No castelo de Kelesh, uma vila no alto da Falésia onde fica a Fáscia, Rentaniel chagava com notícias para sua filha, Nushala, que não via com os mesmos olhos os desenvolvimentos que o pai calculava.
Uma propriedade afastada do centro de Magdalagur, Kelesh era uma vila quase na fronteira leste da Nação, rochosa e de difícil acesso. Um dos lugares mais seguros da Fáscia, e também dos mais isolados. Nushala, uma jovem Urbani, não era tão feliz com sua moradia, mas também não estava em posição de escolher, ou assim o pai julgava.
O interior do castelo, que lembra mais uma grande mansão moderna do que os antigos castelos, tinha altas paredes externas, e espaçosos ambientes internos, uma marca de nobreza Urbani. O brilho pálido das caras lâmpadas de Ljud Ynis fazia longas sombras de móveis luxuosos sobre o chão e as paredes de pedra polida. Os ecos dos sons de vento ecoando pelo relevo único da nação era particularmente relaxante, mas não para a menina Urbani praticamente prisioneira de seu luxo.
— Nushala, você não está sendo razoável. Anos de academia, e ainda não aprendeu a ter decoro? — Rentaniel cautelosamente, mas firmemente dizia. — Você age como se isso fosse uma punição. Como se eu estivesse forçando o fardo de uma vida com poder e possibilidades. Isso é uma honra. Um dever. Um que você...
— Dever? — Nushala disse indignada. — Devem com quem? Você? Com a vó? Com a tia Ayla? Eu não tenho dever com esse jogo. A Vó prometeu que minha vida seria minha.
Rentaniel suspirou, exalando pelo nariz. Ele havia antecipado resistência, mas não a este ponto. Ela era muito parecida com a mãe nesse aspecto, teimosa, inflexível.
— Isso não é jogo. Filha. — Ele tentava aproximar-se. — Isso é o legado de nossa família. Você não foi feita para ficar à parte dele.
— Você quer dizer não foi permitido a mim ficar à parte dele. — ela retrucou. — A vó disse que não teria que jogar esses seus jogos, e a palavra dela, ao contrário da sua, eu confio.
Rentaniel enrijeceu ligeiramente, embora tenha mascarado rapidamente a reação.
— Sua vó estava tentando te proteger. Ele não previu o que viria, o que o legado dela faria. Mas agora que o destino lhe contrariou, temos o dever de guiar o futuro. E você é a única que pode garantir isso.
— Você quer dizer que sou a única que pode garantir que o dom permaneça na família. Que o Val não se desvie. Que o que quer que ele carregue, o que quer que Ayla tenha deixado para ele, não saia do seu controle. — Nushala riu-se do pai.
— Você quer que eu tome o lugar da minha tia, como se ela fosse um título. Como se ela fosse uma cadeira na mesa grande.
A expressão de Rentaniel permaneceu composta, mas houve uma mudança inconfundível em seu tom, medido. Ele havia entendido, como Urbani, que a linha não seguia ali. Ele teria que jogar diferente.
— O dom da vidente nunca foi da sua tia. — disse ele, agora suavemente, imitando o tom rebelde da filha. — Foi dado a ele, e esse é o problema. Isso que devia te preocupar.
— Então nunca foi nosso. — Nushala cruzou os braços. — Por que eu deveria me preocupar então?
— Deveria. — Rentaniel agora fazia o jogo de advogado do diabo. — Nunca nossa família, e sua nação, como única herdeira do trono de sua vó, terá.
O olhar de Rentaniel brilhou com o achado do verdadeiro desejo da filha. Ele investiu no argumento. Sabia que funcionaria.
— Um dia, quando você estiver pronta, e assumir seu lugar, ele fará falta, e você não terá mais a oportunidade de tê-lo, porque outra o terá.
Nushala começou a ver o que o pai tentava desenhar em sua mente.
— Você quer dizer é que a menos que eu faça o que você diz. A menos que eu siga seus planos. A menos que eu jogue o jogo que você esteja jogando.
— A menos que você o reivindique para si mesma. — Ele interrompeu, rápido. — A menos que você tome o que é seu.
Ela hesitou por um instante, e era tudo que Rentaniel esperava.
— Você tem o dom da nossa linhagem. A capacidade de ver o que os outros não veem. Entender a linha da vida. O dom da vidente é algo mais.
Nushala estreitou os olhos.
— O que é que você quer dizer, pai? — Nushala desceu para a submissão.
Rentaniel se aproximou, como se sabendo que tinha dobrado a filha.
— Você não é como eles agora. — Ele era lento, incisivo. — Nenhum de nós é. Nós observamos, e concluímos. Mas se tivermos o dom da vidente, nós antecipamos. É a única maneira que a Fáscia poderá seguir livre. Que você poderá ser livre, de fato.
Seus dedos se contraíram ligeiramente, embora seus braços permanecessem cruzados.
— Se a mulher selvagem chegar primeiro, Ela será quem ele recorrerá, quem o moldará, quem o liderará, e assim, comandará até você. — Rentaniel fingia uma urgência familiar.
Uma pausa. Um silêncio cuidadoso, calculista.
— E você não terá nada, nem mesmo o trono de sua avó, ou este castelo.
As palavras caíram com peso, assentando-se entre eles.
Rentaniel viu, a rachadura em sua certeza. Uma percepção lenta e rastejante, revirando-se em sua mente, forçando-a a ver o que estava em jogo além de seu pai, não para a família, mas para si mesma.
Ela não seria um peão nisso. Ela seria a que joga o jogo. Ela não serviria. Ela governaria.
Ela ergueu o queixo, a voz mais baixa, mais perigosa agora.
— Você jura que ele será meu? Que eu serei a dona da casa se eu fizer o que diz? — Nushala estava já concordando.
Um pequeno sorriso tocou os lábios de Rentaniel, embora seus olhos permanecessem afiados.
— É claro, filha. Eu sei como você pode conseguir tudo que quer. Eu juro.
Ambos pausaram por um tempo, como se avaliassem as consequências, mas finalmente, Nushala exalou, lenta e firmemente.
— Tá certo pai. Diga-me o que preciso fazer.