A viagem de volta ao refúgio da casa segura foi tranquila, mas depois de conhecer esse outro lado da Fáscia, os Silvani tomaram uma nova apreciação de Magdalagur e da Fáscia como um todo. Ela parecia realmente um refúgio da guerra. Onde a Trifronteira e Erítria participaram da guerra ativamente e tem essa história para contar em cada esquina, a Fáscia, com seus guerreiros e seus avanços bélicos como as armas em metais Urbani e máquinas de guerra, tem em sua capital uma cidade onde guerra é a última coisa que qualquer um iria pensar observando suas ruas e praças.
Era chegando na casa segura que apenas os escritórios lembravam vagamente da razão da existência do Grêmio, e de tudo que faziam desde a formação do grupo.
Ao contrário da moradia em Magenta ou da moradia em Erítria, aqui na Fáscia o prédio inteiro era deles e somente deles. Tarja sentou-se no sofá do canto esquerdo e continuou a conversar com Erlan sobre nada importante o suficiente para preocupar nem a eles mesmos.
Valaravas deixou-se cair graciosamente no sofá da direita, depois de se servir de um pouco de vinho. Nandi sentou-se ao seu lado, sua maneira discreta de se sentar quase não ocupava espaço no sofá, enquanto Ariel permanecia de pé em frente aos dois.
Ela, diante de Valaravas e Nandi, com os braços frouxamente cruzados, tentou manter um tom casual. Mas a pergunta tinha peso, uma tensão sutil pressionando sob sua superfície.
— Então? Quando partimos?
Valaravas não ergueu o olhar imediatamente. Ele girou o vinho em sua taça com uma graça ociosa, observando o líquido capturar a luz fraca. Quando finalmente falou, sua voz estava tão despreocupada como sempre.
— Não faço ideia.
Ariel franziu a testa ligeiramente.
— Não faz ideia? Temos as relíquias, encontramos a Fáscia, mas você nunca disse o que vinha a seguir. Como Syndra sabe o que vem a seguir?
Sua testa se enrugou enquanto o estudava. Não era típico dele não ter um rumo, não ter alguma maquinação silenciosa em andamento sob a superfície.
Valaravas exalou levemente, recostando-se mais no sofá, como se a preocupação dela fosse mais um divertimento do que uma urgência.
— Não saber onde não é o mesmo de não saber quando. Syndra é Urbani, ela tem o dom do conhecimento. Poucas rotas estão abertas para nós. Ela tem informações que você não tem como conselheira da Grande Mãe. Ela sabe que Erítria está enfrentando problemas entre radicais do Oeste e conservadores do Leste, principalmente agora que Rentaniel resolveu aparecer na Trifronteira. A única saída para nós fora ficar na Fáscia é ir pelo Beru. Nossos amigos nos garantirão passagem. — Valaravas disse sem alterar sua expressão. — Simples assim.
Ariel ergueu uma sobrancelha.
— Que amigos?
Ela se moveu para sentar ao lado dele, habilmente arrancando a taça de vinho de seus dedos antes que ele pudesse reagir.
Valaravas permitiu o roubo com um sorriso de lado.
— Estamos na Fáscia por um motivo, além da Academia. — Ele se ajeitou mais fundo no assento. — Neutralidade.
Ariel, agora reclinada ligeiramente contra o lado dele, aninhada entre ele e Nandi, girou o vinho roubado ociosamente.
— Continue...
Valaravas lançou-lhe um olhar, o canto de sua boca se curvando.
— De que estamos nos escondendo?
Ele se arrumou pra dar lugar à Ariel, deixando a pergunta no ar antes de responder.
— A Armada da Federação quer ação. A Armada Real quer ação. Os Silvani de Tirayon estão descontentes. A situação lá é volátil.
Sua voz permaneceu suave, desapegada, como se estivesse recontando uma simples mudança política em vez de um mundo à beira do conflito.
— E aqui, deste lado de Ealetra, apenas a Fáscia e Onachinia parecem inclinadas a deixar as coisas como estão.
Ariel ouvia, absorvendo as implicações.
— Então pra que partir? — Ela virou a cabeça ligeiramente em direção a ele. — Não podemos ficar aqui? Explorar a natureza selvagem, ajudar os locais, viver como os humildes aventureiros de antigamente?
Valaravas riu, um som profundo e displicente.
— Este pode ser nosso lar, mas ainda temos trabalho em outro lugar.
Seus dedos tamborilaram levemente em seu joelho.
— É simplesmente mais conveniente esperar pela Royarakhan com os Beruanos e retornar pelo Beru, em vez de pela Federação.
Ariel o estudou, sentindo a próxima jogada por trás de suas palavras.
— A celebração Beruana.
Não era uma pergunta. Ariel conhecia os contos sobre as festas dos nômades daquela época do ano, mas algo claramente mas floreado do que preciso.
Valaravas assentiu.
— O Oásis do Leste. Nós os encontramos lá, viajamos com eles até Luar. Esse caminho é mais limpo.
Ao lado deles, Nandi se moveu ligeiramente. A corrente em seu pulso fez o mais fraco dos sons enquanto ela murmurava, quase para si mesma.
Nandi deu o menor dos acenos, um sussurro de sorriso de lado em seus lábios.
— O príncipe mimado, fica com fome, faz barulho. Os abutres não gostam de barulho.
Valaravas riu suavemente.
— Sim. Rentaniel queria que a Armada trabalhasse para ele. A Armada quer que ele trabalhe para eles.
Ele ergueu a mão, bagunçando o cabelo de Ariel de uma forma que era ao mesmo tempo afetuosa e irritantemente casual.
— A Grande Mãe não se importa. Nem nós. Pra quê?
Ariel afastou a mão dele com um suspiro dramático, embora não tenha se movido de seu lugar, apoiada confortavelmente nele.
— E vocês, os Harata?
Valaravas, ainda sorrindo, gesticulou preguiçosamente.
— Nós, porque agora você também é de uma família Harata. Não nos importamos. Quem quer que termine por cima precisará de nós. Quem quer que caia precisará de nós. Vencemos de qualquer maneira.
Os dedos de Ariel se apertaram ligeiramente em torno da taça de vinho. Uma lenta compreensão surgiu em sua expressão. Ela se endireitou, virando-se para encará-lo totalmente.
— Então por que estamos em terra Urbani?
O sorriso de lado de Valaravas se aprofundou, um brilho malicioso em seus olhos.
— Quem te disse que a Fáscia é terra Urbani?
Ariel piscou. Imediatamente ela se lembrou de algo de muito tempo antes, quando Valaravas se referiu a si mesmo como Harata da Fáscia. A percepção se abateu sobre ela como o peso mutável de uma cortina sendo fechada.
Ao seu lado, Nandi não disse nada, mas o fantasma de um sorriso triunfante brincava em seus lábios. Enquanto Valaravas se levantava, Nandi puxou Ariel para se reclinar sobre ela, arrumando seu cabelo.
Valaravas continuou a explicar como a Fáscia realmente funciona.
—A Fáscia é um estado abertamente autoritário, controlado pela Grande Mãe Audren de Seldanar, como Khadija tem a Grande Mãe deles. No entanto, ela não governa a Fáscia. A Cabeça e a Lâmina governam. É por isso que Rentaniel revolta-se porque sua família não se importa em governá-la. Ela realmente não se importa.
Ariel estava se entregando ao relaxamento de Nandi mexendo em seus cabelos, cantando baixinho, mas só cantarolando, aparentemente. Entretanto, Ariel estava estranhamente focada, a informação entrou simples e direta, como imagens pensadas mais que palavras ouvidas.
Valaravas prosseguiu.
— Em troca de sua fortaleza em forma de cidade, no qual ela passa seus dias vivendo nas memórias de sua antiga glória, os agentes da Lâmina basicamente coletam sua assinatura em quaisquer documentos necessários para que a Cabeça governe a Fáscia das sombras, enquanto mantêm os nobres Urbani em Khadija felizes por a Fáscia estar sendo cuidada por um deles. Ocasionalmente precisamos dela para dar ordens aos Urbani mais tradicionais, comunicar com Khadija, mas ela fala o que a Cabeça diz.
Nandi murmurou uma frase que dissera em transe antes.
— Os nômades viajam sob o sol, sua viagem não controla o sol.
Ariel deixou a percepção se assentar sobre ela como as últimas brasas de um fogo moribundo, lenta e ardente.
Ao seu lado, Valaravas e Nandi falaram em uníssono, suas vozes se entrelaçando como se o pensamento há muito fosse compartilhado entre eles.
— Fera de dentes muito grandes, mastiga a própria língua.
Ariel virou a cabeça ligeiramente.
— Quem?
Valaravas mal lhe dirigiu um olhar, seu sorriso de lado inabalável.
— Urbani, em Khadija.
O nome pousou pesado entre eles, seu peso familiar agora, embora não menos frustrante.
— Eles pensam que detém o poder da Fáscia, mas nem a própria Audren.
Valaravas não teve pressa, deixando as palavras se desenrolarem enquanto se recostava no sofá.
— As ameaças deles são tão vazias quanto seus cofres. A Fáscia deve ao Grêmio dos Mercadores dezenas de vezes a sua riqueza, e a que poderia produzir trabalhando muitas vezes mais.
A testa de Ariel se franziu ligeiramente.
— E quem controla o Grêmio dos Mercadores?
Valaravas olhou de lado para Ariel, seu rosto por si só poderia responder à pergunta, mas ele a disse em voz alta.
— Barões Harata. Quem mais? Ravantes dos Fundos Luar tem mais títulos da Fáscia que qualquer um.
Ariel exalou. As peças se encaixavam perfeitamente demais.
— Então por que não acabar com a guerra de uma vez? Controlam o dinheiro de todos, e sabem da vida de todos.
Valaravas riu, inclinando a cabeça em direção a ela, observando a percepção tomar conta.
— Porque se a Federação está na garganta do Reino, e o Reino está na da Federação, eles não estão na nossa.
Aquele sorriso malicioso dele retornou, mais afiado agora, tingido de um divertimento silencioso.
— Eu lhe disse, é melhor deixá-los pensar que estão por cima, e seguir em frente. Não queremos seus problemas, nem suas misérias.
Ariel acreditara, por um tempo, que começara a entender o jogo. Afinal, ela viajara metade de Ealetra na companhia de um Harata, tratando com outros Harata, observando-os entrar e sair de conflitos como fantasmas, aparecendo apenas quando a necessidade ditava e desaparecendo quando não lhes convinha mais.
Agora ela se sentia exatamente como naquele dia, o que parecia uma vida inteira atrás, quando reunira coragem para falar com Melica. Quando ousara entrar em um mundo onde o poder não erguia a voz, não fazia exigências, não governava com força, mas, em vez disso, observava, esperava e possuía sem nunca precisar tomar.
Ela foi lembrada novamente: Harata não faz exigências. Harata aceita consequências.
Ela voltou seu olhar para Valaravas, estudando-o. Sua expressão era tão indecifrável como sempre, mas havia uma naturalidade nele que lhe dizia que isso não era uma revelação, era simplesmente a maneira como as coisas sempre foram.
Então ela se moveu, sua atenção deslizando para Nandi, que permanecia quieta, sua presença calorosa e constante.
Ariel exalou, afundando-se ainda mais no abraço observando a Sangamani, um pequeno sorriso quase de prazer assombrando seus lábios.
Apesar de todo o seu desconforto, todas as suas perguntas, ela tinha uma certeza. Agora ela tinha duas pessoas que a amavam e estariam com ela, não importava o quê.