Esconde esconde

Não demorou muito para que os resultados das deliberações chegassem aos seus destinatários. Harata encaram o jogo como tal, e não realmente criam grandes problemas sociais para sustentar seus objetivos comerciais e políticos. Mas isso não se estende àqueles que não fazem parte dos círculos internos e externos desse povo.
Confiança de Angaraya é restrita ao seu grande território dentro dos domínios de Khadija. Garoana, porém, tinha claro que seu movimento para o Vale teria que ser completamente móvel, sem a possibilidade de assentar-se no Vale.
Tegravas e Ravantes seguiam seus planos como sempre. A única informação nova era que já tinham entre si rebanho suficiente para refutar Garoana.
A Sinergia Global se abstinha de envolver-se na maioria das decisões, mas sua presença não era protocolar. Ela era uma presença enigmática até mesmo para os próprios Harata.
Ninguém realmente sabia o que acontecia dentro das fronteiras de Sangamá. Sabiam apenas que raros Harata entravam e saíam da região, e assim como seus nativos, não falavam sobre os assuntos internos daquele povo.
Seus próprios nativos quando fora daquela terra, por imposição ou opção, raramente falavam do que acontecia ali dentro.
Sabia-se que os Sangamani são um povo de assentamento, ao contrário dos Beruanos, e que são organizados em clãs que dominam este ou aquele território. Raramente alguém que não é recebido por eles sobrevive a entrada em Sangamá. Eles são um povo desprovido das éticas e morais comuns à outros povos em Ealetra, e a violência é uma forma comum de comunicação com estrangeiros.
Durante muito tempo outras nações de Ealetra conjecturam se a proximidade dos Harata com os Sangamani não é a fonte de sua habilidade quase sobrenatural de encontrar e eliminar invasores.
A Lâmina, a Cabeça, e os Barões Harata sabem exatamente a reposta para essa dúvida: Sinergia Global.
Na economia Harata, Naburia e sua moeda eram citadas frequentemente em contratos e documentos que requeriam uma autoridade relativa ao deserto de Sangamá, mas era raro mesmo um Harata que falasse sobre a Baronesa. Menos raros eram os pagamentos dela que eram feitos na Trifronteira, frequentemente por serviços que não tinham relação com a própria região de Sangamá. Eram tão aleatórios que eram impossíveis de serem traçados. O único dado definitivo era que dentre os Barões, apenas a Garoana era mais bem cotada contra a UMGB do que Naburia.
As decisões da reunião da Cabeça não incomodavam Garoana em termos financeiros, mas em termos de informação. Ravantes e Tegravas tinham interesses em comércio, indústria, e estavam contentes em simplesmente dominar as rotas e as fontes de materiais e serviços. Garoana, por outro lado, cobiçava uma coisa que nem mesmo conhecia, o que quer que fosse que estivesse no Vale, que segundo suas informações, é o mesmo o que quer que fosse que estava em Sangamá.
Seu interesse era aguçado pelo fato de que sabia que esse era um poder que os Seldanar conheciam bem, e temiam. Ela julgava que era o mesmo conhecimento que fez o General Taras Sedov determinar que a Armada não deveria invadir o Vale.
Garoana, há muito tempo, havia decidido que esse poder tinha que ser pelo menos conhecido, se não dominado.
Audren, na Fáscia, era o caminho que poderia dar a Ravantes uma vantagem, Garoana pensava. O fato das relíquias estarem em poder do Consórcio, seja Valaravas, um Harata da Fáscia, ou de Svetlana, uma General do Leste, deixava a Baronesa inquieta, diminuindo muito a possibilidade de que ela pudesse conhecer o poder que cobiçava.
Sua última esperança era encontrar uma relíquia perdida, ou um contato no próprio Vale que facilitasse seu acesso.
O resultado da reunião não foi muito positivo para os esforços de Garoana, e isso logo seria sentido pela tripulação da Sutay.
Depois de dias de navegação eles estavam aproximando do porto de Onachinia, onde a Armada e a Marinha Real da Fáscia já tinha sido informada dos esforços de Jangunaray, e não interfeririam com a Sutay.
Não demorou muito e o transporte de bandeira falsa de Khadija despontou no horizonte sendo identificado pelo sonar da Sutay e pouco depois pelo dispositivo avulso.
Eles atracaram e a carga foi colocada em caminhões de transporte. 
Para evitar suspeitas, a Sutay permaneceu observando de longe como se estivesse a espera de algum frete.
O comboio de caminhões partiu alguns minutos depois que o barco que trouxe a carga partiu de volta para o Norte.
Ele provavelmente iria pegar a corrente do Mar do Leste para o norte, e entrar no Mar do Norte seguindo para Leste, chegando em Angaraya.
Esse não era o objetivo da Sutay. Preparado no porto estava o veículo de transporte cedido pela Armada que iria levar a tripulação tática da Sutay para seguir o comboio, enquanto Sajó permaneceria mantendo a Sutay fora de alcance.
Vários carros seguiam a estada lamacenta que ia em direção ao paredão de pedra que demarcava o pé da montanha que ladeava o Vale do Silício. Transportes, patrulhas da Armada, viajantes de vários tipos, seguindo a única rota que sai de Onachinia e passa pela ponta sudoeste de Erítria. Aquela rota convergiria para Yugovostochnaya Uzhaq, a pequena base que servia de comando avançado bem na descida do Vale.
O carro que pegou a carga do barco clandestino seguiu passando por Uzhaq, e apesar dos Baluartes estarem de guarda na saída que levava ao pé da montanha, eles deixaram o carro passar, sem qualquer movimento. Era o único carro passando, e Baluartes como aqueles podiam parar o carro com apenas um tiro de escopeta.
Karak pensava em questionar os Baluartes sobre a razão de deixarem aquele carro passar contra uma ordem dada há quase 100 anos impedindo a entrada no Vale, mas ao aproximarem-se, os mesmos Baluartes abriram caminho para que passassem.
Intrigado, Karak parou procurando olhar para o posto de vigia daquela saída, de onde um oficial saiu, seus olhos, quase brancos tal o tom de azul, apenas assentiu, com um sorriso enigmático. 
— Dukhovne. — Carcará disse do banco de trás, olhando para o oficial.
— A serviço de quem? — Malek perguntou olhando também.
— Não importa. — Karak disse retomando o curso. — Talvez nem ele saiba. Não fazem perguntas, recebem ordens.
Eles seguiram na estrada ainda dentro de um planalto tecnicamente em Erítria, fora dos domínios do Vale. No lugar havia uma pequena construção, talvez uma moradia, talvez um tipo de casa segura. Em poucos momento quando chegaram, isso já não importava mais.
— Está aqui para um jaitak, velho? — A voz jovem de um Harata cortou o som do vento frio.
— Estou aqui aproveitando a vista, garoto. — Karak disse sorrindo, já se preparando para usar seus dons.
Raila saiu do carro e aproximou-se de Karak. Sua linguagem corporal dizia confiança, dizia afeto. Dizia a ligação profunda que tinham. Ela se posicionou ao lado dele, não com subserviência, mas nem com dominância.
A expressão do jovem mudou ao vê-la.
— Perdão, minha senhora. Não era minha intenção ofender seu legado. — Ele imediatamente se conteve, baixando o olhar.
Malek, Lateral e Carcará se aproximaram. A variedade do grupo fez ainda mais em dissuadir os jovens Harata que ocupavam o outro carro.
— Temos nossa função aqui, garoto. Não sabíamos que teríamos companhia. — Karak disse fazendo um sinal de mão pelas costas para que enrolassem.
Malek, Lateral e Carcará assumiram uma pose evidente de segurança, como se estivessem realmente alarmados com a parada.
Raila seguiu com Karak, mas sem dizer nada, apenas com a pose de uma 'conselheira'.
— Sem dúvida, Legado. Igualmente, temos nossa missão. Não temos instrução para interferir nos assuntos conduzidos por outros Barões. Temos nossas ordens. — O garoto disse sem levantar o olhar.
Raila veio e disse algo silenciosamente no ouvido de Karak.
— Talvez tenhamos o mesmo objetivo, apenas de fontes diferentes. Trazemos informação de nossos patronos. — Karak disse mostrando o dispositivo de Ravantes porém desligado.
O jovem pareceu reconhecer aquilo, ou pelo menos o que poderia ser aquilo.
— Temos apenas o destino, não estamos informados do que é a carga. — O jovem respondeu.
— Talvez tenhamos mais segurança subindo juntos, meu amigo. — Karak disse já abrindo os braços. — Como é o costume. Como é direito. Harata protege os seus. Meu grupo é forte.
Os outros dois Harata, jovens, que acompanhavam aquele apareceram carregando em um carrinho caixas pequenas e com um selo irreconhecível para Karak.
— Vocês sabem por onde estamos indo, claro. Deve ser por isso a escolta. Vocês tem sorte. Creio que nós também, agora. — O garoto disse enquanto subiam a trilha.
Era uma trilha estreita que subia a montanha, e não permitiria os carros, apenas a subida a pé de duas pessoas lado a lado no máximo.
Conforme subiam, a nevoa no caminho adensava, e parecia grossa, oleosa. Raila diminuiu o passo. O resto do grupo seguiu. Os jovens à frente perceberam e pararam.
— Vocês sabem onde estamos indo? Não sabem. — O jovem disse pegando um frasco do bolso. Qachruna.
— Sabemos, meu jovem. Sabemos mais do que você. — Raila disse pegando um frasco ela mesma.
O frasco da Sangamani era diferente, mais rústico, o líquido mais denso.
Ela tomou o líquido e começou a entoar um canto gutural com uma voz que era quase preternatural. A vibração era intensa, mas não era o volume que era alto, mas era como se a frequência invadisse o corpo.
Conforme o efeito da Qachruna intensificou, seus olhos voltaram para cima, como se olhassem para dentro da mente.
A Sangamani seguiu entoando o canto que agora era completamente sobrenatural, com o resto de seu time seguindo.
Karak sorriu leviano ao passar pelos jovens, seguido de seus companheiros repetindo o gesto.
Malek chegou à Karak.
— Você já sabia? Vai explicar? — Malek murmurou nos ouvidos de Karak.
— Sim, logo falaremos. — Karak respondeu discretamente.
Os rapazes abaixo seguiram com os olhos o grupo enfrentando a famosa neblina do Vale somente na proteção da 'feiticeira' matrona.
— Acho que estamos no distrito errado. — Um dos jovens disse rindo-se de si mesmo.