Gerações

O ar no Castelo de Seldanar estava diferente do costumeiro, com a essência de decisões que poderiam mudar a vida de muitos, e por acaso, iriam, pois o senso de autoridade de uns era maior que a verdadeira autoridade de outros. Era sempre assim que aconteciam as discussões entre Audren e Rentaniel.
A Grande Mãe Audren viveu o suficiente para entender como o mundo funciona, e como navegar o intricado jogo que todos jogam no poder, mas Rentaniel tinha apenas a experiência de ser o filha da Grande Mãe e brincar de autoridade, sendo na verdade o menino de recados da autoridade alheia.
— Mãe, não é justo. — Rentaniel estava revoltado. — Você permitiu que Ayla caminhasse com ele. Minha filha deve caminhar com ele. E agora ele desfila em nossa cidade, na casa nossa, com aquela mulher selvagem. Se ela caminhar com ele, estaremos presos a isso!
— Nossa? Ayla fez a escolha dela. — Audren era paciente como só mães pacientes podem. — Eu entendi as razões dela. Assim como entendo as suas. Mas a casa, o legado, e o título são 'dela', não são 'nossos', e não são 'seus'. Nushala é minha sucessora, mas eu estou aqui, e 'ela' estará pronto quando for necessário.
Seus dedos tamborilaram levemente no braço de sua cadeira, o único sinal de impaciência que ela se permitia.
— Ela era a sucessora, ele é o executor da Fáscia, Rentaniel. Não você. — Ela adicionou, com pesar.
As palavras caíram com o peso que só Audren poderia interpor.
Rentaniel não vacilou, não cedeu. Sua mandíbula se contraiu, sua voz inabalável.
— Ele não é nobre, ela não é nobre. Ele tem um eco do dom de nossa família, e a selvagem é uma refugiada Silvani. Nem mesmo o dom dos Selvagens ela tem. — Rentaniel explodiu. — Eu não vou aceitar isso.
Audren suspirou, esfregando a têmpora como se a dor de cabeça já tivesse se instalado há muito tempo.
— Você irá aceitar, pois é o que se espera do filho da Grande Mãe. — A voz de Audren não se elevou, mas era decisiva. — Você é meu filho, e eu te amo como amei suas irmãs. Mas a guerra e o jogo tiraram-nas de mim, e não tirará minha neta.
Seu olhar estava distante agora, perdido em fantasmas que Rentaniel não podia ver.
— Eu confiei ao Harata tudo isso porque sei o que fazer para evitar problemas. — Audren trouxe o tom para gravidade. — Ele é o executar da Fáscia, não você. Se ele considera a mulher Silvani apta, a decisão é dele.
— Se a tradição for observada, ele pertence a Nushala. Ele não pode apresentar a Selvagem para o conselho. — Rentaniel quase resmungou a resposta.
— Se a 'tradição' for observada, ele é o executor, e ainda assim, a decisão é dele. Nushala estará sob a tutela dele até que ela tenha idade. — A voz de Audren foi à decepção. — Você é mais velho que Ayla, mas ela é irmã, e ainda assim, ela era mais sábia. Por tudo que nos faz Urbani, tradições e leis, esse é um jogo que você não sabe e não vai querer jogar, meu filho.
A pausa se estendeu, densa de coisas não ditas.
Audren olhou para seu filho, como só uma mãe poderia, e falou com ele agora como sua mãe, mesmo que nem fosse a Grande Mãe da Fáscia.
— Nós não comandamos os Harata, meu filho. Nós nos escondemos atrás deles.
Rentaniel também desceu ao nível familiar, abandonando o protocolo e a soberba que lhe eram peculiares até o momento.
— Isso não é justo. Somos mais fortes, mais civilizados, mais poderosos. Somos melhores!
Sua cabeça se inclinou ligeiramente, mas as palavras não continham humildade, apenas raiva, ressentimento.
— Temos que retomar o poder. Khadija segue forte. Nós abandonamos nossa missão. A de liderar Ealetra com nossa sabedoria. — Rentaniel era quase infantil.
A expressão de Audren não mudou. Se mudou, suavizou. Não com simpatia, mas com a dor silenciosa de uma mãe observando seu filho se agarrar a uma batalha que já estava perdida antes mesmo de ele nascer.
— Seja sábio meu filho. — Audren chegou perto de Rentaniel, segurando suas mãos. — Se você o desafiar, não há lugar em Ealetra onde possa se esconder. Isso contando que você, por bondade dele, sobreviva enfrentar a ele.
Ela fez uma pausa longa, apertando carinhosamente as mãos do filho, buscando aquele lampejo do garoto esperto que ela viu crescer.
— A menos que deseje seguir todos que tentaram fazer isso para o único lugar onde um Harata não pode te encontrar. Mas temo que ali, você não sobreviveria a entrada. — Ela disse, quase terna. — No vale você descobriria o que é um selvagem de verdade.
— Eu não quero ser dissidente, mãe. — Rentaniel já estava quebrado.
— Você conhece a Tayen, da Casa Heleyan? A jovem Mãe daquela casa? — Audren não esperou a resposta. — Ela é a Grande Mãe da casa, pouco mais velha que Nushala, porque o pai, Loronar, décadas atrás, tentou fazer o mesmo que você quer fazer agora. A família dele teria acabado se não estivessem Tayen e a mãe em Khadija.
Ela balançou a cabeça, exalando.
— Somos diferentes, sim. Mas os Onatra, or nômades e os Harata são de quem somos diferentes. — Audren puxou Rentaniel a pensar. — De que lado você acredita que vão ficar se nós começarmos a forçar? Khadija não está como Tirayon, e a Fáscia só existe, porque nos escondemos atrás dos Harata.
Rentaniel buscou algo para dizer, por alguns segundos.
— Loronar morreu em seu castelo de verão, na costa do domínio de sua casa. — Disse ele finalmente. — Ele morreu de picada de cobra. Porque vagou pela floresta sozinho. Temos as marcas da picada. Temos o relatório dos acadêmicos. Ele não foi assassinado.
Audren deixou as palavras assentarem por um momento, antes de balançar a cabeça mais uma vez.
— Loronar e todos em sua casa morreram porque desafiaram a ordem que foi estabelecida antes mesmo de eu nascer. — Sua voz era paciente, maternal como nunca naquela conversa. — Você não pode ser tão ingênuo, filho. Este mundo não é mais nosso. Somos tolerados aqui enquanto jogarmos o jogo deles. Nós até mentimos uma vergonha para não admitir uma maior. E Loronar simplesmente queria uma pequena ilha. Você quer tomar o poder dos Harata. Imagine o seu futuro.
Uma pausa mais longa, mais pesada que as anteriores.
Audren tornou-se técnica, precisa. Se apelo pela família não funcionaria, apelo pela auto preservação funcionaria.
— Temos aliados entre os Anoa, e mesmo acadêmicos entre eles. Você sabe que eles são frágeis e nunca enfrentam o sol. Mas sabe que suas terras são cheias de criaturas que eles são resistentes, e que a nós, matariam só por tocá-las?
Seu olhar demorou, triste, experiente.
— Antes que essa ignorância leve o último filho que me resta, e minha neta, você precisa aprender sobre os povos de Ealetra, antes de afirmar as coisas. De outra forma, sim, a única sucessora que me sobrará será a Silvani. — Audren disse com severidade.
Rentaniel não disse nada. Nada enquanto se virava nos calcanhares. Nada enquanto marchava da câmara, seus passos pesados com o peso de um coração em guerra consigo mesmo.
Audren o observou partir, sua expressão indecifrável. Ela exalou lentamente, depois se levantou de seu assento e se moveu em direção à antecâmara. Lá, ela encontrou um de seus guardas reais.
A voz da Grande Mãe estava mais suave agora, mas firme.
— Certifique-se de que alguém sempre impeça meu filho de se matar, ou de matar a filha. Se uma escolha se fizer necessária, Nushala tem preferência. Meu legado tem a autoridade. Sobre ele, sobre ela. — A Grande Mãe estava de voltar em cena. — Mantenha Syvis informada.
Rentaniel, por sua parte, não toleraria esse insulto. Ele apostaria todas as suas perspectivas no fato de que sua filha Nushala teria o Legado de vice-rei da Fáscia, efetivamente assumindo o título de sucessora da Fáscia, como a companheira do legado da Grande Mãe deve ser.
As regras de sucessão da Fáscia, como as tradicionais Urbani seguem a linhagem feminina da família, mas o legado, o homem que caminha com a sucessora, quando na falta dela, deve seguir a sucessão ou escolher a próxima Grande Mãe. 
Rentaniel queria evitar a alternativa, já que sua filha era muito nova, e os Urbani, ao contrário dos Silvani, criaram a alternativa para evitar pessoas imaturas com poder. Infelizmente, adultos imaturos como Rentaniel seguem sendo uma possibilidade. Possibilidade que nem Valaravas, nem Audren, querem para o futuro da Fáscia.
A certeza de Rentaniel tropeça em um outro aforismo Harata que ele provavelmente desconhece:
[Harata não se esconde, Harata sempre sabe onde]