O
grande problema enfrentando pela sociedade da Jangunaray é sua própria
força. Uma população que se contenta com o que tem raramente se força
para conseguir mais. A economia de Jangunaray estaria estagnada em
sobrevivência se não fosse a questão de quem outros, fora da nação,
valorizam seus produtos até mais do que aqueles que vivem ali.
Ninguém
que não vive nas terras baixas, que não é adaptado ao seu clima fungal e
pungente aos não acostumados, teria interesse em participar ativamente
da vida e cultura local. De outro lado, a maioria dos que vivem nessa
terra já estão acostumados a viver nela, com o que há, e o que não há.
Acham sua vida, com luxos incompreensíveis para os de fora, suficiente.
É
o lugar perfeito para instigar o gosto pelos grandes jogos de Ealetra,
entre governos e grandes fortunas, como uma novela da vida real, onde os
cidadãos interessados da nação comentam, apostam e até suportam, quando
possível, seus jogadores preferidos.
Idris com certeza tem o seu jogador favorito: Ravantes.
O
barão Harata que tem sua base na Fáscia, possui os Fundos de
Investimento Luar, e a cidade que deles tomou o nome, também é um
entusiasta dos produtos que somente as terras baixas podem oferecer.
Karak
por outro lado não encontra seu grande entusiasmo pelo jogo derivado de
um interesse em outros, em luxos, ou mesmo em poder. Jogado nesse mundo
pela recente desgraça do Conselho que era parte, sua razão para jogar é
puramente individual. Sua continuada existência e segurança agora
deriva do quão útil pode ser para Idris, ajudando este a ser útil para
seus superiores, e estes para Ravantes.
E nada movimenta mais
as trincheiras do jogo do que a dívida. Obrigações movimentam o
trabalho, e elas criam oportunidades. Quanto mais alguém quer
oportunidades, mais obrigações assume, e quanto mais obrigações assume,
mais tem que produzir. E Karak com certeza precisava produzir, muito, e
logo.
— Então, temos um comandante, eu posso fazer o
navegador. Pelo que vimos, você pode operar as máquinas com ordens
claras e algum tempo para aprender. — Malek disse tomando inventário do
Barco.
— Talvez mais um seria melhor. Muitas máquinas chefe. — Lateral disse confuso.
—
Ainda assim precisamos de mais uns quatro no total. E eles não podem
ser locais, ou então teremos que ficar longe das praias ensolaradas. —
Malek riu-se da situação em que se encontravam.
— Creio que não conheceis a população local. — Uma voz como poeira em metal se fez clara.
Um homem que rivalizava em tamanho com Lateral, mas literalmente muito mais cinza, apareceu das entranhas da embarcação.
— Perdão. Não quis ser grosseiro. Quem é você? — Malek tentou uma voz mais suave, adoçada por sua natureza Harata.
—
Me conhecem como Sajó. Eu já estou no serviço do Senhor Idris, como
navegador e geral de convés. Eu não tenho problemas com o sol, mas
prefiro não ter que aguentá-lo se não for necessário. — O Aborada disse
com um tom fatos na mesa.
— Não sei se somos bem vindos na sua
equipe, ou se você é bem vindo na nossa. De qualquer jeito, bem-vindo!
Precisamos ainda encontrar pelo menos mais três para estarmos seguros. —
Malek disse considerando o barco.
— Raila e Barisi, podemos
chamá-los. Raila me dá medo, mas eu gosto dela. — Lateral disse com um
sorriso se infiltrando por sua tensão.
— Mesmo que fosse,
precisaríamos encontrá-los primeiro. Eles escaparam por outros caminhos.
Não sabemos onde estão. — Malek disse considerando as vantagens.
Os
três entraram pelos caminhos internos do barco, buscando na experiência
de Sajó uma familiaridade maior com suas capacidades. Eles teriam que
esperar o retorno de Karak de qualquer forma.
Não muito longe
dali, Karak e Idris discutiam as particularidades do que iriam fazer
juntos pelos próximos meses, dado que ele conseguisse criar um time para
lidar com seu barco e suas atividades. Seu primeiro teste seria trazer
um carregamento de diversos químicos para o porto da Eletrochinia, no
sul de Onachinia.
Esse teste iria avaliar diversas coisas,
como uma longa viagem com seu suposto time, não despertar o 'interesse'
da Armada, e saber seguir as ordens superiores, e toda a logística
necessária para que isso fosse feito com eficiência.
— Eu
entendo que em sua anterior situação, havia uma certa liberdade em seus
métodos e vias de atingir objetivos. No serviço da Geral Logística,
entretanto, temos regras estritas sobre práticas e métodos. No barco
existem dispositivos para consulta. Creio que saiba utilizá-los, pelo
menos? — Idris disse, observando pela janela da sala o horizonte escuro e
esparsamente iluminado da Cidade do Porto.
— Desde que as
suas regras não tornem o trabalho complicado onde pode ser simples, elas
não me incomodam. — Karak disse com simplicidade.
Enquanto
Idris mantinha silêncio, outro Anoa entrou na sala, com o mesmo tipo de
economia de movimento que todos eles apresentavam, o novo integrante da
reunião conferiu com Idris em murmúrios particulares por alguns minutos.
—
Eu sou Aran Samin, Karak. O Grupo Somnikan é dono da Geral Logística, e
consequentemente dono do seu barco, e do seu trabalho. Sua permanência
em nosso país é liberada pelo grupo, e estes serão seus documentos aqui.
Apesar de controle, eles também carregam nossas liberdades. A Armada
não tem o direito de, sem um motivo de ação de sua parte, violar a
soberania do seu transporte.
Aran entregou à Karak uma carteira com diversos documentos, seriais e pontos pessoais destinados à ele, Malek e Lateral.
—
Minha função era entregar pessoalmente esses items. Uma vez feito, que
sua vida vália mais que o preço de sua morte. — Aran disse já
retirando-se.
— Alguma dúvida sobre o nosso acerto, Karak? — Idris perguntou em tom neutro.
—
O seu ponto pessoal dará acesso ao carro em que viemos. Ele é seu para
usar enquanto estiver em terra. Não será necessário acompanhá-lo. —
Idris disse já arrumando suas coisas.
— E é isso? Apenas
retorno para o Barco? Não tenho um alojamento ou qualquer coisa? — Karak
perguntou mais por diversão do que seriedade.
— Seu barco é
mais do que suficiente para seu alojamento. Se achar que merece mais,
entenderia que suas Unidades Monetárias, quando as tiver, podem ser
usadas para esse fim. Que sua vida vália mais que o preço da sua morte. —
Idris disse retirando-se.
Karak refletiu por alguns minutos,
observando a sala, mas decidiu retirar-se identificando as câmeras e
sensores distribuídos pela sala, assim como presenças constantes por
todo o prédio.
Ele não conseguia identificar, mas era provável
que o carro via, ouvia e registrava seu uso também. Indiferente, era
hora de voltar.
Durante o caminho para o porto afastado do
Oeste, Karak refletiu sobre o que aquilo tudo significava. Ela havia
sido um agente da Lâmina, não era ignorante dos sistemas e das trocas de
participar naqueles jogos. Depois do tempo que viveu em Suyantara, com a
maioria dos que ali habitavam, agora apenas um pensamento vinha à sua
cabeça, um que repetia a cada coisa que pensava sobre esse novo plano.
— Estou de volta. — Ele murmurou, usando seu serial para ativar o carro.