Guerra e Paz

Em Ealetra, diplomacia é um esporte de contato. Os Beruanos dominam os céus, a Armada Naval domina as águas. Os postos da Armada Naval se concentram nos litorais estratégicos onde a cooperação de outras nações do Consórcio se faz necessária para a manutenção da superioridade.
O capitão Andrei, um dos mais experientes nas águas do Mar Estreito, comanda o cruzador de cerco Chernaya Bahakuda. O poder de destruição sob suas ordens é tão vasto que seu posto é ocupado apenas pelos mais destacados e habilidosos.
Uma das armas à disposição no Chernaya Bahakuda é o Maz Ynis. Carregado em virotes especiais, cargas balísticas e como sistema de detonação emergencial, Maz Ynis é uma arma química que queima qualquer coisa, e por sua reação envolver oxidantes próprios e uma reação partida que permite a queima completa como em uma câmara de combustão.
Os gases liberados nas imediações da queima protegem o fogo de agentes químicos e físicos que extinguiriam a chama, bem como intoxicam seres vivos nas proximidades. Uma arma de precisão ou de destruição em massa.
Essa foi a arma que, com uma origem obscura, deu aos Onatra e aos Urbani o poder final de derrotar os Silvani completamente, confiando-os na nação em declínio que se tornou Tirayon, e impedindo completamente suas ambições imperialistas.
O capitão Andrei, como todos, mesmo já no terço, era muito novo para ter participado da Guerra, mas ninguém em Ealetra ouve falar em Maz Ynis e não entende o que ele significa.
Era já noite e o Capitão Andrei estava se preparando para começar sua ronda diária pelo Mar Estreito. Sob seu comando uma série de oficiais. A tenente Danila era parte de seu pessoal, mas naquele momento estava fora de serviço, por alguma razão que Andrei já nem se preocupava em saber. Para ele, o comando tinha qualquer razão para liberar pessoal que não interessava, e nem era bom para sua saúde, questionar.
Um cabo se endireitou à sua aproximação, com uma saudação vigorosa.
— Capitão, senhor. A delegação Khara está a caminho. Eles partiram de Zhefaq hoje de manhã e já devem estar se aproximando do portão leste.
Andrei exalou exasperado, mal disfarçando seu desinteresse.
— Eles estão realmente vindo para cá? Com um general?
O cabo não hesitou.
— A General Tarasovna deu a ordem. Não há questionamentos, senhor.
— Pelo Sol Invicto! Uma dúzia de oficiais menores podem carregar a inteligência e acenar para os ratos.
— A general tem informações importantes que pretende entregar pessoalmente em forma física Senhor. Ela exige tudo offline. — Interveio um Major, cuidadosamente, medido, suas palavras curtas, mas respeitosas. — Foi o que nos disseram. Senhor.
O maxilar de Andrei se contraiu.
— Forma física? Você quer dizer papel escrito? Mas que merda. Pelo menos me diga que ela está trazendo o grupo de elite. Não se pode confiar nesses Harata. Maior o posto, maior o desgosto.
Uma pausa. Uma mudança na postura do Cabo e um aceno do Major. E então, com um olhar que beirava a diversão, o Major voltou.
— Mestre Valaravas estará à frente da reunião, Senhor.
Isso com certeza fez o humor de Andrei azedar mais rápido que leite no vinagre. Sua expressão escureceu, seus lábios se comprimindo em uma linha fina.
— Explica o súbito interesse da General em ir pessoalmente, com essa desculpa de "meios físicos".
O silêncio entre eles durou segundos, mas era mais intenso que o silêncio no vagão do Verme durante a partida.
— Dispensados. — Andrei disse já partindo em passos largos para o seu cruzador.
Andrei chegou em seu cruzador, ancorado como um símbolo do poder da Armada Naval. Eram suas as últimas vistorias antes da partida, mas ele não estava completamente focado em verificar as turbinas supercríticas, ou os tubos de lançamento selados. Sua mente estava processando outras preocupações.
— Svetlana e essa obsessão por esse Harata — ele murmurou, mais para si mesmo do que para qualquer outra pessoa — Ela ainda vai lamentar. E depois somos nós a recolher a sujeira.
Andrei puxou a pequena corrente que escondia em seu uniforme o pequeno pingente circular com o símbolo do sol. Mesmo com todos os problemas e todas as preocupações, a prece para o Sol Invicto antes de partir era um ritual que ele, assim como todos os capitães do mar de Erítria jamais esqueciam.
Era hora de partir, e os motores do cruzador tomaram vida com o barulho abafado dos motores elétricos e do ar pressurizado indicando que tudo estava perfeitamente em ordem para o início da patrulha.
Com a tripulação preparada, Andrei tomou o comando do cruzador, que iria partir da Trifronteira pelo Mar Estreito, entre Pasvara e Purvatara, os continentes Ocidental e Oriental respectivamente. Sua viagem ao sul chegaria nas Ilhas Livres, no mar da costa da Cidade do Luar, onde abasteceriam na Ilha Magenta, para voltar ao norte, e retornar à Trifronteira.
Tudo correndo bem, era uma viagem tranquila, apenas observando a costa, e o mar escuro.
Andrei não conseguia tirar da mente a questão da General Svetlana sair do Khara para vir numa reunião do Consórcio na Trifronteira. O Khara fica no Leste de Erítria, e a Fáscia de Seldanar é a nação do Consórcio no Leste. Faria mais sentido ela ir a reunião lá, e Aleksandr, o Coronel no comando do Zhefaq, lidar com as coisas no Oeste, onde fica o Zhefaq.
Isso cheirava a novidades no comando da Armada, que Andrei havia aprendido, nunca significavam boa coisa.