Feitos um para o outro

A Cidade do Luar está localizada ao sul da Trifronteira, algumas horas de viagem nos trens permitidos rodar pelos nômades do Beru em suas terras. Talvez um dia de viagem para os carros e motos, permitidos rodar pelos nômades do Beru. Ou por uma vida arriscada se os Beruanos não permitiram a viagem por terra.
Outra forma de chegar a Cidade do Luar é pelo Mar Estreito, saindo dos portos controlados pela Armada, pelo Mar controlado pela Armada, até o porto controlado pela Armada em Luar.
Outra forma é tentar navegar pelo Mar do Sul, infestado de piratas, pelas Ilhas Livres, ou Suyantara, cheia de canhões e navios Piratas, ou Magenta, cheia de canhões e cruzadores da Armada.
E chegando em Luar a situação não é muito melhor. Na maior parte do tempo, os viajantes ali são Biranianos fazendo comércio ou negócios de mercado negro. A Cidade do Luar não é um destino para lazer ou aprendizado. É uma cidade antiga, escura e que prospera nos negócios escusos que podem ser feitos ali mais do que em qualquer outro lugar, e os habitantes gostam que seja assim.
Mas naquele dia a Cidade do Luar era palco de uma visita ilustre. O investigador Urbani vinha fazendo sua ronda nos negócios Harata em Luar, fazendo perguntas demais. Chegou ao seu conhecimento que Silvani estavam sendo contrabandeados, ou pelo menos, havia sussurros sobre isso. Por si só foi o suficiente para ele começar a pressionar nomes, e esta noite, o nome da vez era Obravar.
Obravar estava atrás do balcão, secando uma taça de cristal seca, como sempre fazia ao lidar com irritações. Gerente de um dos principais negócios da cidade, ele era a pessoa para perguntar as coisas, e talvez, quem iria responder. O investigador Urbani estava bem longe de sua terra natal, Khadija, e talvez não soubesse como é em Luar, mas um navio Urbani não seria parado pela Armada.
— Notícias alarmantes. Este estabelecimento decide sem supervisão. Necessitamos clarificação, agora. Por favor. — O investigador Urbani disse em um tom medido e monótono.
Obravar ergueu o olhar, encontrando o dele com algo que não era medo nem desafio, mas algo mais frio, um divertimento cansado. Ele colocou a taça debaixo do bar. Mediu o Urbani e suspirou.
— Você está longe de casa, cabeça de ferro. — Sua voz era calma, mas o peso por trás dela era inconfundível. — E você está se metendo onde não é chamado.
O investigador insistiu, aproximando-se do bar.
— Permissão não é necessária. Assuntos dentro dos protocolos aceitos, Harata.
— E quem o enviou nesta missão específica? — Obravar perguntou, não de forma cruel, mas incisiva.
— Rentaniel de Seldanar. Preocupa-o seu magistrado.
Obravar soltou um suspiro lento, sem se impressionar.
— Ele é o magistrado de Audren. Legado de Ayla. Não devemos nada a Rentaniel. Na sua cultura são as mulheres que mandam, cabeça de ferro.
— Ele virá. Quer que venha até você? Harata. — A expressão do investigador escureceu.
Antes que Obravar pudesse responder, uma nova voz deslizou para a conversa, tão suave, tão medida, que quase parecia suavizar as paredes ao redor deles.
— Eu sou Rafiq, e estou aqui para falar com o senhor, Investigador. Por favor, acompanhe-me ao Salão do Grêmio, um local mais adequado e confortável para conversas de diplomacia.
O investigador Urbani se virou para ver o jovem Harata, de pé com uma postura impecável, sua maneira educada tão dócil quanto inesperada. O investigador não estava cauteloso com o Harata em si, mas com algo sob sua pessoa, uma autoridade profundamente enraizada que não era material. Ele era um Legado de um Urbani, e este emanava algo diferente da aura usualmente atribuído aos Harata. Algo muito mais poderoso. Era como se abalasse a entropia hierárquica por sua mera presença.
Rafiq era um Harata diferente, seu tom carecia de condescendência, mas o investigador o reconheceu pelo que era: uma convocação, não uma sugestão. A ideia de que um legado carrega autoridade é bem conhecida, pelo menos em termos de política, se não se acredita no mito paranormal. Seria sensato pelo menos ver do que tratava o jovem Harata. Após uma breve hesitação, ele assentiu lentamente.
— Vamos. — Ele se virou de volta para Obravar, seu tom se aguçando. — Harata, com você a conversa não terminou.
Obravar não respondeu. Ele simplesmente continuou a polir as taças de cristal, deixando o silêncio se instalar entre eles.
Enquanto o investigador saía, seguindo Rafiq, Obravar finalmente murmurou em voz baixa.,
— Para você? É exatamente aqui que terminou.
O investigador seguiu Rafiq pela Cidade do Luar, serpenteando pelas ruas estreitas e iluminadas por lanternas em direção a um prédio discreto, marcado apenas pela Lua crescente e a lâmina curva Harata.
À primeira vista, não era nada de especial, apenas um bar, um restaurante, talvez uma casa de comércio. Ao entrarem, o investigador pôde observar que a mobília fora feita inteiramente para parecer útil do lado de fora, mas por dentro não havia nada. Apenas uma sala grande, impecável, mas vazia, sem nenhum aspecto funcional, nem mesmo assentos.
A testa do investigador franziu.
— Qual é o significado disto?
Rafiq virou-se para ele, seu sorriso caloroso, sua voz suave como seda.
— Chegou ao nosso conhecimento que o senhor tem feito perguntas, indesejadas, aos nossos estimados parceiros em estabelecimentos mais modestos. — Sua voz era educada demais, de forma inquietante. — Também ouvimos sussurros de que o senhor tem, digamos, pedido favores.
— Investigador independente. Não reporto à você. Três vezes sua vida, Harata. — O investigador zombou, cruzando os braços sobre o peito.
— Não quero que se reporte a mim. Já fui informado sobre suas atividades. Estou apenas lhe dando uma chance de ser civilizado. — Rafiq não vacilou, nem seu sorriso desapareceu.
Um lampejo de irritação cruzou o rosto do investigador.
— Veja o seu lugar, garoto. — Ele se aproximou, sua postura mudando. — Nós comandamos os Harata. Nós comandamos a Armada. Abusos serão reportados para os oficiais.
Rafiq aparentemente ignorou sua afirmação de posse. Em vez disso, ele apenas ergueu o dedo indicador quando o investigador mencionou os oficiais.
— Peço desculpas, senhor. Deve ser um mal-entendido. — Ele caminhou em direção à luz da janela, sua postura ainda impecável, suas mãos cruzadas às sua costas, em perfeita compostura.
— O senhor está certo. — Rafiq permaneceu suave, intocado pelas ameaças que pairavam no ar. — Eu não deveria abusar da benevolência de Khadija.
A tenente Danila avançou com uma graça deliberada, seus movimentos sem pressa, medidos, como de alguém que quisesse que eles a observassem, que absorvessem cada centímetro de seu físico, a maneira como a luz refletida traçava os contornos de sua forma tonificada e esculpida. Seus passos soavam como uma marcha, ecoando na sala vazia.
Ela foi construída para a força, mas desfilava com uma graça felina, cada passo deliberado, calculado, um aviso não dito.
Rafiq sempre equilibrado, posicionou-se atrás do investigador, de modo que o Urbani agora encarava a tenente diretamente.
— A tenente pode ter ouvido sua súplica — disse Rafiq, suavemente, sua voz ainda envolta em sua impecável polidez. — E ela está aqui para atender às suas preocupações. Levamos o protocolo muito a sério aqui.
Os barretes em seu uniforme mostravam as cores de um oficial de baixo escalão, mas ela se movia como uma general.
— Sabe — começou ela, sua voz tão sedosa quanto doce, lenta e sugestiva — que a Armada leva as ameaças com a extrema seriedade.
Ela deu outro passo à frente. Lento. Controlado.
— Se alguém se passasse por uma autoridade que não é — continuou ela, seus lábios se curvando enquanto seu tom se tornava quase brincalhão — seria la.men.tá.vel."
Sua articulação das últimas sílabas de lamentável terminou em uma exibição de dentes muito parecida com a de um animal selvagem.
O investigador endireitou os ombros, recompondo-se. Seus olhos na Tenente, suas mãos se preparando para algo.
— Lorde Rentaniel o enviou? — Rafiq perguntou, ainda imóvel, ainda composto.
— Não me reporto a você — retrucou o investigador, recuperando parte de seu desafio anterior.
A tenente Danila sorriu, suas sobrancelhas se contraindo, os olhos brilhando com algo entre deleite e mania, a expressão errada de alguma forma, larga demais, satisfeita demais. Ela avançou para o investigador, não rápido, mas precisa, quase sedutora.
— Eles chamam vocês de cabeças de ferro. Será? Bom, deixa pra lá. Ele perguntou: Rentaniel? Ele te enviou?— Danila seguia o olhar do Urbani.
— Não me reporto a você também. — O Urbani começou a tornar-se defensivo.
— Responda à pergunta. — Danila falou cada sílaba com precisão, a agudeza de seu tom acentuada pela maneira como se inclinou, de tão perto que seus lábios quase roçaram o nariz dele.
Ele a encarou cruzando seus olhos azuis em um desafio de coragem.
— Eu não respondo a você. Uma mera...
Antes que ele pudesse terminar, antes que pudesse pensar, a Tenente prendeu uma algema sônica em seu pulso com a força Onatra comum e a violência que lhe era peculiar.
A algema mantêm uma vibração incomoda e de alta frequência, atrapalhando o sistema nervoso central e diminuindo a capacidade de reflexos. Uma forma militar da tecnologia que transmite som pelos osso.
O investigador atordoado inclinou com o tranco. A tenente rapidamente inclinou a cabeça acertando a diagonal da testa, a parte mais resistente do crânio, diretamente na ponta do osso do nariz do investigador.
A testa dela encontrou seu rosto com força brutal. A cabeça dele se moveu reagindo ao golpe no osso do nariz tarde demais, e enquanto ele recuava, ela puxou a mão dele para trás e moveu a cabeça para o outro lado, atingindo o mesmo ponto novamente.
O sangue espirrou em seus rostos. A tenente, controlando seu temperamento, soltou uma expiração lenta e deliberada, lambendo o sangue espalhado ao redor de seus lábios e, com delicada precisão, cuspiu o sangue na roupa do investigador, cobrindo-a com a mancha vermelha, antes de pressionar os dedos contra o peito dele.
O investigador gorgolejou, preso entre a dor e o choque sob o olhar atento da Tenente.
Danila sorriu como se fosse um jogo.
— Não sentiu como ferro. Sentiu como uma bonequinha. Responda à pergunta. Seu merda.
O insulto atingiu, não por sua crueldade, mas por seu desdém. Ela não estava com raiva. Estava se divertindo.
O Urbani tentou se endireitar, tentou se recompor, aproximando-se de Danila com alguma coragem.
Ela olhou de lado, como se para disfarçar o equilíbrio de seu corpo, então, deu um soco na têmpora do Urbani com tanta força que, por um breve e surreal momento, seu corpo estava caindo, mas ele ainda não havia percebido. Foi como se sua visão perdesse o sentido de cima e baixo por um breve momento, apenas trazido de volta à realidade quando sua cabeça quicou ao atingir o chão.
Danila ajoelhou-se ao lado dele, posicionando-se perfeitamente em sua linha de visão, seus olhos anormalmente dilatados e fixos nos dele.
— Responda, à, per-gun-ta.
Sua voz não era mais uma ameaça. Ela estava apenas saboreando a duração de sua surpresa antes do próximo golpe. Suas palavras não significavam nada para ela. Ela não esperava que ele respondesse. Ela queria que ele não o fizesse.
Danila em realidade estava saboreando o momento. Onatra tem os ossos densos. Uma cabeçada aplicada com toda a força de uma Tenente Onatra, com a técnica de seu treinamento, e o Urbani estaria incapacitado completamente. Se algo, Danila se conteve.
O investigador tossiu, arfou, depois engasgou uma resposta.
— Sim, aceito. Afirmativo. Ele enviou, está certo? Por favor!
Danila sorriu mais largamente, satisfeita, mas não disse nada.
Em vez disso, Rafiq, que não havia se movido, nem mesmo se virado, falou novamente.
— Se ele o enviou, então você tem o serial das ordens, e os pontos de entrada. — Sua voz permaneceu inabalável, como se nada do que acabara de acontecer tivesse alterado o curso da conversa. — Não é mesmo?
As mãos de Rafiq se cruzaram ordenadamente atrás das costas, seu olhar repousando calmamente no horizonte do lado de fora da janela.
O investigador fez uma pausa. Entre os olhos famintos de Danila e o impassível jovem Harata falando como se nada estivesse acontecendo, ele desmoronou. Ele lentamente enfiou a mão no casaco e produziu um conjunto de seriais, a marca de Seldanar neles.
— A filha está com ele? — Rafiq perguntou com um tom muito deliberado.
— Não. Ela está na Fáscia. — tossiu a resposta o investigador.
Rafiq fez uma pausa, exalou pelo nariz.
— Temos um problema. — Rafiq estava tão composto como sempre. Como se nada daquilo o afetasse.
O investigador enrijeceu visivelmente, o terror se instalando profundamente em seu estômago.
Rafiq continuou, como se fosse apenas uma questão de negócios, como se estivesse comentando sobre uma mudança de horário.
— Precisamos que Rentaniel venha aqui primeiro. E se deixarmos você ir, ele não virá.
O investigador tremeu, suas mãos tremendo.
— Eu... Eu desapareço. Posso ser útil. Por favor.
— Sim. Você está correto. — Ele se virou, caminhando em direção à porta. — Será desaparecer exatamente o que você fará.
— Você é dele, não é? — O investigador perguntou, como se entendesse. — Seu Legado. É do herege, não? Está orgulhoso do que faz dele?
Pela primeira vez Rafiq virou-se para olhar o investigador. Sua voz carregava agora um tom emocional, forte.
— Eu sou o que sou porque ele me fez assim. Ele se orgulharia, como sempre me esforcei para que ele se orgulhasse.
— O magistrado saberá. Ele saberá quem você é. — O investigador disse, curvando a cabeça.
Rafiq virou-se para a porta novamente. Sua voz retornando ao usual protocolo.
— Ele já sabe. É por isso que eu estou aqui. Caso contrário, teria sido apenas a Tenente.
As pontas dos dedos de Danila traçaram o rosto do Urbani, o toque suave em desacordo com o sangue manchado sob eles. Havia uma intimidade nisso, gentil, demorada, o tipo de carícia que pertence aos momentos tranquilos entre amantes, não à lenta descida à loucura compartilhada por caçador e presa nos momentos finais de seu envolvimento.
A Tenente então como contando os centímetros, deu um soco no pescoço dele, e o corpo dele deu alguns espasmos leves antes de se soltar sem movimento, apenas sua cabeça se movendo.
Suas unhas arrastaram-se levemente sobre sua pele, uma sensação delicada o suficiente para ser reconfortante, não fosse pela maneira como o sorriso dela se esticou mais enquanto ele tremia sob seu toque.
— Por favor, seja rápida, Tenente. — Rafiq disse sem olhar para trás. — Seu cruzado sairá do porto em quarenta minutos.
A porta se fechou atrás dele com um clique.
Danila exalou, lenta e contente, antes de, ternamente, ajustar o corpo do Urbani em seu colo.
Ele mal conseguia sustentar sua cabeça, e o corpo mole apoiado no dela. Ela aninhou a cabeça dele no espaço entre seus joelhos, deixando-o descansar ali, seu corpo curvado, sua respiração irregular.
Ele não resistiu, suas lágrimas visíveis. Meio século de vida a serviço do poder de uma família nobre com milênios de idade, e ele estava ali, amargando com gosto de sangue seus últimos momentos vivo. Ali, aninhado nas coxas da última pessoa que ele veria.
— Por favor, seja rápida. Finalize. Estou com medo. — Ele disse, quase apreciando o momento. — Não quero morrer sozinho.
Ela fez uma cara terna, perdendo o sorriso largo.
— Eu sei. Apenas relaxe. Estarei com você até o fim.
Ela inclinou a cabeça para ele, observando a respiração em arfares irregulares e soluçantes. O corpo sempre sabia quando a mente se recusava a saber. Ela acariciou seu rosto, arrumou ternamente o cabelo preto manchado e viscoso de sangue, para que ele estivesse quase apresentável.
A respiração do Urbani engasgou quando a Tenente se ajustou, mudando seu peso ligeiramente. Segurando a cabeça dele entre suas coxas, ela lentamente levantou a perna, apoiando a cabeça dele. Ele fechou os olhos, quase saboreando o momento que sabia ser o seu último.
Ela levantou a outra perna, cruzando-a sobre ele, posicionando-se. Ela procurou a melhor posição, sentindo a forma como a cabeça do Urbani se encaixava perfeitamente entre suas coxas. Ela o segurou firmemente, quase como se para evitar a dor de manter seu pescoço dobrado, colocando-o cuidadosamente para que fosse rápido.
Ela deixou seu corpo dobrar os joelhos relaxando seu peso sobre suas pernas cruzando-se, quebrando o pescoço dele tão rapidamente que ele apenas parou de respirar e seu corpo solto se deixou da vida.
Ela segurou o corpo sem vida naquela posição, com o sangue e as lágrimas dele fluindo. Ela ficou ali, parada por quase um minuto.
Então, com um movimento lento e gracioso, ela se levantou novamente.
O corpo do Urbani desabou no chão, completamente mole, sua expressão ainda congelada na vaga confusão de seu momento final.
Danila suspirou, alisando as rugas de seu uniforme, e depois passou uma mão manchada de sangue por seu cabelo claro, evidenciando as manchas do sangue derramado ainda mais.
Ela então ajeitou o corpo do Urbani, como se o preparasse para o funeral, tentando muito arrumar o cabelo e pescoço em uma forma apresentável. Ela usou o lenço dele para limpá-lo um pouco.
Era como se ela pensasse que toda aquela provação fosse uma espécie de encontro casual, e que eles estivessem realmente se conectando. Ela olhou pra ele com quem se despede de um ente querido.
Ela saiu da sala, com a certeza de que alguém da Lâmina cuidaria das coisas. Eles sempre cuidavam.