Homem do povo

Comerciantes chamavam à barganha, suas barracas repletas de especiarias aromáticas, tecidos artesanais e bugigangas polidas. Carroças rangiam pelos caminhos de paralelepípedos, carregadas com barris de peixe seco e caixas de frutas cítricas. Crianças serpenteavam pela multidão, rindo enquanto corriam entre as barracas, e um grupo de artesãos pechinchava por um carregamento de pregos de ferro.
O ar estava denso com os aromas misturados de sal, especiarias e pão recém-assado. Para Tarja, a cena parecia confortavelmente familiar. A camaradagem unida, a maneira como estranhos trocavam acenos como se se conhecessem há anos. Tudo lembrava-a da Vila Pequena.
Para Ariel e Erlan, era algo completamente diferente. A vila era completamente desprovida de qualquer regra social, estrutura de controle ou hostilidade aberta. Tudo ali era puramente relações humanas entre gente que se conhecia.
A naturalidade entre os comerciantes locais e os viajantes do continente era muito perfeita, muito fácil. Um contraste gritante com a desconfiança, ou hostilidade declarada, que encontravam em outros lugares. E não era a névoa da familiaridade, pois eles eram os únicos Silvani que viam na Ilha. Naquele momento, nem mesmo Urbani eles haviam avistado por ali.
Ariel notou os olhares lançados em sua direção, não hostis, mas curiosos. Alguns olhares tocavam mais fundo, admirados, charmosos. Ela nunca tinha sido olhada da maneira como alguns ali a olhavam. Ela não entendia, mas suspeitava do que eles estavam pensando. Apesar de ser diferente, ela não se incomodava em ser vista daquela forma. Ela acolheu, até mudou o andar para atraí-los.
Ela pensou na maneira como Rafiq havia falado de reverência, como Valaravas parecia comandar calor e respeito sem pedi-los. Seria esse o jogo aqui? Transformando suspeita em aceitação? Até mesmo incitando a volúpia como nos bandidos de antes? E se sim, o que aconteceria quando estivessem sozinhos, sem Valaravas?
Como se sentisse a tensão voltando a seus pensamentos, Valaravas falou.
— Agora! — Valaravas bateu uma palma para atenção. — Vocês devem querer se instalar. Esta é a base por enquanto. Temos trabalho mas isso pode esperar.
Sua mão gesticulou para fora, apontando para as portas ao redor, designando a cada um deles seus respectivos aposentos.
— Vamos à relação de 'aposento'. Nandi e eu estamos no 1, ali na ponta.
Valaravas fez uma pausa, olhando para Tarja.
— Tarja fica com o 3, mais o seu estilo. Vocês dois, no 6, que já está preparando e é maior.
Ariel e Erlan notaram Nandi agora, sua presença seguindo Valaravas, mas de uma forma que parecia quase espectral. Ela tinha uma maneira única de sair e entrar em foco, propositalmente sair da linha de visão na hora certa para aparecer sem ser notada. Ela esteve ali o tempo todo? Em suas memórias, ela havia caminhado com Tarja, havia chegado com eles ao bairro residencial, e, no entanto, nenhum deles a havia notado até agora.
Como se ela estivesse se movendo através de alguma sombra invisível, caminhando entre a visão e o esquecimento, invisível até que escolhesse ser conhecida.
Erlan guardou o pensamento, como mais uma peça do quebra-cabeça para descobrir mais tarde. Os Sangamani eram o único povo que os Silvani nunca tiveram informação alguma diretamente, e mesmo os mitos eram poucos e muito fantásticos para serem levados a sério. Ou será que eram ?
Ariel, por outro lado, não deu atenção. Tudo era novo aqui. Seus sentidos estavam ocupados demais para se deter em mais um mistério. Embora ela tivesse a impressão de que Tarja já conhecia Nandi. Isso também parecia se encaixar em um padrão. Outra pessoa que Valaravas havia trazido para a equipe pela mão, em vez de através das provações que Ariel e Erlan haviam suportado.
— Preparado para nós? — Ariel perguntou como se puxasse um fio solto do novelo.
— Claro! — Respondeu Valaravas. — São os hóspedes de honra que devem abrigar. — Não se preocupem. Descansem, acomodem-se. Temos dia e pouco esperando outros arranjos, e ainda temos que discutir os próximos passos.
Seu sorriso se alargou, seu tom enganosamente leve.
— Por enquanto, lembrem-se: As pessoas aqui são gratas. Vocês todos são bem-vindos. Precisando de algo, falem comigo, com Ilmari, ou com Jatica, a gerente do mercado. Estamos todos sempre em contato.
Então, antes que pudessem responder, ele se virou, já caminhando em direção ao centro da vila. Cada um deles estava imerso em suas próprias reflexões, o peso do dia ainda pairando, assentando-se em seus ossos. Tarja já conhecia Nandi e sua presença firme ao redor de Valaravas, mas os Silvani, no entanto, ficavam cada vez mais curiosos sobre a própria Sangamani, mas também por que ela estava sempre ao redor dele, sem demonstrar qualquer tipo de afeição, desejo ou familiaridade.
Tarja passou a mão pela moldura de madeira da porta de seu quarto designado, o acabamento sólido, o cuidado, era uma construção feita pelo povo da ilha, para o povo da ilha. Nada das construções impressas e magnânimas das cidades modernas. A vila, as pessoas, suas risadas, tudo parecia familiar, mas ela ainda estava aprendendo onde se encaixava nisso.
Os pensamentos de Tarja voltaram ao ataque dos invasores. Ela chegou para encontrar a luta já terminada. Os Silvani contiveram com a ameaça imediata enquanto ela garantia a segurança de Situ. Ela estava na vila, se a hostilidade tivesse se espalhado para fora da oficina, ela estava lá para proteger. Desta vez, alguém cuidou das coisas antes que o velho ferreiro ou a menina se machucassem. Era o que deveria ter acontecido antes. Os Silvani não estavam prontos para agir antes?
Desta vez, foi um grande momento, já disse Valaravas. Mas não foi perfeito demais?
Era como se as peças tivessem sido colocadas exatamente onde eram necessárias. Tarja pensavam como aqueles que ela pensava ser laceradores Silvani estavam lá para eliminar a ameaça. Ela, a que deveria proteger, estava ausente do campo de batalha, mas era necessária em outro lugar.
Poderia ter sido sorte? Ou alguém previu, colocando as peças onde precisavam estar? Ela não tinha certeza de qual resposta era mais perturbadora.
Seus dedos se apertaram na moldura da porta.
O que significa ser um baluarte? Ela pensava que era sobre ficar entre o perigo e os vulneráveis. Mas hoje, o perigo havia sido enfrentado sem ela. Ela não havia lutado, mas ainda assim, será que desempenhou seu papel?
Tarja exalou lentamente, aliviando a tensão em seus ombros. Talvez fosse isso que ser uma baluarte realmente significava. Nem sempre ficar na luta em si, mas garantir que aqueles que não podiam lutar nunca fossem apanhados nela.
Os Silvani tinham o quarto no fim do espaço residencial. Era como uma pousada interiorana, com certeza desenhada para hospedagem, mas nitidamente não usada há muito tempo. Estava limpa e renovada, como se recentemente encontrasse uso.
Eles deixaram suas coisas e Ariel moveu-se para a soleira.
O olhar dela percorreu o pátio, seus olhos verdes e aguçados pousando em volta de toda a extensão. Ela se esquecera de que estava entre Harata que estranhariam como os olhos eram. Ao a entrada, percebeu que crianças olhavam com curiosidade. Ela os olhou com um sorriso curto. Elas retribuíram com sorrisos alegres e brilhantes, já manifestando os primeiros sinais da empatia Harata, seus sorrisos contagiaram Ariel que abriu seu sorriso em um mais largo e sincero, que chama os olhos a sorrir junto.
Seus olhos verdes então mudaram para Valaravas e Situ. A menina correu em direção ao Harata, seus pezinhos gordos levantando poeira enquanto ela gritava: Tio Val!
Valaravas se virou sem hesitação, suas mãos se movendo com facilidade instintiva enquanto a pegava no meio da corrida e a levantava no ar, um sorriso se espalhando por seu rosto enquanto ela ria sem fôlego contra seu ombro.
Algo no peito de Ariel se apertou, desconhecido, angustiante, uma dor onde antes não havia nenhuma. Ela conhecia o calor, sim, o calor de um fogo, a pressão de corpos lascivos em uma noite aleatória na estalagem, a satisfação compartilhada de uma missão bem-sucedida. Mas isso? Isso era diferente. Calor no coração, o sentimento que a menina poderia ter sentido, a segurança de um homem que a protegeria, nutriria seus sonhos e deixaria sua infância ser uma infância tranquila, e não uma sequência de improvisos com a família e o lar em espiral descendente de dois irmãos que só podiam pensar em sobreviver.
Situ conheceria segurança e amor de várias pessoas, e um lugar para chamar de lar, provavelmente até ter idade suficiente para participar dele. Maior consternação de Ariel era ainda que isso não era apenas um sentimento, era uma realidade. Uma realidade da qual todos eles estavam participando. Inclusive ela.
Sua mente correu para sua irmã. Para Amerille, a irmã que havia abandonado séculos de cultura Silvani por um punhado de décadas com um Onatra. Família, mas não como era com seu povo. Amerille poderia ter tido isso em Erítria, talvez, mas não em Tirayon, isso era certo.
A cultura Silvani era comunitária de outra forma. Ninguém tinha laços tão próximos, todos tinham seu lugar, e as famílias eram formas de controle e organização. Harata, não havia como saber quem era da família de quem. Ela julgava agora a racionalidade de abandonar a reprodução natural. Mesmo os Silvani originados de um casal, eram na verdade 'fabricados' de forma artificial. Famílias criadas pelo poder, pela estrutura social e divisão de castas. Seria aquilo a quebra dos laços que ela observava ali. Será que o simples ato de gerar uma vida já dividia suas culturas de forma inexorável?
Talvez Melica fosse parente de Valaravas, ela pensou, mas ela mesma não via muita diferença de tratamento entre Valaravas e Melica, e Valaravas e outros Harata, ou mesmo agora a pequena Situ, que obviamente não era da família de Valaravas, nem mesmo Harata, mas uma pequena menina Carpata.
Ela antes achava que Amerille era fraca. Que ele havia fugido da luta pela saída fácil. Mas vendo Valaravas levantar Situ tão facilmente, a maneira como a menina simplesmente sabia que estava segura em suas mãos, entregando-se ao risco, confiando, Ariel sentiu algo que não tinha palavras para descrever.
Sua irmã não partiu porque era fraca. Ela partiu porque encontrou algo que os Silvani nunca foram ensinados a procurar. Certeza nos outros, mesmo que não fossem iguais, ou educados da mesma maneira. Confiança no bem comum. A certeza que mesmo contra todos os prospectos, alguém estaria ali, esperando, torcendo, e celebrando a vida pela vida.
Os braços de Ariel se cruzaram firmemente sobre o peito, mas aquele escudo não fez nada para parar o desconforto vorás, o lento desvendar de algo que ela não conseguia nomear.
Ao seu lado, Erlan se mexeu, suas orelhas afiadas captando a respiração curta e involuntária que Ariel havia dado. Ele seguiu o olhar dela, e imediatamente desejou não tê-lo feito.
Valaravas estava lá, sólido, inabalável, a própria imagem da confiança. Uma certeza que Erlan nunca teve. Apesar de toda a sua habilidade, apesar de toda a sua bravata, ninguém nunca colocou a mão em seu ombro e lhe disse que ele ficaria bem. Nenhuma vez. Não deveria importar, mas importava. E isso o incomodava. Ele era obrigado a respeitar aquele homem, pois mesmo obviamente sem reciprocidade, ele confiou em Erlan, ele se colocou entre Erlan e o perigo. Ele fez o que nem mesmo Ariel já tivesse feito. Ele apostou na competência e no poder de Erlan.
Valaravas estava lá para reconhecer o dom e o talento que seu povo dava como certo e nunca o elogiou por isso. Ele estava lá para ancorá-lo de um ataque do qual ele era incapaz de se defender. E ele estava lá para confiar-lhe uma tarefa importante.
Erlan relutava em admitir que precisava daquilo e era grato por isso.
Ariel se virou e caminhou para dentro do quarto em silêncio.
Erlan exalou bruscamente, rolando os ombros como se para afastar o pensamento antes de segui-la.
— Preciso de um ar, pensar, e talvez ver algo interessante aqui. — Erlan murmurou. — Não gaste a pele do Harata muito, ainda temos uma missão.
Ariel fez uma cara como se para refletir a provocação, mas nem mesmo Erlan sentiu muita força no gesto. Nem Ariel sentiu que realmente precisava responder. Ambos estavam entendendo que, de maneiras diferentes, ambos se sentiam atraídos por um ideal, o ideal Harata. Talvez seus primos distantes, os Urbani, se ligaram aos Harata por essa razão.
Tarja observava ao longe Erlan sair in direção a vila, e como Ariel estava, saindo meio sem rumo para o meio do átrio entre seus quartos. Ela não sabia o que acabara de acontecer entre os Silvani, mas podia reconhecer a forma de uma aceitação se instalando. Era como o sinal de que um conflito na Panificadora fora resolvido, e a paz retornava. Ela também sentia, aquele estranho empurra e puxa entre confiança e incerteza.
Enquanto o grupo se dispersava em reflexão, a vila se acomodou em seu zumbido habitual, o ar denso com sal, especiarias e o peso de pensamentos não ditos. Na vila, o dia de comércio, turismo e negócios, claros ou escuros, estava em pleno vapor.