Desjejum de campeões

Mais uma manhã na Fáscia para o time, e a voz de Tarja como sempre era a mais forte da casa naqueles momentos, enchendo a casa de ruído, junto com pratos, copos e o cheiro forte de comida que ela já se antecipava em fazer. Naquele porém, ela estava especialmente feliz.
Erlan, acostumado ao caos matinal, apenas observava, divertido com a naturalidade com que passara a esperá-lo. Uma nova rotina para o Silvani. Quieto fora de combate, a personalidade possessiva de Tarja trazia um certo conforto. Ele podia simplesmente responder a ela, e ela estaria bem com isso.
Ariel entrou na sala de jantar, parando logo no limiar, observando. Ela há muito se acostumara a ver seu irmão envolvido nos ritmos e confusões de Tarja, mas uma parte dela ainda se maravilhava com isso. Ele estava aqui. Vivendo. Rindo. Pela primeira vez, ele não estava apenas a seguindo pelo fio da navalha do destino.
— E isso irmão. É aqui. É com eles. — Ela murmurou lembrando tempos passados.
A próxima a entrar foi Nushala. Sem hesitação, ela se moveu para o lado de Ariel, suas mãos deslizando em volta de sua cintura descendo em um aperto brincalhão mais íntimo do que Ariel estava preparada para receber.
Ariel se tensionou, surpresa.
— Seu irmão tem bom gosto. — Nushala disse com uma voz de menina assanhada. — Essa Onatra dele é um pedação.
Ariel lançou-lhe um olhar de soslaio, sem se impressionar, e suavemente se livrou de seu aperto.
Nushala riu, caminhando em direção à mesa.
O cheiro de carne assada, pão fresco e chá apimentado Harata se espalhava pelo ar enquanto Tarja colocava outro prato na mesa com um sorriso acolhedor.
Erlan tomou um gole de seu chá, sempre o observador silencioso.
— Nosso grupo está ficando mais variado, vejo. — Ele comentou levemente.
Valaravas recostou-se em sua cadeira, os dedos batendo ociosamente na mesa de madeira.
— Uma família feliz convida muitos. — Ele disse sem pretensões.
Nushala, acomodando-se ao lado dele, apoiou o queixo na mão, seu olhar se voltando para Ariel com diversão estampada em seu rosto.
— O que não falta é calor aqui, pelo que vejo. — A Urbani disse antes de tomar seu chá observando o efeito do que disse.
Ariel apenas exalou pelo nariz e pegou uma fruta, ignorando a isca. Ela estava começando a ver o que Nushala realmente era: uma garota muito parecida com ela, nascida em uma vida que não se importava com ela, forçada a cuidar de si mesma.
— Então, se estamos recrutando de novo, que tal uma garota Beruana. Completa a lista, e elas sempre cozinham muito bem.
Valaravas riu, mas Nushala inclinou a cabeça, intrigada.
— Isso quer dizer que eu tenho que saber cozinhar pra ficar, Onatra? Pensei que eu era convidada. — Disse Nushala, seu sorriso ainda brincalhão.
— Não deixaria uma Urbani na cozinha. — disse Tarja — Logo estaríamos comendo frutinhas e chá de mato.
Então Tarja aprumou-se. 
— E eu sou Carpata. — Ela disse exibindo os cabelos vermelhos naturais.
Ariel sentiu a tensão se formando sob a superfície dessas interações. As mulheres na sala estavam se avaliando, testando limites através de sarcasmo e farpas leves. Era um jogo, um que Ariel já vira ser jogado antes, embora ainda estivesse se ajustando às suas regras.
Nandi deu voz ao jogo que se formava.
— Quem será Nushala nessa família Harata então? — Ela disse como uma mãe olhando para a garota Urbani perdida.
— Tudo bem. Vou apenas aproveitar a hospitalidade então. Quem sou eu aqui? — Nushala fez um ar pensativo teatral. — Nandi é a sua mística exótica. Ariel é a tenente Silvani. Temos a Baluarte cozinheira Carpata, e o lutador dela. Eu sou a princesa? Concubina? O segredinho? A refém Urbani?
Valaravas sempre articulando o caos deixou-se remover da equação.
— Contratamos pela oferta Lala. Faça a sua. — Ele disse como se jogasse Ynis na fogueira.
Erlan estava observando do outro lado da mesa. Rindo ele decidiu tomar a mesma postura de Valaravas e ver o circo pegar fogo. Ele lembrou da lição da bola, quando ainda era um garoto rebelde, muito como Nushala. Era um teste da natureza dela, e parcialmente, também de Ariel.
Tarja não podia ficar isenta.
— Vai deixar isso? — Tarja disse olhando para Ariel.
Ariel mediu Nushala, da cabeça aos pés, depois de volta para seu irmão. Ela falou com uma malícia brincalhona.
— É. Mas não vejo muito aqui não. Magrinha, inocente. Precisa ter algo pra casa, mas também precisa ter algo pra vida, pra luta. — Ariel falou já tomando posição.
Tarja e Erlan tinham o dialeto próprio de conversar sem serem entendidos. Para eles isso era muito mais diversão. Não tinham ambições, seu lugar, modesto, já estava garantido. Eram bons no que faziam, e já haviam provado. O lugar de Valaravas e Nandi predatava o grupo. Nushala e Ariel eram as únicas apostando por um lugar alto, sobravam ainda em uma disputa, mesmo que todos já soubessem como ia terminar. Elas teriam que disputar para mostrar sua natureza, para os outros, e para elas mesmas.
Nushala recostou-se na cadeira, deixando o peso das palavras de Ariel pairar entre elas. O ar ao redor da mesa parecia mais pesado, mas não com tensão, e sim com compreensão. Havia uma verdade não dita passando entre as duas, um reconhecimento do que a sobrevivência e proteção eram certezas, mas as condições negociáveis. O velho estilo Harata: Todos precisam comer, nem todos merecem poder.
Valaravas, sempre o observador, assistia com silenciosa diversão. Ele conhecia bem a manobra de vontades, o delicado equilíbrio entre conflito e camaradagem. Ele já vira isso antes. Ele veria novamente.
— Então Lala. Se vai ficar, conquiste seu lugar, ou seu direito é o resto. E seu direito de Urbani não vale nada aqui. — Ele fustigou. — Nova família, novos rumos.
— E se eu não quiser o lugar, se eu quiser outra coisa? — Nushala disse com um olhar intenso para o Harata.
— Sem lugar, sem voz. Você segue. — Valaravas segui fustigando mais intensamente. — Essa não é uma família Urbani.
Sentindo que a jogada era essa, Erlan e Tarja olharam para Nushala e assentiram.
Ariel observou Nushala de perto. Havia uma mudança em seu comportamento. Ela estava testando limites, medindo a verdadeira profundidade de sua presença neste lugar. Ela presumira que seria pelo menos a segunda. Agora, ela entendia: ou se humilhava aqui, ou seria humilhada no berço de ouro que era a casa de seu pai.
— Preciso saber o que estou ganhando então. — Nushala fingiu uma seriedade ainda ausente. — É justo.
Valaravas era Harata, carinhoso ou sério, terno ou austero, era sempre sincero. E sempre verdadeiro, o que são coisas diferentes, especialmente para um Harata. Ele ainda estava no tom da brincadeira de família, mas levantando questões sérias.
— Você já sabe o que ganha. Não notou? Ninguém aqui está te forçando a ser algo que você não é, ou participar de algo que você não quer. Você é livre. Quando falei com seu pai, já estava oferecendo uma coisa inestimável em troca de estar aqui. Você é livre pra voltar pra ele, se achar que aqui não está bem. Mas se ficar, você sabe que mãos terá que beijar.
A mesa caiu em um silêncio momentâneo enquanto Nushala processava as implicações de suas palavras. Ela sabia que, ao ficar, estaria adentrando um mundo além do controle de seu pai, um mundo onde nomes, títulos e linhagem significavam muito menos do que poder, astúcia e alianças forjadas pela necessidade.
Uns pequenos sussurros entre Erlan e Tarja, Erlan se recusando a falar algo, e Tarja então sussurrando mais um pouco.
Erlan explicou para Tarja que entre as culturas Silvani, beija-se a mão em reconhecimento de submissão. A mão beijada é da autoridade. Isso em geral acontece entre mulheres, na cultura deles, e provavelmente na Urbani, sendo descendentes de uma mesma cultura ancestral.
Depois de alguns sinais e Erlan assentir, Tarja falou um Silvani deplorável.
— Princesa, as cadeiras aqui são duras. Demais pra sua bundinha mole.
— Isso seria trágico, não? — Nushala sorriu, ainda incerta se tudo aquilo era sério.
Ariel exalou lentamente. Ela ainda não decidira se Nushala era uma aliada em potencial ou uma ameaça esperando o momento certo para atacar. De qualquer forma, o jogo acabara de se expandir, e Ariel precisava estar pronta.
— Mas Nushala é uma acadêmica, e se bem me lembro, uma mestre de atiradeiras curtas. Era seu esporte favorito não? Ela conhece bem máquina e indústria. Pode ajudar muito, se não atrapalhar mais do que ajuda. — Valaravas comentou olhando para os outros como jurados do destino da garota.
— Então é. Sou 'isso aí' então. — disse Nushala, olhando para Nandi.
— Não vamos ficar para sempre em casa, brincando de família, você sabe. Temos coisas sérias, e mais sérias agora que seu pai figura entre nossos oponentes. — Valaravas avisou.
— Lá fora, não tem nobre, não tem Urbani, você é seu valor. Se você é uma de nós, tem os mesmos amigos que temos, e os mesmos inimigos que temos. — Ariel disse com uma certeza, embora em tom brincalhão.
— E você adora isso, não é, bonequinha? — Nushala deixou escapar uma afirmação de direito que não era para o momento.
Valaravas tomou um gole lento de vinho. Era o ponto chave to caos. Ele sabia que dali iriam sair a Ariel e a Nushala que iriam conviver, ou não, e só elas podiam libertar suas naturezas. 
Ariel se moveu suavemente, levantando-se de seu assento com facilidade recente, mas segura, aproximando-se de Nushala até que a garota Urbani fosse forçada a se virar ligeiramente, a invasão silenciosa de espaço pessoal compelindo-a a recuar. Quando Nushala tentou resistir a essa proximidade, a se afastar, os olhos de Ariel se fixaram nos dela, grandes e imponentes em sua intensidade verde penetrante. A sala parou como se prendesse a respiração.
— Val disse claramente que essa é uma família Harata. — Ariel disse agora com firmeza, séria. — Eu sou a boneca dele, não sua. Você é uma convidada em minha casa, protegida por mim, e não ganhou o direito de falar comigo assim.
O silêncio se aprofundou, tornou-se mais pesado, enquanto os olhares se alternavam cuidadosamente entre as duas mulheres. Mesmo Tarja, cujo prazer em lutas brincalhonas nunca conhecera limites, sentiu a mudança. Eram as duas disputando um território.
Ariel se inclinou para a frente, fechando o espaço entre elas até que as pontas de seus narizes quase se roçassem, até que Nushala não tivesse escolha a não ser recuar, encolhendo-se sutilmente em seu assento.
— Essa liberdade aqui, doce, tranquila, e a segurança, tudo tem um preço. — Ariel disse com a voz baixa, mais maternal, até. — Seria bom para você que não pisasse nos pés estão ligados as mãos que você deve beijar.
Ariel inclinou a cabeça, sinalizando que Nushala devia abaixar a dela. 
— E a minha, você beijará. E vai beijar com vontade. — Ariel disse afastando-se com um andar exageradamente triunfante.
A respiração de Nushala parou por um átimo, seus olhos piscando enquanto pesava as palavras de Ariel, a implicação afiada atingindo fundo. Isso não era mera manobra social, era uma declaração de poder, de limites claramente traçados. Nushala engoliu em seco, seu orgulho lutando brevemente com o pragmatismo, antes de finalmente, exalar uma respiração medida, os ombros caindo em constatação, enquanto inclinava a cabeça, quase imperceptivelmente.
— Entendo. Peço desculpas Ariel. Eu passei dos limites. Você tem razão. — Nushala disse com um pouco de tristeza.
Tarja e Erlan no seu lado discutiam em seu meio dialeto crioulo Onatri Silvani, ao que Tarja então estendeu a mão para Erlan.
Ariel não conseguiu segurar a recente seriedade, caindo na risada.
Tarja então balançou a mão com urgência para Erlan.
Era um impasse, outra luta de egos, e Erlan estava na encruzilhada. Ou ele se recusava em uma forma de dignidade, e o argumento se esvaia, ou ele beijava a mão de Tarja, por submissão ou efeito cômico, e nunca mais ouviria o fim daquele chiste para o resto da vida, nem de Tarja, nem de Ariel, muito menos de Valaravas.
A decisão estava clara, era só aceitar. Erlan tomou a mão de Tarja e beijou a base de seus dedos, sem conseguir conter um riso abafado.
Tarja riu abertamente, fingindo um movimento de soberba em brincadeira.
A concessão, por mais cômica que fosse, ondulou pelo ar, mudando a atmosfera instantaneamente para um ambiente mais leve e descontraído.
Ariel endireitou-se ligeiramente, satisfeita que sua mensagem fora entendida por Nushala e ainda no reflexo dos chistes de Tarja, gentilmente, sem palavras, ela agarrou o braço de Nushala, guiando-a do assento distante para um lugar mais próximo, entre ela e Nandi.
O movimento foi simples, quase gentil, mas continha o peso do comando. Dizia claramente o que suas palavras haviam implicado: Agora você entende seu lugar.
A intenção nunca foi humilhação. Era simples educação. Uma introdução a um jogo onde o direito de nascença importava pouco, e apenas as escolhas feitas a partir deste momento determinavam a verdadeira posição.
Valaravas observava, uma leve satisfação puxando seus lábios.
— Bem, agora estamos todos em acordo. — ele disse como se tivesse apenas feito uma pausa para água.
Nushala reclinou-se ligeiramente em sua nova posição à mesa, as pontas dos dedos batendo inquietas na superfície de madeira. Sua expressão, brevemente indecifrável, logo cedeu a um leve sorriso, reconhecendo a realidade que aceitara.
— É. Acostumar com a nova vida. Parece que tenho que aprender muita coisa ainda. — Nushala disse resignada.
Tarja, quebrando a tensão com facilidade, bateu as mãos uma vez em um gesto teatral, sua diversão inconfundível.
— Podemos comer com vontade agora né? Ou ainda tem mais política de casa pra ser discutida?
Risadas pela sala, difundindo os últimos vestígios de desconforto persistente. No entanto, Nushala, sozinha, não se juntou imediatamente à alegria. Em vez disso, sentou-se em silêncio, internalizando cuidadosamente as palavras de Ariel, digerindo a potente verdade agora exposta diante dela.
O olhar de Ariel demorou um momento a mais, reconhecendo uma aliada em potencial escondida sob camadas de bravata. Nushala, afinal, não era seu pai, e seu desafio era genuíno, sua rebelião silenciosa, mas resoluta. Ariel deixara sua marca clara e, ao fazê-lo, dera a Nushala a chance de decidir seu próprio destino, longe do legado sufocante de seu pai.
O jogo havia mudado sutilmente mais uma vez, as regras reescritas, as apostas mais altas do que nunca. E Ariel, cuja criação nunca a preparara para jogos tão perigosos de corações e alianças, começou a ver que poderia prosperar, se aprendesse mais sobre ele.