Karak e Raila agora precisavam agir. Eles sabiam que para uma força como aquela estar presa no Umbral naquela área, forte o suficiente para manifestar-se com tal, sua relíquia precisava estar materialmente presente.
Eles procuraram por toda a câmara, mas não podiam encontrar nada. Eles não tinham nenhuma posta de como aquele lugar poderia funcionar como um templo.
Karak retornou ao lugar onde Raila tomou a Qachruna, e depois ao lugar que ela misturou os minerais. Eles tinham uma lógica, uma geometria. Mas contando que fossem câmaras rituais, ainda assim nada ali indicava a relíquia.
Raila estava inquieta, sua mente rodando. Ela teria que achar a relíquia, agora que a manifesta entidade ligada a relíquia a havia encontrado.
Enquanto ela se movia com angústia pela caverna, Karak parou, observando o desenho na parede. Suas linhas, seus detalhes.
A estrutura era característica.
Ele procurou pela caverna, e observou uma estrutura interessante, mineralizada, que replicava as linhas do desenho exceto pela relíquia, mas como se estivesse naturalmente esculpida em forma de um pilar.
Com a pedra que Raila havia esfarinhado os minerais, Karak começou a lixar a coluna, exibindo uma estrutura mais sólida dentro de uma casca mineral, depositada como quando uma estalactite encontra uma estalagmite.
Conforme a camada externa foi esfarelando, o metal por dentro começou a esfarinhar a pedra que Karak utilizava.
Rapidamente a relíquia estava exposta o suficiente para ser retirada.
Raila envolveu-a em um pano e guardou-a.
Em seus pontos pessoais, eles perceberam que passaram-se muitas horas. O Harata puxou Raila para seguirem de volta.
A mulher estava perdida nas entranhas da terra, mas o Harata era como todos de seu povo, um exímio navegador. Ela escolhia os caminhos com agilidade, rapidamente retornando à entrada.
Era noite já, e provavelmente o resto da tripulação da Sutay há teria retornando à vila capital.
— Temos que dizer para eles escavarem essa região logo. — Raila disse com uma voz cautelosa.
— Destruir isso?
— Os Anoa querem minerais, eles não se importam com o que esteja ali. Não podemos deixar que Ravantes, ou pior, o Vale, jamais ache esse lugar. — Raila virou-se como em apelo.
— Vou deixar a mensagem para a equipe escavar essa região. Informaremos que encontramos depósitos minerais valiosos. Tenho ainda uma das pedras. Deve ser algum mineral importante. — Karak acalmou-a.
Eles foram em silêncio pela noite escura da ilha, diretamente para o alojamento. Era noite, e a maioria já estava recolhida.
Ao entrarem encontraram a melhor ou a pior pessoa para esbarrar naquele momento.
— Vocês a encontraram, não? — Carcará disse encarando Raila.
— Quem? — Karak interrompeu o contato visual deles.
— E ... — Raila começou.
Karak levantou a mão, interrompendo a Sangamani.
— Responda a pergunta, meu jovem. — Karak insistiu.
Carcará encarou Karak diretamente. Sua intenção era puxar pelo seu próprio dom, mas o Harata já não estava jogando aquele jogo.
O mestiço viu seu mundo resumir-se aos olhos de Karak, seu corpo relaxando-se. Ele tentava desviar o olhar, mas Karak era alguém que valia a pena ouvir, valia a pena seguir.
— Eu sempre soube quem é você, Carcará. Mas é melhor sermos honestos. — Karak disse, sustentando o olhar de Carcará.
Carcará via no fundo dos olhos de Karak o reflexo púrpura que conhecia bem. O dom Harata que havia aprendido a ter cuidado.
Nos olhos de Carcará Karak via a sombra da luz escura que ilumina com escuridão, e como ele a controlava.
Com um movimento das mãos ele cortou o contato e o foco de Carcará estava livre novamente.
— Minha pergunta está respondida. — Carcará disse, indo para fora.
Raila e Karak saíram junto.
— Você sabia sobre isso? — Raila perguntou.
— Não aqui. Minha mãe conhecia o passado do povo dela. O seu povo. — O mestiço disse, tomando seu chá, olhando para o nada.
— Não é o seu povo também? — Raila perguntou.
— Minha mãe era acuidá. 'Seu' povo a negou. Não tenho parte nele.
— E Erítria? — Karak perguntou. — Eles devem ter algum orgulho da sua disciplina.
— Meu pai era Onatra. Nunca vivi em Erítria. Eu nasci onde a Armada o abandonou, a 'ilha da morte' como chamam, porque é o destino de qualquer um ali. — Carcará disse mantendo o ar fatos na mesa.
— Ilha da morte é no sul de Khadija, como você chegou em Jangunaray? — Karak perguntou cruzando os braços.
— Você deveria saber, velho. Não é de Angaraya? Seu povo é generoso com quem é útil. — Carcará sorriu sarcástico.
— Como assim? — Raila perguntou aproximando-se de Karak.
— Dukhovne? Sabem oque é? Meu pai foi um deles. Ela era útil. Algum Harata o tinha útil. — Carcará respondeu.
Raila estava confusa. Karak sinalizou para ela não perguntar mais.
— Eu sei o que é um dukhovne, rapaz. Eu fui agente da Lâmina. — Karak disse sentindo o peso daquilo.
— Então sabe que eles não iam deixar ele apodrecer naquela ilha.
— Ele era coração de Harata? — Karak perguntou com tom suave.
— Como assim? O que isso quer dizer? — Carcará perguntou. voltando-se para o Harata.
— Uma cultura nossa. Não é importante. Falamos outra hora. — Karak tentou desconversar.
— Começou, agora termina, velho. — Carcará tomou um tom mais agressivo.
— Eu fui agente da Lâmina, falhei em uma missão, e segui para a vida de dissidente. Foi por uma razão. Eu vi muita coisa. Mas eu sou Harata, eu não minto. Não quero responder uma pergunta que sei que a resposta não vai trazer nada positivo para alguém da minha tripulação.
— Não sou criança, velho. Responda a pergunta! — O mestiço irritou-se.
— Harata só se preocupa com o Harata, e a família do Harata. Se um grupo da Lâmina invadisse aqui e fosse limpar o lugar, mesmo sendo um Agente falido e desertor, sou Harata, Raila é coração de um Harata. Malek é Harata, Lateral é o coração dele. Estaríamos completamente imunes de qualquer coisa, mas vocês não.
— Isso eu entenderia, mas o que isso tem a ver com meus pais? — Carcará perguntou já acomodando-se.
— Se o seu pai era dukhovne, à serviço de um Barão Harata, e vocês foram levados a Jangunaray, e eles morreram logo em seguida, dois e dois são quatro, meu jovem. — Karak disse buscando o tom mais neutro.
— Diga diretamente, velho! — Carcará jogou a caneca longe.
— Queima de arquivo! Eles fizeram o que fizeram com os Heleyan, com os Generais da operação tempestade que invadiu Magenta conosco. — Karak disse irritado.
— Foi difícil? — Carcará perguntou claramente mais calmo. — Não queria descobrir um segredo, apenas saber de que lado você está, velho.
— Você sabia? Desde quando? — Karak perguntou surpreso.
— Tive essa mesma conversa com Ravantes. Eu não tive o mesmo fim porque, como vocês dizem, sempre dizem a verdade, mas verdade é só que vocês fazem. Ravantes sabia que eu era filho deles, mas Garoana, quem decidiu eliminar as testemunhas, não sabia que eles tinham um filho. Ravantes não era obrigado a dizer, se ela não saberia o que perguntar. — Carcará disse voltando a olhar para o horizonte.
— Como? — Karak perguntou sentando-se no bloco de concreto da soleira da entrada.
— Quando chegamos, eu fiz uns trabalhos para eles, e Ravantes ficou sabendo quem eu era. Ele sabia que cedo ou tarde iria acontecer. Ele não podia interferir por meus pais, mas por mim, a 'honra' Harata não dizia nada. Quando eles vieram por mim, eventualmente, a gerente do Média Ponderada assumiu meu jaitak. E eu 'eliminei' o jaitak de Garoana. Ela não pode mais me atacar.
— E isso tem a ver com essas coisas que Ravantes e Tegravas estão fazendo? — Karak perguntou com pesar.
Carcará sentou-se do lado posto.
— Sua missão falhou porque Garoana não queria que Magenta fosse de Tegravas. Ele sabia que se procurasse a cabeça, Eles teriam que dobrar-se ao poder dela. Ele procurou Ravantes invés disso.
Raila sentou-se junto com Karak.
— Você quer dizer que eles estão tentando tirar Garoana do jogo? — A Sangamani dizia com surpresa.
— Garoana é uma velha amargurada. E sua natureza ajuda bastante a torná-la perigosa. — Karak adicionou.
— Ela não vai deixar isso passar. Jangunaray tem o apoio de Ravantes e Audren na Fáscia. Tegravas tem o apoio de Erítria e os Beruanos na Trifronteira. Garoana tem somente o apoio de Khadija, até onde Khadija vê utilidade nela. Ela tem poder entre os Harata, mas os outros Barões tem poder com o resto de Ealetra. É uma guerra, mas como os Harata não lutam, outros tem que lutar por eles.
Raila olhou para Karak com esperança de algum alento.
— É como a Alquimia Universal quer. — Karak disse simplesmente.
— Não importa. Erítria tem Maz Ynis, Fáscia tem Maz Ynis, Jangunaray tem Maz Ynis. Garoana é obrigada a comer a sopa quente pelas beiradas se não quiser enfrentar o Consórcio e a Aliança do Leste. Ealetra está a salvo dela. Pessoas fora do jogo, não.
— Você é o coração de um Harata. — Raila disse, com tom consolador.
— Sajó é meu amigo. Ele tem o jeitão 'cinza' dele, mas é boa gente. Um desses 'acordos', e ele pode ser dano colateral. — Carcará jogou uma pedrinha ao longe, fazendo-a pular. — A Armada, Maz Ynis, dissidentes. Os Harata fazem um estrago muito maior.
— Há coisas muito piores que isso, meu amigo. — Karak murmurou. — Você sabe o que se esconde em Sangamá. Se o Vale é pior, o problema dos Harata é só um incomodo passageiro.
— Diga então, 'meu amigo' — Carcará virou-se — Se Garoana decidir aliar-se com o Vale?
— Ela não seria tão mesquinha a ponto de fazer isso. — Karak retrucou.
— Como você acha que os Silvani do Vale burlam o certo da Armada? — Carcará tinha um sorriso irônico. — Como você acha que seus parceiros de pirataria sobreviveram à Armada? Ravantes salvou vocês, quem salvaria a eles?
— Como isso é possível? — Raila perguntou abismada.
— Façamos o seguinte, velho. Eu vou falar com Ravantes. Vamos 'efetivar' sua posição, em troca, sua palavra de que vamos operar todos como um time. Temos um acordo?
Karak olhou para Raila. Eles trocaram olhares assentindo.
— Temos. Minha palavra Harata.
— Feiticeira, você não tem ideia da confusão que seu homem te colocou. — Carcará riu-se, levantando.
Karak e Raila levantaram-se rindo.
— Só mais um 'enrolo Harata' — Raila riu-se.