Ariel e Erlan estavam prontos para seguir até Luar. Como Silvani, eles nunca passaram da borda sul da Trifronteira, ou de qualquer outra. Desde o seu exílio, que era praticamente ter vivido no mesmo lugar apenas a terra mudando de nação, eles nunca poderiam cruzar fronteiras, até aquele momento.
A estação de trem era mesmo uma experiência nova. Os trens de alta velocidade nunca foram abertos à eles.
Silvani são similares aos Urbani, mesmo tipo de olho, mesmo cabelo liso e escuro, de uma forma diferente de todos os outros povos, e o mesmo tipo de corpo. Ancestralidade comum. Mas além disso, a pele do Silvani é mais grossa, o cabelo em geral castanho ou vermelho escuro, e os olhos verdes, ao contrário do azul marcante dos olhos Urbani.
As pessoas em geral nem sequer falavam com os Silvani na estação. Os funcionários os permitiam a entrada, por razões que Ariel ainda estava em dúvida. Tudo era razoavelmente novo, e para eles, nada era conhecido, portanto nada tinha um normal para ser comparado.
Eles entraram na plataforma de embarque pela inércia que o desenho da estação dava, mas estavam em dúvida por onde passar. Erlan preferia seguir a irmã, o que quer que fizesse, e Ariel se sentia responsável por encontrar um caminho.
Um Harata com um uniforme vermelho aproximou-se, e apesar de todo o ambiente hostil, ele parecia confiável. Era como se Ariel e Erlan soubessem em seu íntimo que ele era quem deveriam ouvir.
— Senhora Ariel, Senhor Erlan. Por favor, sigam-me. Estamos a espera.
Ariel e Erlan não tinham muito o que dizer, e se tivessem, estavam receosos em tentar formular alguma palavra. Melhor seria fingir que tudo era normal, como faziam no Cântaro.
Eles andaram até uma parte diferente do trem, o símbolo do crescente e da lâmina curva, no fundo verde e ocre. Era o símbolo dos Harata. O vagão do Trem estava distintamente vazio, ao que tudo indicava.
O Harata guiou os dois Silvani até espaçosas poltronas, indicando onde colocar o equipamento que traziam, que era substancial.
— Muito bem. Estaremos partindo em cerca de quarenta minutos. Estarei no espaço adjacente, qualquer que sejam suas dúvidas, estarei a disposição. O espaço da cabine nesta viagem é completamente de vocês, e estejam à vontade para discutir qualquer assunto, a cabine é isolada para que tenham privacidade. Tenham uma boa viagem.
O Harata curvou-se como um gesto de cortesia e retirou-se para um espaço logo à frente. As janelas ainda mostravam a estação, e o vapor que já se assomava em preparação para a partida.
Eles olhavam para tudo, mas não tinham a segurança de ir e conferir ou mexer em nada. Era algo ainda surreal. Ariel e Erlan ainda estavam pensando em tudo que tinha acontecido. Apesar disso, a novidade daquilo tomou um tempo que possou imperceptível.
Ariel esperava o solavanco e o barulho dos trens que já havia tomado, mas o movimento suave e levemente percebido já teve um efeito.
Erlan estava ainda cético de tudo aquilo. Ele percebia, ou pelo menos sua paranoia lhe concedia, a impressão de que tudo aquilo era um teatro.
— Então, vida nova? Será que é isso? É onde vamos dar o passo?
— Irmã, eu queria estar feliz como você, e estou feliz que você consiga. Mas eu não vou confiar em um Harata. Nunca.
— Não precisamos confiar neles. Apenas tomar o que nos oferecem.
— É assim que começa. Talvez Amerille tenha começado assim também. E terminou com o Onatra.
O movimento do trem ia se acentuando, e já deixando a estação para trás. A paisagem era conhecida, o sul da Trifronteira. Os prédios e o povo ia ficando pra trás também, deixando apenas uma paisagem argilosa e árida por todos lados.
A velocidade do trem era marcante nos olhos dos Silvani. Eles já estavam bem afastados de tudo que conheciam, chegando próximos a borda sul da Trifronteira. Um muro que nunca haviam visto se aproximava.
— Estamos cruzando a fronteira do Beru. Iremos fechar as janelas para conforto e segurança. Luzes irão ativar-se automaticamente. Por favor mantenham-se sentados durante a passagem. Obrigado.
A voz no sistema de som era agradável, mas com tom sério. Ao se aproximarem do muro, como dito, as janelas externas foram cobertas por placas de metal, e luzes de um brilho confortável imitando o entardecer se ativaram na cabine.
— Cruzamos a fronteira do Beru. Estimamos que em oito horas entraremos em Luar. Não haverá nenhuma parada antes. Por favor, aproveite todas as cortesias oferecidas na cabine. É um prazer tê-los conosco. Boa viagem.
A voz agora era a voz do Harata que os conduziu à cabine, provavelmente uma mensagem diretamente para eles.
Na cabine encontravam-se distribuídas diversas bebidas como se encontravam no Cântaro, além de pequenos pratos com comidas de diferentes origens, com raras mas marcantes obras da culinária Silvani.
Uma garrafa de vinho Vista Exótica não passou despercebida por Ariel, que sorriu levemente.
Erlan não estava ignorando que o efeito de tudo aquilo era potente em sua irmã. Ele estava lutando contra tudo, mas ele percebeu que ela já havia passado de relutância à aceitação, e estava entrando na fase de integração. O medo de que estaria perdendo a única família e elo com o seu povo que tinha não era pequeno, mas Erlan sabia que acima de tudo, ela era a única família que ele tinha.
A comida fazia maravilhas em fazer esquecer todas as preocupações. Era a primeira vez em muito tempo que eles comiam sem precisar se preocupar com como pagar a conta depois. As poltronas reclináveis do trem também eram melhores que qualquer dos lugares que tinham dormido.
A viagem passou rapidamente, e quando eles estavam já se acostumando com as acomodações, a mensagem cortou seus pensamentos.
— Em alguns momentos cruzaremos para a Cidade do Luar. As janelas serão abertas e estaremos começando o processo de parada e desembarque. Obrigado.
Foi nesse momento de um despertar mais forte que Ariel percebeu que entendia as mensagens melhor do que geralmente entendia as conversas das pessoas. Aquela parte da Trifronteira onde viviam fala Harata em sua maioria, e supostamente os passageiros em sua maioria eram Harata. As mensagem eram em Erítrio, mas de uma forma suave e fácil.
Enquanto Ariel estava levemente encantada por tudo aquilo, Erlan sentia um ponto de receio. Aquilo era mais controle do conveniência.
O Harata conduziu-os pela simples estação em Luar. O trem, pelo menos no vagão onde estavam, era mais confortável que a estação. A antiga construção, ainda nos moldes vistos em restaurações históricas da Trifronteira, parecia ter parado no tempo ali. Um espaço pequeno, meramente funcional, e mal deixando a plataforma, um corredor já os deixava diretamente numa rua da cidade.
A Cidade do Luar era nova para eles. Esta era a primeira vez que chegavam nessas circunstâncias em qualquer lugar, direcionados sem demora.
O carro, um modelo antigo, ainda um modelo quando simples carruagens eram adaptadas com motores de vapor, mas substituído por um motor de Carbóleo, conduziu-os para a Estalagem do Luar, a maior estalagem da cidade e o coração silencioso da influência Harata na região. Seus quartos foram preparados com antecedência, não luxuosos, mas confortáveis, claramente arranjados com um entendimento de suas necessidades.
Eles esperavam algo melhor do que os aposentos apertados do Cântaro Dourado, mas quando Ariel entrou, pequenos detalhes começaram a se destacar. Uma garrafa de Vista Exótica repousava sobre a mesa, o mesmo vinho que Melica lhe presenteara, colocado como se para lembrá-la daquele momento e conectá-lo a este.
No canto, apoiado na parede, um rifle Rarianov modular, com o jogo de peças completo. Era o rifle utilizado pela Armada Naval, onde precisão era mais importante que poder de fogo. Silencioso, preciso, e capaz de ser adaptado em campo para qualquer necessidade. Podiam utilizar desde .300 até .415, e podia montar-se um rifle de Assalto se necessário, com alimentador adaptável para modo automático e semi-automático. O preço do jogo completo seria 250 mil UMGBs, o que em contratos como os que eles faziam até então, mesmo que executando um todo dia, levaria alguns anos para conseguir, se não gastassem com mais nada.
Além de outros equipamentos normais, simples pistolas 9mm comuns no mercado, e outros equipamentos novos mas similares aos que já possuíam, havia também um achado especial para Erlan.
Apesar de todo o poder de fogo que poderiam precisar, sempre havia a necessidade de lâminas, e Erlan era, afinal de contas, um Lacerador Silvani, sua especialidade era combate em espaço confinado, com lâminas.
Seu olhar foi praticamente puxado para uma adaga de aço Urbani, o famoso metal azul que é forjado em estilo tradicional, evitando as forjas de indução ou sistemas de Carbóleo de cerâmica industrial. O aço Urbani forjado manualmente com turbilhão mecânico garante que o artesão tenha completo controle durante todo o processo. Ele é mais demorado, e muito mais trabalhoso, mas o resultado é uma lâmina flexível em um sentido, e extremamente resistente em outro. Quem quer que tenha desenhado o jogo de lâminas, sabia quem às usaria: As lâminas era moldadas com a forma que os Silvani usavam, suas variações precisas para as técnicas, com moldes diferenciados para mão esquerda e direita.
Nada disso, porém, causou tanta surpresa nos Silvani quanto o que estava nas câmaras interiores.
Silvani não dormem em camas, ao invés disso utilizam esteiras grossas de material natural encontrado apenas nas florestas frias do nordeste de Tirayon. São feitas das folhas de uma grama que cresce apenas naquele clima, e tornam-se tão lenhosas que são mais densas que a madeira das árvores.
Essas fibras trançadas e tratadas com o óleo feito das sementes da mesma planta torna o tecido ideal para essa finalidade, já que conservam o calor do corpo, mas até uma carta temperatura, mantendo o calor que é necessário, mas dissipando-o quando as noites são quentes. Além disso ele é hidrofóbico e antibacteriano, ainda evitando o crescimento de fungos e pequenos insetos.
Sua produção, estilo e correta armazenagem é um traço cultural que os Silvani mantinham por milhares de anos, e que foi abandonado pelos Urbani desde o êxodo ancestral.
A planta, e o produto, chamados Ta'khame, são praticamente uma exclusividade Silvani, que só poderia ter sido produzida originalmente, ou por um falsificador que teria feito um trabalho tão perfeito, que não justificaria a falsificação.
Ariel se virou para a mesa, sua mente ainda ponderando as implicações, quando ela viu uma carta. A caligrafia era suave, rebuscada, nem apressada nem excessivamente ornamentada, mas equilibrada de uma forma que sugeria confiança sem arrogância.
[Lamento não recebê-los pessoalmente. Espero que os presentes compensem isso.
Valaravas]
Erlan passou por trás dela, notando as mesmas coisas que ela. Ele não comentou sobre o vinho ou as armas, nem mesmo sobre o Ta'khame, mas ela sabia que ele tinha visto tudo. Ele pegou a carta, percorrendo as palavras, depois olhou de volta para ela, sua expressão indecifrável.
— Provavelmente estamos sendo vigiados.
— E qual seria a razão, meu irmão, que precisariam nos vigiar? Estamos em uma cidade Harata, de onde não podemos sair, não sabemos para onde ir, e nem conhecemos ninguém.
— Depois não diga que eu não avisei, irmã.
— Vamos deixar as desconfianças de lado, e procurar alguma coisa que nos diga qual é nosso contrato aqui.
— Se é que temos um ...
Ariel não estava realmente ouvindo. Ela estava observando o quarto, o detalhe, o apelo que tinha ser presenteada por quem era, em vez da natureza estrita de sua cultura, ou do ostracismo que sofriam por parte dos humanos.
Erlan não era cordial aos sentimentos de sua irmã, ele se controlava apenas pela certeza que, com tempo suficiente, os Harata a decepcionariam o suficiente para que ela mudasse de ideia.