Longe dos jogos civilizados de poder, e dos movimentos bélicos, Tirayon era uma terra em plena decadência. Eles estavam entrincheirados entre Erítria que os limitava com fronteiras extremamente militarizadas, tanto Oeste quando sul. O mar do Norte, que além de ser patrulhado pela Armada Naval além das águas de Tirayon, era gélido, inóspito e sem riquezas naturais.
Para Oeste, era o Mar Estreito, onde a Armada Naval ainda patrulhava junto com a Marinha Real as águas de Khadija do outro lado, deixando as águas territoriais de Tirayon isoladas, e ao mesmo tempo uma simples fonte de algum sustento, mesmo que dando em lugar algum.
Raros Silvani, os da Cidade da Serenidade, eram garantidos asilo, pois sua cidade foi destruída pelos próprio Silvani, com sua linhagem quase exterminada. Os poucos sobreviventes se atiravam na fronteira pela mera chance de fuga, mesmo que desafiando um poder de fogo inexorável.
O arranjo que a Cidade da Coragem fez com a Armada era que em troca de governar Tirayon com respeito às fronteiras e as leis do Consórcio onde fosse território dele, a própria nação estaria livre de qualquer autoridade do Consórcio. Um tratado que na época em que foi firmado parecia vantajoso. Tirayon poderia se governar como quisesse, desde que não ameaçasse outros povos, nem seus interesses onde quer que fosse.
O que eles não pensavam era que privados de influência também os colocava em um embargo prático. Não influir, o Consórcio tomou literalmente. Tirayon estava afastada de toda a linha econômica de Ealetra. Os produtos de Onachinia, as armas e segurança de Erítria, as instituições financeiras Harata, a tecnologia Beruana, e tudo nos entremeios.
Levada a viver daquilo que podia produzir, e uma economia isolada entre si mesma, Tirayon tinha muito pouco a oferecer. Seu dinheiro não tinha valor onde as nações do consórcio utilizavam a UMGB, Unidade Monetária Global, e pelo sistema financeiro Harata e tecnológico Beruano, o movimento econômico era instantâneo e sem fronteiras, exceto as de Tirayon.
Até os mercenários Sangamani encontrados circulando pela Trifronteira logo achavam seus pontos pessoais e seriais de pagamento, ingressando na Economia Global assim que deixavam o deserto de Sangamá, por qualquer razão.
Tirayon, ao contrário ainda contava com dinheiro local, de compensação duvidosa, ou papel de origem incerta.
A única exceção era a zona desmilitarizada no Distrito Norte da Trifronteira, ironicamente chamado de Distrito Silvani, apesar de ser controlado pela Armada.
Sorya, uma das diplomatas que fala com a armada, está estacionada na zona de segurança da Trifronteira que permite a comunicação, enquanto Yadora é a porta-voz de seu governo, que transmite as informações com as quais Sorya tem que trabalhar. Ambas são da Cidade da Coragem, aquela que foi colocado no comando de Tirayon, enquanto os da Sabedoria e da Criação foram dissolvidos e seus membros se perderam entre a população.
Sorya ainda tinha esperança de sair daquela situação. Yadora era mais pragmática, e talvez apenas desejasse uma solução, sem esperar realmente nenhuma.
— Precisamos de uma nobre que ainda carregue o dom da Serenidade, ou nunca poderemos recuperar o Santuário. — insistia Sorya.
Yadora, ali apenas por protocolo e cansada de insistir em fuga, apenas entretinha Sorya para não ficarem sem assunto.
— E onde você espera encontrar alguma? As que nós não matamos, a Armada matou.
— Só precisamos de uma. — Sorya insistia. — Ainda deve haver alguma.
— Uma? A Coragem está sozinha. Eles destruíram a Serenidade, os Urbani nunca nos ajudariam, e nós traímos quem sobrou para conseguir o poder. E o belo resultado que nossa nação nos oferece.
— Não precisamos 'dos' Urbani. Apenas uma Seldanar que nos ajude. — Sorya argumentou com alguma esperança.
— Ayla foi a última Urbani que sequer falava conosco. E nem mesmo tenho certeza se não fomos nós que a matamos. — Yadora riu-se com lugubridade.
— Tirayon ainda tem recursos importantes de alguma forma. — Sorya seguia argumentando, mais por criar esperança.
— Temos um mísero favor dos Harata, que mediam a Armada só pra contrabandear Carbóleo e ganhar o que podemos oferecer. — Yadora retrucou. — E nem é por bondade, é só pelos 'recursos importantes' que você mesma sabe.
— Temos o nosso dom, que ainda serve para enfrentar o Vale. — Sorya pensou nisso com uma cartada.
— O nosso dom não serve para nada se estamos sentados nos únicos Santuários que funcionam. Você acredita que alguém vai subir o Vale e procurar os Santuários dentro da redoma? — Yadora disse com cinismo puro.
— É isso que acredita Yadora? — Sorya perguntou decisiva.
— É isso que todo mundo sabe em Tirayon.
Sorya fechou as portas da pequena cabana de metal que chamavam de posto avançado. Sua urgência e senso de autoridade alertaram Yadora.
— Precisava confirmar. O que vou dizer não deve sair daqui. Confio que como eu, você também espera uma saída. Eu tenho essa saída, mas você precisa prometer que agirá com essa informação, mas não dirá a ninguém em Tirayon.
— Sorya, o que você está inventando agora? — Yadora desdenhou.
— Você está errada. O nosso contato Harata que vem com os recados da Armada, também nos passa informações deles. Eles tem uma nobre da Serenidade.
— Sorya, todos os nobres da Serenidade foram mortos. Repito, por nós ou pela Armada.
— E quem te disse isso, Yadora?
— A Armada.
— Exatamente.
— Os Harata a protegem, da Armada, dos Urbani, de nós. — Sorya dizia como o segredo mais guardado da nação.
— Se eles tivessem alguma de nossas nobres nós saberíamos. — Yadora disse com sua soberba de oficial.
— Saberíamos? Como?
— Nobres de qualquer nação são importantes. Teria algum tipo de informação correndo, mesmo que só destacamentos, uma prisão especial, algum tipo de vazamento. — Yadora disse com finalidade.
— E se eles não a guardam como nobre. E se nem sabem? E só os Harata sabem?
— Impossível. Uma Seldanar que visse uma nobre Silvani saberia imediatamente que ela é nobre. Uma simples caminhada demonstraria ainda com certeza. — Yadora contrariada exclamou.
— E se for Audren que a esconde? — Sorya retrucou.
— Seria a maior traição de Tirayon desde Hagara. Algo que tenho certeza alguém saberia. — Yadora disse já um pouco mais incerta.
— Temos que descobrir. Se a Armada souber o que sabemos, e se souberem que existe ainda alguma nobre da Serenidade, ela estará em perigo, assim como todo mundo em Tirayon. — Sorya disse com gravidade.
— Preciso de confirmação clara para dar os próximos passos. Consiga qualquer coisa com seus contatos Harata. Existe alguém que precisa saber para poder nos ajudar, mas eu confio nele. Ele é de Erítria, mas é do Leste. Ele ajudou alguns Silvani no exílio muito antes de tudo dar errado. Ele pode nos ajudar muito se tivermos evidências claras e propósito. Sabe como é, Armada.
— Confio que saiba o que está fazendo. — Sorya argumentou. — Algo assim é uma aposta de tudo ou nada.
Sorya voltou para sua sala, onde preparativos eram necessários.
Yadora voltou para seu carro, seu destino, a capital de Tirayon. Se houvesse alguma esperança, mesmo em segredo, cordas precisavam ser amarradas, e decisões precisavam ser mudadas.
Tirayon talvez ainda estivesse no jogo. Questão na cabeça de Yadora era se estar no jogo era bom ou ruim nessa altura dos acontecimentos.