Barisi e Karak tomaram a frente no carro, enquanto Malek e Lateral ajudavam Raila e Carcará a se recuperar. No caminho, Barisi descreveu por onde os jovens Harata que haviam levado a carga retornaram.
— Então, eles são de Angaraya? Conseguiu ver? — Karak perguntou à Barisi procurando registros em seu ponto pessoal.
— Não sei dizer, mas na vila, falaram sobre Ravantes apenas. — Barisi disse confuso. — Como saberia? Não podem ser dos dois?
Karak riu-se, coçando a testa.
— Harata pode fazer negócios ou tratos com qualquer Barão, mas garantias e seu voto, só para um. Ao registrar sob outro, ele perde o elo com o anterior e todas as garantias que tinha. — Karak explicou observando o caminho.
— Temos que levá-los para a Sutay, com a carga. Temos mais suprimentos à bordo. — Malek disse verificando as caixas.
Ao chegarem no porto, Sajó estava esperando, com a Sutay atracada no ponto de cargas.
Ao chegarem, Malek e Lateral estavam carregando Raila e Carcará para a Sutay.
— O que houve? — Sajó perguntou.
— Nada, apenas cansaço. Barisi, embarque com Sajó e os outros, coloquem as caixas no compartimento de carga. Eu vou entregar o carro para o pessoal da Armada. — Karak falou já retornando para o veículo.
Ao retornar à base da Armada perto do porto sul de Onachinia, uma oficial da Armada o esperava.
— Senhor Karak. Entendo que é o Capitão da Sutay. Nosso comando foi encarregado de entregar uma contribuição para o esforço de cooperação. — A mulher disse com a formalidade comum de sua corporação.
Ela sinalizou para que a seguisse, sem muito espaço para perguntas.
Quando chegaram no patio, ela entregou um serial para o Harata.
— Entendemos que haverá mais planos do seu grupo em nossas terras. Oferecemos este transporte estratégico como contribuição da Armada. Registre-o por favor, para que possamos prosseguir.
Ao conectar o serial com o seu ponto pessoal, um app apareceu para controlar o veículo. O registro em seu nome sob um contrato inteligente em UMRV. Seu orçamento estava já apto a receber contribuições, ao que parecia.
— É uma versão simplificado do nosso transporte multitarefa para todo terro. Motor 4.2L Carbóleo, duas baterias. 175 cv, 450Nm. Sabe o que significa não? — A major perguntou com uma cara cínica.
— Sei. Compacto forte, feito para ser leve, mas com puxada. Vejo que é tração total. Ele tem a liberação já pronta? Podemos levar na Sutay e utilizar em outros locais? — Karak perguntou observando o veículo.
— Qualquer lugar da Aliança do Leste, outras jurisdições, não podemos garantir.
— Peso?
— A plataforma suporta um peso veicular total de 9 mil quilos, o peso da plataforma é 3 mil quilos aproximadamente.
— Alguma instrução a mais? Observação? — Karak perguntou já rumando para o veículo.
— Só lembre-se de que essa é uma cortesia do General Gromov. Poderá ser uma informação útil também. — A oficial disse, retirando-se.
Karak retornou à Sutay, colocando o veículo no compartimento de carga da embarcação. Sajó e Barisi observando com olhares curiosos.
Eles partiram do porto, carregando as caixas de carga que eram destinadas aos Silvani, e ali esperariam outras instruções.
Ao subirem para a cabine, Karak e Malek agora eram os únicos. Lateral estava abaixo cuidando da sala de máquinas com Barisi, enquanto Raila e Carcará descansavam.
Sajó terminava os últimos ajustes antes de partirem.
— Sua gente está complicando as coisas. — Sajó resmungou entrando na cabine.
— Eu concordaria com isso no meu tempo de pirataria, Sajó. — Karak retrucou sorrindo.
— Temos que investigar a carga, uma vez fora dos olhos que entopem esse porto. — Malek interrompeu.
Tudo pronto e a Sutay tinha um destino próximo, a gira fora da costa norte de Onachinia. Um lugar onde as correntes cercanas permitem que embarcações fiquem estacionárias com mais facilidade. Normalmente usadas como filas de portos, ou ponto de vigia.
— Sajó tem razão, nosso povo está procurando problemas onde não tem. — Malek disse observando o horizonte.
— Você me seguiu quando abandonamos o Consórcio, meu amigo. Eu sou grato por isso. Mas os meus motivos nunca foram os seus. — Karak disse aproximando-se do companheiro.
— E que motivo foi esse, Harata? — Sajó perguntou intrigado.
— Nosso povo poder ser unido, a ponto de tomar armas junto com seus adversários Harata contra outros, mesmo seus supostos aliados. Isso não significa que sejamos todos unidos em muito mais que violência. — Karak disse projetando a voz para Sajó no outro lado da sala.
— Deixamos os acadêmicos e generais criarem um história para nosso povo, e confirmamos o que muitos dizem, mas nosso povo, muitas coisas não sabemos, e muitas coisas sabemos não ser verdade. — Malek adicionou.
— Blá blá blá. Qual foi esse motivo? — Sajó desdenhou.
— Os Harata antigos eram piratas, navegadores, comerciantes. Muitos Harata modernos seguem os outros povos como se tivessem algo que precisamos. Eu desisti de servir como ferramenta dos outros. — Karak disse fechando a mão em um punho discretamente.
— A maioria dos 'outros' se acha ferramenta na mão dos Harata. — Sajó retrucou.
— Eu não disse outros povos, eu disse outros. Não são só os outros povos que se sentem assim. Muitos de nós se sentem ferramentas nas mãos de outros Harata. — Karak retrucou.
— Como Ravantes por exemplo? — Sajó disse com tom irônico.
— Existe uma diferença entre obrigação e dever. Eu não sou obrigado a seguir as ordens de Ravantes. Eu tenho o dever de cumprir minhas missões, que são o caminho que escolhi. — Karak respondeu com um sorriso malicioso.
— Na balança, um quilo de pão, um quilo de chumbo. — Sajó retrucou. — Meu povo conhece bem sua história. A nossa tomou um desvio por causa dela.
— Os Harata que foram para as terras baixas são como os Silvani que foram para Pasvara. Eles estavam fugindo do que não gostavam, tanto quanto os Urbani. — Karak disse virando-se para Sajó. — Eles já não eram Harata antes de virarem Anoa.
— Então você também não se considera Harata? Também se rebelou. — Sajó disse com tom de xeque-mate.
— Eu não me rebelei contra a cultura do meu povo. Eu me rebelei contra o Consórcio. Nunca perdi minha ligação com meu povo. — Karak disse voltando-se para o horizonte. — E até me tornar do distrito de Ravantes, meu voto era de Garoana. Sempre soube quem ela era.
— Se ao menos ela não buscasse os antigos essa visão demente. — Malek adicionou.
— Os Urbani de Khadija. Eles deram a Garoana uma impressão de poder que fez muito mal à sua cabeça. — Karak ponderou. — Eles fizeram parecer fácil, dando terras, tecnologia, organização. Ela ficou complacente, mas Ravantes e Tegravas são como os piratas e mercadores de antes.
— Naburia nunca teve ajuda dos Urbani, e tem a mesma visão. — Malek retrucou.
Karak, com o reflexo de seu tempo na Lâmina automaticamente sentiu aquelas palavras como um golpe de vento atrás da orelha.
— Naburia é um assunto para outro momento. — O capitão disse com um tom severo.
— Vejo que o controle ainda tem poder. — Malek riu-se.
— As paredes tem ouvidos. — Karak disse em Harata.
— Ouvidor Harata. — Malek retrucou.
— Nem todos, meu amigo, nem todos. — Karak respondeu dando tapinhas leves no console de comando em que apoiava-se.
— Nhé. Todo mundo conhece Naburia. A Harata que paga por tranqueiras em Jangunaray. Não a vemos, mas é dela o dinheiro que paga muitos pescadores e escavadores. — Sajó disse casualmente.
— Ravantes sabe disso? Não diz nada? — Karak questionou curioso.
— Ravantes é quem indica os contratos pros Somnikan. Família, amigos, vi muito ganhar dinheiro buscando as tranqueiras pra ela. — Sajó disse surpreso com o interesse.
Karak e Malek se entreolharam, como se uma ideia se formasse entre suas mentes, procurando consenso.