Em poucos dias estava claro que a tripulação da Sutay não tinha sido apenas mais um grupo de trabalho em Jangunaray, mas um plano mais lento e mais bem arquitetado do que eles pesavam.
Sua folga depois da primeira viagem de teste foi interrompida com o comunicado de Idris para Karak.
[DESIGNAÇÃO MKY-360 COM EFEITO IMEDIATO DG
NOVO PORTO ORIGEM SUYANTARA LESTE PT
COMANDO 3 AGUARDA PT FIM]
O Harata subiu para a plataforma de comando.
Sajó estava alerta já, mesmo que fosse manhã, fazendo as rotinas diárias de equipamentos.
— Você recebeu circular também? — Karak perguntou com o ponto pessoal na mão.
— Sim. Vamos para Suyantara, estaremos em quarta linha. Jangunaray, Somnikan colocaram a Geral Logística para equipar a Ilha, e nós para o transporte.
— Estamos todos nessa? — Karak perguntou cruzando os braços.
— Sim. Carcará deve chegar em uma hora. — O Aborada disse casualmente.
— Você confia nele Sajó?
— Eu não tenho que confiar nele. Isso é problema seu, 'Capitão', mas se eu fosse homem de conselhos, eu diria para se preocupar com problemas conhecidos antes dos desconhecidos. — Sajó disse retirando-se.
Aos poucos o resto da tripulação foi emergindo de suas cabines, exceto Carcará que não estava alojado com eles.
Enquanto preparavam a partida, eles ouviram o barulho da moto aproximando-se, e sabiam que era ele. Era um barulho baixo, mas característico não do motor, mas da moto pesada pelo chão de pedra e madeira que levava ao barco.
Ele entrou com a moto pela rampa de carga, colocando-a junto de outros contenedores com equipamento que seria levado para Suyantara.
Ao entrar no convés, o mestiço já tomou sua posição de trabalho, sem dizer nada, e sem questionar.
A carga foi carregada completamente nas baias, e Sutay estava pronta para partir. Todos tomaram suas posições e repetiram o processo que já conheciam, mas ainda com uma certa dose de insegurança. Exceto por Sajó e Carcará que já estavam à vontade com sua parte, e até ajudavam os outros.
O novo empenho era mais complicado. Mesmo saindo das poderosas correntes de perto de Jangunaray, eles teriam que navegar contra a corrente do sul, e isso exigia outro sistema da Sutay.
Sajó e Carcará desceram e começaram a destravar largas comportas na embarcação, e Sajó subiu para orientar Malek e Karak do que estavam fazendo.
— Quando estivermos fora da corrente de Jangunaray, vamos utilizar o tornado. Após os cálculos terminarem, o painel permitirá ativá-lo. Todos devem estar em suas posições e seguros pelos cintos e a ponte será isolada.
— E qual a razão disso? — Karak perguntou.
— Harata pode não navegar contra a maré, mas Sutay navega! — Sajó riu-se.
O procedimento normal foi seguido, eles deixaram a corrente forte da costa de Jangunaray, mas então o um barulho mais intenso começou a tomar a embarcação. Ao mesmo os amplos painéis transparentes que serviam como vista para fora foram cobertos por uma grossa proteção. As luzes normais substituídas por luzes mais fracas de tom verde.
As aberturas no convés fecharam-se com proteção similar. Todos moveram-se para posições protegidas.
A tela acompanhava o processo por uma lista de checagem sendo completa. Karak observava com curiosidade mais do que qualquer coisa, mas Sajó e Carcará tinham preocupação nos olhos.
Os motores jogaram uma carga de vapor do alto da cabine, visível pela tela que mostrava a imagem exterior captada por câmeras. Coincidindo com o jato de vapor grosso, a tela de comando exibiu o botão vermelho para iniciar.
Karak ia pressionar o botão, mas Sajó indicou com um sinal de mão que Karak capitou instintivamente.
— Preparem-se. Todos em postos de segurança. — Karak disse pelo sistema de som.
Um atalho na tela permitia sinalizar, e as luzes mudaram de verde para amarelo.
— Encaixe da propulsão ... crítica. Crítica! — Karak disse, ativando outro atalho.
As luzes tornaram-se vermelhas.
— Tornado em 3. — Karak disse ativando o início.
As luzes se apagaram, e apenas pequenas luzes nos assentos que a tripulação ocupava seguiram acesos.
Eles sentiam a força do movimento, o barco lutando contra a força da corrente.
Pelo lado de fora, os dutos que foram destravados serviam como aparas para a água que enfrentava o barco, como se ele puxasse essa água como uma corda, e a resistência adicionasse à energia dos motores para enfrentar as correntes.
O vapor e feixes de água eram jogados com violência enquanto o barco, mesmo pesado como estava, pulava sobre as ondas com a força que se insinuava contra ela.
O processo levou umas três horas, mas para a tripulação, todos, parecia uma eternidade.
As câmeras mostraram que eles tinham passado das Ilhas Suyantara, mas o barulho e a tensão impediam as perguntas.
Depois de quase cinco horas daquele processo, a embarcação aliviou-se como se descansasse do esforço.
O barulho voltou ao conhecido, e vagarosamente os sistemas retornaram ao normal. As luzes vermelhas voltaram, e o barulho de metal e água movendo, além do vapor e pressão, enchiam o ambiente.
As luzes amarelas voltaram e tudo começou a acalmar, o barulho diminuir.
As luzes verdes voltaram, e tudo estava como eles conheciam da sua viagem anterior. Tudo destravou e a mensagem na tela: Deslocamento finalizado.
— Deslocamento finalizado. — Karak disse no sistema de som antes de pressionar o botão na tela.
As proteções de metal que cobriam as entradas no convés e os painéis de visão da cabine retraíram.
Sajó e Carcará pareciam estar respirando normalmente depois de todas aquelas horas. A claridade demonstrava pouco além do meio dia, talvez uma hora, uma hora e meia.
— Por que a tensão? Isso não é normal? — Karak perguntou como se fosse a coisa mais normal do mundo.
— O tornado é um sistema de uso de propulsão crítica para enfrentar a corrente do sul e deslocar primeiro para Oeste das ilhas — Carcará apontou que eles estavam na verdade com a popa do navio Oeste, apesar de terem viajado para Oeste. — E depois deslocar-se mais lentamente pela corrente para o Leste.
— Entendo, mas se ele faz isso, qual o problema? — Karak questionou cruzando os braços.
— Qualquer problema durante a execução, e a Sutay pode rachar no meio, quebrar-se em pedaços, explodir com o vapor, mergulhar e afundar pela mesma propulsão. Uma série da maneiras que ela pode se destruir e matar todos dentro dela. — Carcará disse agora com um tom sarcástico.
— Então, ainda bem que temos gente experiente conosco. — Karak sorriu.
Carcará apontou para ele com um gesto cortês, e desceu para a sala de máquinas.
Karak olhava pelo painel frontal da cabine, as ilhas Suyantara. Seu olhar era de nostalgia.
— Mais uma vez. Estou de volta. — Karak murmurou.
— Estamos, Harata. — Raila corrigiu. — Estamos.