Escalada

Pela última vez naquela visita eles iriam acordar pelo toque da alvorada. Eles já estavam preparados para a subida. Um carro cedido pela Armada, uma Van como as muitas que já haviam visto em postos da armada, e como Ariel havia notado antes, tração completa nas seis rodas, carbóleo e elétrica, com espaço e poder. Ela não serviria para subir. O ponto crucial do templo era ficar num lugar acessível apenas a pé. Talvez o povo que ali vivia tenha feito isso com um propósito.
Não há muito protocolo para deixar o Khara. Enquanto para a equipe foi uma visita memorável, pelo menos para os Silvani, para o Khara foi um pequeno evento fora da curva em sua rotina diária.
O carro era silencioso, e Valaravas o dirigia como Harata faz tudo em suas vidas, como se estivesse passeando e como se as regras da estrada e física fossem meras sugestões. Apesar disso, a viagem foi suave até a ponta das montanhas no nordeste do Vale. 
Ao sair do carro, eles podiam observar que a subida adentrava as nuvens densas, depois das quais, era desconhecido o caminho.
A entrada era uma trilha ingrime subindo pelo que seria de outra forma uma parede vertical.
Valaravas pegou no carro um revolver .357 que pareceu estranho, dado que não carregava armas em geral, ou pelo menos que soubessem os outros. Erlan repetiu o gesto, mas sem pegar as luvas que Valaravas havia pego.
— Você vai precisar disso. — Valaravas disse jogando outro par para Erlan.
— Não está tão frio assim. — Erlan retrucou.
— O suficiente pra colar seu dedo nesse gatilho. — Valaravas riu.
Os irmãos tinham a experiência do clima da Trifronteira. As montanhas eram um jogo novo, e talvez perigoso, mas era necessária urgência. Treinamento teria que esperar.
Ariel montou seu rifle em configuração de assalto, .300 teria que servir. Sua função seria supressão mais do que qualquer coisa.
— No frio, na altura, eles voam mais, Ariel. Lembre-se. — Valaravas disse observando a Silvani.
— Eu não sabia que Harata entendia de armas também. Estranho para um povo todo 'faça amor não faça guerra'. — Tarja riu-se.
— Harata é um povo libertino de origem pirata e sentimentos aflorados. Preferimos não pegar em armas porque sabemos bem o que elas causam. — Valaravas riu-se, com um ar sombrio.
Nandi observando riu-se junto.
Tarja decidiu pegar seu novo armamento. Ela estava confusa com como o sistema funcionava exatamente. Não era uma escopeta de madeira e ferro com as que usava para caçar em Onachinia.
Erlan a viu confusa e se chegou, tomando a arma de sua mão. Tarja relutante o deixou pegá-la. Ele mostrou com eficiência como a trava inferior do carregador era um pequeno botão dentro da abertura de descarregar, e um movimento de torção leve no cabo desbloqueava o carregador. Ele puxou a abertura e demonstrou como colocar os cartuchos. Baseado na escolha de Valaravas, um revolver, não uma pistola, e .357, os cartuchos de chumbo grosso lhe pareciam mais adequados.
— Seu jeitinho rápido silencioso, garotão. Como você conhece isso aí? — Tarja disse pegando sua arma de volta.
— Muita coisa você não sabe de mim, Carpata. — Erlan piscou uma vez, sorrateiro.
Ariel montou o rifle observando a cena. Em outros tempos seria estranho, mas agora ela estava se acostumando com o fato de que o grupo era como uma família estendida. Talvez os Harata estivessem influenciando ela para o "lado selvagem" da vida.
— O que exatamente estamos esperando encontrar, Val? — Ariel tentou entrar no círculo que Tarja já havia se convidado.
— Alguns animais que vivem nas montanhas não vão achar visitas muito amigáveis. Além disso, temos sempre que pensar em dissidentes. Temos animais pesados com couro grosso, e pessoas com vestes preparadas. — Valaravas disse com se dando a lista de compras no mercado.
— E a névoa que não vai deixar ver muita coisa. — Ariel adicionou.
— A névoa não é só densa. Ela tem algo como aquilo que enfrentamos na bomba de Thaz. Mais fraco, mas ainda assim, causara problemas. — Valaravas retrucou.
A equipe marchou pelas trilhas através dos penhascos que levam ao lado leste do Vale Silício. Uma inclinação íngreme, mas seus caminhos estreitos e curvos pela pedra deixavam pouco espaço para emboscadas ou patrulhas. Se algo esperasse acima, eles só os veriam quando chegassem ao topo da cordilheira, e então, seria tarde demais para qualquer um dos lados recuar.
Enquanto subiam, a temperatura caía e a névoa se adensava, enroscando-se entre as rochas como dedos silenciosos os alcançando. A equipe manteve um ritmo constante, cada movimento calculado enquanto navegavam pela rocha irregular. O canto baixo de Nandi cortava a névoa, sua voz firme e rítmica, um pulso de clareza contra a crescente distorção. Com sua orientação, eles permaneceram focados, sua visão clara o suficiente para se manter no caminho, resistindo à realidade distorcida que a névoa frequentemente impunha.
Eles começaram a sentir o efeito de algo. Era algo no ar, na névoa, mas diferente da de Thaz, claramente. O cenário começou a tornar-se confuso, surreal. Pedras movimentando-se contra física, vegetação parecendo dançar ao ritmo de uma música 'Universal', e a sensação de fuga do próprio eu. Era o Vale se manifestando.
Valaravas sinalizou para parar. Um grande carneiro vinha descendo a trilha com um passo estranho. Eles não podiam identificar se o passo, a forma e a expressão eram genuínas ou uma ilusão de suas mentes entorpecidas. Valaravas fez um sinal para que parassem, colados à parede.
O animal passou por eles como se nem os visse, e onde o caminho se estreitava, ele pulou pela parede ao invés de buscar a trilha, descendo pelas rachaduras que encontrava até a trilha baixa.
Eles seguiram subindo, os Silvani ainda um pouco acelerados pelo tamanho do animal. Seria real ou uma ilusão?
Conforme subiam, a sensação ia dissipando. Era como se a névoa fosse afinando e a visão clareando. Quanto mais subiam, mais fraca era a névoa, e mais seus sentidos voltavam ao normal.
— Estamos passando do nível das árvores. O efeito adiabático força a névoa a ficar mais baixo, impedindo de nos atingir aqui. — Disse Tarja com um tom soberbo.
Erlan que já tinha seus olhos na Carpata em mais do que suas formas já começava a despontar com um pouco de 'orgulho vicário' das capacidades da mulher.
Ariel observava já em seu canto. As coisas estavam andando em um caminho inesperado, mas melhor do que as alternativas.
Valaravas indicou o grupo o momento de ação tática. Ele sinalizou: Tarja subiria primeiro, observando as entradas da mesa rochosa acima, enquanto ele e Erlan dariam suporta à carpata avançando para uma posição mais clara. Ariel iria trazer Nandi, progredindo pelo meio deles até que estivessem todos em cima e pudessem encontrar uma posição mais clara.
O canto de Nandi era constante, e trazia uma sensação de paz e foco para o grupo, porém parecia um barulho ambiente, e Valaravas entendia que não precisava se preocupar com serem detectados por ele.
Quando eles terminaram de subir, o lugar parecia deserto. Além da falta de qualquer movimento vivo, ainda havia a falta de qualquer sinal de que alguém estivera ali por muitos anos. Apenas algumas ruínas claramente construídas por mãos humanas dizia que alguém já havia vivido ali.
Eles observavam que ao contrário do lado oeste, o lado leste do Vale parecia menos hostil. Seja pela altura impedindo a névoa tóxica, ou o planalto amigável à construção e ao trabalho, esse local ainda inspirava questões sobre seu abandono.
Nandi armou a amarra do sol invicto como um pêndulo rodando sob suas mãos, com a face do sol olhando para o alto em seu pulso.
Ela parecia entender os círculos que a corrente fazia como algum tipo de indicação. Tinha a sua lógica, já que era um símbolo do elo com o sol invicto, a suposta fé da gente que montou o templo. Radiestesia é uma técnica reconhecida por alguns povos de Ealetra, mesmo que em diferentes sentidos.
Enquanto seguiam Nandi, e ela seguia o pêndulo, chegaram ao que pareciam ser as ruínas de uma aldeia, que um dia fora um posto avançado próspero de algum tipo. Alguns edifícios ainda mantinham uma aparência de forma e função, enquanto outros haviam desmoronado, reduzidos a pouco mais do que paredes arruinadas e pedras espalhadas.
À medida que avançavam pelas ruínas, um edifício maior começou a tomar forma no final da aldeia, um templo. Ele não denunciava seu Deus ou credo, mas era um grande templo. Valeria a pena investigar.

O templo se erguia à frente com suas antigas paredes de pedra em um contraste gritante com as ruínas cobertas de neve da aldeia próxima. O grupo entrou com cautela, seus passos ecoando fracamente na vasta e oca estrutura. As paredes externas, grossas e robustas, haviam resistido aos estragos do tempo, mas o interior era uma história diferente. Paredes finas de pedra e madeira haviam desmoronado ou se deteriorado erguidas, deixando um labirinto de câmaras quebradas e vigas partidas. As colunas imponentes, embora desgastadas, ainda estavam de pé, e sua presença robusta conferia um ar de estabilidade frágil.

Os Silvani se moveram primeiro, deslizando pelo templo com precisão, seus olhos aguçados procurando por ameaças. Tarja seguiu de perto, mesmo com a mochila firmemente em suas costas, seu peso parecendo não a atrapalhar. Ela se posicionou perto da entrada, com uma postura resoluta, protegendo-se contra qualquer coisa que pudesse se aproximar de fora.
Valaravas e Nandi se aventuraram mais fundo no templo, sua exploração era precisa. Valaravas testou a integridade das colunas e vigas superiores, garantindo que a estrutura aguentaria. Ele se movia com a destreza de um batedor, cada passo alerta para a possibilidade de armadilhas ou perigos ocultos.
Entre os escombros espalhados, eles encontraram o que restava de outros aventureiros, sejam caçadores de relíquias, exploradores novatos, foram os que tiveram fins infelizes. A maioria dos corpos era pouco mais do que ossos quebradiços e pedaços de tecido esfarrapados, mas um se destacava. Seu estado distorcido e seus ossos pretejados e saltados, como se abertos de dentro para fora, chamou a atenção de Valaravas, e ele chamou Nandi.
Ajoelhada ao lado da forma sem vida, Nandi a estudou de perto. A natureza selvagem além do templo pareceu se acalmar, o vento parou como se prendesse a respiração. Nandi murmurou suavemente, suas palavras guiadas pela intuição e pela sutil atração de forças invisíveis.
— Miasma umbralino. — Nandi disse com certeza na voz. 
— Umbralino ? — Ariel acercou-se curiosa.
— O Umbral é um muro, entre os vivos e os mortos. Quando um corpo se liga a uma entidade do outro lado, miasma é o veículo. Ele geralmente retorna para o lado espectral. Quando não, ele impregna a matéria no mundo vivo. Por miasma umbralino.
Um silêncio se estendeu entre eles, denso e inquietante. O próprio ar parecia recuar com sua explicação, tornando-se mais pesado, mais opressivo. Nandi traçou as veias escuras de corrupção que se espalhavam pelo crânio deformado, seu olhar distante, como se perscrutasse os remanescentes de uma luta perdida.
A Sangamani então mudou, olhos vazios, sua expressão tornou-se afável, seus olhos, ainda escuros, ainda profundos, mas agora irradiavam uma brisa, como um sorriso que dança apenas nos olhos.
A voz de Nandi, sempre tocada pela cadência ondulante do Sul Sangamani, perdeu seu ritmo característico. Seu sotaque se suavizou perturbadoramente preciso, uma cadência diferente da sua. Ela ergueu a cabeça, falando palavras baixas indecifráveis, sua postura sutilmente alterada, uma força invisível se assentando sobre ela como uma segunda pele.
Ela olhou para o grupo, parando em cada rosto, seu sorriso era terno, mas autoritário. Ela gesticulou, como Valaravas ou Obravar fariam, convidando de forma charmosa a audiência a ouvir.
— O peso aqui. Um acordo. Talvez. — Ela olhou para outro ponto na sala como se visse algo. — Feito às cegas, ou abraçado com intenção. Foi a dívida, de qualquer jeito, paga em sangue.
Ela inspirou lentamente, sua respiração superficial contra o frio, depois fechou os olhos, os dedos se apertando no ar.
— Este homem foi levado ao erro, preso em armadilhas de sua própria criação. Essa morte não foi um fim, mas uma interrupção. — Nandi disse com um tom sedoso.
Nandi bateu duas vezes numa placa de madeira, resto de uma mesa velha.
Seu corpo se retraiu por um instante. Ela endireitou-se, olhando ao redor.
Valaravas encontrou seu olhar. Um único aceno. Um reconhecimento silencioso. O peso de suas palavras se assentou entre eles, nem confirmação nem negação.
No silêncio, o barulho do vento se agitou novamente, passando pelo templo em ruínas com um sussurro baixo e espectral.
— Como ela faz isso? — Ariel perguntou com uma cara de assombro.
— Não tenho certeza de que seja ela fazendo. — Valaravas retrucou.
O grupo se aventurou mais fundo nas câmaras internas do templo, um lugar anteriormente reservado ao clero e aos atendentes. Era um espaço intocado pelos passos casuais dos fiéis, imerso em uma quietude misteriosa e sagrada. O ar parecia mais pesado ali, carregado de história e algo mais sombrio.
Enquanto navegavam pelos corredores escuros, outra descoberta sinistra os aguardava. Entre os escombros e a decadência havia mais corpos esqueléticos espalhados como promessas quebradas. Alguns eram velhos, desmoronando sob o peso do tempo, mas um em particular chamou a atenção de Valaravas. Os ossos estavam torcidos em formas grotescas, o crânio marcado por formas estranhas e antinaturais. Ele chamou Nandi, apontando para os contornos perturbadores dos restos.
Nandi se aproximou. Ela se ajoelhou ao lado do corpo, estreitando os olhos como se visse algo além do físico. Seus murmúrios se tornaram mais suaves, quase como um cântico, ressoando fracamente no ar. A natureza selvagem parecia prender a respiração, o vento lá fora silenciado pela gravidade de sua intuição.
— Insanidade é tudo que resta em uma mente que não tem mais nada que buscar na realidade, e não está preparada para o desenlace.
Ela voltou seu olhar para cima, seus olhos em branco, mas como se ainda vissem, como se lesse algo que não existia no mundo que eles podiam ver.
— A riqueza não pode proteger a mente pobre. O poder dá imunidade, em muitos sentidos. Mas não aqui. Não para ele.
As palavras caíram como uma pronúncia, pesadas e finais. Nandi fez uma pausa, seus dedos se contraindo ligeiramente, como se roçassem algo invisível.
— Uma mulher, sorriso fácil, palavras doces, olhos que prendem. Ela veio em busca de algo. Não encontrou. Sua procura a consumiu.
Uma quietude se instalou.
E então, de repente, ela se moveu.
Uma virada brusca e súbita, Valaravas mal teve um suspiro antes que os dedos dela agarrassem seu queixo, puxando seu rosto em direção ao dela, mais perto que a respiração, mais perto que o pensamento. Seus olhos como dois vazios reluzentes, mas nas profundezas, reconhecimento, não dele, mas do que ele era. Como um caçador, algo ansiando por algo perdido, ela falou, e até mesmo sua voz agora não pertencia a Nandi.
— Você está certo. Ele era alguém. Mas sua história não o salvou.
Nandi então apontou para o corredor no fundo, lado esquerdo.
— Ali! A ambição foi guia, a fome foi companheira. Mas só a morte foi amiga.
Seu aperto se afrouxou, seus dedos se afastando como se perdessem o interesse. Sua atitude ardente desapareceu, a agudeza em seu olhar em branco suavizou-se em pensamentos sombrios. Ela deu um passo para trás, voltando ao normal, calma e medida.
Valaravas se endireitou, aparentemente impassível, como se sua mudança súbita não fosse nada mais do que ler as emoções na sala.
Ele não demonstrou sinais externos de preocupação, embora os outros estivessem menos certos do que acabaram de testemunhar. Os Silvani trocaram olhares inquietos, suas mentes aguçadas incapazes de analisar os significados das revelações de Nandi. Tarja, embora menos nervosa, ainda se sentia perturbada pelas arestas do que entendia.
As palavras finais de Nandi, no entanto, não deixaram espaço para dúvidas. Sua voz, novamente dela, mas ainda em uma linguagem que não era sua.
— Uma história de poder, como muitas. Buscaram um poder que não podiam ter, e por meios que não podiam controlar. A chave ainda está aqui.
A voz de Nandi era controlada, medida, e o tom não era Sangamani. Mas a certeza era inegável. O que quer que ela estivesse canalizando, tinha um plano.