A tripulação de Sutay estava toda desperta para a aproximação final do porto leste de Jangunaray. A operação na volta era basicamente controlar a aceitação do Mar do Sul forçando a embarcação no porto. Poderia ser feita sem qualquer motor ou vela, apenas pela habilidade do navegador.
Karak e Raila ainda estavam se habituando à sua nova dinâmica. Karak, com sua habilidade Harata sob controle, segurava suas reações naturais de convergência e complacência com Raila. A Sangamani, por outro lado, ainda pouco familiar com o eco da habilidade Harata, entendia os sinais, microexpressões, mas era incapaz de podar todas elas antes de escaparem.
Malek observava de longe. Ele sabia que algo estava diferente, mas estava tranquilo sobre seu capitão de longa data. Ele nunca faria algo abertamente imprudente.
Sajó por outro lado estava cético sobre tudo aquilo. Ele percebeu a diferença em como a mulher agora parecia mais leve, mais adaptada ao fluxo social. Ela tinha mudado rápido demais para naturalmente ter habituado-se com a tripulação. Faltava-lhe, porém, o conhecimento para saber o que havia mudado.
Carcará pouco se importou com qualquer coisa.
— Atracando em 30. — O mestiço passou declarando diretamente para o painel.
O processo foi rápido, e a conexão de ancoragem estabelecida. Os dados do registro de telemetria e gravações transferidas para o sistema do porto. Claro que todos certificaram-se que não haviam escutas nos alojamentos ou na cabine do capitão, pelo menos que pudessem ser vistos.
Conforme foram saindo, por convenção o capitão e a 'imediata' seriam os últimos a sair, mas Carcará os esperava na rampa.
— Eu sei o que fizeram. Espero que saibam o que estão fazendo, porque isso tem cara de dar errado, muito rápido, e de muitas formas. — Ele disse tampando o caminho antes de descer.
— Eu estou no mar desde antes de você ser um tripulante nos bagos do seu pai, moleque. — Karak disse coçando a barba escura levemente cravejada de brilho prateado.
Enquanto descia a rampa, Carcará tirou um pequeno frasco com um líquido oleoso, levemente amarelado, rodando-o no ar, antes de guardá-lo novamente.
— Quando conseguir se mexer na caminhada, me avise, e estaremos conversando sério. — O mestiço disse rindo-se.
Karak riu-se, mas Raila estava preocupada com a confirmação de suas impressões iniciais. Carcará, uma ave caçadora de sua terra, Sangamá. Talvez mais literal do que somente um nome. Ele era filho de uma mulher Sangamani, e de um homem Onatra. Provavelmente havia feito a caminhada de geração com sua mãe, e conhecia a cultura. Se seguiam a tradição, ela nunca teria caminhado com o pai dele, mas se não, se fizeram o que ela fez com Karak, aquele era um jovem com quem eles deviam ter muito cuidado.
Ao chegarem no posto de troca do porto, Idris os esperava com um ar tranquilo. Sinal de que não haviam problemas. Ou que pelo menos não seriam graves.
— Caros amigos, retornando de mais uma viagem completa. Bom. Todos os nossos barcos são equipados para coleta de dados em suas viagens, como devem saber. Não temos como avaliar em tempo real, sem toda a burocracia do Consórcio, mas os dados coletados chegam em todos os portos com uma certa regularidade. — Idris foi explicando enquanto acomodavam-se todos na pequena sala.
— Não estávamos sozinhos, senhor. — Malek disse com um tom fatos na mesa.
— Sabemos disso, Harata. Aquele era um barco de vigilância do Somnikan. — Idris disse enquanto puxava alguns seriais de sua pasta. — Ele envia e recebe dados dos nossos barcos, e retransmite quando chega na área de recepção de uma antena de Jangunaray.
— Ou seja, estamos sob vigilância o tempo todo? — Malek retrucou sob o olhar censor de Karak.
— Seu capitão com certeza entende, ou pelo menos deveria, que o seu tempo em 'nosso' barco é o que é vendido para 'nossa organização' pelas regras em que acordamos. Se seguem seus deveres, não temos qualquer problema em que exerçam seus direitos, e portanto a 'vigilância' não deveria ser um problema. Ou você discorda? — Idris perguntou com seus olhos diretos em Karak, não Malek.
— Não nos importa, amigo. Estamos apenas registrando fatos, só isso. — Karak disse diplomático. — Nossa gente apenas precisa se entender no tom que falamos para evitar 'mal entendidos' desse tipo, certo?
Malek não respondeu, apenas assentiu relutante.
— Se não temos mais interrupções inúteis — Idris adicionou pontual. — Esses seriais são atualizações da sua situação em Jangunaray. Uma vez que temos finalizado uma primeira jornada, podemos pedir junto à secretaria de assuntos do interior para emitir documentos definitivos.
Idris olhou de relance para Malek, um pequeno sorriso sarcástico nos lábios do Anoa.
— Vejo que já decidiram pelo nome informal do seu dispositivo. Sutay, é um nome interessante, e não nos é estranho também.
— Vejo o não nos importa. — Malek murmurou sob os dentes.
— De qualquer maneira — Idris continuou. — Sua parte está liquidada e deve ser paga em alguns momentos. Ainda não temos nenhum empenho em seu nome, mas assim que houver, informaremos. Estejam com seu ponto pessoal em alerta.
O Anoa olhou pela sala esperando que alguém manifestasse alguma coisa.
— Se não temos mais nada, que suas vidas valiam mais que o preço de sua morte! — Ele disse saindo calmamente.
A noite seguia, e em Jangunaray isso significava pouco, já que a escuridão agora era novamente a companheira fiel do grupo.
— Não há mais o que fazer por aqui, vamos esperar. — Karak disse já preparando-se para sair da sala.
— Eu ficarei com Sutay, ela precisa de companhia. — Sajó disse saindo em direção ao ancoradouro.
— Era uma boa dar uma passada no Média Ponderada e relaxar um pouco. — Malek disse na esperança de ser entendido.
— É verdade, se vocês não se importam, Eu e Barisi também poderíamos aproveitar a folga. — Raila disse olhando para Malek.
— Estou cansado, vou dormir. Não briguem, é chato. — Disse Lateral, seguindo para o barco.
Raila e Karak observaram o Onatra seguir com seu jeito simples. Raila porém teve um lampejo de entendimento, como se algo que nunca encaixou repentinamente.
— É por isso então? — Ela murmurou para Karak.
— É. — Karak respondeu com um sinal de silêncio.
— Apareço se tivermos algum empenho. Qualquer coisa ponto pessoal. Já é. — Carcará disse seguindo para a entrada.
Eles observaram enquanto caminhavam mais vagarosamente que Carcará agora seguia para um moto como aquelas usadas por batedores Beruanos. Ela era todo terreno, usava baterias médias de carbóleo, e tinha no mínimo 1250cc, o que sugeria não ser uma moto qualquer que ele achou em promoção no mercado do Porto.
Raila e Barisi não tinham muito interesse naquilo, mas Karak e Malek sabiam o que aquilo significava. Ele estaria recebendo, ou sendo autorizado uso, de valores bem acima do que aquele trabalho.
Era uma preocupação para depois. Os Harata e os Sangamani partiram para seu carro, que embora eficiente, era com certeza abaixo da linha da moto de Carcará. O que reforçava a visão de que eles ainda tinham muito que entender naquele jogo.
No carro o silêncio dizia muito. Todos ali tinham suas preocupações, mas o carro, assim como o barco, e tudo ali era vigiado. Talvez no Média Ponderada eles pudessem mitigar o problema com mais abertura, mas ali, era perigoso.
Ao chegar no estabelecimento rústico, ele parecia excessivamente movimentado em comparação com a última vez, mas eles foram recebidos e conduzidos para a área VIP da mesma forma que antes.
— Honestidade, minha querida! Como podemos saber que ninguém está nos espionando aqui? — Malek decidiu interpelar a anfitriã.
— Apesar de como outras terras funcionam, no Média Ponderada, não temos problemas com questões de sigilo, caros amigos. — A anfitriã Aborada respondeu se não com mais cordialidade. — Oferecemos o sigilo necessário para qualquer tipo de reunião ou negócio, e temos clientes das mais importantes organizações de Ealetra.
Uma outra anfitriã trouxe um dispositivo com documentos abertos na tela para que eles vissem.
— Tudo que acontece aqui é confidencial pelos mais altos padrões governamentais. E mesmo que isso não seja suficiente, vocês podem consultar nossas auditorias de segurança, nossos contratos, e trazerem seus próprios especialistas para verificar as instalações. — Ela prosseguiu.
— E o governo? Polícia? — Karak insistiu.
— Todos os lugares com o nosso nível são imunes à questões de vigilância. Em nosso estabelecimento apenas flagrante de delito ou prévia ordem de busca por motivos alheios são aceitas. — A anfitriã seguia com o mesmo sorriso. — Entendemos que nossos clientes podem ter motivos importantes para discutir 'hipotéticas' violações de leis e tratados, e asseguramos que possam fazê-lo com discrição.
— Não é um pouco irregular essa possibilidade? — Malek perguntou já curioso com tudo aquilo.
— Não é qualquer pessoa que simplesmente entra nesse espaço, caros amigos. Se estão aqui, é porque alguém entende que precisam de um lugar longe de qualquer escrutínio, e paga por esse serviço. — A mulher Aborada piscou, batendo o dedo na placa em seu uniforme, com o nome do grupo Somnikan.
— Obrigado pela informação. — Karak disse com finalidade.
— Disponham. — A mulher respondeu afastando-se.
— Sabem o que é isso, não? — Malek murmurou entre eles.
— Controle. Os de cima controlando os de baixo pelos abaixo deles. — Karak retrucou. — E eu que pensava que nossos amigos das ilhas livres eram mercenários filhos de uma boa mãe.
— De qualquer jeito, vamos ao assunto. Já que não temos outra escolha se não confiar no que ouvimos. — Malek prosseguiu. — Vocês dois fizeram aquela feitiçaria Sangamani, não fizeram?
— E disso o que? — Karak perguntou. — Qual o problema?
— Você? — Malek disse olhando para Barisi.
— Não. Minha função é não me envolver nisso. E deveria ser a sua também. — Barisi respondeu secamente.
— Mas o que vocês esperam que isso ajude? E como vocês esperam que isso não atrapalhe? — Malek perguntou com urgência no olhar.
— Temos que ter uma vantagem, Malek. — Raila disse. — O resto de Ealetra anda nessa altura, temos que segui-los se quisermos sobreviver.
— O problema não somos nós, Malek. O problema é o Carcará. Ainda não sabemos que jogo ele joga, mas ele é 'de fora', e isso é notícia ruim. — Karak entrou na conversa.
— E ele é iniciado. Ele caminhou já. E ele estando sozinho, isso é suspeito. Ele pode não ter caminhado com alguém, mas se tiver, esse alguém está no meio do nosso jogo. — Raila seguiu com um tom mais carismático do que de costume.
— Ás de copas no dez de paus. — ela prosseguiu. — Novas emoções com o perigo de sobrecarga. Excesso de responsabilidade. Se somos experientes com o Mar, e com gente baixa e traiçoeira, isso significa que estamos no meio de gente alta e traiçoeira, precisamos nos preparar.
— Essa nossa viagem de agora foi um passeio, mas isso não significa que não vamos ser jogados nas pedras na próxima. — Karak adicionou.
— Nisso concordamos, mas vamos ficar só esperando algo acontecer? Não vamos trabalhar um ângulo nosso? — Malek perguntou.
— Não conhecemos os jogadores ainda, Malek. Melhor esperar o mapa estar aberto para traçar a rota. — Karak retrucou.
— Parece que não vai demorar. — Malek respondeu mostrando as informações pelo ponto pessoal.
[ASSUNTO: INTEGRAÇÃO TERRITORIAL – ILHAS SUYANTARA
COMUNICAMOS OFICIALMENTE INTEGRAÇÃO DAS ILHAS DE SUYANTARA AO SISTEMA RAZÃO GLOBAL PT DELIMITAÇÃO TERRITORIAL ESTABELECIDA NA SEGUINTE CONFORMIDADE DG
§ 1º ILHA OESTE DIVIDIDA COMO TERRITÓRIO AUTÔNOMO DA FÁSCIA VG VINCULADA AO CONSÓRCIO PT
§ 2º ILHA LESTE INTEGRADA A JANGUNARAY VG VINCULADA AO GRUPO SOMNIKAN PT
DETERMINAM-SE PROVIDÊNCIAS ADMINISTRATIVAS CABÍVEIS PARA REGISTRO E CUMPRIMENTO PT FIM]