Sua proficiência em logística e
engenharia social é uma ferramenta fundamental da política externa dos
Urbani, uma condição da qual os Harata se aproveitam ao máximo. Suas
habilidades de persuasão, temidas e invejadas por outros povos, são
intrigantes. Alguns acreditam ser sobrenatural, outros biológica, e
outros simplesmente um acidente do destino.
Erlan observava a
Harata, trocando risadas e palavras animadas em sua língua nativa com o
gerente do Cântaro. Uma familiaridade que Erlan e sua irmã não viam há
muito tempo, mesmo que não soubessem o que diziam.O Silvani é
uma linguagem simbólica de baixíssima contextualidade externa, difícil
de entender para a maioria. A comunicação Urbani havia ganhado muita
contextualidade externa ao lidar com Harata em frequência diária. A
língua comum foi feita pelos Urbani, rendendo uma mais alta
contextualidade externa, o que facilitava aos Onatra.
Os
Harata por sua vez parecem assimilar qualquer linguagem que convivem por
algum tempo. Apenas o Beruano que os Harata na verdade falam um dialeto
que se tornou sua língua nativa.
Erlan e Ariel se perdiam tentando
seguir as palavras que ouviam dos outros, e mesmo que fossem Urbani
falando, eles talvez pudessem fazer alguma ideia da conversa, mas não
muito.O idioma Harata tinha uma característica que era única
porém. Suas palavras eram de contextualidade interna baixa, e entender
suas palavras requeria entender a cultura Harata intimamente. Termos,
colocações, todas dependiam de saber o significado cultural de séculos
resumidos em uma palavra que dependendo da ordem, do tom do contexto
podia significar uma coisa completamente diferente.
Algumas
palavras encerravam o significado cultural de um povo tão ligado que até
o seu conceito de família é extensivo para todos os Harata e mesmo
alguns não Harata. Entre eles era claro seu tratamento de família,
biológica ou não. Sendo tão familiares uns com os outros que
desconhecidos Harata poderiam parecer ter sido criados no mesmo lugar,
da mesma forma, pelas mesmas pessoas. Não faria diferença aos olhos de
um Onatra se são irmãos ou nunca se viram, os Harata sempre são família,
no sentido que a maioria de Ealetra entendia.
Erlan batia na
mesa impaciente, sem saber o que a irmã tanto esperava. Ele estava
incomodado com ter que enfrentar aquele ambiente Harata que exalava tudo
de errado que ele via nos que não eram Silvani.
Ele observava
como entre Harata, conflito era quase inexistente. Ele se enfurecia que
a musicalidade do idioma Harata era confortável aos seus ouvidos, mesmo
sem saber o que significava. Era um misto de sentir bem e sentir-se mal
por isso.
— Você presta tanta atenção nela que vai acabar se apaixonando irmão. — Ariel disse com ironia.
— Mesmo que não seja perigoso, é incomodo. Não temos escolha. Temos que viver nesse ambiente, querendo ou não. — Erlan retrucou.
—
Você é uma criança mimada Erlan. E você nem conheceu nossos pais pra
ser tão mimado assim. — Ela respondeu sem pensar exatamente nos
espinhos.
— Cinco anos não fazem de você uma anciã druídica, irmãzinha. — Erlan disse com uma voz de escárnio.
—
A nossa irmã mais velha, lembre você, fugiu de Tirayon para viver com
um Onatra quando ainda pensava que ia herdar nossa casa nobre. Ela
trocou toda a tal "nobreza Silvani" pelo abraço militar de um Onatra.
Por alguma razão foi. Irmãozinho.
Erlan não respondeu de imediato,
mas seu silêncio era revelador. Ele traçou com suas mãos um caminho no
ar, na direção do balcão onde o gerente do Cântaro e a mulher Harata
conversavam, uma permissão ideológica para a busca de Ariel.Ela se levantou, movendo-se em direção à mulher Harata com passos deliberados, seus pensamentos já processando os protocolos de negociação. Não havia lugar para hesitação agora.
A mulher Harata, perto dos trinta
anos, parecia muito mais jovem mesmo quando comparada a outros, mas uma
Harata daquela idade já tinha experiência de mundo suficiente para
conhecer todos os perigos da região. E a mulher, Melica, estava no
Cântaro Dourado por outra razão. Ela era uma recrutadora, oferecendo
oportunidades a mercenários extraordinários, designando-os para vários
postos e funções no que era conhecido como Grêmio, uma instituição que
fomentava o poder Harata exercido para fora de seus conglomerados.
Melica
viera em busca de talento. Isso, por si só, não era nada incomum. Mas
uma Silvani? Isso era uma raridade, um pedido incomum.
— Tem
certeza? A Silvani? Não acho que os cabeças de ferro vão gostar. Eu
mesmo já não estou gostando. — disse o gerente por trás do balcão.
Zavandras era um Harata que já tinha sido da Lâmina, e agora "descansava" suas glórias como gerente do Cântaro.
Os lábios de Melica se curvaram em um sorriso maroto, a malícia em sua expressão perfeitamente calibrada.
— Pedido do meu primo. Você sabe como é, não é Zava? Ou ele consegue o que quer, ou ele consegue o que quer.
— A
obediência ao homem com mais créditos alheios em seu nome é uma escolha
sábia. A que você pediu é aquela. — Ele gesticulou sutilmente em
direção a Ariel.
Melica a estudou, seus olhos castanho-claros brilhando.
—
Eu sei que meu primo tem um fraco por olhinho puxado, mas ela é linda,
não é? Ele não iria querer apenas uma atiradora qualquer. O jovem, ele é
fofo. Espero que aquilo seja músculo útil. E olhe só, ela está vindo
comer na minha mão. Que doçura.
Zavandras balançou a cabeça.
—
Impossível. Eles são inseparáveis. O garoto não vai aceitar. Olha a
cara de irmão superprotetor dele. Seu primo está caçando sarna pra se
coçar.
— Eles já estão no jogo, Zava. O garoto ainda pode ser
um problema, mas a irmã dele tem ambição. Olhe o andar dela, eu digo a
palavra certa, e ela convence, ou arrasta, o garoto.
— E você acha que pode controlá-los? — Zavandras zombou.
Melica não respondeu. Em vez disso, ela gesticulou com a mão, pedindo silêncio. Estava na hora do ato principal da noite.
E
então, como previsto, Ariel se aproximou. Sua voz tentando articular
palavras como se forçadas em cordas vocais desacostumadas à movimentos
melodiosos. Seus olhos movimentando freneticamente, evidenciando seu
desconforto. Seu Erítrio era entendível minimamente.
— Contratos, alto risco? Eu sou...— Mocinha, não se preocupe. Vamos nos entender muito bem.
Os
olhos de Ariel se arregalaram por um momento. Ela sabia que os Harata
falavam outras línguas, mas ela podia entender o Erítrio de Melica
melhor do que entendia os Oficiais da Armada.
— Eu sei quem você é. E é você que eu quero. — Melica gesticulou para o assento ao lado dela.
Ariel
sentou-se. O olhar dela era afiado, de alguém que sabia que estava
entrando voluntariamente numa armadilha, mas determinada a não ser a
presa. Sua capacidade de comunicação era complexa. Ela entendia o que
diziam mas dificilmente estava contente em como dizia o que queria.Melica, em contraste, exalava calma, sua expressão o charme praticado. Um Harata podia passar em polígrafo sendo testado com uma arma apontada para cabeça, alguns concretamente treinados para essa eventualidade.
Zavandras trouxe dois belos copos e uma garrafa de Vista Exótica, um vinho Harata de alta qualidade, feito com uvas cultivadas em solo vulcânico rico em potássio, fósforo, magnésio. Uvas naturalmente cultivadas, e selecionadas pela madureza mais perfeita. Ariel observou enquanto Melica servia. O líquido, de um vermelho-vivo, deslizava pelo copo com um brilho que denunciava sua origem de qualidade natural com um brilho castanho claro como os olhos de um Harata. Na boca, a textura era complexa, um calor profundo se espalhando, misturando sabores de amoras naturalmente cultivadas em solo de clima temperado subtropical, ecos de uma cultura distante, no espaço, no tempo, como a cultura que o aperfeiçoou.
Melica deixou o vinho falar por ela, uma âncora para que Ariel soubesse qual o gosto de negociar com os Harata. Um sabor de perfeição natural que ela não esqueceria.
—Saboreie, bonequinha. Mas temos assuntos sérios a discutir.
Ariel olhou Melica com tensão ao ouvir a palavra "bonequinha", sem saber muito como dizer que aquilo desagradava.
— Ah, mas 'bonequinha' foi um elogio. Até eu tenho inveja desse corpo exótico, diferente.
Então,
suavemente, Melica se inclinou. O toque foi leve, um mero roçar de
dedos contra as costas da mão de Ariel. Ariel mal recuou. Era um teste.
Os Silvani não permitiam tal proximidade, e os Harata prosperavam lendo
microexpressões.— Está tudo bem, querida. Estamos entre amigas.
Mas o que estou prestes a dizer é melhor que fique entre nós. E já que é
para falar de perto, melhor aproveitar, não acha?
— Ouvindo. — Ariel exalou.
Melica
se aproximou, seu hálito carregando o calor do vinho e o mais leve
toque de alguma essência aromática. Era uma intimidade calculada, uma
facilidade Harata em dissolver barreiras pessoais.Do outro lado da sala, Erlan se mexeu, seus instintos de combate gritando perigo. Ele fez menção de se levantar.
Um peso pousou em seu ombro, leve, mas firme. O toque foi preciso, tático, desarmando momentaneamente os reflexos neuromusculares de Erlan. Ele congelou. Seu reflexo de combate, que precedia o pensamento, não reagiu a tempo.
O homem sentou-se em frente a Erlan sem ser convidado. Sua armadura de polímero flexível se ajustava perfeitamente. Em seu cinto, dois karambites de um metal azul que Erlan conhecia bem. Essa era a arma de escolha de um agente da Lâmina.
O agente simplesmente colocou uma garrafa do mesmo Vista Exótica sobre a mesa e recostou-se. A mensagem era clara: Relaxe.
Melica, ciente da manobra, continuou.
—
Seu irmãozinho é selvagem, e eu amo um selvagem. Mas espero que o
mantenha longe de problemas. Meu primo gosta de você. Evite que seu
irmãozinho azede meu primo.
Ariel manteve o olhar firme. Agora mais tranquila tentou articular mais palavras
— Erlan é bom. Desconfiado de desconhecido. Trabalho?
O sorriso de Melica se aprofundou.
— Vila do Luar. No sul. Meu primo encontrará vocês lá, quando for a hora.
A Harata traçou o braço de Ariel com os dedos.
— Ele estará com vocês muito antes de se encontrarem. Comportem-se !
— Silvani não vai a Vila do Luar. — A testa de Ariel franziu.
— E
ainda assim, vocês irão. Eu te disse. Ele estará observando, vocês
estarão seguros. Certifique-se de se vestir adequadamente, e claro, uma
roupa bem justa, porque seu corpo é um desperdício escondido.
— Proteger não é problema. Tarefa?
Melica
pegou a mão de Ariel. Entre seus dedos agora havia uma moeda de latão,
sem circuitos, sem nenhum código, apenas isso, uma moeda com um desenho
elegante, gasto, seu valor não em créditos, mas em acesso.
— Este será o seu passe. Essa moeda abre portas que os créditos nunca abriram.
Ela deixou a moeda assentar na palma de Ariel e então
se levantou, lançando um último olhar para Erlan antes de bater duas
vezes no balcão e se esgueirar pela multidão, desaparecendo como um
fantasma no movimento do Cântaro.
Ariel mediu a saída por alguns longos momentos, antes que Zavandras se aproximasse, deslizando a garrafa na direção dela.
— Um presente Harata é uma mensagem. Nada se dá, nada se toma. Tudo se troca. —Ele disse ele, apontando para a moeda.
Ariel o inspecionou, depois o ofereceu a Zavandras.Sem
uma palavra, ele tirou um anel do polegar, um autenticador mecânico,
uma simples argola aberta de metal que se expande com a pressão.
Deslizando a moeda dentro do círculo, ela se encaixou com precisão. Uma
leve pressão, e a moeda emergiu com um clique. Ele a ofereceu de volta.
— Lembre-se: Com bebida ou sem bebida, a moeda paga.
Zavandras voltou às suas tarefas.
Ariel pegou a garrafa, olhando-a por um momento antes de se virar de volta para Erlan.
O agente da Lâmina já havia partido.
Ariel soltou um longo suspiro e sentou-se.
Erlan parecia feliz com o vinho. Ariel sorriu e balançou-se como se ouvindo uma música há muito esquecida: Alegria.