O descanso não terminou com raios de sol e um novo dia, mas antes, quando o barulho do vento pelas frestas de um passado distante uivava como uma matilha de lobos sedentos por respostas.
Eles se colocaram em alerta, pois estavam isolados de uma forma que qualquer diferença era uma questão existencial.
Tarja aproveitou o tempo para organizar as coisas e empacotar em sua mochila. Todos os outros estavam prontos também para partir.
Enquanto o fogo ardia, um lembrete de que a camaradagem deles, embora crescente, ainda não estava completa. Cada um carregava suas próprias dúvidas e fardos, e os laços entre eles ainda eram frágeis.
— Coisas importantes aconteceram aqui, marcadas no registro cósmico desse povo. Vamos encontrar as respostas. — Nandi disse, observando a relíquia do Sol Invicto.
Os outros estavam quietos, sem muito o que acrescentar nos assuntos de ocultismo e misticismo.
Valaravas no entanto estava mais sério do que geralmente era. Quando falou, havia uma gravidade mal característica do que conheciam dele.
— Mas existem coisas que são tão importantes em sua razão para serem esquecidas. — Ele jogou no ar.
— Nem todo mundo que faz o mal, deseja o mal. Temos que estar preparados para não assumir intenções por resultados. — Tarja adicionou, novamente com uma seriedade não característica.
Ariel e Erlan se entreolharam, como se fosse uma acusação e uma demonstração ao mesmo tempo.
Tarja não sabia o que pensavam, mesmo que o que dissera era como uma farpa direta entre os olhos de Erlan. Ela também não o fez por mal, e no entanto tinha razão. E se a figura traiçoeira na história que eles estavam escrevendo fossem Erlan e Ariel, duvidando da responsabilidade de Valaravas em liderar o grupo, e cumprir a missão? E uma derrota final fosse culpa deles, não dos erros do Harata, mas de uma traição ao Harata.
— Eu confio em vocês, e acho que confiam em mim. Estamos nisso juntos, e por mais do que apenas glória pessoal, e isso nos diferencia dos desastres anteriores. — Valaravas disse quase como se ouvisse os pensamentos dos Silvani.
Eles começaram a se preparar para seguir com a exploração, mas as pontadas ainda sentidas no peito de Erlan e Ariel, como se julgassem eles mesmos traídos por seus julgamentos rígidos e inexoráveis como os de sua cultura contra eles.
Seu caminho os levou ao que poderia ter sido uma rua de mercado. Barracas esculpidas em pedra e reboco asfáltico, quebradas, como lembretes irregulares de um centro comercial outrora próspero, sua madeira petrificada depois de desmoronando com o tempo. As ruas de pedra batida, agora irregulares e devastadas pela geada, não mostravam sinais da vida agitada que um dia acolheram.
Mais sinais de uma mudança de clima, onde a pedra original, assentada com simples argila foi coberta por algo isolante. Uma goma de alguma forma que lembrava mantas de Carbóleo usadas por Erítria e Onachinia. Era o que dava a cor negra das construções militares.
Nandi estava se concentrando no além, a relíquia Onatra era um mero foco, que agora tinha um significado totalmente novo. Nandi a tornara sua e seria como se ela reivindicasse o favor de Sol Invicto para a falange de guias umbalinas. Não mais uma seguidora da cultura Sangamani, ela agora era uma vidente por si mesma. Ao entrar em transe, seus passos se tornaram lentos e determinados, pontuados pelo som das correntes.
Para os outros, Nandi parecia estar tecendo através de sedimentos, cacos de cerâmica, lascas de madeira e pedaços de tecido desbotado. Mas em sua mente, o mercado ganhava vida. As barracas fervilhavam com figuras sem rosto negociando, pechinchando e conversando. As cores giravam em auras vibrantes e o ar estava denso com a energia da vida. No entanto, em meio a essa atividade vibrante, sua atenção foi atraída para uma presença singular.
A figura se destacava das outras, sem rosto como as demais, mas envolta em uma escuridão que tudo consumia. Não emanava energia escura, mas a abrigava, absorvendo-a como um poço de desespero. Ao seu redor, a aura vibrante do mercado brilhava, como se a presença sombria removesse a escuridão de todos, sugando-a como o ar que se respira. Nandi observou em sua caminhada espiritual as reações: as entidades sem rosto brilhando com energia feliz não recuaram. Elas acolhiam a entidade escura onde quer que fosse, alheias à escuridão que ela carregava.
À medida que a visão se desenrolava, a clareza de Nandi começou a se desvanecer. Duas chamas âmbar incandescentes perfuraram sua mente, turvando sua percepção. As chamas ficaram mais brilhantes, tomando forma enquanto se fundiam nos olhos cor de mel de Valaravas, fixando seu olhar. A cena se foi e sua visão material retornou.
Quando Nandi acordou de seu transe, o grupo estava ao redor em formação protetora. Tarja usando seu corpo como bloqueio postava-se por perto, a forma de bastião, seu bastão escopeta erguido inflexível. Os Silvani circulavam, seus olhos afiados examinando o horizonte em todas as direções, seus movimentos tão silenciosos quanto sombras.
Havia mais alguém buscando o que quer que o lugar ainda pudesse oferecer.
Nandi ainda estava um pouco desorientada, perdida ainda sob a proteção de Valaravas, pressionando a testa nas costas do Harata, segurando-o.
Ele não estava certo do que enfrentavam ainda, mas já instruía os Silvani a tomar posições mais para o lado de onde vieram. O que quer fosse, viria daquela direção.
Sem uma palavra, Erlan e Ariel seguiram mesclando-se com a neve branca e o vento que movia uma leve garoa.
Valaravas buscava um abrigo, pois não poderia defender Nandi em terreno aberto se viesse uma luta. Ele sinalizou para Tarja segui-lo para mais ao fundo do que seria o mercado central.
O barulho que vinha de perto aguçou os sentidos de Tarja, era o barulho de uma abertura média, uma janela, uma chiminé, algo, exalando o vento que entrava por uma porta, o que significava um prédio ainda inteiro, com uma única janela ou chaminé, e uma única porta criando um assovio. Uma posição defensável.
Eles chegaram à porta de um silo, apenas para encontrá-la quebrada e emperrada. Tarja, sem hesitar, empurrou a porta com um estrondoso coice, forçando-a a abrir. Ela entrou, seguida por Valaravas carregando Nandi. O interior estava cheio de escombros e ferramentas quebradas, além de ossos espalhados e os restos de vidas há muito esquecidas.
Valaravas avaliou rapidamente o espaço: paredes robustas sem janelas, o único ponto fraco sendo uma entrada no telhado. Alta demais para ser um ponto de entrada furtivo.
Valaravas colocou Nandi gentilmente sobre uma mesa de pedra, afastando os detritos com um galho antes de ajudá-la a se sentar. Seu corpo tremia levemente, sua respiração era superficial, mas constante.
Tarja posicionou-se justamente fora da porta de entrada. Qualquer um que fosse entrar precisaria passar por ela. Seus sentidos aguçados não demoraram a pegar alguém ou alguma coisa à espreita.
A Carpata vagarosamente usou o polegar para soltar a trava do mecanismo de carga de sua arma. O barulho do vento mascarando sua intenção mas não o barulho que percebera.
Com um movimento certeiro ela virou-se disparou contra a parede decrépita ao lado do silo, e de trás uma presença saiu, visivelmente atingida no braço.
O ar ficou mais pesado e a tensão aumentou. Quem quer que os tivesse seguido até o silo agora se revelara, e o grupo se preparou para o confronto que certamente se seguiria.
Enquanto a primeira figura se recuperava , outras duas emergiram das sombras, com movimentos fluidos e predatórios. Tarja pressionou o bastão com mais força contra o corpo, sua postura baixando instintivamente. Ela havia aprendido em lutas anteriores: atacar de frente seria tolice. Ela era menos ágil que seus três oponentes, era melhor que forçasse-os a vir até ela.
Com um movimento preciso ela preparou a próxima carga. O barulho com certeza teria alertado todos ao redor, mas também os Silvani.
Ela recuou para a entrada do silo, um espaço afunilado, protegida por trás, permitindo apenas um cone frontal.
As figuras pareceram reconhecer sua cautela, espalhando-se e começando a cercá-la. Seus passos eram leves, leves demais para os sentidos rastrearem sob o chão coberto de neve. Os olhos aguçados de Tarja mal conseguiam seguir seus movimentos rápidos. A primeira figura, bem à sua frente, fazia gestos exagerados e ameaçadores. Tarja se encolheu, pronta para o ataque deles, mas sua visão periférica captou o movimento das duas figuras tentando cercá-la.
Ela estava posicionada, se algum dos laterais utilizasse armas e errasse, se atingiriam, então ela esperava apenas algum ataque frontal. Ela esperava que o inimigo fizesse algum movimento.
Ela lembrou-se das brigas de bar, mas não como ela as resolvia, e sim como os vagabundos se comportavam. Com um movimento rápido ela chutou uma pedra plana que tinha próxima, levantando escombros e poeira fina à sua frente, e com a reação do atacante ela disparou a carga, deixando-se levar pelo coice, caindo para dentro do silo.
Agora os outros dois teriam que entrar pela porta, esperando, literalmente, chumbo grosso na cara.
Eles estavam pelo lado de dentro, esperando que algum dos inimigos se aventurasse. Valaravas vigiando o teto, na abertura. Tarja preparada para disparar ao menor sinal de entrada na porta.
Passos se aproximavam.
Silêncio. E então passou no teto. E passos na porta.
Um baque surdo na parede do silo. Dois disparos em sequencia, e então uma serie de disparos intercalados como se duas armas tirando.
Silêncio novamente.
Duas batidas na parede do silo, como mãos.
Valaravas sinalizou para Tarja segurar a mão.
— Livre? — Valaravas falou alto de dentro.
— Livre — Erlan disse ao lado a porta.
Valaravas seguia com sinal para Tarja segurar.
— Livre — Ariel disse de cima, pela abertura no silo.
Os Silvani entraram no silo, Ariel com agilidade pela entrada no teto, em um movimento fluído pelas pequenas saliências na parede.
— Exploramos a área, ainda há um deles a espreita, mas podemos caçá-lo. — Erlan disse com um sorriso discreto.
— Ou podemos tentar sair com cuidado. — Adicionou Ariel com uma voz cautelosa.
Tarja e Valaravas se entreolharam, com um sorriso igualmente ácido.
— Ariel, há uma posição segura de cobertura em cima do silo? — Valaravas perguntou como uma ideia formando.
— Sim. Escombros de cobertura, é possível defender e observar. Mas preciso reconfigurar o rifle. — Ariel respondeu com um ar de epifania.
— Vai lá garotão! — Tarja disse com um certo orgulho.
O sorriso de Erlan se aguçou. Ele já preparou suas pistolas e lâminas, certo de que seriam úteis.
Ariel reconfigurou seu rifle, voltando a escalar a parede para aninhar-se no teto.
Valaravas estava com Nandi, seguro atrás de uma parede meio desmoronada, cobrindo a porta, segura por Tarja.
A Carpata observou com um olhar intenso o Silvani saindo quando Ariel informou pelo ponto pessoal que a saída estava livre.
Erlan esgueirou-se pelas pedras, enquanto Ariel o orientava observando o caminho à frente dele pela mira do rifle.
Ela observou que o último dissidente olhou para o silo antes de entrar em outra construção mais a frente.
Erlan seguiu, Ariel observando se o dissidente se mostrava.
Ela não estava acostumada a atirar no frio e na altitude. A margem de erro era grande, e enganosa. A física não funcionava para o tiro como para um simples arremesso. O erro seria exponencial para acima da mira desejada, e ela não tinha ampla visão do alvo para uma mira ótica 1:1 com amplitude para o erro. Apesar do dissidente talvez não saber disso.
Ela iria usar a magnificação para orientar Erlan, mas era tudo com ele agora.
Quando Erlan se aproximava, o dissidente estava visível para Ariel do lado da porta.
A Silvani pensou rápido, e mesmo sem um acerto, ela poderia ser de ajuda.
Ela mirou onde estaria o joelho do dissidente se visível, e disparou. A bala, como previsto, errou aquele alvo, mas bateu logo acima da porta, quebrando a pedra e fazendo o dissidente reagir entrando mais fundo na construção.
Era tudo que ela poderia fazer.
Erlan esgueirou-se para dentro, saindo também da visão de Ariel.
Dentro da construção, Erlan rapidamente entrou por debaixo de um pequeno espaço como uma pia ou pequeno módulo dentro de um espaço pequeno escuro. E ali permaneceu por algum tempo.
Ele podia ouvir os passos do outro, vagueando pela metade aberta da construção, esperando que a luz desse uma vantagem.
Erlan estava ali esperando que seu ouvido captasse uma posição favorável do oponente.
Alguns minutos se passaram e Erlan ouviu-o se aproximar.
O Silvani se preparou para a disparada. Ele sabia que havia um espaço mais fechado ali a frente, um depósito ou sala de máquinas, qualquer coisa sem janelas.
Ele atravessou o espaço aberto, com a cabeça abaixada e os olhos semicerrados só o suficiente para ver por onde ia com o mínimo de noção.
O dissidente correu atrás dele, parando na porta.
Ele entrou no espaço, a penumbra não era completa, mas ele não conseguia ver nem traços de Erlan, era como se o Silvani tivesse desaparecido.
Ele entrou um passo e ouviu movimento ao fundo da sala, e disparou. Sua pistola automática descarregando quatro tiros na direção do barulho. Quando o foi verificar, penas uma roda de metal estava ali caída e perfurada.
A próxima coisa que passou por sua cabeça foi uma bala de .357 e o barulho, com o brilho que foram seguidos de seu corpo sólido no chão.
Erlan saiu da baia em que se escondeu triunfante em seu andar. Ele tinha habituado seus olhos ao escuro, um truque que já conhecia bem, e aparentemente, o dissidente não.
Por instinto, ele já procurou o corpo do dissidente por evidências. Ele achou um pequeno frasco de acrílico, com algumas pílulas verdes. Ele tinha carregadores para sua pistola, uma pistola reserva, e mais nada.
Erlan pegou os itens e se recompôs.
— Alvo neutralizado. Segue. — Erlan disse pelo ponto pessoal.
— Caminho aberto. Segue. — Ariel respondeu.
Em alguns minutos, eles estavam todos de volta ao silo.
Erlan relatou o acontecido, e mostrou as pílulas.
Valaravas parecia reconhecer aquilo.
— Tarja, uísque, por favor? — Valaravas disse com um ar zombeteiro.
— O que? Agora? — Tarja indagou estranhando.
— Por favor? — Valaravas insistiu.
Tarja não entendeu, mas, era Valaravas.
Valaravas entregou para Nandi a garrafa e uísque, os comprimidos.
— Kravatia. — Ele disse apenas.
Nandi tirou algo de um dos pequenos adereços que tinha amarrado ao pescoço, e em cima de uma pedra lisa que estava ali, colocou a pequena pedrinha, amassando-a com outra, jogando o conteúdo de um dos comprimidos junto e depois tomou um pequeno tanto de uísque que deixou gotejar de sua boca através do dedo em cima da mistura que fez com eles.
Depois de respirar em cima, ela passou a pedrinha com a mistura para Valaravas que também sentiu o cheiro que exalava a mistura de longe.
— Kravatia. — Valaravas disse mais alto e com convicção agora.
Sem uma reação dos outros, ele repetiu em Silvani, e então Ariel e Erlan tiveram uma reação sombria.
Valaravas assentiu, seu tom suave, mas firme, o peso da experiência por trás de suas palavras.
— Nós Harata desenvolvemos algo semelhante junto com os Urbani há muito tempo. Chamamos de Kravatia. Os efeitos são mais discretos. Mas pela intensidade do cheiro de amônia dessa amostra, ela é de origem Silvani. O nosso seria mais fraco.
— O nosso criamos para evitar que gente como vocês interrogassem prisioneiros Silvani, Harata. — Disse Erlan com um certo escárnio.
— O nosso foi pelo menos motivo, mas os nossos interrogatórios geralmente terminavam com o interrogado inteiro, 'Silvani'. — Valaravas disse com uma certa diversão.
Seu sorriso sarcástico durou pouco, impactado pelas implicações da situação.
— É o mesmo tipo de coisa com os assassinos que enfrentamos quando fugimos para Erítria. Mas estes não são Silvani, eles nem mesmo parecem ser de ascendência Silvani. — Ariel notou com certa preocupação.
— O que significa que não é só o Grêmio que andou recrutando. — Valaravas retrucou.
— Mas ele estava usando uma pistola .250 aqui. Ele não era alguém com o mínimo treino ou experiência. Provavelmente alguém que colocaram uma arma na mão e apontaram pra onde ir. — Erlan disse com soberba.
— Não é todo mundo que pode contar com dois Silvani que trabalharam por anos para a Armada em missões altamente técnicas, verdade? — Valaravas decidiu indulgenciar.
— Ainda temos uma missão a cumprir. O terreno está limpo, por hora. Vamos ao que interessa. — Ariel entrou decisiva.
Valaravas e Nandi marcharam para a praça, Nandi seguindo a linha do mercado, não em visão material, procurando por pistas, e Valaravas seguindo pelas percepções que fluíam através de Nandi.
Ruínas se avolumavam ao redor de Valaravas e Nandi enquanto eles se moviam cautelosamente pela rua do mercado em direção à praça. A neve cobria as tendas quebradas e as pedras de calçamento rachadas, suavizando as bordas da devastação, mas fazendo pouco para obscurecer as cicatrizes mais profundas da desolação. Os puxões das correntes de Nandi eram rítmicos, guiando seus passos enquanto sua visão flutuava entre o material e o espiritual.
Valaravas caminhava ao lado dela, seu olhar aguçado examinando os arredores em busca de qualquer coisa fora do lugar. Enquanto seus companheiros de equipe poderiam supor que seu charme e mente tática eram seus maiores trunfos, momentos como este revelavam algo mais: uma capacidade de se adaptar, de mergulhar em situações onde as respostas não eram imediatamente claras. Sua presença ancorava Nandi, proporcionando-lhe a segurança silenciosa para mergulhar nos ecos ocultos do passado.
Valaravas é Harata, entende as pessoas. Como Tarja com materiais e ambiente, Valaravas podia ler os resultados de comportamentos e supor com precisão as motivações e natureza das pessoas.
A visão de Nandi começou a mudar. O mundo material desapareceu completamente, substituído por vislumbres de uma imagem espectral. Seu espírito sentiu a atração da praça à frente, a Vincula a puxando, sua energia girando com resquícios de dor, perda e resistência. Os sussurros fracos do passado se tornaram mais altos a cada passo, vozes fragmentadas ecoando em línguas que ela não entendia completamente.
Sua percepção se aguçou. Figuras se formaram ao seu redor, translúcidas e fugazes, movendo-se através das rotinas de uma vida há muito perdida. Ela viu um jovem comerciante, suas mãos espectrais gesticulando urgentemente enquanto trocava mercadorias. Perto dali, um fazendeiro carregava cestas de produtos em uma carroça frágil. Essas visões da vida cotidiana se desenrolavam contra um pano de fundo de crescente inquietação: Sombras se arrastando pelas bordas, gavinhas escuras se entrelaçando com as auras dos aldeões.
A visão espiritual de Nandi estava focada em uma presença singular no centro da praça. Uma figura imponente envolta em chamas etéreas, sua forma distorcida e indistinta. A figura exalava domínio, sua energia sombria e implacável, suas chamas consumindo as auras mais claras e vibrantes daqueles ao seu redor. As pessoas em sua visão não recuavam. Ao contrário, elas gravitavam em direção à figura, como se atraídas por uma força que não podiam resistir. Elas clamavam pelo toque de suas garras sombrias.
Nandi, ainda em transe, agarrou a nuca de Valaravas com a mão direita, colocou a mão esquerda no peito dele e puxou suas testas para se tocarem. Valaravas instintivamente fechou os olhos e, em um instante fugaz, viu um breve lapso das imagens que Nandi estava vendo.
Para Valaravas, no entanto, a ideia visual do que a presença emanava não lhe veio, ele, como um carismático, sentiu o que ela emanava, o magnetismo.
Em um instante, ele reagiu separando-se de Nandi. Ele sabia o que aquela presença estava fazendo.
Com um movimento rápido, quase selvagem, ele separou-se do toque dela.
— Olhos do abismo. — Valaravas disse com um respirar irregular.
A visão de Nandi vacilou. A figura imponente se virou para ela, seu olhar vazio queimando com uma intensidade que perfurou sua alma. Um rosnado profundo e ressonante soou em seus ouvidos, e então a figura obscura falou, não em palavras, mas em pura emoção diretamente para o coração de Nandi. Desafio. Ressentimento. Fome.
Ela tropeçou levemente e Valaravas segurou seu cotovelo para firmá-la.
— Ainda está aqui. — Valaravas e Nandi disseram ao mesmo tempo.
Quando chegaram à praça, as ruínas se abriram em um espaço amplo e circular. A neve cobria a fonte de pedra em ruínas no centro, suas esculturas outrora imaculadas agora gastas e irregulares. As correntes de Nandi se enrolaram em seus dedos, vibrando com a energia latente do lugar. Valaravas deu um passo à frente, seus olhos procurando por qualquer coisa fora do lugar.
O silêncio era opressivo. Até o vento distante parecia abafado, como se a própria praça estivesse prendendo a respiração. Valaravas se ajoelhou perto da fonte, sacudindo a neve de sua superfície para revelar uma série de entalhes: espirais, círculos interligados e estranhos símbolos angulares. Seus dedos traçaram os sulcos, sua expressão contemplativa.
Nandi e Valaravas começaram a procurar freneticamente por algo que estava ali. Algo que eles poderiam encontrar.
Valaravas puxou de um dos muitos escombros pelo lugar uma ponta de um cajado, quebrada mas ainda com o desenho de uma cabeça de carneiro, e seus olhos pareciam um pedra metálica fosca pelo tempo, talvez oxidação, talvez apenas sujeira.
Quando ia tentar limpar a peça, Nandi observou com um movimento rápido e violento tirou-a das mãos do Harata, e jogou-a no chão.
Ela apoiou uma pedra média em cima do objeto, e com um coice, quebrou a casca de madeira que envolvia.
A relíquia que aparecia pelos buracos representando os olhos do carneiro revelou-se uma peça de metal brilhante, meio amarelada, com padrões aleatórios.
Valaravas exalou bruscamente, balançando a cabeça.
— Ouro de tolo? — Sua voz trazia surpresa pela primeira vez. — Qual é o problema? É só...
— Ouro de tolo. — Nandi ecoou. — Uma pedra de natureza infernal. Ela foca, canaliza, amplifica. Prosperidade, ganância, vitalidade, fome. Aqui, ela foca a energia do ambiente. Aqui ela é perigosa.
Ariel se aproximou, seu olhar aguçado atraído para o círculo totalmente descoberto sob eles. O reconhecimento surgiu nas linhas de sua expressão, seus lábios se separando levemente.
— O caminho do sol. — Ariel refletiu olhando.
Erlan automaticamente chegou-se para olhar, e observava com o mesmo assombro de Ariel.
— Val, o seu Silvani é antigo, veja isso aqui. Pode fazer mais sentido pra você do que pra nós. — Ariel disse com espanto.
Ela traçou os símbolos esculpidos com as pontas dos dedos, seguindo a representação circular do zodíaco Silvani. As doze casas celestiais, o mapa da jornada do sol. Era, até onde ela sabia, um conceito Silvani, antigo e preciso, usado em rituais de poder e prosperidade.
Valaravas se agachou ao lado dela, varrendo o resto dos detritos com um galho. Então, sem aviso, ele alcançou Nandi, sua mão firme enquanto a puxava um pouco para a frente. A borda de seu manto se moveu, revelando o brilho da relíquia Sol Invicto contra sua pele.
A imagem sobre ela, o guerreiro na carruagem de quatro cavalos, coroado em fogo celestial.
Um momento de silêncio se estendeu entre eles, denso de revelação.
A respiração de Ariel engasgou. Valaravas, Nandi e ela trocaram um olhar, a compreensão se acomodando como peças de um quebra-cabeça há muito esquecido. A carruagem na Vincula não era simplesmente simbólica. Era a mesma esculpida no círculo ritual. Um símbolo para taumaturgia espiritual.
Os passos pesados de Tarja sinalizaram sua chegada. Ela parou ao lado deles, seu olhar aguçado avaliando o desenho gravado na pedra. Sua voz era baixa, firme.
— Sol Invicto. Esse posto é mais antigo que o recesso das águas, então não havia Onatra aqui deste lado, no vale. Só nas montanhas, lá no norte. — Tarja contemplou.
Valaravas olhou com olhos curiosos para Tarja, que explicou em detalhes seus achados anteriores sobre a idade do local.
— Os Silvani antes dos druidas seguiam o caminho do Sol como fé. Nós da época druídica seguimos a 'sabedoria da floresta'. Até onde dizem, o Sol Invicto é uma cópia do nosso caminho do Sol. — Erlan ponderou. — Acreditando eu ou não, é o que eles acreditavam.
Ariel balançou a cabeça levemente, o peso da história pressionando seus pensamentos.
— Os Onatra nunca abrigariam uma fé derivada dos Silvani. E os Urbani tem uma fé baseada na 'Mão do Destino', parecida com a 'Alquimia Universal'. Nenhum adora o sol.
Valaravas, ainda ajoelhado, passou uma mão lenta pelo queixo. Seus olhos âmbar queimavam com o pensamento. Explicando em Silvani o que Tarja havia dito.
— "E os nobres guerreiros com cabelos dourados como Sol se juntaram para selar o destino da peste, sempre os zeladores da prisão das montanhas." — Valaravas falou em Silvani antigo. — Era o que dizia uma tábua Silvani escrita, que está neste momento em um museu na Academia de História da Fáscia. Uma dos lugares favoritos de Ayla.
O silêncio se seguiu.
Então Nandi, ainda segurando a relíquia, apontou para a representação do céu no chão.
— Deuses mais antigos chamam este lugar de lar. — Ela disse apontando para o chão e uma inscrição já apagada pelo tempo. — 'Eles clamaram: Aqueles que se tornarão seus.'
Valaravas e Ariel olharam para a inscrição, junto com Erlan.
— Não podemos ler, mas pelo que resta, pode ser o que diz. — Erlan disse com uma surpreendente consideração.
— Temos a relíquia, conjecturar aqui não vai ajudar em nada. Ariel, seu equipamento é melhor para isso, tire fotos daqui. A Fáscia tem os melhores acadêmicos Urbani. Se alguém pode entender isso, são eles. — Valaravas disse já preparando para sair.
Erlan exalou exasperado.
— Uma nação Urbani cheia de Harata. O melhor destino da estação. — Erlan disse com um certo escárnio.
Ariel soltou uma risada aguda, batendo nas costas dele com força suficiente para fazê-lo cambalear um pouco.
— Sobreviveremos, irmão. Sobreviveremos. — Ariel retrucou.