Gente Grande

Kivi e Lumi sairam do trem pela estação que ficava bem na frente do prédio da Eletrochinia. O destino de Lumi, mas não de Kivi. O velho Carpata levou a menina até a entrada do prédio, deixando-a depois de uma curta despedida e instruções de como achar Toivo, o gerente de negócios da Eletrochinia na Trifronteira.
Ao entrar, Lumi parou um momento. O prédio era perfeitamente construído, maravilhosamente decorado, mas nada ali tirava a atenção de Lumi do sorriso da recepcionista. O primeiro olhar já dizia tudo. A pele, os olhos, a roupa simples que parecia feita sob medida para o corpo esguio e bem posturado da garota. Uma Harata.
Novamente, Lumi sentiu-se magneticamente atraída pela garota, mas de uma forma diferente. Era mais geral. Ela se sentia bem, se sentia importante, e sentia confiança no que estava fazendo. A garota em si, não parecia puxar os sentidos em Lumi, apenas uma sensação de segurança e familiaridade.
— Olá. Você deve ser Lumi. Eu sou Mara. O Senhor Toivo já estará pronto para recebê-la em alguns minutos. Por favor sente-se. Qualquer coisa, eu estarei aqui.
— Obrigado, Mara. Muita gente trabalha aqui?
— Só os representantes da Eletrochinia. Mas o prédio também serve como moradia dos funcionários. Acima do quarto andar. É mais seguro e cômodo assim.
— Entendo. — Lumi estava relaxada agora. 
A garota Harata talvez não soubesse, mas Carpata geralmente mora onde trabalha mesmo em Onachinia. Os Harata geralmente moram em grandes vilas onde muitos moram em um mesmo lugar, compartilhando certas partes das moradias, e reservados espaços privados em outras partes. A Carpata logo ia aprender como são diferentes os povos de Ealetra.
A curiosidade de Lumi estava em outra parte agora. Até então ela havia visto quase tudo escrito em Erítrio, que é a mesma língua falada em Onachinia. Também havia ouvido todo mundo falar em Erítrio, mesmo os Harata. Ela não havia notado como nada até o momento ela não entendia. 
Agora observando as placas e os papéis sobre a mesa no centro da sala de espera, que ela percebeu que Erítrio não está em lugar algum. Entretanto os Harata que ela conversou falavam Erítrio quase tão bem quanto ela, exceto pelo sotaque melodioso que têm.
Ela percebia que duas escritas apareciam nos papéis, mas não fazia ideia de que língua eram, só que era duas escritas diferentes. Mais outra coisa das muitas que ela precisaria aprender.
Alguns minutos de contemplação e a garota ouviu uma voz forte, em Onatri que ela conhecia, chamar seu nome. Era Toivo, o gerente, que a acompanhou até a sala no andar superior. 
Era uma sala espaçosa. Ela era decorada com elegantes esculturas, as paredes solidas faziam o barulho da Trifronteira parecer as vezes um pequeno murmúrio de fundo. 
— Olá Lumi. Eu sou Toivo, o gerente, como deve saber. Sei que tem muita coisa que você precisa saber mas vamos ter que ir devagar, porque aqui é bem diferente de Onachinia. Acredito que durante a viagem o Kivi já falou bastante, e você já deve ter visto como é aqui na Trifronteira. Mas comecemos por dizer que é muito bom ter você aqui, e você foi muito bem recomendada pelo escritório regional de Varsa.
— Muito obrigada, Toivo. Estou animada e, ao mesmo tempo, um pouco apreensiva. É tudo muito novo para mim.
— Exatamente. No trabalho, prezamos muito pela pontualidade, organização e clareza na comunicação. Nossa empresa atua no setor de energia, com projetos de geração e distribuição sustentável, então representamos não apenas resultados financeiros, mas também responsabilidade ambiental e cooperação internacional. A Trifronteira é uma nação construída sobre essa plataforma.
— Qual é o meu trabalho aqui? Eu aprecio a oferta, mas eu não sei exatamente qual a qualificação que me trouxe.
— Onachinia tem um rítimo. A Eletrochinia tem um interesse. Os locais são bons no que são bons, mas é importante que algumas coisas sejam como a gente faz, como a gente sempre fez. Ser de Onachinia, ser Carpata é uma qualificação importante nesse caso. E a confiança é essencial. Sua família é muito conhecida pelos executivos da Eletrochinia, e você muito bem recomendada. Me faço entender?
— Entendo. E quanto à cultura local no ambiente de trabalho? — Lumi disse meio apreensiva.
— Boa pergunta. Aqui valorizamos bastante o trabalho em equipe e o respeito à hierarquia, mas também incentivamos que as pessoas façam perguntas e aprendam continuamente. Em reuniões, às vezes as pessoas são mais cuidadosas ao expressar discordâncias. Com o tempo, você vai aprender a ler esses sinais.
— E fora do trabalho? Confesso que isso me preocupa um pouco. — A garota disse menos constrangida.
— Viver na Trifronteira é uma experiência única. No dia a dia, dispositivos vão facilitar muito sua vida. Vamos te conferir um serial. Pagamentos, transporte, entregas, qualquer serviço, é pago com o serial. A Divisão Beruana e a Divisão Erítria são seguras e tem opções incríveis de gastronomia, de todos os povos, mas pricipalmente de Onachinia, o que ajuda bastante quando bate a saudade de casa.
— Isso é um alívio de ouvir.
— Outra dica importante: seja paciente consigo mesma. Algumas barreiras linguísticas e culturais vão surgir, mas os moradores locais costumam ser prestativos. Além disso, temos outros colegas estrangeiros aqui. Eles vão te ajudar com o Franci. A língua que todo mundo fala na Trifronteira. Só os Harata falam Onatri.
— Fico mais tranquila sabendo disso. Parece desafiador, mas também uma grande oportunidade.
— É exatamente isso. Trabalhar aqui amplia muito a visão profissional e pessoal. E lembre-se: você representa nossa empresa todos os dias, dentro e fora do escritório. Ética, respeito e profissionalismo são valores centrais para nós no setor de energia.
— E alojamento. A Mara disse que os funcionários moram aqui.
— Sim. Depois que terminarmos aqui, a Tamara, nossa outra secretária, irá mostrar onde você ira ficar. Tem todas as comodidades e privacidades de uma casa. E respeitamos horários de trabalho. Ninguém irá exigir fora do seu horário, ou sem que seja compensado generosamente. Garanto.
— Estou bem mais segura agora, Senhor Toivo. Obrigado pela conversa !
— Conte comigo e com a Equipe Lumi. Seja bem-vinda à família Eletrochinia, e à Trifronteira.
Com um aceno e um toque no console, Toivo despediu-se de Lumi que já ia saindo.
Uma outra Harata, esta mais madura, e com um ar mais sério e acolhedor, maternal quase, mas não menos charmoso, entrou e já tomou conta de Lumi.
— Olá, eu sou Tamara. Eu trabalho com os residentes. Pense em mim como a síndica do prédio, e a secretária. Quando precisar algo no residencial, fale comigo.
— Olá Tamara. Eu sou Lumi, a nova Auxiliar do Senhor Toivo. — Disse Lumi já habituada com o charme Harata.
As duas dirigiram-se ao elevador, e nele foram ao sétimo andar, onde apenas quatro entradas eram visíveis. O apartamento em si era maior do que o terreno em que Lumi morava de volta em Varsa, sua terra natal.
— Isso é só meu? — Lumi disse mesmerizada.
— Sim, Lumi. Seu trabalho é importante, e estressante. Um bom lar é uma parte importante de fazê-la sentir-se bem para enfrentá-lo.
A garota mal sabia por onde começar. Tamara pacientemente seguia a Carpata curiosamente verificando cada parte do apartamento. Das janelas a Trifronteira abaixo, tumultuosa, mas seus barulhos, seus cheiros, seus visuais quase não chegavam nem com as janelas abertas, mas praticamente silenciavam em outro mundo com as janelas fechadas.
A construção era Carpata: Densa, acabamento rústico mas bem feito.
Tamara entregou a Lumi o serial. Ela era aquela carteira que ela havia visto antes, nas máquinas de venda, e nas mãos de muita gente, que ela não sabia identificar.
— Esse é o seu serial Lumi. Ele serve como identificação onde não há biometria, e como forma de pagamento. Quando precisar pagar alguma coisa, é preciso pressionar o polegar na marca, como identificação deve ser sem. O importante é esse quadrinho metálico no meio, o plástico de fora é uma capa protetora. Você pode mudar se quiser.
Lumi pegou o aparelho, distraída com a novidade.
— Esse é o seu comunicador e ponto pessoal. Um aparelho comum, a tela diz como usar, e você vai aprender com o tempo. Para comunicar-se, ou para fazer coisas pessoais, você precisa colocar o serial dentro dele.
Tamara demonstrou como utilizar o serial junto com o ponto pessoal, e como o serial também servia como a chave do apartamento. Outras coisas mais mundanas da casa ela foi explicando, algumas coisas Lumi conhecia, outros nem tanto.
A vida em Onachinia para Lumi era simples e sem muitos luxos ou tecnologias. Se ela tinha alguma coisa que precisava aprender, ela precisaria descobrir antes de saber como perguntar.
— Todo mundo aqui fala Onatri? — Lumi perguntou com um tom de diversão.
— Harata, nós falamos os idiomas do Consórcio todos. Não se preocupe. Harata sempre falará com você normalmente.
— E os tais Urbani e Silvani, vou precisar aprender?
— Franci é um idioma fácil. Se você precisar falar com um Urbani, provavelmente é como falará. Mas dê tempo ao tempo. — Tamara disse com um sorriso cordial, mais cordial do que seria natural.
— Diz alguma coisa no seu idioma, Tamara! — Lumi disse com divertimento.
Quando Tamara falou, Lumi parou por um momento. Um silêncio.
— É uma música? Poema. Soa tão doce. — Lumi disse fechando os olhos com um sorriso felino.
— É a língua do meu povo. Vá se acostumado porque estamos por toda a Trifronteira. Por falar nisso, quando quiser passear em um lugar seguro, mas com gente de toda a parte e boa bebida, tem o Cântaro Dourado. Todo mundo sabe como chegar lá.
— Cântaro Dourado. Assim que me instalar e começar a trabalhar, na primeira folga vou ver lá.
Tamara sorriu e deixou Lumi para terminar de reconhecer seu novo lar.
Lumi de sua parte estava realmente segura agora com a sua decisão. Para os Carpata a casa e o trabalho são o fundamento da vida. Com os dois seguros, Lumi tinha certeza que a vida estava acertada.
Era esperar o próximo dia, e ver como as coisas seriam em sua nova vida.