Filhos e legados

Syvis, que encontrou seu lugar entre os Laceradores de Rentaniel, se afastou do groupo, deslizando para um beco dos fundos do mercado ao lado da Taverna do Luar. Ao remover seu capacete, os traços Urbani ficaram bem evidentes distinguindo-a como um Urbani da Fáscia. Rentaniel em geral apenas usava Laceradores treinados em Khadija, mas ele mesmo não percebeu o engodo.
— Qualquer outro, eu chamaria de imprudente. Mas você nunca faz nada imprudente, Rafiq. — Syvis tinha um tom era meio pergunta, meio aviso. — O que está acontecendo?
Rafiq mal olhou, mexendo ociosamente com a mercadoria em exposição, como se fosse qualquer outro encontro casual.
— A Alta Mãe está ocupada demais com outras coisas. Preocupada demais para ver a armadilha na qual seu filho está caindo.
Syvis exalou bruscamente, examinando as sombras.
— Mãe Audren não joga mais este jogo. Você sabe disso. Suas preocupações estão na Fáscia, e apenas na Fáscia.
Os dedos de Rafiq passaram por uma fileira de tecidos pendurados, mas sua voz era medida.
— Precisamos de sua ajuda, senhora. É imperativo que o que quer que aconteça com Lorde Rentaniel nunca ameace sua filha.
Pela primeira vez, Syvis enrijeceu. Uma mudança quase imperceptível em sua postura.
— Rentaniel foi convocado a Zhefaq. — Ela manteve a voz baixa. — E dado o desdém deles pela política Urbani, presumo que não seja um assunto trivial.
Rafiq sorriu, embora o sorriso não tenha chegado a seus olhos.
— Estamos cientes. Mas o fato de você mencioná-lo apenas confirma o quão confiável você é.
Syvis colocou seu capacete, sua voz agora tão rígida quanto o aço que a cobria.
— Tenho que voltar. Avise a Lâmina. Avise ao Legado de Ayla. A Fáscia aguarda. Precisamos dele lá também.
Ela entregou um serial com o escudo da Fáscia para Rafiq, e sem outras palavras, virou-se rapidamente, juntando-se novamente às correntes da cidade.
Enquanto se movia, uma figura chamou sua atenção, uma Onatra alta, incomum por estas bandas, mas inconfundível. A Tenente Danila, caminhando pelo mercado com uma graça quase descuidada. Ela vagueava como se o mundo ao seu redor fosse meramente o eco de um sonho, andando como se estivesse no conforto de sua própria casa.
O que quer que estivesse se desenrolando, quaisquer que fossem os esquemas em andamento, as consequências logo se seguiriam. Mas Syvis não tinha tempo para se entreter. Precisava retornar despercebida, uma tarefa nada fácil para uma Laceradora Urbani em uma cidade dominada por Harata no sul de Purvatara.
Danila, no entanto, estava completamente imperturbável. Ela se movia em seu próprio ritmo, indiferente aos olhos sobre ela, deixando o mercado zumbir ao seu redor como se nada daquilo importasse. Os olhares que atraía nem sequer atiçavam sua curiosidade. Ela parecia dançar uma música que estava apenas em sua cabeça. E, no entanto, ela estava caminhando diretamente em direção a Rafiq.
— Tenente. — Rafiq entrou no passo ao lado dela. — Temos assuntos urgentes para você resolver.
Danila sorriu de canto, lançando-lhe um olhar de soslaio.
— Você é adorável, garoto. Se ao menos fosse mais velho. — disse ela suspirando profundamente.
Havia algo distorcido por trás de seu sorriso, algo à espreita na maneira como sua mente revolveu o pensamento antes de dizê-lo em voz alta.
Rafiq seguia imperturbável.
— A nossa é uma relação especial. Não vamos azedar as coisas.
Ele parou ao lado de uma barraca, inspecionando ociosamente um item antes de continuar.
— Seu capitão está a caminho da Trifronteira, e Zhefaq tem interferido em assuntos que preferiríamos que não interferissem.
Danila soltou um longo e exagerado suspiro.
— Não consigo chegar a Zhefaq. Somos da marinha, Rafiq.
Sua voz era quase arrependida, embora houvesse antecipação por trás dela. Antecipação de uma conclusão inevitável.
Rafiq pegou uma pedra de incenso Harata, seu perfume pairando fracamente mesmo dentro da bolsa. Ele entregou a ela com um olhar quase terno, se não malicioso.
— Quando chegar à Trifronteira, fique com a equipe de manutenção um pouco mais. Pergunte se eles têm algo assim.
Danila pegou a pequena bolsa, inalando profundamente.
— Cheira bem. — Sua voz era quase infantil em seu deleite.
— Sândalo — observou Rafiq — Incenso para atenção plena. Ajuda a relaxar. Pensei que você apreciaria.
Danila ergueu uma sobrancelha, seu sorriso se alargando.
— Oh? Você está me cantando, garoto? O que o sândalo tem a ver comigo?
Danila tinha uma expressão era uma mistura de divertimento e algo mais sombrio, algo não exatamente brincalhão.
Então Rafiq mudou sua postura, da aparente falta de atenção para a atenção total, aproximando seu olhar de Danila.
Eles se encararam, a expressão dela ainda despreocupada, mas seus olhos, ocos, vazios, fitando os dele.
— É um ditado Harata — murmurou Rafiq, sua voz baixa. — O sândalo perfuma o machado que o corta.
As pupilas de Danila dilataram. Um aperto em seu peito. Sua respiração prendeu. O mercado ao seu redor se desvaneceu em um zumbido surdo e distante.
Lentamente, ela sentiu como se estivesse caindo. Caindo sobre o que era seu próprio corpo, e meia dúzia de homens e mulheres balançavam machados contra ela, violentamente, com um prazer doentio nisso, e ela aguentou, podia sentir a dor aguda e o impacto em seus ossos.
Ela caiu, sentindo a dor e o sangue gorgolejando enquanto sua respiração se apertava, e as pessoas ali seguiam golpeando, e olhavam, ternamente. Seu próprio corpo, mole no chão. Ela estava lá, ofegante, gorgolejando. As figuras a observavam, impassíveis. Não com crueldade, não com ódio, mas com pena. Eles balançaram os machados. Seguiam cravando seus golpes no corpo inerte da Tenente.
Um clarão de luz ofuscante. Ela sentiu-se caindo novamente, lentamente, enquanto seu último suspiro estava quase sobre ela, ela caiu novamente, em seu próprio corpo.
Sua respiração voltou correndo para seus pulmões. A visão se desvaneceu. Ela estava de volta ao mercado. De volta à realidade física. O cheiro de incenso ainda se agarrava a seus dedos. Rafiq estava sorrindo.
— Como eu disse — ele murmurou. — A nossa é uma relação especial.
Danila engoliu em seco, seus dedos se contraindo ao redor da pedra de incenso.
A voz de Rafiq permaneceu leve, quase casual.
— Seu navio está quase pronto para partir. Você deveria ir agora. Lembre-se de sua tarefa.
Danila respirou fundo uma vez. Ela fez uma pausa por um momento, como se admirasse Rafiq silenciosamente.
Então, sem outra palavra, ela se virou sumiu na multidão.