Grande Mãe Audren de Seldanar, a Regente da Fáscia, estava se preparando para começar mais um de seus dias, mais um dos mais de 30 mil que ele havia testemunhado em sua longa vida. A Fáscia de Seldanar, uma cidade-estado construída pelos Seldanar e concedida à irmã mais nova da então Grande Mãe de Khadija, Majaris de Seldanar. Essa era em uma linha matriarcal de sucessão uma antepassada de Audren, assim como era esperado que a Fáscia tivesse uma Grande Mãe Silene, a filha mais velha de Audren, e quando essa morreu, talvez uma futura Grande Mãe Ayla, e quando essa morreu também, não sobraria nenhuma.
Audren via em seus dias agora apenas a rotina dos assuntos de Governo da Fáscia, e o resto deixava na mão de suas Conselheiras, Ministras e Instituições. Talvez um dia, a Fáscia fosse ver a Grande Mãe Nushala, a neta de Audren. Mas Rentaniel estava fazendo esse futuro realmente incerto com suas atitudes.
A monarca começava cada manhã mantendo sua forma física através de exercícios disciplinados, e terminava cada noite descendo a uma meditação profunda e o sono até a alvorada seguinte. Entre esses dois pontos, ela se preocupava unicamente com os assuntos internos da Fascia. Era como se ela considerasse que qualquer problema do mundo não afetaria a Fáscia, se a Fáscia fosse governada com sabedoria.
Uma nação autocrática, onde Audren era chefe de governo e chefe de Estado, a Fáscia seguia pela palavra de Audren e seus ecos. Oficiais agiam por seu comando, barões do comércio moviam-se apenas com sua autorização. No que dizia respeito a Audren, o resto de Ealetra poderia queimar sob um céu escuro de Maz Ynis, sua preocupação permaneceria sendo a Fáscia, e somente a Fáscia. E por essa razão, mantinha laços estreitos com a única outra terra ainda autossuficiente nos bens alquímicos mais raros: Ynis.
— Grande Mãe, seu filho está irritando as pessoas erradas, novamente. Precisamos agir. Chegará um ponto em que não poderemos protegê-lo! — Disse Syvis, entrando no Salão Real de Magdalagur.
— Não é uma questão de proteção. — A voz de Audren era forte e vívida para os seus anos de vida. — É apenas uma questão de tempo até que meu filho se encontre desamparado. Ele é seu próprio homem, e dono das consequências de seus atos. E quanto a Nushala? Ela é a única que precisa de proteção. A única que importa-me.
— Sua neta está segura no Castelo de Rentaniel, por enquanto. Mas isso não vai durar se Rentaniel for permitido agir como age. Ela faz parte de seus planos acéfalos, de certo. Eu a exorto a intervir, Grande Mãe! — Disse Syvis com gravidade.
— Se eu fosse controlar a vida de minha neta, não seria melhor que seu pai. — Disse Audren com um sorriso. — Ela tem um lugar no jogo, que é dela. Só dela. E até que ela o encontre por si mesma, manterei minha promessa: Ela não será arrastada.
— Isso só será possível se removermos Rentaniel do jogo. — Lamentou Syvis. — Se ele permanecer, jogará com ela. Ele usará sua neta como usou sua esposa, e seu fim será também o mesmo.
— Isso... — Audren exclamou. — deixaremos para o Harata resolver. E ele irá resolver. Nushala é a única em linha de Ayla, e tem seus direitos. Isso a protegerá mais do que qualquer decreto meu. Ela é o coração de um Harata, como a tia.
— É o único que me conforta, Grande Mãe. O único. — Syvis refletiu que não havia mais o que dizer. — E quanto a Syndra?
— O que tem Syndra? — Respondeu Audren com um sorriso sarcástico.
— Ela está próxima de um Anoa. Isso pode se tornar um problema, se já não for. — Syvis disse com urgência. — Não é verdade?
— Syndra é uma mulher em seu quinto. Ela sabe o que está fazendo. — Disse Audren dando os ombros.
— E se for além de mera diversão?
— Ainda assim, não é nosso problema. É problema dela. — Audren insistiu em terminar o assunto.
— Devo ficar de olho nela pelo menos? — Syvis ainda tinha esperança.
— Se quiser saber de fofocas, esteja à vontade. Quanto a mim, Syndra me dirá exatamente o que preciso saber, e o que não disser, não é da minha conta. — Audren respondeu com austeridade.
— Devo permanecer com Nushala então. — Syvis disse com desapontamento na voz.
— Deve, e não só você. Mas certifique-se que meu legado tenha o que precisa. Os governadores devem estar informados. Ele voltará. O lugar dele é aqui. — Disse Audren retornando a sua pose contemplativa.
Syvis deixou a sala com a resolução de que o assunto não terminaria assim. Syndra não se livraria facilmente da mente de Syvis, mas Nushala de fato merecia mais atenção do que uma diretora no quinto tentando aproveitar sua vida. Era crucial que a raiva de Rentaniel não ameaçasse o futuro de Nushala, ou fizesse com que a promessa de Audren não fosse cumprida.