Encruzilhada

Karak voltou ao centro de comando com Raila ao seu lado, mais por apoio moral do que propriamente ação. Nos tempos de pirataria, Raila não era uma capitã por gosto da vida, mas por imposição de poder. 
Malek estava em sua posição nas comunicações, mas pouco fazia com isso naquele momento. Eles tinham alguns minutos para decidir como lidar com a situação.
Karak puxou as barreiras da cabine, protegendo os visores externos para um pouco mais de segurança. Os estranhos no outro barco talvez não percebessem, mas seria questão de tempo até saberem que a pantomima falhou.
— Mantenha a frequência do Leste pingando. Devemos sinalizar imediatamente ao entrar com contato com um dos nossos. — Karak ordenou aos dois.
— Segue. — Malek respondeu.
— Temos algum tipo de armamento aqui?
— Não, capitão. Apenas a saída tática e o bode. — Carcará respondeu. — Somos um transporte tático e espião. Não para combate.
— Evasão pelo tornado é a única opção?
— Ou o bode, mas eles podem não ser tão fracos, capitão. — Carcará retrucou.
Karak olhou em volta, talvez tentando pensar em algo. Raila estava observando mas sem intervir.
Malek seguia observando, mas nada do outro navio ou de aliados em qualquer lugar.
— Eles estão manobrando, capitão. Parece um percurso de interceptação lateral. — Carcará avisou.
— Definitivamente algo não está certo. — Karak ponderou. — Tornado?
— Para ativar o tornado precisamos parar a propulsão por alguns minutos para o coice. — Carcará estava apreensivo. — Pode funcionar, mas se formos danificados e entrarmos no tornado, a Sutay parte em pedaços.
— Opções? — Karak estava procurando informações no console.
— A Sutay é mais ágil. — Carcará disse cruzando os braços.
— Sigamos curso, vejamos a reação deles. — Karak ordenou.
As ondas ainda eram altas, não permitiriam qualquer tipo de projétil ou qualquer ataque que necessitasse mira direta. Karak pensava que se tivessem cães do mar para soltar, eles já o teriam feito.
— Saímos da sétima, capitão. Estamos fora do círculo polar. — Carcará informou.
— Menos um sétimo então. — Karak declarou. — Seguimos sem contato?
— Sem contato, capitão. — Malek informou.
— Eles estão se aproximando rápido capitão. — Carcará disse com urgência.
— Menos dois terços, três quartos de potência. — Karak ordenou. 
Karak observava a tela com atenção, sem olhar para seus companheiros, apenas mandando ordens.
— Em dez, menos meio, mantenha potência. — Karak disse com a mão levantada.
A Sutay fez um círculo fechado, a outra embarcação perdeu a aproximação e tentou corrigir o curso.
— Frente precisa, corte propulsão, deixe o motor. — Karak disse, ainda grudado na tela. 
A corrente reflexa do círculo polar era mais forte que a do Mar do Sul, criando uma área de fricção. Ao tocá-la, a Sutay foi virada como se estivesse fazendo a manobra mesmo sem fazê-la, pois entrou com ângulo já em menos um terço.
A outra embarcação, mais pesada, entrando com o ângulo mais aberto, atravessou de volta para a sétima linha do ártico, sendo propelida lateralmente para mais longe da Sutay.
— Preparar para o tornado em 10, curso mais um sexto. Posições. — Karak ordenou.
Enquanto se colocavam nos assentos e prendiam os cintos, Carcará e Karak olhavam em seus painéis como a outra embarcação estava deslocada longe no círculo polar externo, teria que entrar no Mar do Sul novamente para usar qualquer tipo de propulsão.
O tornado foi ativado, e a conhecida nuvem de vapor formou-se com o barulho agora como música, relaxando a alma da tripulação.
Em uns minutos e a Sutay estava deslizando rumo aos arredores de Jangunaray.
— Nunca pensei que essa escuridão ia ser a melhor coisa pra ver. — Karak riu-se.
Eles entraram nas águas de Jangunaray posicionando-se em um ponto de equilíbrio estacionário na costa.
Os dados da Sutay sincronizaram com o porto leste, atualizando os mapas e as informações internas.
Karak seguiu o procedimento que Zamani havia instruído. Primeiro ele sincronizou os dados da Sutay com seu ponto pessoal, por um canal encriptado em sua chave pessoal na identidade de Jangunaray. Em seguida, sincronizou seu ponto pessoal com o ponto pessoal de Zamani. Terminado, ele sincronizou o ponto pessoal de Zamani com o dispositivo que ela havia entregue.
Em alguns segundos, o dispositivo tinha atualizado as posições dos e histórico dos barcos aliados de Jangunaray, atualizando o dispositivo. Também adicionou os dados que a Sutay havia dado sobre a embarcação que encontraram, e os dados coletados durante a passagem pelo círculo polar.
— Vamos ao porto, capitão? — Carcará perguntou. 
— Não, temos ainda uma segunda parte. Mas essa é mais tranquila e tediosa. — Karak respondeu já arrumando os controles.
Eles tinham mais três dias de viagem até chegar do sul de Jangunaray até o norte de Onachinia, em cruzeiro pelas águas territoriais da Aliança do Leste, Jangunaray, Fáscia e Onachinia, parando na incursão as águas do Mar do Leste no Mar do Norte.
A viagem era tranquila, e não requeria segredo ou estratégia, mas a Sutay estaria recolhendo dados para Jangunaray e Ravantes em seus empreendimentos compartilhados, e Karak estaria sincronizando esses dados com o dispositivo de Zamani, criando uma rede paralela de dados.
Todas as sincronizações com os portos da Fáscia e de Onachinia foram como planejado, e os dias passaram tranquilos.
Na manhã do quarto dia eles estavam já no ponto de calmaria do Mar do Norte, estacionários esperando os dados do porto mais ao norte de Onachinia.
— Capitão, estamos recebendo uma requisição de dados. — Malek disse, ainda se instalando em seu posto.
— Agora cedo? Origem? 
— Chernaya Bahakuda, tem o roteamento assinado pela General Sedova ... Svetlana Tarasovna. — Malek estava incerto.
— Mande as credenciais de Jangunaray. — Karak disse já verificando em seu console mais informações.
— A resposta foi um desafio de autoridade.
— Desafio de autoridade? — Karak perguntou.
— Desafio de autoridade. — Malek repetiu.
— Estão desafiando quem é pessoalmente recebendo a mensagem. — Carcará adicionou. — Eles querem um canal pessoal capitão. Seu.
Carcará foi até o console do comando e mostrou à Karak a configuração do canal direto, onde a conexão é específica com o capitão pelo ponto pessoal conectado ao console, e não com a embarcação como um todo.
Karak configurou seu ponto pessoal e conferiu a assinatura diretamente, e a chave pessoal era mesmo a identidade da Razão Global identificada de Svetlana. Ao responder o desafio com a sua, o desafio retornou.
O capitão então ponderou um pouco, pensou enquanto olhava para o dispositivo de Ravantes, indeciso se era aquilo.
Ele reconfigurou o canal, e usou o ponto pessoal de Zamani, e a conexão foi estabelecida.
Não havia texto na mensagem, apenas um serial criptografado de um tamanho considerável. Uma imagem sem qualquer nexo, feita de pontos coloridos.
Ao terminar o canal foi fechado e nada aconteceu.
Karak tentou sincronizar o ponto com o dispositivo, mas nada acontecia.
— Tático, conferência. — Karak disse rumando para o espaço de conferência na cabine, um local mais aberto com uma mesa e sem equipamentos feito para reuniões.
Carcará o seguiu intrigado.
— Isso foi o que recebemos, mas o dispositivo não sincroniza, parece não fazer nada. — Karak disse impaciente, mostrando a imagem.
— Armazenamento modelo. Deve ser algo extremamente importante. — Carcará estava surpreso genuinamente.
— Armazenamento modelo? — Karak indagou.
— Agente da Lâmina, Capitão, todo esperto. Mesmo? Armazenamento modelo é uma forma segura de transportar quantidades massivas de dados sem que os dados possam ser decriptados por nós na linha. — Carcará apontando para o dispositivo que Zamani entregou para Karak.
— Certo. E o que eu faço com isso? — Karak disse pegando o dispositivo. 
— Poderia abrir a imagem em qualquer tela e ler com o ponto pessoal, mas nesse caso, melhor pegar a imagem e abrir no dispositivo ali, que tem a tela maior, e ler com a camera do ponto pessoal. — Carcará explicou rindo-se da ineptitude do capitão.
Karak leu a imagem com seu ponto pessoal, e nada aconteceu.
— O ponto pessoal precisa estar com a chave correta da imagem, ou os dados não fazem sentido. — Carcará apontou.
Karak leu a imagem com o ponto pessoal que Zamani o entregou, e ele abriu um aplicativo novo com a leitura, que em si era um modelo IA compacto no padrão da Razão Global.
Ao sincronizar agora com o dispositivo de Ravantes, o coração do sistema operacional assimilou aquele modelo, alterando a apresentação do dispositivo, e o sistema de rastreio agora tinha mais dados a respeito das frotas, dos pontos de dados para os portos, e de embarcações antes não registradas.
Karak observou a leitura e o modelo estava ativamente mudando os dados, acrescentando observações nas movimentações.
Carcará e Karak voltaram para seus postos iniciando a viagem ao sul.
Karak ia comparando as leituras da Sutay e do dispositivo de Ravantes. Os dados no dispositivo eram mais completos, e algumas embarcações não apareciam no painel da Sutay.
Quase duas horas passaram e o processo parecia normal, quando o dispositivo de Zamani acusou a assinatura irregular de Khadija em uma embarcação circulando o porto sul de Onachinia.
Os cruzadores de patrulha da Armada e da Marinha Real passavam por ele como se nada anormal estivesse ali. No painel da Sutay, ele constava como transporte médio, sem carga, esperando liberação aduaneira.
Uma observação no dispositivo de Zamani dizia [Não intervir].
Karak achou estranho, mas uma coisa que ele sabia como agente da Lâmina, mesmo no seu tempo há tantas décadas atrás era que não se questiona ordens quando elas são dadas.
Eram mais 7 dias de viagem seguindo pelas águas costeiras de Purvatara até chegar novamente à Suyantara.
Conforme foram seguindo sua viagem, perceberam diversas embarcações identificadas com a assinatura dita irregular no dispositivo de Zamani, e a observação de não intervir.
Na manhã do oitavo dia, eles estavam atracando novamente no porto protegido da Suyantara Leste. Ao atracarem, eles foram recebidos por um time de terra completo, e organizado, que já conectou os sistemas da Sutay e preparava para fazer as manutenções e limpeza de rotina, deixando-os livres para seguirem para seus apartamentos.
Karak entendia o protocolo não dito de sua gente. Ravantes não era um homem que procura-se. Quando ele precisasse ser encontrado, ele estaria disponível. A tripulação da Sutay retornou aos seus lares em terra, esperando novas instruções de seu capitão, e ele, das próximas ordens de cima.