colocar o tempo em perspectiva.
Nenhuma palavra foi trocada enquanto as bebidas eram servidas. Tarja e os Silvani deixaram o momento assentar, absorvendo a novidade. Para Valaravas e Nandi, não havia nada a comentar, era o familiar, rotineiro em sua elegância. Era muito estranho que Nandi estivesse tão à vontade naquele lugar, naquele momento. Mas de todas as questões na cabeça dos Silvani, essa era uma das últimas na lista.
Nandi pegou sua bebida de limão sem cerimônia, enquanto Valaravas servia o vinho com prática. A paz deles foi quebrada, no entanto, por uma presença indesejada.
Um infiltrador Urbani pairava na beira da entrada daquele espaço reservado, sua expressão tensa de indignação contida. Ele os estivera observando, perturbado pela cena diante dele, dois Silvani, sentados em um lugar que ele mesmo não podia acessar.
— Então eles deixam qualquer um entrar agora? — Zombou o Urbani, sua voz espessa pelo peso de uma bebida fina. — De quem são esses fantoches, para estarem sentadas aqui? E quem, eu me pergunto, pensou que tinha o direito de trazê-los? Valaravas claro, o filho da Mãe Menor do Leste.
Suas palavras se arrastaram apenas ligeiramente, o suficiente para trair a indulgência que havia soltado sua língua.
Valaravas virou-se para ele, a expressão imperturbável, seu tom tão suave e sem esforço como sempre.
— Elmund? — Valaravas ponderou. — Eu quase pensei em responder, mas então percebi que era você, e como de costume, sozinho.
O sorriso de escárnio do Urbani se alargou, bêbado tanto de álcool quanto de sua própria arrogância.
— Valaravas, você tem um talento único para tornar as coisas interessantes. Legado deve vir com privilégios, eu sei, mas escravos pessoais? Essa é nova.
Valaravas colocou a mão na testa, como se massageando o cortex frontal para facilitar a restrição de sua vontade sincera naquele momento.
— Sabe, Elmund, você é um caso raro. Um daqueles que nosso povo chama de peixe. Aquele que morre pela boca.
As palavras atingiram mais forte do que deveriam, mesmo através da embriaguez do Urbani. Seu sorriso vacilou. Ele deu um passo à frente, diminuindo a distância com uma intenção lenta sem medida.
A meio caminho do espaço pessoal de Valaravas, uma presença no uniforme tradicional da Lâmina parou Elmund, segurando seu ombro com facilidade, pressionando os nervos precisos para desarmar sua vantagem de Urbani treinado, e com as luvas eletrizadas que a Lâmina emprega para contenção, desarmando qualquer change que Elmund poderia ter. O karambite embainhado horizontalmente em seu cinto poderia estar entre as costelas de Elmund em menos de um segundo, então o Urbani entendeu sua situação.
— Estamos bem por aqui, Excelência? — A voz doce e harmônica do agente era desprovida de urgência, mas o olhar para Elmund era tudo menos casual.
Valaravas assentiu.
— Sim, meu amigo e eu só estávamos colocando o papo em dia, mas ele estava prestes a se retirar e esgueirar-se para beijar os anéis de Tegravas. Ele tem um afeto muito especial por Harata com dinheiro, não é verdade?
O agente da Lâmina nem sequer assentiu antes de se aproximar ainda mais de Elmund, sua presença agora inequivocamente pesada.
— Vamos então, 'cavalheiro'. Tegravas está bem ali.
Elmund não disse nada. Ele era um daqueles Urbani que esticavam sua autoridade de visitante até que uma presença de posto superior se fizesse conhecida. Naquela noite, alguém o fez.
Com uma relutância rígida, ele virou nos calcanhares, marchando de volta para seu assento sem outra palavra.
Enquanto ele se retirava, o agente da Lâmina fez um gesto sutil em direção a Valaravas, um deslizar discreto de seus dedos pela garganta. Uma pergunta.
Valaravas, sem desviar o olhar, balançou a cabeça negativamente.
O momento se dissolveu, e o agente desapareceu assim como havia chegado, deixando para trás apenas o peso de sua presença.
Erlan e Tarja sentaram-se rígidos, suas mentes ainda lutando para processar o que acabaram de testemunhar. Mas Ariel, ela apenas olhou para sua bebida, os olhos semicerrados, mais entristecida do que chocada.
Cada vez que ela era lembrada do que os Silvani eram aos olhos dos outros, a fina ilusão de dignidade que a vida entre os Harata lhe concedeu parecia exatamente isso, uma ilusão. Um verniz esticado sobre algo podre, algo que ela nunca conseguiria raspar.