Um dia inteiro se passou e os membros do time estavam acordando como se fossem meras horas depois de serem resgatados. Apesar disso, Valaravas e Nandi sabiam o que havia acontecido.
No residencial, eles estavam já entregues em seus quartos, os Silvani colocados junto com os outros, como já tinham definido que prefeririam. Eles estavam recuperados fisicamente, mas o impacto psicológico ainda perdurava nos Silvani e em Tarja.
Ao saírem para a área comum, um a um, eles se reencontraram e a aparente indiferença de Valaravas e Nandi adicionava à confusão dos outros.
— O que foi aquilo? — Tarja perguntou, nitidamente abalada. — O que aconteceu. Foi algo na fumaça, era algum tipo de alucinação. Como vocês fizeram aquilo?
— Ele usou a 'caminhada' não foi? — Ariel chegou já cruzando os braços.
— Caminhada 'caminhada' ? — Tarja estava ainda mais confusa.
— Sim, Ariel. Qachruna não é a única forma de fazer a caminhada. E o efeito do Vale vem de um fungo encontrado ali. A planta Qachruna é diferente. O fungo é mais agressivo. — Valaravas explicou.
— E por que vocês dois podiam agir e nós não? — Erlan perguntou.
— Harata, e Sangamani, tem a cultura do Qachruna. A caminhada nos leva para o mesmo lugar, o 'Umbral', um espaço entre vida e morte. Ali você precisa saber como controlar seu corpo espectral, vocês não sabem. — Valaravas explicou com certa gravidade.
— Deveríamos aprender! — Tarja exclamou.
— É isso que você fez com Ayla? Que vocês fazem com os Urbani? — Ariel questionou com ar de indignação.
— Não esperávamos enfrentar um Varta aqui. Vamos falar sobre isso, mas esperava chegar na Fáscia pelo menos. É melhor que alguém com experiência explique. — Valaravas estava realmente com algo pressionando. — Eu sei que vocês tem muitas perguntas, claro. Mas esse não é o momento. Algo muito mais importante precisamos resolver.
Os outros, já abertos a esperar, pois Harata nunca mente, decidiram seguir o fluxo e verificar que assuntos eram aqueles.
Quando chegaram à entrada, Valaravas e Nandi se entreolharam. Algo os deixou mais sérios do que geralmente estavam. Os outros, apenas seguiram, se não era para fazer perguntas ainda, não era para fazer perguntas ainda.
Valaravas e Nandi seguiram andando na direção de um grupo que estava reunido à porta do espaço Urbani do Zhefaq. Diversos Laceradores Urbani, diversos Falange da Armada, e um Urbani em especial chamava atenção entre todos: Rentaniel de Seldanar.
Valaravas fez um pequeno sinal com as mãos por suas costas, enquanto chegava-se como sempre, como se ali pertencera.
— Mas é claro que você apareceria agora, irmão. — Seu tom divertido, embora por baixo houvesse alguma proteção. — Sua fascinação por esse lugar beira a obsessão, sabia?
— Conhecimento é poder, nohim. — Rentaniel imitou o tom descontraído, mas cheio de subtexto.
Nohim, uma palavra antiga Silvani, e claro, Urbani, que significa irmão, mas não de sangue. Irmão de luta, irmão de conquista. Irmãos em experiência.
Rentaniel se aproximou com a graça natural de alguém acostumado a se mover por espaços onde não era esperado nem negado. Ele se acomodou fazendo daquele átrio uma sala de reuniões improvisada.
— Embora eu preciso admitir, meu interesse não é apenas estratégico, mas também filosófico.
Os olhos moldados pela mesma ancestralidade Silvani se encontraram quando Rentaniel encarou Ariel e Erlan. Os contatos duraram mais do que o suficiente para serem incômodos, em ambos os lados.
— Eu não acreditei quando me contaram. — Rentaniel parecia genuinamente surpreso. — É ela? Disseram uma de nós, pensei que se referiam a Syvis. Ela anda contigo, nohim, não é verdade?
Para a Armada, Silvani, Urbani, Fascia, Khadija, só distinguem-se em protocolo e necessidade. Quando não, eles são confundidos as vezes pela mera demonstração de descaso.
Próximos o suficiente, Rentaniel e Valaravas trocaram cumprimentos e sorrisos, com a certeza de que eram homens que mesmo de etnias, lados e experiências diferentes, compartilharam experiências em que ambos eram apenas isso, dois homens contra algo, ou alguém. É o tipo de experiência que une, e transcende barreiras ideológicas.
— Dizem que vocês abateram um Varta. — Rentaniel recostou-se pedindo espaço aos seus guardas. — Uma oportunidade rara, mesmo que o espécime tenha sido deixado em condições, como diria, 'pouco aproveitáveis'.
— Não havia nada de diferente nele? — Valaravas questionou surpreso.
— Nada que fosse relevante. Apenas uma carcaça peculiar de um ser que deveria ter ficado no passado. — Rentaniel disse sinceramente.
— Irmão? Valaravas? Como? — Erlan perguntou em Silvani, certo que Rentaniel saberia.
— Ótima pergunta. — Ariel decidiu entrar no assunto.
Tarja estava meramente entretida com aquela troca que poderia ignorar. Ela não sabia o que estava passando, e também não interessava, pelas caras. Deveria ser algum barraco daquele povo.
Rentaniel olhou para os Silvani e estendeu as mãos como se para Valaravas responder.
— Ele não ... — Ariel começou a falar em Silvani.
— Nohim, Irmão. Já tivemos nossa época. Ele é irmão de Ayla, naturalmente nossas vidas intercalavam. Ela é irmão dela. A mãe dele tem muita consideração por mim. irmãos. — Valaravas disse em Silvani, com o sotaque peculiar dos Urbani.
— Você fala Silvani? — Erlan estranhou.
— Eu nunca disse que não, e vocês nunca perguntaram. — Valaravas respondeu, com um certo tom brincalhão.
— Isso fica pra depois, Harata. Mas então ele é o irmão de Ayla. — Ariel ponderou.
Rentaniel cortou aquela tensão com uma voz animada como até o momento não tinha tido.
— Nandi, você está ótima. Claro que como estava lá quando nos conhecemos era nada bom, mas você se recuperou bem. Ainda mantendo esse safado na linha? — Rentaniel estava genuinamente alegre em vê-la.
Ariel permanecera nas bordas, observando. Medindo.
Valaravas, sempre à vontade, deixou a troca se desenrolar antes de finalmente exalar em algo próximo da satisfação.
— Nandi é pra sempre, irmão. — O Harata tinha a voz que carregava o peso do que dizia.
— Estávamos realmente discutindo a questão da visita que tivemos. E sei que seu lado acadêmico, e talvez o filosófico, estejam também interessados nessa discussão.
Ariel e Erlan trocaram um olhar. Há muito haviam aceitado seu lugar na equipe, mas como indivíduos, sua presença carregava um fardo diferente. Seu povo não os veriam como aliados. Suas escolhas, por mais justas que fossem, seriam vistas como uma traição. Eles entendiam isso bem, que seu senso de dever e crença no bem maior vinha ao custo da alienação. Certos por sua própria consciência, mas errados aos olhos de seu povo.
A discussão voltou-se para as implicações do que haviam testemunhado, a prova de uma ameaça há muito considerada um mito, agora tornada tangível. E pior, não era apenas um aviso, mas um acerto de contas.
Os Urbani não ficariam de braços cruzados. Sempre confiaram nos Harata para gerenciar os assuntos externos, mas isso era diferente. Sua experiência acadêmica tinha um papel a desempenhar agora, e a própria presença de Rentaniel sinalizava uma mudança. Ele era, por todas as contas, o substituto de Ayla neste assunto. Ou assim os Silvani julgavam.
Ariel finalmente falou, sua expressão traindo o desconforto em sua voz.
— Nós não trabalhamos para o Urbani, certo?
Rentaniel não respondeu imediatamente. Seu olhar varreu a companhia reunida, demorando-se nos detalhes que falavam mais do que palavras jamais poderiam. Diversão, talvez, mas era o tipo de diversão que se sentava confortavelmente ao lado de um julgamento silencioso.
— Mas é claro que não. — Seu tom era soberbo. — Talar nak, Vadar nak. Teras, seman cerahim!
A frase em Harata proposital, era claramente uma divisão agora, já que Valaravas entendia o Silvani e Urbani, o Harata era então uma conversa reservada entre ele e Valaravas, ou um teste se os Silvani também falavam Harata.
— Nazgahavi, 'irmão'. Nazgahavi. — Valaravas seguiu o ar de mistério.
— Você nunca vai mudar, Valaravas. Nunca entendi a escolha de minha mãe, mas eu entendi a escolha de minha irmã. As duas investiram muito em você. Tempo, vida. Parece que Ayla conseguiu transformar você em uma versão Harata dela mesma. Intelectual e espirituosa, mas teimosa. Quer fazer as coisas do seu próprio jeito.
Rentaniel olhou diretamente para Ariel.
— E descuidado. — Ele acrescentou.
Ele se levantou de seu assento, espreguiçando-se com a naturalidade sem pressa de quem já havia chegado à conclusão de que precisava.
— Mantenha os relatórios detalhados. Minha mãe fica radiante com o seu progresso e suas notícias. Muitos de nós achamos as leituras divertidas.
A saudação Urbani foi precisa, praticada. Antes de sair, ele hesitou, apenas por um momento.
— Aba e Jido sentem sua falta. Esperam que volte para ficar. Não podemos prometer nada, claro. Mas a casa está pronta para você, minha mãe diz. — Rentaniel disse como se preparasse algo.
— Espero que saibam que iremos 'todos' para a Fáscia. — Valaravas estressou.
— Claro. Iremos falar sobre o seu time 'peculiar'. — Rentaniel alfinetou.
— Nushala também espera você, irmão, e vocês têm muito pra resolver, juntos. — Rentaniel adicionou, antes de olhar para Ariel.
O silêncio que se seguiu foi denso o suficiente para ser sentido. Valaravas, ainda de pé, girou os ombros antes de se afundar preguiçosamente em seu assento, exalando como se se preparasse para o impacto.
Assim que a comitiva de Rentaniel estava longe o suficiente, ele começou.
— Tudo bem. Um de cada vez, por favor. Tarja primeiro, suas perguntas são mais simples. — Valaravas disse com um sorriso.
Tarja se inclinou para a frente, braços cruzados, seu sorriso uma mistura de diversão e ceticismo.
— Talar não sei o que Vadar não sei aonde? — Tarja disse mais por diversão do que propriamente curiosidade.
— 'Quando se confia o mundo a um irmão, não se questiona o tempo'. Uma expressão Harata para confiança na pessoa pela pessoa, não pelos atos.
Valaravas estendeu as mãos, palmas para cima, como se para confirmar a simplicidade da resposta antes mesmo que ela perguntasse.
— Nazgahavi é uma resposta Harata para muitas coisas. Vamos ver, é o que é, é o que temos, é como concordar e não concordar, ver no que dá.
Nandi sentou-se ao lado dele, sua expressão indecifrável, embora a maneira sutil como sua mão repousava sobre o braço dele falasse volumes. Ela já sabia o que quer que pudesse ter perguntado de outra forma. A presença de Rentaniel despertou memórias, e ela podia senti-las tão claramente quanto o próprio momento.
Erlan não se moveu, mas sua postura se aguçou. Seu Silvani soou afiado.
— Respondemos ao Urbani? Você responde ao Urbani?
— Acho que se ele lhe fizer uma pergunta, seria educado responder, não seria? — Seu sorriso era leve, mas havia algo em seu tom que fora moldado pela repetição. — Eu geralmente respondo.
— Isso é sério. — murmurou Ariel.
Valaravas ergueu uma sobrancelha, depois exalou, cedendo.
— Certo, certo. O Grêmio é uma instituição autárquica. Recebemos fundos e suporte de diversos lados. Nenhum deles é feito com garantias de favores ou benefícios, mas é lógico que mantendo nossos patronos felizes, nosso suporte é maior.
Ariel absorveu a explicação, mas algo nela não lhe pareceu certo. Havia peso na maneira como o tempo passava entre eles, nas vidas medidas em escalas vastamente diferentes. Quanto mais ela pensava sobre isso, mais pesado se tornava.
Não lhes serviria de nada remoer mais o assunto naquele momento. Era melhor descansar, e as respostas viriam, com o tempo.