Shmaria estava surpresa, mas com a simbiose entre Raila e a entidade da relíquia do templo dos escravos, e não com a entidade em si, que era uma velha conhecida.
— Vejo que encontrou uma que se dobrasse. — Shmaria disse com desdém.
— Respeitar aqueles que são mais fortes é um sinal de sabedoria, Silvani. — A entidade disse através de Raila.
— Não estamos na sua terra. — A Silvani retrucou.
— Mas essa aqui tem o poder deles.
Raila possuída pela entidade reptiliana deu um passo para frente. Shmaria retraiu-se, mas Shalev e Avivi deram um passo à frente.
Os dois homens Silvani pegaram seus próprios frascos de Qachruna, tornado-se mais espectrais na visão de todos, que era distorcida pelo Vale.
— Vocês eu nem gastaria meu tempo. — A entidade disse jogando uma pedrinha translúcida para Carcará. — Mestiço, faça o favor à sua Efylgja.
Carcará sorriu, mastigando a pequena pedra. Sua forma na caminhada do Vale tornou-se uma mistura de sua forma normal com os traços de seu animal espectral, traçando contorno de asas em reflexos luminosos, e suas iris mudando para um amarelo vivo.
O rapaz se interpôs entre Raila e os dois Silvani, levantando seus facões em posição de ataque.
Os dois Silvani avançaram, mas Carcará procurava circular em volta deles, sempre mantendo Avivi em ângulo contra Shalev, obrigando-o a movimentar-se para não estar entre seu aliado e o mestiço.
Avivi tentava golpear Carcará com seu sabre, mas o mestiço não o refutava como era esperando. Ao invés disso ele ia como em uma dança recebendo todos os golpes com um facão e respondendo com o outro.
Shalev tentou flanquear Carcará dando a volta por trás de Avivi, circulando pelo lado que o companheiro tinha a mão livre. Avivi investiu sobre Carcará pelo outro lado para obrigar o mestiço a pender para o lado, abrindo o ataque de Shalev.
Ao invés de defender-se do ataque de Avivi, Carcará moveu as asas espectrais que tinha com um vigor, movendo-se para trás com velocidade, evitando tanto o ataque de Shalev, quanto de Avivi.
Repetindo o movimento agora avançando, Carcará inverteu a pegada nos facões e girou o corpo violentamente, esticando a mão e cortando o pescoço de Shalev, que caiu em espasmos.
Avivi já estava em meio movimento quando percebeu a ferida do companheiro, e sua fúria refletiu na forma de seu corpo na caminhada. Seu reflexo intenso e púrpura.
Ele partiu para Carcará, que bloqueava todos os golpes com movimentos fluídos de seus facões.
Eles mantinham um equilíbrio vigoroso. Avivi seguia golpeando e protegendo, Carcará seguia manobrando e atacando.
Percebendo a resistência cansando e a futilidade, Avivi e Carcará recuaram.
Avivi chegou-se em Shalev, e segurando suas reações, pegou o resto da Qachruna que seu companheiro carregava. Ele seguiu e consumiu os dois frascos inteiros.
O Silvani estava agitado, verificando sua agilidade, manuseando seu sabre com floreios, sorrindo de sua nova agilidade.
Karak observou a mudança, e chegou-se em Carcará, murmurando em seu ouvido. Então olhou-o nos olhos, e o mestiço podia ver um brilho discreto nos olhos do Harata, como se ali no fundo ele entendesse não a técnica nem o fundamento da caminhada, mas visse a si mesmo, como de fora, observando sua essência.
Carcará ficou ali por alguns segundos, até que o som de Avivi alertou-o.
O Silvani veio com sua nova força, mais rápido e mais ágil que antes.
Carcará do seu lado seguia respondendo com agilidade, mas agora Avivi tinha vantagem em velocidade. Carcará começou a defender mais do que atacar, sendo empurrado a ceder espaço.
O mestiço então começou a focar-se em seus movimentos, em seus músculos, no ritmo, uma cadência em padrão. Ele podia entender os movimentos como seus, e perceber cada gesto, cada impulso. Ele lembrou-se de algo que ouvira antes: Ultrapassagem.
Ao invés de focar nas ações de Avivi, ele passou a focar no padrão em si, nos movimentos, não mais considerando um oponente, mas como havia sentido nos olhos de Karak, em sua própria vibração interna.
Suas asas espectrais iam aumentando sua imagem de um simples reflexo para sólidas construções plasmadas na caminhada. Conforme ia defendendo, mesmo que com menos agilidade e mais cedendo terreno, Carcará ia entendendo o padrão, o movimento de Avivi, como uma parte de si mesmo.
Foi num instante em que ele sentiu, e com um movimento, rebateu o sabre de Avivi e com um movimento de sua asa agora completamente formada, atingiu o lado da cabeça do Silvani, tirando seu equilíbrio.
O Silvani investiu e defendendo-se novamente, Carcará usou sua outra asa girando o corpo e derrubando o Silvani.
Com um movimento duplo de suas facas, ele travou o sabre de Avivi como com uma tesoura, levantando o braço do oponente e golpeando com um chute em suas costelas.
Ele entrou quase encostando e Avivi, que ao tentar golpeá-lo foi parado por sua asa, que segurou o pulso de sua mão armada, e com os facões na pegada inversa, ele deslisou gentilmente pelo corpo de Avivi, traçando linhas vermelhas pelas laterais do Silvani.
Com um bater de suas fortes asas, ele distanciou-se, deixando o Silvani moribundo atingir o solo.
Shmaria que observava, contendo-se com receio da entidade que Raila encorpava, agora estava impactada pela derrota de seus companheiros.
Raila, observando-a, puxou Carcará para trás e se colocou entre eles.
— Você, a sua conversa é comigo! — Raila disse dando voz a entidade.
— Ah sim? — Shmaria disse já tirando o frasco da Qachruna mais potente que levava.
— Tem certeza que não deseja seguir vivendo? — Raila cruzou os braços.
— E disso o que?
— Volte e diga aos seus mestres o que aconteceu aqui. Seus mestres Varta. Não sou mais jogo deles. Estou livre.
— Não importa, a relíquia do templo do Templo da Noite está dentro do Vale, é só questão de tempo. — Shmaria disse com um riso macabro. — Se não pudermos ter o mundo, acabamos com ele.
— O templo de Ter'unos está sob nosso controle. A relíquia é inútil sem ele. — Raila disse avançando sobre Shmaria. — Vá, informe seus mestres. Juntaremos a relíquia, e o povo do dia. Vejamos quem sobrevive.
Shmaria refletiu por algum tempo, ainda pensando que poderia tomar a Qachruna e vingar seus companheiros, e talvez destruir aquela entidade, mas o risco de fracasso acabou por vencê-la.
— Não estamos sozinhos! — Shmaria disse recuando para as pedras.
Carcará deu um passo mas Raila o segurou.
Shmaria comandou as pedras a se abrirem e sumiu pelo vão que se abriu.
— Aqui ainda estamos fora, mas ela tem razão, ali, não teremos nenhuma chance. — Raila disse segurando Carcará.
O grupo da Sutay retornou, tomando as caixas que os Silvani supostamente deveriam ter recebido, e retornando pela encosta.
Ao descerem, o grupo estava visivelmente exausto. Raila, mais que os outros. Carcará ainda sentia a pressão do combate. Agora saindo da névoa do Vale, eles tinham os sentidos reais e as dores e cansaços do corpo. A Qachruna pode acelerar e abrir a mente, mas o custo é igualmente poderoso.
Barisi já tinha retornado, e esperava ao lado do carro.
Karak carregou Raila, Malek carregou Carcará e Lateral ajudava, sendo o mais descansado do grupo.
Depois de acomodar os mais cansados, Karak chegou-se a Barisi que se encostava na frente do veículo. Ele apenas se encostou, esperando algum tipo de relatório.
— Temos uma situação, capitão. — Barisi disse, olhando para o horizonte.