Herança ancestral

Ariel tinha tantas perguntas que nem sabia como fazê-las, mas apenas uma, talvez a mais irrelevante, óbvia e menos consequente agora foi a que escapou seus lábios.
— Rentaniel sabe disso? — A voz da Silvani desceu a um sussurro.
— Essa é a razão que ele nutre tanta amargura contra o seu povo — disse Valaravas, a voz firme. — A Fáscia esconde refugiados Silvani desde antes da guerra. Nós os trouxemos durante o genocídio da Cidade da Serenidade em segredo, coordenando com uma facção de dukhovne da Armada, fingindo batalhas para que os outros Silvani considerassem esses refugiados casualidades do conflito, e Khadija considerasse que os outros Silvani conseguiram seu objetivo.
Eles desceram do veículo no pequeno atracadouro da vila, e o veículo então retirou-se para mais adiante no mar, recolhendo os suportes e inflando flutuadores laterais, mantendo uma distância segura da vila. Pequenos cães do mar içaram-no no pier.
Ariel e Valaravas andaram pela pequena pista de madeira, entrando pelos portões simples, indo por uma rampa que levava a área interna da vila. Ariel estava perdida entre o que via, e o que pensava.
Ariel engoliu em seco.
— Por quê Audren, ou os Harata fariam isso?
Eles subiram por passarelas de madeira, e Ariel olhou ao redor, absorvendo cada detalhe. Reconhecia coisas, gestos familiares, aromas conhecidos nos alimentos que cozinhavam sobre o fogo aberto, mas em tudo havia uma estranheza. Os símbolos eram diferentes. A maneira de se vestir. A maneira de se portar.
— Eles são Silvani da Cidade da Serenidade, os primeiros, maiores autoridades, ainda vieram no tempo da cultura do sol. Antes da geração de seus pais, com a lei da floresta. Eles não viram a guerra, e construíram uma sociedade Silvani aqui como eram naquele tempo. Os outros chegaram e adaptaram-se.
Ariel virou-se bruscamente para encará-lo.
Ele tinha uma expressão terna, porém considerando todo o impacto que aquilo tinha, dado a conversa sobre opções que tiveram ao chegar na Fáscia.
— Os primeiros chegaram no começo da Guerra Civil de Tirayon, antes da matança, antes do Maz Ynis. — ele prosseguiu — Nada disso faz parte da cultura Silvani deles. Eles aceitam a Grande Mãe Audren como a Grande Mãe deles também.
O peso de suas palavras pressionava o peito dela.
Ao passarem, os aldeões Silvani os saudavam calorosamente, seus sorrisos genuínos, seus gestos inegavelmente acolhedores. Mas a recepção não era apenas para Valaravas. Eles viam ali uma Silvani, e ela era reconhecida, ainda que não pessoalmente, pois naquela comunidade cada Silvani era uma bênção. Uma vida salva, uma vida poupada.
— Por que nunca soubemos disso? — Ariel tinha voz tingida de incredulidade. — Nem mesmo como uma afronta à Tirayon? Nada. Nem rumores. Nós exilados Silvani nunca ouvimos nem rumores. Como a Armada nunca usou isso como chantagem?
— Só a Fáscia sabe disso. Nós e os altos oficiais dukhovne da Armada. — A certeza de Valaravas era inabalável. — Durante a guerra, acreditava-se que o Consórcio matava qualquer Silvani que cruzasse suas terras. Mas nunca foi verdade. Nós os trouxemos para cá. Audren estava convencida de que era o único modo de evitar uma guerra ainda maior. Quando isso não evitou a guerra, Audren decidiu criar uma Cidade da Serenidade na Fáscia.
A garganta de Ariel se apertou.
— A guerra aconteceu de qualquer forma.
— A armada oficial não poderia saber. Oficiais dukhovne, leais ao regime Harata eram os únicos a conter a violência para que veículos da Lâmina pudessem extrair os Silvani da Cidade sendo atacada. Muitos Silvani nos protegeram na operação para que salvássemos outros Silvani de sua cidade.
Ele continuou com gravidade.
— O resto da Armada via o conflito contra todos os Silvani, não a Cidade da Sabedoria e da Criação contra nós todos. E no fim das contas, isso acabou trabalhando à nosso favor. Pelo menos podíamos salvar a maioria da Cidade da Serenidade.
Ariel olhou ao redor de novo, mas desta vez o peso era outro.
Sempre se vira como uma refugiada Silvani, alguém que perdera sua terra natal, seu povo, sua família. Rejeitara o que acreditava ser sua cultura porque esta a falhara, a expulsara.
Mas ali, naquela aldeia escondida, havia uma verdade que jamais considerara. Nunca pertencera àquela cultura Silvani, mas aquilo também era Silvani. Eram os mesmos povos, em outro modo de vida. E sempre existira, oculto.
— Eles são todos da Serenidade? — Ariel perguntou com a voz vacilante, olhos marejados.
— A maioria, mas muitos vieram da Cidade da Coragem antes do acordo que fizeram com a Armada. Outros, podem ser de outros lugares, com sorte de estarem na Cidade da Serenidade na época. — Valaravas comentou, guiando Ariel pelas vias de madeira da cidade flutuante.
O mundo sob os pés de Ariel pareceu deslocar-se. Não se tratava apenas da guerra. Não se tratava apenas de neutralidade. Seu povo, sua família, foram caçados não apenas por se recusar lutar, mas por serem diferentes. Os Silvani modernos os haviam condenado pelo que eram.
Ela sempre soubera da existência de tradicionalistas Silvani, mas acreditara que fossem os ancestrais de todos os Silvani.
— Há alguém ... você sabe .... mesmo distante? — A voz da Silvani era quase muda.
— Eu não era nascido ainda, mas segundo o que sei, sua família foi instrumental em permitir que a operação fosse feita, e ficou em Tirayon para garantir que pudéssemos fazer o que fizemos. Era a sua família que controlava os sistemas da Cidade, e a segurança, e teriam que estar lá até que a operação estivesse completa.
Ariel mal ouviu as palavras seguintes, abafadas pelo zumbido em seus ouvidos.
— O destino deles foi a razão pela qual finalmente tivemos coragem de fazer nossa escolha final. — Valaravas disse com gravidade. — Foi quando tomaram a Cidade, e isolaram os guerrilheiros no norte de Tirayon, antes de a Coragem combinar o golpe com a Armada.
A mente de Ariel disparou quando ela recuou um passo.
— O que exatamente você quer dizer?
— O que fizeram à sua família, aos próprios Silvani. Silvani que os Beruanos tinham em sua fronteira, que conseguiam conviver e negociar, foi o motivo que nos levou a considerar o plano da Coragem, e apresentar a proposta que os aliou a nós, e nós à Armada. Por que permitimos que invadissem, em vez de apenas esconder os refugiados. A Coragem nos ajudou a usar a infraestrutura da Serenidade para destruír todo o suporte logístico de Tirayon com um vírus que trancou seus sistemas para sempre.
Ariel sentiu como se o chão tivesse sido arrancado debaixo de si.
— Como assim? — murmurou, a voz se rompendo por completo.
— Tivemos uma escolha, Ariel. O Consórcio podia tentar salvar seus pais com grande custo, ou garantir a sobrevivência daqueles como você, que cruzaram a fronteira mas recusaram nossa ajuda. Escolhemos proteger os que já estavam do nosso lado.
O coração de Ariel batia em disparada.
— E por que os Harata não me trouxeram para cá?
A expressão de Valaravas escureceu com uma dor silenciosa.
— Não poderíamos falar abertamente com você, e você nunca confiou em nossa rede para entrar e saber. Você nunca nos permitiu colocar você pra dentro, até quando permitiu.
Ela parou, imóvel. Ele arqueou as sobrancelhas, ternamente.
— Foi muito antes de eu nascer — continuou Valaravas. — Sempre conheci a história como a de alguém distante, até conhecê-la eu mesmo, algum tempo antes de te encontrar. Eu não estava lá no começo. Não posso dizer o que foi certo ou errado. Mas os Harata fizeram, como sempre fazem, como todo mundo sempre faz: O que acreditavam ser certo.
Ariel inspirou bruscamente.
— Era o único jeito… — Ariel sussurrou.
A verdade que sempre acompanhava os Harata.
— Mas sempre tivemos oficiais dukhovne protegendo você e seu irmão. Só não podíamos interferir. Seus pagamentos, sua consideração na armada. — Disse Valaravas tentando trazer alguma paz.
Ele a observava, sentindo o peso de seu silêncio. Antevia esse momento, sabia que a verdade poderia ser o alicerce que os unisse, ou o martelo que os despedaçasse.
Ela caminhou até ele, lentamente, sem desviar o olhar. Tomou-lhe a mão, puxou-o para perto e o beijou, não como antes, não como alguém descobrindo o amor ou a atração, mas como alguém que afirma aquilo que já lhe pertence. Como assertiva de posse de seu Legado. Seus olhos úmidos, mas seu aperto reconfortante. As dúvidas como aquilo afetava seu relacionamento acabadas entre o calor compartilhado de seus corpos.
— Se eu tenho um legado, ele será seu, Harata. Sua Silvani. Estaremos juntos como meu povo considera justo. Você será meu Legado. E seremos uma família Harata e Silvani, em nossos termos.
Até então, ela fora apenas algo dele, operativa dele, companheira dele, protegida dele, como outros murmuravam. Desta vez seria sua vez de tomar algo. Ele seria dela, e ela assumiria não o lugar, mas o compromisso de Ayla, preenchendo o vazio deixado pela Urbani morta. Poria fim ao luto espiritual de uma alma carente da ressonância de um dom, da energia de um elo que se quebrara.
Receberia dele o presente do conhecimento e com ele ressoaria, e daria a ele o presente da serenidade, também ressoando com o seu. Não seria o que Ayla era. Seria mais. E ele seria dela, e juntos conquistariam aquilo que ela nunca soube que queria.
Eles seguiram, de mãos dadas, Ariel absorvendo a Cidade como o conhecido e o desconhecido ao mesmo tempo. Era a cultura Silvani do Sol, que sabia existir, mas que nunca havia conhecido. Era casa, mas era novo.
Aproximaram-se de uma morada humilde, cujo ar denso de ervas, mistura de terra e especiarias, penetrava os pulmões, aguçando os sentidos e aquietando a mente num foco silencioso. Era uma morada humilde, sim, mas era inconfundivelmente a morada de uma pessoa importante, destacada das outras não pela imponência, mas pela convidativa entrada de onde mora um líder cultural.
Dentro, uma alta Silvani os aguardava. Seus olhos, verdes como a grama que cresce no clima temperado úmido em solo fértil, espelhavam os de Ariel, vívidos, inflexíveis. As marcas em sua pele falavam de uma vida devotada às antigas tradições, mas sem carregar os adereços dos Silvani modernos. Era outra coisa. Uma seguidora do sol. Por sua pele o registro do zodíaco Silvani, o caminho do Sol, cada parte, uma lição cultural na história de Silvani muito além dos que Ariel já havia conhecido.
Entre os Silvani, os adoradores do sol sempre haviam trilhado um caminho distinto, seguindo uma tradição introspectiva e pacífica, a marcha resignada do sol pelo céu. Diferente dos Silvani modernos, que haviam distorcido a cultura rumo à guerra, eles abraçavam uma visão mais brilhante, uma que buscava restaurar, não destruir. Os Silvani modernos eram moldados pela guerra, mas os antigos eram mais similares aos Harata, moldados pelo mar, exploração, e comunidade.
Assim que a Silvani pousou seu olhar sobre Ariel, houve reconhecimento. Não de quem ela era, mas do que ela era.
Ariel não sabia exatamente o que esperar, mas sabia já de muito tempo o que pensar: Os Harata sempre fazem o que acreditam ser certo.