Economia Sustentável

Os Harata, com suas vastas redes econômicas e influência clandestina, são o motor do comércio. O Consórcio garantindo que a riqueza e necessidade fluíssem tão livremente quanto o poder. Mas eles não estão sozinhos, e sabem que é assim que tem que ser.
Jangunaray tem importância estratégica para todos em Ealetra, e ninguém sabe mais disso do que a Eletrochinia. Entre muitas coisas, alguns dos materiais essenciais para a fabricação de Carbóleo só podem ser encontrados nas terras baixas, e é onde se faz necessário negócio que Kivi estará sempre com seu charme rústico Carpata.
— A Trifronteira não é uma cidade, é um acordo de acordos. — dizia Kivi para seu colega.
— Os Harata mandam na Trifronteira. Erítria só cuida para que não se alastrem para seu país. Mas a Trifronteira é deles. — retrucou Elias vividamente.
— Até o dia que decidirem transformar em uma unifronteira. Toda Harata. — Kivi riu-se.
O gerente Anoa ali processando os documentos deles deu sorriso quase imperceptível, enquanto resolvia seus assuntos. Seus ouvidos estavam atentos. Sempre é bom ouvir, mesmo que as conversas de Carpatas animados demais seja permeada de informações inúteis ou públicas demais.
— E se os Silvani decidirem agitar as coisas então? — Kivi disse como um argumento infalível.
— Só se quiserem sumir do mapa. Eles não tem poder nenhum. Se provocarem, Maz Ynis vai chover em Tirayon mais do que neve em Onachinia. — Elias agora ria-se.
— Se depender dos nossos amigos aqui, Maz Ynis não vai faltar. — Kivi fustigou olhando para o Anoa.
— Não faltando dinheiro para pagar, meu bom senhor. — O Anoa disse no tom sombrio que lhes é peculiar.
Além de materiais para Carbóleo, outros materiais importantes que acham-se principalmente em Jangunaray são os elementos para fabricar Maz Ynis. Porquanto eles não saibam fabricá-lo, quem sabe depende deles.
Um silêncio pairou na sala por alguns momentos. A seriedade do Anoa foi suficiente para baixar nos Carpatas a lembrança de que estão falando em uma coisa que pode acontecer, e se acontecer, mudará a vida de muita gente.
Novamente o Anoa cortou o clima tenso entregando os documentos que agora Kivi teria que revisar e assinar. Nada fora do rotineiro, mas a rota sim. Eles seriam levados de trem e não de navio. Onachinia já sabia que haveriam problemas com as rotas marítimas, e decidiram mandar Kivi para antecipar possíveis faltas de abastecimento. O Carbóleo é, afinal, essencial para todos.
— Todos precisam comer, mas nem todos merecem poder. — Radip, o Anoa, disse em tom casual.
— Vocês não se preocupam com o que acontece no mundo Anoa? — Elias perguntou com uma seriedade inesperada.
— Nada que aconteça no mundo pode arriscar mais a minha vida do que respirar o ar desta terra por mais de uma semana. — Radip respondeu com um sorriso triunfante.
— Por isso nós só ficamos aqui por dois ou três dias. — Kivi acrescentou como se desse o bordão de uma piada.
Novamente o silêncio tomou conta da sala. Kivi terminou sua revisão e o que era necessário para firmar o novo acordo. Era hora de partir. Anoa, eles não esperavam despedidas, tempo perdido em conversa aleatória. Simplesmente trabalho feito, partir pra a próxima tarefa.
Kivi e Elias tinham um trem para tomar.
Sair de Jangunaray de trem não era uma tarefa simples. Eles seguiram com o carro do Grupo Somnikan, empresa que trata das exportações de minerais e fungos raros de Jangunaray. Ele iria levá-los até o trem que entra pelo penhasco da borda, indo por debaixo da terra até a Fáscia e depois até Onachinia. Não é tão avançado ou rápido como o Verme, mas é confiável. 
Passagem garantida, era hora da etapa diferenciada da viagem.
Antes de embarcar, tudo era passado por um corredor de descontaminação, eliminando qualquer dos milhares de fungos, químicos ou minerais encontrados no ar, na água e na terra daquele país.
Depois disso, a passagem em detectores químicos para garantir que o processo estivesse completo. Tudo seria revisado, bagagens vistoriadas.
Entre a chegada na sala de espera e o embarque, exames de sangue seriam feitos para garantir que os mais óbvios problemas não afetassem as populações das outros paradas.
Jangunaray vivia em constante quarentena, mas eles não estavam preocupados com qualquer coisa que entrasse, mas sim qualquer coisa que saísse. Era provável que qualquer doença das outras terras não afetaria as pessoas que vivem em uma terra como aquela.
Quarenta minutos de espera, mais pelo resultado do exame do que propriamente pela preparação do trem, e Kivi e Elias estavam a caminho de Onachinia novamente, com a vantagem de saberem que sua saúde está em ordem, até onde sua visita estava implicada.
Para aquela divisão do Grupo Somnikan por outro lado, agora ficava a tarefa de organizar a nova rota. Eles já utilizavam trens para os transportes na direção Oeste, pois o mar naquela direção passava pelas Ilhas Livres, e os piratas tornavam a rota mais cara. O mar Oriental, na costa leste, estava geralmente livre, patrulhado pela Armada e pela Marinha da Fáscia.
A economia de Jangunaray não se baseava em crescimento. Crescer consumia recursos demais. O objetivo sempre fora manter-se útil. Para o Consórcio. Para as rotas. Para as guerras que ninguém declarava em voz alta. Maz Ynis era o exemplo perfeito disso.
Jangunaray sobreviveria em paz e protegida porquanto sua posição fosse ser estrategicamente importante e não fazer perguntas. No momento me que fosse mais importante remover o fornecedor dos oponentes do que trabalhar com ele, Jangunaray se tornaria um risco sistêmico, uma ponta solta.
Agora, com a Armada interferindo nos mares, essa dependência começava a se concentrar. Concentração era perigosa. Criava foco. E foco criava perguntas.
Radip observava o padrão. Onachinia sempre foi interessada nos mesmos reagentes, apenas crescendo em quantidade. Carbóleo que a nação sombria também consumia era a única dependência da terra dos Carpata, e também não representava uma ameaça. A Fáscia porém, estavam comprando materiais para Ynis, de todos os tipos, como se não houvesse amanhã.
A Armada, por outro lado, mantinha o suprimento de Ynis em um patamar. Os insumos médicos e químicos de ordem mais operacional, óleos minerais, e outros recursos sugeriam que eles estavam se preparando para algo diferente.
O posto de Karaya, no centro de Erítria estava expandindo, mas não justificava tudo isso.
O principal problema eram os Harata. Suas compras eram as mais simples de avaliar: zero por todos os lados. Jangunaray não tinha nenhum tipo de negócio com os Harata. Se amanhã a nação fosse uma cratera no chão invadida pela água, os Harata seguiriam como sempre estiveram.
— Onachinia está consolidada Senhor. — Radip informou pelo console.
— Erítria e a Fáscia? — A voz no console respondeu prontamente.
— Erítria e Fáscia sim. A conta específica da Armada ainda não.
— Do nosso lado ou do deles. 
— Eles ainda não mandaram a requisição do próximo ciclo, Senhor. — Radip disse com cuidado.
— Mantenha-me informado. Fim. — A voz finalizou.
Radip encerrou seu turno, e depois de fechar sua seção, dirigiu-se ao seu carro. Ao entrar, o perfume amadeirado de sândalo invadiu seus sentidos. No volante do carro, levemente fixado, uma pequena mensagem em tecido simples:
[Vivemos novos tempos. Escolha seu lado. Entregue o Leão.]
Radip olhou ao redor, sabendo ser inútil, mais por reflexo. 
Ele não estava preocupado ou temeroso, mas com propósito, tomou a direção e saiu levemente cantando os pneus do carro. O porto era o seu destino.