Desvio de conduta

Nas ruas estreitas da Cidade do Luar, oficiais da Lâmina são raros, e tem suas próprias preocupações. A cidade tem esse nome, é um território extenso no Beru, mas é tecnicamente uma propriedade particular de Ravantes, o Barão Harata dono dos Fundos de Investimento Luar.
A Armada tem as suas regras, eles tem seus acordos, baseados em leis mais de honra do que de justiça. Mas todos que estão dentro de Luar são considerados empregados ou visitantes do Barão. Rentaniel, poderia dizer-se, pertence a terceira categoria: Invasores.
Por direito, Ravantes ou seus empregados podem fazer o que quiserem dentro de Luar, e não será os Beruanos ou a Armada que ditará as regras.
Para os Harata, era o Status Quo, todas as suas cidades são na verdade propriedades particulares de alguém, apenas os mares são livres. Pra os outros, era uma tecnicalidade mortal.
Nenhuma testemunha se apresentou para examinar os eventos que se desenrolavam nas sombras, e aqueles que talvez tivessem visto algo sabiam que era melhor não falar sobre isso.
Não muito longe da Estalagem havia um açougue, suas portas pesadas bem fechadas, seu interior aparentemente abandonado. Uma loja totalmente equipada, com lâminas e ganchos, cheirando fracamente a sangue e morte, como se tivesse sido deixada para apodrecer. Mas o cheiro era uma pantomima cuidadosa.
Para aqueles que sabiam, o caminho para dentro era simples. Passando pelo balcão vazio, além da porta trancada do porão, uma passagem levava para as profundezas, em direção a uma escadaria que se conectava diretamente à Estalagem do Luar.
Uma segunda verdade da Cidade do Luar era tão antiga quanto suas pedras: Sob o Luar, ninguém faz perguntas.
Mas esta noite, naquele porão, perguntas seriam feitas.
Rentaniel foi jogado na cadeira de ferro forjado, seus membros presos por amarras feitas especificamente para aqueles com uma sensibilidade específica e força. Aquela amarra era feita para prender um Onatra treinado, e o Urbani não poderia sonhar em ter aquele tipo de força física. O metal frio apertava, aço Urbani, que ele conhecia bem. Ele não fez esforço para lutar. A esta altura, ele entendia a natureza deste jogo.
Dois agentes da Lâmina o flanqueavam, seu silêncio mais opressivo do que palavras. Eles não se moviam desnecessariamente. Não falavam. Sua mera presença era uma resposta para cada pergunta não dita que Rentaniel tinha.
Ele não se deu ao trabalho de falar primeiro. Há muito abandonara a pretensão de que a intimidação lhe renderia a liberdade.
Então, outra presença entrou na câmara mal iluminada.
Um jovem Harata, suas feições nítidas, mas intocadas pelo tempo. Para Rentaniel, ele era pouco mais que uma criança, alguém que vivera tão pouco que não poderia compreender o peso do mundo.
Mas então aqueles olhos castanhos fixos nele, quase tão claros quanto outros que lhe eram familiares. Eles não pertenciam a uma criança.
Aquele olhar, inabalável e cheio de certeza, despojou Rentaniel de seu senso remanescente de nobreza, de dignidade. Ele vira reis, governantes, homens que comandavam impérios. Nenhum jamais o olhara com tamanha autoridade silenciosa.
O jovem falou. Sua voz era suave, suas palavras deliberadas.
— É uma honra estar na presença de tão estimado convidado, espalhando Vossa Graça por este humilde estabelecimento, Senhor Rentaniel de Seldanar. — O jovem disse com uma voz sincera. — Eu sou Rafiq, e estamos aqui para garantir a sua permanência em relevância, ou pelo menos, a sua existência neste plano material.
— Qual o significado disso? O que vocês querem? O que vocês sabem? — Rentaniel protestou sabendo que já não adiantava.
Os lábios de Rafiq se curvaram em uma forma que não era bem um sorriso.
— Por obséquio, Vossa Graça. Aqui você é um convidado, e tem permissão para permanecer apenas porque alguém escolheu misericórdia ao invés de conveniência.
Rafiq apontou para os dois guardas ao lado de Rentaniel.
— Se não fosse assim, o meu serviço seria desnecessário, e o deles já teria terminado.
Rentaniel exalou bruscamente, sua máscara de controle escorregando.
— Eu perdi meu legado, perdi minha filha, perdi tudo. Não há mais nada que vocês possam tirar de mim que já não tenha sido tirado. — Rentaniel disse embargado.
Rafiq deu um passo à frente, inclinando a cabeça.
— Sua filha foi salva. Da sua estupidez. Respeite-a, mesmo ausente. Ela é o coração de um Harata.
A respiração de Rentaniel engasgou.
Os lábios de Rentaniel se separaram, mas nenhuma palavra saiu.
Rafiq se inclinou ligeiramente.
— Imagine se ela estivesse com você, e ao invés de ser levada como barganha para Armada, ela tivesse tido o destino de milhares de Harata que nunca importaram à você. Ou as mulheres Silvani que foram tiradas de Tirayon. — Rafiq sinalizou aos guardas para forçar Rentaniel a olhar para ele. — Depois que os piratas se cansassem de brincar com sua carne macia, e inocente, ela se encontraria no fundo de uma sala muito parecida com esta, onde criaturas ainda menos civilizadas que piratas teriam sua vez. Onde sua existência seria reduzida a um objeto de diversão antes do próximo ato de carnificina.
Uma lágrima escapou do rosto cansado de Rentaniel.
— Não faça isso, por favor. — Rentaniel respondeu sentindo mundo desaparecer entre os olhos castanhos de Rafiq.
Quando ele estava quase entrando nas imagens que Rafiq descrevia, o Harata o puxou de volta a realidade com um passar de mãos cortando o contato visual.
— Você pode não ter pretendido tal destino, mas também não se preocupou que não acontecesse! — Rafiq disse com autoridade, e julgamento.
— Nunca foi ... eu nunca ... — O Urbani engasgou as palavras.
— Ela agora tem homem Harata na casa em que vive. Ela está sob a proteção Harata. Que é família, que é dura, mas carinhosa, e dá importância para cada vida. Não a sua paternidade de papel e enfeite, Rentaniel de Seldanar. Mal faz justiça ao nome, e a relação que tem com Ayla, uma irmã que deveria ter vivido. Uma Seldanar melhor pra Ealetra do que você jamais será. Uma vergonha para sua Mãe, e todos em que a vida cruzou com a sua.
Seu olhar escureceu.
— Aqui, Rentaniel, muito quanto o subterfúgio do lugar, sua importância é mercadológica apenas. Você é o passe para alguns de nossos interesses tomarem forma, independente de você estar vivo ou não. Essa escolha será sua.
Rentaniel engoliu em seco. Sua garganta estava seca.
— O que vocês querem de mim? Se quisessem apenas me matar, eu já estaria morto.
A expressão de Rafiq permaneceu indecifrável.
— Grande Mãe Audren, uma mãe que ama, já entende como os Urbani mantêm o mundo em equilíbrio. Tudo o que queremos é que você entenda tão bem quanto ela.
Rentaniel soltou uma risada seca e sem humor.
— Vocês colocaram minha mãe numa sala com essa também?
Rafiq suspirou, impassível, apenas deixando a atenção destilar.
— A sabedoria de sua mãe é infinita comparada com a sua, Rentaniel. Ela entendeu com uma simples conversa. Você, no entanto, teve dezenas de oportunidades em que sua irmã, sua mãe, o legado delas, e seus conselheiros, todos tentaram. E você acabou aqui.
Rentaniel respirou fundo, reunindo a pouca força que lhe restava.
— E se quando eu sair daqui a Armada desejasse saber o que aconteceu?
Rafiq não mudou sua expressão, apenas deu alguns passos para trás.
Atrás dele, outra figura surgiu. Uma mulher alta, seu cabelo prateado capturando a luz fraca, sua presença absorvendo a atenção que Rafiq havia recusado, lançando Rentaniel na sombra. O cheiro do uniforme engomado e bem lavado quase cobrindo o cheiro de morte do lugar, e a presença da mulher quase sedutora, se não fosse a postura rígida de sua presença. Ela se portava com um peso que arrancava o ar da sala. Seu andar Onatra já instigava entendimento no Urbani.
Quando ela falou, sua voz era firme. Imperativa.
— Que o sol invicto brilhe em nosso encontro, Rentaniel de Seldanar. Eu sou a Tenente Danila da Armada Naval. Você tem algo que queria me dizer?
Rentaniel a estudou, seu olhar demorado. Ela era charmosa na aparência, sua postura, seu comportamento, tudo sugeria que ela o esbofetearia até a submissão com prazer, por pura diversão. Ela vestia seu uniforme, e o uniforme delineava seu corpo, mas o uniforme e a mulher combinavam em um nível muito mais subliminar. 
Então Rafiq falou novamente, contornando-a como se para enquadrar o momento.
— Se ... — Rafiq levantou o indicador direito. — você sair vivo daqui, e desviar minimamente da conduta apropriada de um filho de Seldanar, ou seja, obedecer as ordens da Armada, da Lâmina, da Tenente, do Capitão, e quaisquer outros com autoridade, então, uma próxima vez, que com certeza chegará, suas opções serão bem menos variadas.
Rentaniel baixou a cabeça.
Sua voz era oca. A última semelhança de nobreza drenada de seu corpo.
Rafiq não se demorou. Ele e os agentes da Lâmina desapareceram pela escadaria escura atrás de Rentaniel.
Danila se moveu em seguida. Ela deu um passo à frente, destrancando as amarras com eficiência treinada antes de agarrá-lo pelo braço. Algemado. Se ele tentasse usar sua agilidade, a força dela arrancaria sua mão. Uma algema especialmente projetada pela Armada após anos de caça a Silvani e conveniência para colocá-los em submissão.
Ela o conduziu na direção oposta, a saída levaria às ruas da Cidade do Luar.