Jogo de cartas marcadas

Ao chegar no oeste do Beru, a caravana se dividiu, alguns seguiram para o norte, para a Trifronteira, outros desviaram retornando pelo sul no próprio Beru.
O time porém iria tomar sua própria via.
A transição foi perfeita, uma separação de caminhos praticada, mas carregada de cálculos não ditos. A prática de um povo que vivia em movimento, da logística, da exploração de trilhas e rotas de comércio e indústria.
— Harata — cumprimentou calorosamente o ancião Salahim, segurando os antebraços de seu convidado ilustre. ­— Sempre um prazer. Vida longa, saúde plena. E cuide bem desta sua boneca, ela é uma joia rara, do tipo que não se encontra duas vezes na vida.
Valaravas sorriu, baixando a voz o suficiente para a proximidade daqueles em quem confiava.
— Se você soubesse o quão certo está, velho amigo. — Valaravas riu-se.
O aperto de mãos se intensificou momentaneamente, as mãos pousando nas costas um do outro, um gesto do costume Beruano, apenas para o homens, o reconhecimento não dito de que o respeito por um homem se estendia às suas mulheres.
Exceto por Tarja. Só ela recebeu um aperto de mão, concedido o estranho status de mulher estrangeira forte, uma curiosidade em vez de uma ameaça. Erlan, por outro lado, não recebeu nada. Não porque era Silvani, não, isso poderia ter sido ignorado, mas porque era o boneco de Tarja, e os homens Beruanos não eram livres para interagir com ele se não por ela. Ele não notou a ausência de formalidade a princípio, pensando em ser Silvani, alheio ao divertimento silencioso trocado ao seu redor.
Ariel, no entanto, viu tudo. Ela ficou, observando, imperturbável. Havia algo cativante em seus costumes rígidos, por mais estranhos que fossem. No mínimo, era sincero à sua maneira. Eles não se envergonhavam de exibir sua cultura ali, e inalterados pelo que poderia ser escrutínio alheio. Homens e mulheres Beruanas tinham seus costumes e cultura, e não se viam intrometidos em pregação de valores aos outros, mesmo Silvani. Só pediam o mesmo respeito em troca.
O momento passou, e o grupo do Grêmio continuou sua marcha para a Estalagem do Luar. As notícias viajavam rápido dentro de suas paredes, e quando chegaram, os preparativos já haviam sido feitos. Seus quartos foram designados com a mesma eficiência silenciosa que governara sua jornada até então. Erlan e Tarja se instalaram no térreo, enquanto Nandi, Nushala, Ariel e Valaravas pegaram um quarto maior no andar de cima. Haveria muito a discutir, embora Erlan e Tarja, pela primeira vez, estivessem contentes em permanecer fora das decisões.
Valaravas não perdeu tempo. Ele já começava a distribuir os mensagens importantes, em fluxo pela costa oeste de Purvatara, mudando cada hora, e geralmente não muito precisas.
— Primeiro o mais importante. — Ele entregou o papel para Ariel. — Os dissidentes começaram o cerco à Tirayon. A Armada não vai interferir. Por causa dos acordos da Coragem, e bla bla.
— Eles aprenderam a usar a sinceridade com o Harata. — Ariel riu-se.
A Silvani olhava a mensagem com certo receio, procurando onde abrir. Sua mente agora iluminada com o dom do Conhecimento registrou a forma dos mecanismos, e soube como abrir seu visualizador óptico.
— Sou Silvani da Fáscia, por que isso me importaria especificamente numa mensagem pessoa? — Ela disse mais curiosa com a pequena pecinha do que a mensagem.
Foi uma mudança que não passou despercebida. Os Fáscia haviam reivindicado seu coração, e com isso, o conceito de parentesco se desvanecera em algo abstrato. O povo de Tirayon não era mais seu povo. Os Silvani da Fáscia os substituíram naquela parte. E Tirayon foi quem matou os pais dela. Nem mesmo piedade havia sobrado em Ariel.
Valaravas, impassível, voltou-se para outro assunto.
— Nushala, seu pai está marchando em direção à Fáscia. Sob a guarda de sua vó.
Nushala enrijeceu os braços.
— Como?
Valaravas exalou, serviu-se de uma generosa taça de vinho e afundou em seu assento antes de entregar a próxima revelação.
— A Armada o entregou. Aparentemente eles deram uma volta em Khadija.
Valaravas pegou uma mensagem própria. Olhou-a.
— A Armada tomou controle das Ilhas Livres do Sul. Quando as chamas se apagarem, reivindicaremos o que restar. Nós ou os Anoa, o que significa na prática eles trabalhando para nós.
Houve silêncio.
Então, como se fosse um mero pensamento posterior, ele continuou.
— Melica usou seu nome novamente, minha leoa.
— Como? — Ariel indagou.
— Ela arrumou duas Silvani querendo fugir de Tirayon, importantes para serem notadas, nem tanto para fazerem falta.
Ariel pegou a taça de vinho das mãos dele, bebendo-a avidamente.
— E o que supostamente eu quero com elas? — Ariel riu-se.
— Podemos enviá-las para a Fáscia, deixá-las na Trifronteira, entregá-las aos anarquistas, se você acha que deve. A decisão é sua 'Grande Mãe'.
Valaravas disse tocando o nariz de Ariel levemente. Seus olhares trocados em brilho silencioso de sua nova liberdade após todo o tempo de contenção comportamental na caravana.
Nushala estava à ponto de explodir. Ela bateu uma palma como pra chamar atenção, e sua expressão era consternada.
— Eu não consigo levar isso de boa. — A voz da menina era aguda.
— O quê, Lala? — Valaravas disse casualmente.
— Meu pai foi tratado da maneira que foi por uma razão. Eu até entendo por que a Armada está deixando Tirayon queimar. — Sua respiração falhou ligeiramente, mas ela continuou. — Mas falar de Silvani e Urbani desta forma? Tão casualmente? Como se não fossem mais do que peças num tabuleiro?
— Diga o que quer dizer, princesa. Deite a sua verdade. Mas lembre-se: Palavra dada não volta. — Valaravas estava sério. — Essa é uma família Harata, e você sabe as regras: Harata nunca mente, a palavra Harata é permanente.
Nushala considerou as palavras, mas sua indignação era maior que qualquer lição Harata.
— Deixar Tirayon queimar é uma coisa, eles mesmos causaram isso. Mas vocês... — Ela gesticulou entre ele e Ariel. — de beijinhos enquanto decidem o destino das pessoas? É isso que estavam fazendo quando decidiram o meu destino? Quando discutiram o que aconteceria comigo?"
Valaravas sorriu.
— Nós não tínhamos a intimidade assim quando lidamos com seu pai. — Valaravas disse rindo-se.
Ele olhou para Ariel, eles tombaram a cabeça um pouco, olharam, mexendo a cabeça e o rosto em uma conversa sem palavras, e então assentiram um pro outro.
— Mas nós nos beijamos em algum momento durante a fuga do seu pai, com certeza. — Valaravas acrescentou mais sério.
Ariel bateu em seu braço de brincadeira.
— Pare. Isso é sério. — Ariel disse sorrindo. — Nosso beijo claro. A queda do pai dela foi patética.
Ariel se virou para Nushala, sua expressão esfriando, aguçando-se.
— Escute, o mundo é maior que você, eu, ou Valaravas, e mesmo seu pai, embora ele insistisse que não. Não podemos parar de viver, e nos entregar ao desespero e depressão cada coisa que acontece. Sobrevivência não é emocional.
Ariel tomou um gole de seu vinho, e prosseguiu.
— Você viveu sua via e o mais que sofreu vendo uma violência foi há umas semanas, uma que nem mesmo chegou em você. Eu vivi a minha vida, desviando de balas, passando fome e frio por vezes, e gente como seu pai, e provavelmente você, iriam falar de mim em jantares e conversas casuais.
Ariel levantou o dedo, com uma cara séria.
— Não tente dar lições de moral em mim, garotinha.
Ariel voltou ao lado de Valaravas.
— Exagerei, não? Melhor com mais sorriso? Menos gestos? — Ela murmurou sorrindo.
Valaravas tombou a cabeça, como avaliando, deu um sorriso, um beijo leve nos lábios dela.
— Vejamos o resultado. — Murmurou o Harata.
Nushala inspirou lentamente, recompondo-se.
— Tá. certo. E o que acontece agora? Com meu pai? Com essas refugiadas? — Nushala disse mudando tom.
Valaravas passou os dedos distraidamente pelo cabelo de Ariel.
— Seu pai será entregue à sua Avó. E só ela sabe o que acontece a partir daí. — Ele se ajeitou, ficando confortável. — As refugiadas, no entanto, são problema de Ariel. Se você está preocupada, converse com ela. O que ela decidir, é o que eu assinarei em baixo. Se te preocupa Lala, apresente seu argumento pra ela.
Ariel ergueu uma sobrancelha.
— Eu? Como?
Nushala, estranhamente, foi quem respondeu.
— É um jogo de poder.
Ariel inclinou a cabeça.
— Como assim?
— Meu pai não tem ninguém. E ninguém segue um homem sem aliados. Ninguém confia em um homem que ninguém segue.
Valaravas sorriu com aprovação.
— Agora sim essa é minha Lala.
Ariel considerou as peças em jogo, o peso daquilo, e suspirou.
— Então eu devo ajudá-las, para que os Silvani em outros lugares as vejam salvas, e, ao fazer isso, confiem em mim?"
— Eu acho que agora é Nushala que tem umas coisas pra te dizer, minha Leoa. O tempo que você levou pra concluir isso. — Valaravas alfinetou.
Do outro lado da sala, Nandi, silenciosa até agora, espreguiçou-se, afundando na cadeira com um murmúrio divertido.
Nushala hesitou antes de se sentar ao lado de Nandi, descansando a cabeça no colo dela. Ela lutara muito para conquistar um lugar nesta teia emaranhada e, no entanto, ainda estava aprendendo suas regras.
Valaravas soltou um suspiro satisfeito, observando a noite pela janela.
— Descansamos esta noite. Os ventos da mudança estão sendo particularmente cruéis com as costas ocidentais.
Ariel o beijou rapidamente antes de se levantar.
— Onde elas estão? As refugiadas Silvani?
— No Cântaro. — disse Valaravas. — Terão comida e abrigo até você decidir o que fazer com elas.
Ariel considerou por um momento, depois permitiu-se um sorriso lento.
— Então talvez elas sirvam como nossas agentes. Um rosto Silvani para a política Harata.
A risada de Valaravas era rica e indulgente, o som de um homem que segurava o mundo em suas mãos e o achava infinitamente divertido. Ele puxou Ariel para si, seu aperto firme, mas preguiçoso, como se não tivesse intenção de jamais soltá-la.
— E é por isso — ele murmurou na curva da orelha dela — que eu confio a decisão à você, minha leoa. Sei que sabe o que fazer.
Ariel exalou pelo nariz, não exatamente sorrindo, mas quase. Ela se inclinou para ele o suficiente para reconhecer a afirmação, seus dedos traçando ociosamente a borda da taça dele antes de tomá-la de sua mão. Ela bebeu o vinho como se sempre tivesse pertencido a ela.
No outro sofá, Nushala soltou um suspiro que carregava a mais leve ponta de exasperação.
— E quanto a mim? ­— perguntou ela, sua voz cuidadosamente equilibrada.
Nandi, que observara toda a troca com o divertimento paciente arrumando o cabelo da menina Urbani com um carinho que traía seus pensamentos.
Ela se inclinou, seus lábios roçando a orelha de Nushala enquanto sussurrava.
— Temos ainda algumas coisas pra resolver, pequena leoa.
Por uma fração de segundo, Nushala não respirou.
Então, ela soltou uma expiração lenta, do tipo que se libera quando se está preso em um momento que não se esperava, mas que não se está disposto a quebrar.
Enquanto a vida seguida para eles, ainda isolados dos problemas, mesmo próximos do combate, o resto de Ealetra não parava por isso.
O cerco a Tirayon se tornara uma inevitabilidade lenta e desgastante. Cortados de reforços após a devastação total da frota pirata das Ilhas Livres, os anarquistas se viram presos em uma guerra de atrito, seu ímpeto inicial paralisado. Seus números haviam diminuído, espalhados demais entre manter o terreno conquistado e lançar novos ataques. Cada rua tomada era uma rua que tinham que guarnecer. Cada posto avançado conquistado era um dreno em suas forças minguantes. E além deles, no Vale do Silício, seus supostos aliados nada podiam fazer a não ser observar, incapazes de romper a Trifronteira, uma linha artificial traçada há muito tempo precisamente para impedir tal violação.
No entanto, apesar de toda a luta, os defensores Silvani de Tirayon não se saíam melhor. Eram fantasmas de seu antigo poder, um reino exaurido por sua última guerra, suas legiões outrora orgulhosas reduzidas a guarnições dispersas e guardas da cidade. Os que sobreviveram à ira da Armada na Grande Guerra, o fizeram ao custo de seu próprio futuro, sua força gasta em uma guerra que nunca iriam vencer.
Agora, não era uma nova guerra. Tirayon não tinha nem os números nem os meios para recuperar o que estava escapando de suas mãos. Suas defesas, embora robustas, estavam desmoronando, não sob o peso de táticas superiores, mas de pura exaustão. A batalha não estava sendo perdida no campo, mas na própria passagem do tempo.
E o tempo, como sempre, não estava do lado deles.
A queda viria. Fosse em semanas ou meses, era inevitável. E quando as últimas fortificações fossem rompidas, quando as últimas bombas fossem jogadas, os anarquistas não trariam governança ou ordem.
Os piratas, anarquistas e oportunistas na própria Tirayon se fortaleciam. Seu número aumentava pelo recrutamento de Silvani, que viam em seu povo nada mais que oportunismo.
Com as ilhas livres agora livres deles, Tirayon iria ser seu novo antro. Trariam o massacre. Aqueles que lutaram seriam passados à espada. Aqueles que não lutaram sofreriam destinos muito piores. Tirayon, aquele último bastião de desafio, seria reduzida a cinzas.