Inimigo do meu inimigo

No porto da Cidade do Luar, era uma tarde nublada, como sempre, ou talvez já fosse noite. Uma certa hora, seria o mesmo um tempo muito fechado ou um tempo pouco fechado mais tarde.
Karak era um dos piratas do sul, e um conselheiro de seu 'governo', se é que poderia ser chamado assim. E ali era um lugar muito ruim para que um pirata do sul fosse encontrado. 
Mas ele não era qualquer pirata, mas um Harata, e um que foi parte da Lâmina durante muitos anos, e tinha abandonado a jurisdição do Consórcio não havia muito tempo. 
— O garoto está seguro? Lembre-se, você não pode feri-lo. Coração de um Harata. Eles irão acabar com todos vocês se o garoto estiver minimamente ferido. — Karak disse aos homens ali reunidos. 
— Como eles irão saber? — Um dos piratas Onatra de nascença perguntou.
— Eu aposto que em menos de um dia um de vocês vai dizer a eles tudo que fizermos aqui. — Karak disse com uma certeza quase reverente.
— Karak, eu sei que você gosta dessa mandinga Harata, mas você não está exagerando? — Um outro pirata, provavelmente Onatra, disse.
Karak não se preocupou em responder. Ele apenas olhou para o segundo pirata Onatra que olhou para ele em resposta, e foi aí que ele se perdeu. Ele começou a ver os olhos de Karak como centro de vista e nada mais. Ele sabia o que estava acontecendo, e entendeu a resposta, mas ele não tinha comando de sua voz para dizer.
Os dois piratas Harata mais novos que estavam ali começaram a rir, comentar em voz baixa.
O outro pirata Onatra estava intrigado, mas sempre havia ouvido que Onatra eram imunes ao charme Harata.
Karak movia a cabeça para um lado, o Onatra sob hipnose movia para o mesmo lado. Quando comandado, ia para o outro.
— Diga, meu amigo, o que você estava fazendo que foi o último a chegar? — Karak disse, rindo.
— Eu estava olhando o mercado. — O Onatra disse com uma voz arrastada.
— E no mercado, o que estava te segurando. — Karak disse cruzando os braços como se divertindo.
— As guardas. Eu estava pensando que uma delas podia me prender, e me dar uns tapas bem dados. Me jogar no chão e pisar em mim. — O Onatra disse, com a voz ainda arrastada, mas séria.
— Você está fazendo graça? Diga a verdade ou seus olhos vão derreter da sua cara. — Karak disse com um tom mais austero.
— Não, eu juro, é verdade. Eu gosto quando as mulheres Harata me batem. Dói mais, porque elas fazem sentir mais. — O Onatra dizia, com visível prazer no olhar.
— Eu acho que isso é tão vergonhoso que seus olhos vão derreter assim mesmo. — Karak disse com convicção.
O Onatra não disse nada. Seus olhos úmidos, sua expressão de pânico se acentuando. 
— Não, por favor, eu imploro. Fui honesto, não é justo. — Ele se curvava como se o desespero tomasse conta.
Ele começou a esfregar os olhos, suas pálpebras vermelhas,  Ele se curvava cada vez mais.
Karak já entediado e com o jogo simplesmente bateu a mão no Onatra para que ele saísse do estado que estava.
O pobre exemplo de fragilidade estava ali, sabendo o que disse, o que fez, mas incapaz de impedir.
— Onatra, na Armada, vocês são duros porque são disciplinados, suas cabeças endurecidas pela doutrina. E por isso nós não podemos entrar. — Karak disse à eles todos.
— Vocês, aqui, sem disciplina, e sem o mínimo controle. Eu poderia fazer você buscar seu almoço nas suas tripas sem muito trabalho. — Ele seguiu, para impressionar.
Os dois piratas mais novos, Harata, estavam rindo.
— E vocês? Mais fáceis ainda, porque eu poderia usar o poder que vocês nem sabem que tem contra vocês mesmos. — Karak disse apontando para os jovens.
— Então você devia ficar aqui e lidar com isso, poderoso Harata! — Disse um dos outros Harata mais jovens.
—A ideia estúpida de sequestrar o filho de um barão Harata não foi minha. E vocês provavelmente serão bucha de canhão no jogo idiota de um dos meus 'estimados' colegas. — Karak refletiu.
Karak estendeu suas mãos.
— Mas vocês infelizmente não tem escolha, porque ao invés de apoiar a minha decisão no conselho, vocês pensaram que era melhor apoiar um Silvani de merda. — Ele prosseguiu.
— Você nos trouxe aqui. — O Onatra ainda com a dignidade intacta respondeu.
— Porque sou o único que pode chegar até aqui, porque eu sou esperto e a Armada não tem a minha cara gravada. — Karak respondeu retirando-se.
Karak seguiu de volta para o pequeno barco pesqueiro onde dois de seus homens de confiança estavam. Todos vestidos com as roupas humildes e surradas que os Harata em geral usam.
— Chefe, Magenta está vazia. Podemos chegar lá e conseguir alguma coisa. — Um dos homens disse.
O outro ia silencioso apenas remando.
— Não estamos indo para Magenta para conseguir algo. — Karak disse sorrindo.
— Não? Vamos fazer o que? —  O homem disse confuso.
— Vamos cutucar as vespas. —  Karak disse cruzando os braços.
— Depois do garoto, não é perigoso. — A resposta do homem era ainda mais confusa.
— Harata sempre sabe onde. — Karak disse com simplicidade.
Karak apontou sul no Horizonte.
— Armada para todo o lado. Patrulhas, Cruzadores, Maz Ynis para queimar o Mar. Nossos colegas pensam que uma ilha no meio do sul vai conseguir algo? — Karak disse, como fazendo um discurso político.
— E porque seguimos eles então? — O homem questionou.
— Vocês são de confiança. Vamos arrumar alguns trouxas mais, e vamos sacrificar alguém. O resto ira acontecer por consequência. — Karak disse com finalidade.
— Em que isso tudo nos beneficiará? — O homem perguntou genuinamente curioso.
— O poder do Consórcio está fraturado. Nós vemos inimigos que não são amigos. Na hora certa, escolhemos um deles. Harata contra Harata era um tempo bom. Os mares eram nossos. — Karak parecia até nostálgico olhando para o mar.
— Quando nós e os piratas começamos a trazer os outros, o jogo se tornou desonesto, injusto, e desumano. — Ele seguiu como se estivesse genuinamente desgostoso daquilo.
— Os Harata do Consórcio mantiveram seu poder, o jogo honesto. Nós, do outro lado, nos deixamos levar, e eles se envolveram com o Vale. Com Tirayon. Com o maldito Finhandir. — Karak disse fechando um punho.
— Não podemos lutar contra o Consórcio e contra o Conselho. — O outro homem disse.
— Não iremos. O Consórcio destrói o Conselho. O Vale destrói o Consórcio. Só teremos que nos preocupar com a Fáscia. — Karak disse olhando o mar ao longe.
— E se não funcionar? — O marinheiro retrucou.
Karak olhou para a costa da nação Sangamani.
— Há sempre algum outro lugar para um Harata. Há sempre um outro lugar.