Andrei estava aprendendo rápido o que ignorava sobre a cultura Harata. Uma coisa era família e apego pessoal, mas outra coisa era a sociedade e política daquele povo, que funcionava em uma frequência inatingível para a maioria dos Oficiais da Armada, e francamente ele não pensava ser diferente com ele.
O capitão entendia que os Harata protegem os seus, mas o que isso significa para seu relacionamento pouco ortodoxo com Melica? O que isso significa para o envolvimento óbvio da Tenente Danila? Elmund trabalha com eles ou estava apenas semeando a discórdia?
Para o velho oficial, a melhor pessoa para responder a essa pergunta é Melica. E, por acaso, seu dia de folga coincidiu com a presença dela no Cântaro Dourado. O oficial Onatra sabia que não era bom ser visto no Cântaro Dourado em meio à conspirações e intrigas, mas um velho oficial de folga acompanhando uma jovem por uma noite escura na Trifronteira, onde bêbados turbulentos poderiam estar à espreita, é uma maneira perfeita de conversar.
Quando Melica deixou o Cântaro para ir para sua base na Trifronteira, em uma das muitas estalagens controladas pelos Harata, Andrei a encontrou. É improvável que ela já não soubesse que ele estava por perto. Ela já saiu esperando que ele a encontraria.
Andrei moveu-se com a naturalidade de um oficial experiente, as mãos cruzadas atrás das costas enquanto se aproximava de Melica. Ela havia saído para a passarela silenciosa do lado de fora do Cântaro Dourado, a luz neon projetando longas sombras sobre o paralelepípedo úmido. Ela não precisava virar-se, pois já reconhecia sua presença.
O silêncio se estendeu enquanto ele parava ao lado dela, inclinando-se ligeiramente contra o corrimão de madeira que dava para o canal. O suave murmúrio da água abaixo preenchia o espaço entre eles, misturando-se com o barulho distante da taverna. Quando ele finalmente falou, sua voz era uniforme, mas comedida.
— Seja sincera, Lica. Nossa convivência é algo que você valoriza, pessoalmente, ou sou apenas um oficial conveniente de ter por perto?
Ela exalou suavemente, finalmente virando o olhar para ele. A luz trêmula da lamparina capturou o tom âmbar de seus olhos, aguçados, porém hesitantes. Ela esperava por esta conversa. Talvez até tivesse se preparado para ela. Suas sobrancelhas arqueadas em uma tristeza calada, terna.
— Eu estaria mentindo se dissesse que sua presença não é conhecida do meu povo, pai. Mas também estaria mentindo se dissesse que não vejo você como meu pai.
Andrei estar tenso, mas não com raiva, e sim porque não sabia como processar aquilo. Talvez ele ser apenas um peão fosse mais fácil de processar como Onatra e Oficial da Armada, do que essa verdade.
— Eu sempre serei a menina que necessita de proteção aos seus olhos, isso é ser pai. Isso é natural, e normal. Mas a vida é complexa, e mais complexa para um Harata. Mas, como você sabe, Harata não mente.
Ela viu nos olhos de Andrei, em sua postura, em seu jogo de peso corporal. Ele estava tentando se preparar, mas não estava certo se queria ouvir.
Ele viu nela a certeza, aquela que o Harata sempre tem, de que está bem como está no lugar que está. Ela não estava usando seu jogo Harata com ele, isso ele sabia. Mas ainda assim, um Harata é Harata, sempre.
— Você sabe que nossa relação diferente, pai. Não sou como uma filha Onatra, que tem certeza do sangue, e da tradição. Somos o que somos no momento. Não mentiria meus sentimentos. Isso não impede que outras coisas aconteçam.
Andrei deixou as palavras assentarem, deixou que pesassem contra seu orgulho. Não havia engano em sua voz. Ela falava de forma clara, honesta. Mas ainda assim, sua mente resistia.
— Se sou seu pai, Lica, então como é a sua influência que me protege? Não deveria ser o contrário?
Ela hesitou. Esta era a parte que ela temia dizer em voz alta.
— Para o seu povo, talvez. O meu povo não se importaria com você, a não ser porque um de nós, eu, se importa.
Ela se virou para encará-lo totalmente, sua expressão indecifrável.
— Se eu não tivesse deixado claro isso, você teria sido deixado sofrer com as decisões maiores que o atropelariam. Eles te deram sua saída do problema, só porque você é meu pai Onatra.
Ela seguiu para abraçá-lo, e ele estava sem jeito, mas por instinto à acolheu.
— Os Harata não abandonam os seus. — Ela prosseguiu. — Eu me certifiquei de que eles o respeitassem. Meu pai Onatra, meu coração.
Ele passara anos acreditando que era ele quem protegia Melica, mantendo-a longe dos perigos inevitáveis da política e da guerra. Mas todo esse tempo, fora ela quem manobrara em torno desses perigos por ele, garantindo que outros oficiais ambiciosos nunca tivessem a chance de transformá-lo em uma casualidade.
— Você jogou o jogo por mim. — Ele murmurou, mais para si mesmo do que para ela.
— Eu tinha medo que por ser de Erítria, por ser Onatra, isso o ofenderia. Que você veria isso como um insulto em vez do que é: um fato do mundo em que vivemos. Um mundo Harata.
Ela o protegera. Não com palavras de aviso, não com sussurros secretos, mas garantindo que ninguém ousasse vê-lo como uma peça descartável na teia política da Armada.
Andrei inspirou profundamente, deixando a verdade assentar. Feriu seu orgulho, sim. Mas o jogo exigia isso. Seu orgulho sozinho não teria impedido a Armada de descartá-lo. Ele se virou para olhá-la novamente, desta vez com uma compreensão diferente. Melica não o manipulara. Ela fizera exatamente o que uma filha deveria fazer.
— A Tenente Danila, ela está nisso também. Eu sei. Como? — Andrei perguntou cauteloso.
— É melhor que você não saiba a verdade, e não reaja como quem sabe. Mas se ela um dia te orientar, séria, escute. Ela estará sempre ao seu lado, contra qualquer coisa. Ela sabe, para que você não precise mentir. — Melica disse ainda abraçada ao velho capitão.
Ele exalou bruscamente, passando a mão pelo rosto cansado antes de balançar a cabeça com uma risada irônica.
— Para ver o que um velho capitão sabe da vida ...
— Você protege. À sua maneira. E eu te protejo à minha. — Melica retrucou.
Houve uma pausa, então Andrei finalmente soltou uma risada profunda, batendo levemente no ombro dela.
— A verdade está dita então. Pai e filha Harata então, certo? — Ele disse com ternura.
Melica sorriu, passando o braço pelo dele enquanto se viravam de volta para as ruas.
— Pai e filha, família Harata.
E assim, as dúvidas foram postas de lado.
O mundo estava mudando, a Trifronteira à beira da guerra, mas por enquanto, eles caminhavam como sempre: não como um oficial calculista e uma Harata astuta, mas como pai e filha, unidos não por sangue, mas por escolha. Eles sabiam a verdade, não era por sangue, não era ele a protegendo, mas pai e filha porque lhes convinha assim.
Ao sul dali, na Cidade do Luar, outro lado dessa história se desenrolava. Em Luar, ao contrário da Trifronteira, as pessoas são endurecidas, e mesmo os jovens Harata como Rafiq estão familiarizados com a visceralidade que a política exige de tempos em tempos.
A Tenente Danila estava lá em seu dia de folga, jovial e implacável, semelhante a Aleksandr e diferente de Andrei ou Svetlana, os Harata a mantêm como um cão de ataque, um aviso. Ela não está totalmente desconfortável com isso, mas é ambiciosa, embora seja uma medida contingente fora de sua utilidade como alguém que os Harata atiçam contra todos que eles precisam que ela mostre os dentes.
Rafiq, o braço comedido e diplomático da Cidade do Luar, frequentemente trabalhava com Danila como seu contrapeso. Articulado, astuto com as palavras e perspicaz, Rafiq é tudo que Danila não é, e a única razão que ela ainda tinha utilidade. Os Harata não poderiam substituir Rafiq, mas Danilas, haveria em toda esquina.
Danila não era particularmente adepta à disciplina Onatra, mas sua utilidade garantia que os Harata impedissem seus superiores de saber que ela se deliciava com as bebidas poderosas na Taverna do Luar, o que os Harata documentavam cuidadosamente para mantê-la na coleira. Ela sabia disso e não se importava. Pra ela mesma, sua vida era cada dia.
Danila vivia em um teto provido por Harata, comia comida provida por Harata, e quaisquer facilidades materiais que ultrapassassem o limitado poder de compra que sua patente permitia, era através de crédito Harata.
O brilho fraco da Taverna do Luar projetava sombras bruxuleantes sobre a madeira polida, o zumbido quente da conversa preenchendo o espaço como uma névoa confortável. A Tenente Danila em seu lugar de sempre: de costas para a parede, os olhos percorrendo o salão com o desinteresse calculado de uma fera bem alimentada, mas sempre vigilante.
Ela girou o licor verde e fragrante em seu copo, observando como a luz se refletia nas ondulações. Um sorriso cruel brincava em seus lábios enquanto considerava a ironia: ela bebia bebidas que se bebesse, seu capitão não poderia pagar. Somente um oficial muito acima dela poderia pagar uma casa como a dela, e mesmo assim, ela não tinha um posto de real significado. Não tinha posses, nem família.
À sua frente, Rafiq era a personificação da elegância natural. Esguio, despretensioso, envolto no luxo silencioso do humilde vestir Harata, seus dedos delicados traçavam a borda de seu copo intocado. Onde ela mostrava os dentes, ele apenas sorria, um contraste forte o suficiente para perturbar. E, no entanto, entre os dois, era ele quem comandava o maior medo.
Danila exalou, rolando o pescoço como um tigre ao sol.
— Sabe, Rafiq, eu poderia ser mais útil para seus superiores. Eu poderia ser uma boa oficial de um posto melhor. — Ela se inclinou ligeiramente, a voz vibrando em algo quase sensual. — E eu seria uma garota muito, muito boazinha para os Harata. Para você.
Seu olhar demorou-se, faminto, seus lábios se curvando de uma forma que prometia muito mais do que dizia. Uma dúzia de implicações tecidas em uma única expressão. E por essa razão precisa, a risada de Rafiq permaneceria elusiva, perdida em algum lugar entre o divertimento e o cálculo.
— Por favor Tenente. Nos conhecemos há tempo suficiente para saber que esse apelo não funciona comigo. — Rafiq disse com dispensa no olhar.
Ele inclinou a cabeça muito ligeiramente, as bordas de sua polidez perpétua se aguçando em algo quase contemplativo.
— Minha cara e implacável tenente, — ele murmurou, a voz suave como veludo, — você realmente acredita que serviria melhor onde o escrutínio é mais pesado?
— Eu não sou idiota. Você e os seus poderiam lidar com esse escrutínio. — Danila zombou.
— Ah, certamente poderíamos, — Rafiq concordou facilmente, girando sua própria bebida agora. — Mas isso seria, como devo dizer? Ineficiente.
Danila enrijeceu com a palavra, seu aperto na bebida intensificando.
Rafiq notou, ele sempre notava, mas não abordou diretamente. Em vez disso, inclinou-se para a frente um pouco mais, sua voz baixando, íntima, mas fria como vidro contra a pele.
— Veja bem, — ele continuou, deliberado, paciente, — seu valor não está em seu posto, minha cara Danila. Está em sua liberdade.
— Liberdade?
Rafiq gesticulou sutilmente com uma mão, abrangendo a taverna, a cidade, tudo.
— Diga-me: Um Capitão poderia levar alguém a um beco e estripá-lo, e depois voltar ao seu posto na manhã seguinte, livre de relatórios ou escrutínio? Livre de um histórico. Livre de consequências, mesmo fora da hierarquia?
— Se fosse muito cuidadoso. — Danila sorriu de lado.
— Ah, mas o cuidado é um fardo, não é? — Ele recostou-se, cruzando as pernas. — Requer fineza, diligência constante. Mas você? Você não tem tais fardos. Você existe no espaço perfeito: um lobo nas trincheiras, botas no chão, mas despercebida entre seus generais. Você pode se banhar no sangue de um infeliz, e seguir sendo ninguém.
O sorriso de lado de Danila vacilou. Ela odiava ser menosprezada, mas havia algo na maneira de Rafiq fazê-lo. A forma como ele nunca levantava a voz, mas enchia o ar com um peso silencioso e esmagador, que a impedia de responder à altura. Que, em vez disso, a fazia querer mais, ansiar por sua maneira de falar com ela. Ser pisada verbalmente, uma maneira especial de se sentir humilhada.
— Você deveria ser grata, Danila, — ele continuou, e sua voz baixou, um sussurro de aviso envolto em seda. — Os Harata lhe proporcionam uma vida que alguns de seus oficiais superiores invejam. Sabe por quê?
A mandíbula de Danila se contraiu.
— Porque eu faço o que eles não podem.
Rafiq sorriu, satisfeito.
— Podem, mas eles teriam consequências indesejadas. — Ele fez uma pausa, depois acrescentou, — mas você deve se lembrar, existem outros.
O aperto de Danila em seu copo se intensificou novamente.
— Sim. — Rafiq deixou a palavra assentar, sua polidez se esgarçando, tornando-se algo mais sombrio sob sua elegância praticada. — Você é bastante implacável, minha cara tenente. Mas nunca deve se esquecer, existem aqueles que são ainda mais implacáveis. E, ao contrário de você, eles não estão presos à disciplina, ao escrutínio ou à moral da Armada. Nem ao resto de sanidade que ainda te pertence.
Danila exalou bruscamente pelo nariz, mais irritada do que com medo.
— Se isto é um aviso, Rafiq, então apenas diga.
Rafiq inclinou a cabeça, sua cortesia onipresente inabalável.
— Oh, não, querida. Não é um aviso. É simplesmente, contexto.
Danila encontrou seu olhar, sua mente processando as implicações. Os Harata sempre foram cuidadosos com ela, satisfazendo seus apetites enquanto a mantinham sob controle. Mas se eles a estavam lembrando de seu lugar agora, isso significava que algo estava mudando.
Ela recostou-se preguiçosamente, mascarando seu desconforto com um bocejo exagerado.
— Então, deixe-me adivinhar. Os beligerantes na Armada estão ficando ousados, e os Harata estão me lembrando que não posso ter ambições próprias?
Rafiq sorriu, não divertido, não caloroso, apenas educado.
— Essa é uma dedução bastante inteligente. Você deveria ter ambições. Só não essas ambições.
Danila exalou, batendo os dedos na madeira da mesa.
— Então quais ambições você quer que eu tenha?
Rafiq ajustou os punhos de suas mangas perfeitamente passadas, como se limpasse poeira imaginária.
— Simplesmente continue fazendo o que você faz, minha cara. Você não é desejada apenas por sua crueldade, mas também por ser tão bonita ao fazê-lo. Você tem 'talentos' que alguns oficiais não teriam, mesmo que tentassem. E, um conselho, tenha cuidado com seus amigos na Armada.
Danila bufou.
— Eu não tenho amigos. Não estou passando meu dia de folga aqui?
O sorriso de Rafiq não vacilou, mas algo no ar ao seu redor mudou, apenas ligeiramente. Uma mudança de peso, um ajuste de gravidade, a flexão silenciosa e sem esforço de seu controle. Ele ergueu seu copo, deixou o licor âmbar profundo girar dentro dele, e então o pousou sem beber.
— Ah, mas você tem amigos, Tenente. — Sua voz era suave, indulgente. — Cada pessoa que já a impediu de ser enviada para as Ilhas Livres é sua amiga.
Os dedos de Danila pararam de tamborilar na madeira. Seu aperto no copo se intensificou ligeiramente.
Rafiq notou, satisfeito.
— Os oficiais e trabalhadores que falaram em seu nome durante os inquéritos. Os oficiais que convenientemente extraviaram relatórios sobre certos excessos.
Ele se inclinou para a frente, seus olhos âmbar brilhando na luz fraca da taverna. Uma pausa dramática, antes de seguir.
— Aqueles que ignoraram as manchas de sangue em seu uniforme, os hematomas em prisioneiros que não estavam lá quando foram apreendidos pela primeira vez. Oh, tenente, você tem tantos amigos. — Rafiq relaxou-se na cadeira.
Danila exalou bruscamente pelo nariz, os olhos se estreitando.
— É isso que é, Rafiq? Uma ordem de silêncio? Eu devo me contentar?
— Uma gentileza. Há muitos que prefeririam que você estivesse em outro lugar, o problema de outra pessoa. Os dissidentes, por exemplo, se deliciariam em recebê-la em suas fileiras.
— Dissidentes não recrutam oficiais da Armada.
— Não para lutar ou para trabalho em campo. Mas eles têm um apetite muito particular pelo que oficiais, mulheres, Onatra, femininas e deslumbrantes, como você, podem ser forçadas a fazer por eles. Especialmente aquelas com, digamos, um exemplo requintado de desenvolvimento corporal em todos os lugares certos.
A mandíbula de Danila se contraiu. Ela não era idiota. Ouvira as histórias do que acontecia com as mulheres nas Ilhas Livres quando eram enviadas para 'viver com os cães'. Do que acontecia com oficiais Onatra exilados, despojados de seus postos, jogados aos lobos do mar que não conheciam fronteiras, nem limites. Ela fora a mão que aplicara essa punição mais de uma vez.
Rafiq sorriu, lendo seu silêncio perfeitamente.
— Então, você vê? Cada alma na Armada que se interpôs entre você e esse destino, cada oficial superior que argumentou que era melhor mantê-la nas fileiras do que descartá-la, é um amigo para você. — Ele bateu um único e delicado dedo na mesa. — E você nunca deve se esquecer de apreciar seus amigos.
Danila exalou, inclinando a cabeça ligeiramente.
— E o que acontece se um dos meus amigos decidir que não vale mais a pena me manter?
Rafiq riu, recostando-se na cadeira.
— Então, suponho que teremos que lembrá-los do seu valor da mesma forma que estou lembrando a você do deles.
Os lábios de Danila se curvaram, um sorriso de lado que era mais dentes do que divertimento.
— Você gosta disso, não é?
Rafiq encontrou seu olhar, sem piscar.
— O que você acha?
Danila sustentou o olhar por um longo momento, o ar entre eles tenso com uma compreensão tácita. Então ela se recostou, deixando seus dedos deslizarem pela borda do copo, ponderando.
— Então, — ela murmurou. — Vocês me mantêm aqui. Me mantêm alimentada. Me mantêm perigosa. E em troca, eu mantenho as pessoas certas com medo.
— As pessoas certas, sim. Seria isso. — Rafiq inclinou a cabeça.
Danila exalou pelo nariz, pegando seu copo e finalmente bebendo o que restava em um movimento suave.
— Tudo bem. Por enquanto.
O sorriso de Rafiq era sereno, como um erudito satisfeito vendo suas teorias serem comprovadas.
— Claro, minha cara tenente. Por enquanto.
Danila pousou o copo com uma lentidão deliberada, seu sorriso de lado retornando enquanto encontrava o olhar dele novamente.
— Mas um dia, Rafiq, eu posso decidir que você precisa ter medo. — Danila riu-se.
Enquanto se encaravam, por uma pausa, ela começou a ver algo nos olhos de Rafiq, não tinha bem certeza do quê. Algo profundo, perturbador, algo de que ela não conseguia desviar o olhar.
Rafiq não tomou isso como uma ameaça, ou um aviso, apenas as palavras de alguém que precisava de um lembrete de que ele é Harata, e Harata não faz exigências, Harata aceita consequências.
Enquanto se encaravam, Danila sentiu o peso de sua conduta, o medo de todos que sabem quem ela é, o que ela faz, e tudo o que a impulsividade lhe trouxe. Ela pensou em seus pais, que a rejeitaram, e nos homens de quem gostou e sentiam por ela nojo, medo ou ambos. Ela era um monstro.
Enquanto sentia sua perspectiva de vida se obscurecer para o pouco que podia agarrar naquele momento, na mesma medida o rosto de Rafiq exalava alegria, um prazer doentio pressionando-a. Ela se lembrou de suas palavras, as imagens vívidas do que os dissidentes fariam, pois seu corpo era um belo exemplo de músculos e postura esculpidos, o que para eles pareceria muito apetitoso, sem se importar com armadura ou roupas, trancada em um pelourinho, exibindo seus melhores ângulos para uma dúzia de dissidentes selvagens, grandes e lascivos. Perfilados esperando sua vez.
Seu pânico era palpável, pois para ela e seus horrores em sua mente. A realidade mesmo havia a abandonado àquele destino. Enquanto isso, para a pessoa comum ao redor, ela estava apenas paralisada, como em transe, com lágrimas escorrendo pelos olhos.
Quando Rafiq a soltou do transe, seu rosto era terno e jovial como sempre.
— Você não consegue me assustar, mesmo que tentasse o seu melhor, tenente. A força do Onatra é a disciplina, e você, minha cara Tenente, não tem nenhuma.
Danila recuperou-se lentamente do pânico, da visão, e uma espécie de prazer distorcido envolveu sua mente, pensando nas implicações daquela conversa. Seu corpo retornando seus neurotransmissores, era como se Rafiq a tivesse salvado, mesmo que de um pesadelo que ele mesmo criara. Era o alívio que se sente após o climax dos amantes, mas em forma de terror.
— Lhe digo algo, cara Tenente. Se precisarmos de uma oficial charmosa para cuidar de negócios de um lugar com uma vista melhor do que seu navio, eu lhe consigo o posto, — disse Rafiq em seu tom educado. — Esteja ciente de que virá com uma série de amarras, e muitos problemas para resolver. E sem mim para cuidar de você.
Danila sorriu, tomando sua bebida de uma maneira muito pouco refinada.
— Você é a única coisa que sentiria falta. Moleque. — Ela disse com sua risada desvairada.