Syndra sempre se considerou uma estudiosa de sistemas elegantes, tanto naturais quanto construídos. Seu dom Urbani era apenas parte daquilo que fazia seu interesse por sistemas tão intenso. Ela vivia uma vida acadêmica completa, deixando pouco para sua vida pessoal.
E, no entanto, enquanto observava o colapso fractal que se desenrolava nas alianças conhecidas, não conseguia afastar o ardor amargo que começava por trás de seus olhos e descia por sua coluna. Ela já vira tais desenlaces antes, mas nunca por dentro.
Sua estadia com Aran na Fáscia desta vez foi mais uma missão de descoberta do que um caso pessoal. Ela descobrira que seu envolvimento com Aran não era tão secreto quanto pensava, e que estava sendo levado em conta por ambos os lados. Ela não se ressentia de Aran por isso, mas sabia das implicações.
Há muito ela aceitara que o que se passava entre eles não era nem inocente nem discreto. O que a perturbava não era o fato de seu envolvimento ter se tornado conhecido, mas que agora estava sendo medido. Quantificado.
Ela postava-se perto da longa e estreita janela de sua câmara de estudos, os dedos pressionados levemente contra o vidro fino que a separava da natureza ensolarada. Livros jaziam abertos atrás dela, intocados. Seriais repousavam em pilhas não processadas. Sua mente não estava mais alinhada ao ritmo silencioso dos dados estatísticos e da inferência. Agora, ela fervilhava com a lógica de consequência.
A voz de Aran a alcançou como um fio de veludo, baixa, suave e irritantemente composta.
— Preparamos tudo para que o problema seja resolvido, meu amor. Rentaniel não sofrerá, ou pelos, não sofrerá nenhum dano permanente. Pelo menos até que esteja em mãos que podem decidir de outra forma. — Aran disse com o cinismo natural de sua gente.
Sua presença era sempre definida pela postura. Reclinado. Confiante. Como se ele estivesse perpetuamente recostado à beira do mundo, balançando um pé em seu fogo apenas para ver o quão quente queimava.
Syndra não se virou para encará-lo. Sua voz, quando veio, era tensa e quebradiça.
— Rentaniel não me preocupa. Não mais. Estou preocupada com o brilho que sua queda irá colocar em nossa sombra. Não estou convencida de que a distração seja opaca o suficiente.
Ele deu uma risada suave, e o som fez o sangue dela aquecer de irritação.
— Você confunde a natureza do escrutínio, meu amor. Ele não sobe. Ele desce. Ele cai em cascata. Eles cavarão em direção a Rentaniel, não para longe dele. Toda falha geológica leva para baixo. E isso, como sempre, nos deixa em segurança, empoleirados acima.
Syndra tinha os lábios em uma linha.
— Você está confiante demais.
— E você é propensa demais a duvidar da vitória. Eu garanto: Alguém está observando o fio. Um amigo. O fio levará precisamente aonde deve, para as mãos da Armada, ele está devidamente humilhado, mas ainda intacto.
— O corpo intacto, ou pelo menos a salvo, creio. — disse Syndra, a voz baixa.
— O que são alguns hematomas entre amigos? Ele não queria uma revolução? Sem sangrar não se faz revolução. — Aran estava divertindo-se.
Desde a caminhada com Syndra, que Aran com seu eco do dom do conhecimento entende muito mais dos sistemas do mundo que já entendia. Ele estava confiando demais? Talvez. Mas tinha boas razões para pensar que podia.
Syndra se virou, finalmente, e atravessou a sala com passos medidos, cada um carregando o peso de uma réplica não dita. Serviu-se de uma medida do Vista Cálida que ele abrira mais cedo, mas ainda não bebera. Um vinho Harata forte, como um golpe do destino, para momentos que não pedem a carícia do Vista Exótica.
— Os piratas? — ela perguntou, cuidadosa. — Você está confiando que a ganância deles durará o suficiente para o seu teatro?
— Eles foram pagos, Syndra. Não trabalho somente com gente obscura. Ele está onde deve, e tenho uma amiga que me garantiu que o pagamento foi suficiente. Agora é só a Armada descer sobre ele, como sei que vai. — Aran sorriu.
Ela inspirou bruscamente.
— Isso não vai deslocar só Rentaniel. Ariel está com o Legado de Audren, e Tirayon a quer, ou pra eliminar, ou para liderar. E isso nunca vai acontecer com a fronteira fechada, mas a Armada nunca vai abrir a fronteira...
Syndra parou. Colocou sua taça na borda da mesa e as mãos na testa. Ela acabara de puxar o fio que Aran já havia feito uma manta de lã completa.
— A não ser que ameacem Erítria, através de Tirayon, e os piratas são os únicos estúpidos o suficiente para fazer isso!
Ele ergueu sua taça em zombaria solene.
— Essa é a ideia.
Ela pegou a taça, bebeu de uma golada. O vinho tinha gosto de ferro e fumaça.
— Há um problema aqui. Você não sabe, Erítria não sabe, não sei nem se o Legado sabe, mas ele deve saber, e a Grande Mãe sabe. Você não tem ideia do que acabou de fazer Aran, e minha lealdade me impede de dizer.
— Mas se você sabe, eu saberei, ou concluirei, não é verdade? — Aran sentia-se invencível.
— Esse é o problema do dom do conhecimento, meu amor. Ele não te dá conhecimento, ele ajuda a obtê-lo. Você pode ver o mundo como eu vejo, mas pelo sentidos que você tem. Se eu sei de um fato que você não sabe, não existe como você "entender" um fato. Fato é só aquilo que não precisa de explicação ou argumento.
— Entendo. Eu não posso ver o que você vê, apenas ver como você vê quando vejo a mesma coisa. Isso significa que há segredos entre nós, e que residem nos fatos. — Aran concluiu a falha de seu plano.
— Temo que minha suspeita acaba de tornar-se uma realidade. Não posso dizer os fatos, como conselheira real, mas posso dizer com certeza: A Grande Mãe sabe que você faria o que fez. Ela me tornou parte de seu plano, e você por extensão. Temo que somos instrumentos nas mãos dela como fizemos instrumento quem quer esteja envolvido em afastar Rentaniel do nosso jardim. — Syndra concluiu, sentando-se para mais vinho.
— Claro que não espero ser informado de assuntos da Fáscia, mas de que grau estamos falando aqui? — Aran perguntou já pensando em medidas.
— Seria impossível de dizer sem dizer o que realmente planeja Audren. O que eu posso dizer é que, ao menos afastando Rentaniel, você fez o que ela esperava, o que eu o aconselhei a fazer, dado o que ela me disse que seria problema para mim, e para você. — Syndra estava atordoada.
Aran e Syndra, juntos, tentavam elevar o dom que compartilhavam para entender como proceder, mas Audren, por alguma razão, talvez até esperada por ser ela uma nobre Seldanar, que caminhou com sua mãe, que assim o fez com a dela, e que assim tem a caminhada de uma casa que remonta à antiguidade dos Silvani, aquele que compartilham. Audren sabe a verdade experimentada por seus antepassados, não a história dos livros.
— O dom da vidente. — Aran concluiu. — Não foi Audren que planejou isso. Estamos observando Rentaniel há muito tempo. Ele tinha obsessão por ele, o dom da vidente.
— Do que você está falando meu amor? — Syndra retrucou.
— A vidente que anda com o Harata. Tirayon perdeu a Serenidade, destruiu a Sabedoria, a Criação, deixando praticamente todos sem nenhuma tradição de caminhada. Os extremistas acabaram com essa tradição há muitos séculos. A única Cidade que permaneceu com ela foi a Serenidade. E vocês, Urbani, conhecimento. Um destruído, o outro separado.
— E o que tem isso a ver com a vidente, Aran? — Syndra perguntou, curiosa.
— Os Harata aprenderam a caminhada com vocês. Os Onatra nunca a tiveram. Duvido que os nômades tenham. Mas os Sangamani, eles praticam a caminhada. — Aran concluiu.
— Pelo que os fanáticos de Rentaniel diziam, eles poderiam ter o mesmo dom dos Harata, que nós perdemos, você sabe, nossos ancestrais há milhares anos eram Harata. Com o dom da vidente, eles acreditam que podem ser como os Harata e não precisar mais deles. — Aran concluiu.
— Mas o negócio dos Harata é orgânico, nós os ensinamos a coisa de sugestão hipnótica e carisma. — Syndra argumentou.
— Ah meu amor, que ingenuidade. Vocês ensinaram a teoria. Até nós Anoa, sabemos que os Harata já eram o que são muito antes de vocês Urbani terem saído de Tirayon. — Aran riu-se. — Agora são os meus fatos que você não sabe.
— Mesmo assim, o que isso tem a ver com 'dom da vidente'. — Syndra seguia confusa.
— Ela é Sangamani, como os Harata, ela tem a cultura da caminhada. Ela caminhou com seu povo. Ela caminhou com guerreiros, com seus ancestrais, com os sacerdotes de sua gente, seja lá como chamam. Se ela caminhou com o Harata, ele tem o dom dela, e o seu, porque caminhou com Ayla, e então ... — Aran deixou no ar.
— Ayla, uma Seldanar, filha da Grande Mãe, caminhou com ela, e tem a caminhada com os ancestrais mais distantes de Seldanar. — Syndra concluiu.
— Logo o dom da vidente não é algo que a Sangamani tem, mas o fato que o Legado caminhou com a linhagem de Seldanar toda, e com os ancestrais Sangamani todos. — Aran concluiu.
— E sabemos que o Vale e Tirayon são os outros pontos como o Vale. — Syndra adicionou.
— Exato. E dessa maneira, Rentaniel poderia tomar Tirayon, sabendo como controlar o poder daquela terra. E poderia controlar Sangamá, ou pelo menos saber como. — Aran concluiu.
— É preciso muito mais que saber os segredos de um povo para governá-lo. — Syndra disse confusa.
— Eu sei disso, você sabe disso, o Legado, Audren, todos sabemos. Rentaniel acredita, ou acreditava que poderia. — Aran riu-se.
— Qual é o problema então? Ele já esta fora de combate. — Syndra riu-se.
— Ele está meu amor, mas pense. Ele, vocês, a Armada, nós. Ninguém tem a rede mundial de controle. O Legado é Harata. Ele tem o dom da vidente, o dom de Seldanar, e agora anda com uma Silvani. — Aran disse com divertimento.
— Audren não está nos usando só. Ela está sendo usada pelos Harata. — Syndra sentiu a testa pesar.
— E a essa altura, não há como impedir. — Aran riu-se. — Devemos nos posicionar com eles. É o melhor que fazemos. No fim das contas, vocês estavam certos o tempo todo. Pelas razões erradas, mas estavam certos.
— Aran, meu amor. Você não tem ideia o quanto. O que fizemos, a Fáscia, em um ato de simples compaixão, pode ter sido o único ato capaz de mudar Ealetra para sempre, se isso tudo que você disse é verdade. — Syndra concluiu.
— É uma pena que eu vou ter que assistir para saber, meu amor. Uma pena. Mas eu respeito sua lealdade. — Aran ofereceu um brinde.
Era hora de eles aproveitarem um ao outro. Talvez a única forma de esquecer o peso que agora Syndra carregava em sua mente.