De volta à escola

O tempo na Fáscia, e a pausa que permitiu ao time tornar-se uma família Harata, estava esgotando-se, e eles precisavam seguir com o objetivo principal, que era estar pronto para assumir as responsabilidades do Grêmio. Era hora de procurar as explicações sobre a real missão do Grêmio, e isso seria na Academia de Alquimia Aplicada, uma instituição Urbani que espelhava sua contraparte no Reino de Khadija, a terra natal Urbani em Pasvara.
Há muito que as novidades de andar pela Fáscia tornaram-se rotina para o grupo, mas a Academia em si era uma parte da Fáscia desconhecida para os novos visitantes, e ainda teria surpresas guardadas.
Para Nandi, esta jornada era mais do que familiar, também um retorno ao lugar onde ela fora reconstruída. A Academia fora o crisol no qual ela se recuperara, onde seu corpo fora curado, sua mente, reforjada.
A Academia em si era um monumento à precisão Urbani. Lá dentro, seus corredores zumbiam com uma eficiência controlada: acadêmicos se movendo com um ritmo sincronizado, seus caminhos determinados pelo propósito em vez da incerteza.
Linhas coloridas marcavam as paredes, direcionando todo o movimento com uma clareza tácita. Até o chão continha instruções codificadas, garantindo que todos ficassem exatamente onde deveriam estar. Aqui, o conhecimento era lei, e a ordem era sua disciplina.
Era o bastião Urbani do conhecimento.
Eles atraíram olhares, é claro. Uma Baluarte e dois Silvani não eram uma visão comum. Mas perguntas eram uma mercadoria aqui, não um hábito. A menos que pertencessem a uma pesquisa em andamento, ninguém perguntava.
Alguns poderiam ter assumido que os Silvani eram cobaias de estudo, experimentos em vez de convidados, mas suposições eram fugazes em um lugar como este.
Uma figura se aproximou: alta, Urbani, envolta na elegância austera da autoridade.
Sua postura carregava tanto o peso do intelecto quanto a borda afiada da hierarquia. Mas no momento em que seus penetrantes olhos azul-celeste pousaram em Valaravas e Nandi, o verniz se quebrou. Um sorriso, um sorriso real e sem restrições.
— Mestre Valaravas, finalmente retorna. E trás convidados surpreendentes como sempre.
A voz que os cumprimentou era seda sobre aço temperado, cada sílaba medida, mas calorosa, tocada por afeição genuína. 
— Nandi, notável. Uma recuperação esplêndida. Há algo em seus olhos. Uma nova história, eu acho. Uma que você deve compartilhar comigo entre vinhos e risadas.
Ela os abraçou, primeiro Valaravas, depois Nandi, com a facilidade de alguém que há muito descartara os limites da mera formalidade. Seu aperto era forte, inabalável, como se para lembrá-los de que, ali, eles não eram meros viajantes em uma cidade estrangeira, mas família.
Os outros trocaram olhares. Isso estava se tornando um padrão. Valaravas, sempre composto, permitiu que um sorriso fugaz surgisse antes de se virar para o resto de seus companheiros.
— Tarja, Ariel, Erlan — Valaravas gesticulou para cada um. — Essa é Syndra de Miralamar, Professora e Cátedra da Academia. A Casa Miralamar é nova e só existe na Fáscia, não tem contraparte em Khadija. Se algo pode ser criado em um laboratório de alquimia, ela sabe como. Se não souber, dê-lhe um dia, e ela saberá.
O olhar de Syndra demorou-se em Tarja, embora não da maneira como a maioria considerava uma Baluarte, com desconforto, com uma intimidação silenciosa. Não, o dela era o escrutínio de um artesão admirando uma lâmina finamente afiada.
— Tarja, tipicamente Carpata. Tarja, Tarja, rola da língua. Nome de uma mulher forjada pelo fogo da vida. — Ela mediu Tarja de cima à baixo. — Baluarte, com certeza. Se precisar de teoria no seu papel, estaria muito interessada em estudar você de perto, querida.
Tarja, que conhecera campos de batalha, mas não a política do intelecto, moveu-se ligeiramente sob o escrutínio. Então, com deliberação cuidadosa, ela inclinou a cabeça.
— Isso é gentil de sua parte, Professora? Mestre? Senhora? — A pele clara da Carpata mostrava seu nervosismo.
— Syndra é o suficiente. Somos todos Fáscia aqui, creio. Vocês são o assunto da cidade. Já são da família mais tradicional de Magdalagur. — Syndra riu-se.
E então, Syndra mudou seu olhar para Ariel e Erlan. Ela os estudou, demorando-se apenas uma fração de segundo a mais que era confortável para eles.
— Eu ouvi muito sobre eles, mas ela é mais linda do que dizem. E o irmão é imponente. Desmente alguns comentários. Ariel e Erlan, sim. Eles não são dos nossos, certo? São de Tirayon? Já são tão Fáscia.
Ariel congelou. Não havia insulto nas palavras. Não precisamente. Mas havia uma suposição.
'Nossos'. O que ela queria dizer com isso? Aliada? Ou habitante da Fáscia? Não. Não havia Silvani fora da Trifronteira ou de Tirayon. Eles estariam mortos muito antes de atravessar Erítria ou o Beru.
Erlan, ao lado dela, enrijeceu. Seus braços se cruzaram, sua expressão se fechou.
Valaravas, inabalável, interveio com a naturalidade de quem está acostumado a redirecionar correntes antes que se tornem tempestades.
— Syndra estudou seu povo e suas terras, — disse ele, a voz calma, medida. Seu olhar se voltou para Ariel, depois para Erlan, ancorando-os. — Ela tem um profundo respeito por sua cultura. E por vocês, como povo. Ela é confiável. E entende o lado de vocês. Muitos dos refugiados foram tratados por missões dessa Academia. Ela salvou muitas vidas Silvani.
Ele olhou para Syndra com olhos pesados.
— Na 'Trifronteira' ...
Syndra não se acanhou sob o peso do momento.
— Sim, claro, na Trifronteira. Nem todos os seus parentes foram amigáveis, digamos. Mas aqueles que são? Isso exige coragem. E eu mesmo admiro aqueles entre seu povo que seguiram um caminho produtivo.
Um silêncio carregado se instalou entre eles.
Ariel, presa entre a desconfiança e a graça silenciosa que aprimorara ao longo de anos navegando em espaços estrangeiros, escolheu a imobilidade. Uma pausa calculada e não reativa.
Erlan, no entanto, não o fez. Sua expressão se aguçou, sua mandíbula se contraiu. Ele não disse nada, mas o silêncio vindo dele era uma lâmina desembainhada.
O olhar de Syndra demorou-se em Ariel e, então, como se cortasse a tensão com a destreza de um bisturi, ela sorriu. A acadêmica mediu Ariel da cabeça aos pés, com um olho que tinha muito pouco interesse acadêmico, mas outra preocupação persistente.
— Ela é deslumbrante, — ela ponderou, virando-se de volta para Valaravas com uma lenta curva de divertimento no canto dos lábios. — Mestre Valaravas, você não tem vergonha. Espero que a esteja tratando bem. Muito bem. Num pedestal.
A tensão se estilhaçou, o suficiente para que o riso escapasse pelas frestas.
Tarja, sempre atenta à mudança de um ambiente, rendeu-se primeiro. Nandi sorriu de lado, balançando a cabeça. Ariel, apesar de si mesma, exalou, apenas o mais leve traço de uma respiração. Erlan permaneceu imóvel, suas barreiras ainda não abaixadas. Ainda não.
Syndra, sempre composta, virou-se nos calcanhares, a autoridade natural de alguém que espera ser seguida. Eles caminharam.
Através de corredores de pedra forrados com acabamentos de cobre polido, passando por imponentes painéis de vidro gravados com a escrita Urbani, eles se aprofundaram na Academia, no coração do próprio conhecimento. O ar estava denso com o cheiro de motores elétricos, minerais moídos e o traço nítido e estéril de reagentes alquímicos.
E então, o laboratório.
Uma expansão cavernosa de caos controlado. Longas mesas repletas de estações de almofariz e pilão até centrífugas automatizadas. Chamas alquímicas bruxuleantes lambendo as bases de frascos borbulhantes. Capelas, recintos selados que ventilavam vapor colorido pelas paredes para destinos desconhecidos.
Aqui, os Urbani não corriam riscos. A ordem e a ambição caminhavam de mãos dadas. Cada experimento era contido, isolado, controlado, e os vapores, por mais voláteis que fossem, eram inofensivos além das barreiras de vidro. 
Em uma das capelas, algo opaco e cinza ardia sob tubos de vidro, alternando entre os estados sólido e líquido em um padrão tão antinatural que até os Silvani se viram olhando fixamente.
Syndra cruzou as mãos atrás das costas, observando-os absorver a cena.
— Vale do Silício. — A voz de Syndra era suave, instrutiva.
Ela gesticulou em direção à substância ardente além do vidro, suas mudanças amorfas desafiando a ordem natural.
— Vocês estiveram perto. Caminharam por ele. Mas já se perguntaram por que ele é do jeito que é?
Erlan permaneceu imóvel, de braços cruzados, seu olhar fixo no mineral rodopiante com uma cautela silenciosa e fervente. Ele não disse nada. Seus olhos se movimentando como em análise, atraindo alguns olhares mais curiosos.
O tom de Syndra não mudou, embora houvesse algo quase indulgente em sua paciência. Uma erudita diante de uma audiência, uma escultora moldando mentes em vez de pedra.
— A razão pela qual o vale permanece uma anomalia é porque é o bioma mais antigo do continente. Talvez a terra intocada mais antiga de toda Ealetra.
Ariel, empoleirada em um banco alto, franziu a testa ligeiramente.
— Mesmo as montanhas do Norte? Como os Onatra podiam estar no Vale então, se são das Montanhas.
Syndra inclinou a cabeça, os cantos dos lábios insinuando divertimento.
— E quem disse que os Onatra estiveram no Vale antes do dilúvio? As Colinas Onatra também estiveram sob a água durante o dilúvio, e depois foram moldadas pela guerra e pelo assentamento. Mas o Vale? Nunca foi inundado.
Ela se dirigiu a um quadro-negro, onde um esboço cartográfico de Ealetra havia sido afixado, um mapa diferente de qualquer um que já tivessem visto. As linhas costeiras, os rios, as montanhas, mas desenhados como foram um dia, não como são agora.
Valaravas, de braços cruzados, exalou levemente. Ele já estava à frente da explicação.
— Cem mil anos atrás, quase toda Ealetra foi submersa. Água salgada, espessa com sedimentos, rica no desconhecido. Quando as águas recuaram, elas mudaram tudo. Mas o Vale nunca foi inundado. Permaneceu terra seca durante todo o tempo, um refúgio para a vida quando todo o resto se afogou.
O silêncio se instalou, denso de implicações.
Os dedos de Ariel traçaram a linha costeira desenhada a giz, sua mente processando o peso do que acabara de ser dito.
— Se o vale nunca foi inundado... — ela hesitou. ­— Isso significa que a vida lá, as plantas, as criaturas, são mais antigas que do resto do mundo.
Os olhos de Syndra brilharam.
— Exatamente. O único ecossistema verdadeiramente antigo que resta. Não meramente preservado, o próprio mundo mudou ao redor do vale, adaptando-se, evoluindo, enquanto o vale permaneceu intocado. A flora, a fauna, até mesmo os próprios minerais dentro dele pertencem a uma época anterior à existência de qualquer um de nós.
Tarja decidiu testar as águas com a discussão.
— Mas no Vale, encontramos uma aldeia provavelmente anterior ao retorno das águas, e que tinha indícios da cultura do Sol Invicto, que não poderia ter sido ensinada por Silvani aos Onatra.
Syndra que até o momento explicava em um angulo amplo direcionou sua atenção toda para Tarja, ajustando seu Onatri em um momento de reflexão.
— Como você pode saber que era anterior? — Ela indagou genuinamente curiosa.
— Eu sou Carpata. Conheço construção. Aquela era feita para terras costeiras, mas estava no alto de uma das montanhas ao redor do vale. Ela foi feita quando a água estava perto.
Syndra tomou um serial em seu ponto pessoal e pediu a Tarja para explicar toda a evidência técnica de materiais e construções que ela observou no vale.
— É muito revolucionário para uma opinião imediata. Vamos estudar isso tudo. É simplesmente fantástico. Mestre Valaravas, sua escolha de equipe é simplesmente incrível. — Syndra disse com a alegria que lhe era peculiar.
Erlan finalmente falou, sua voz cortando o ar como uma lâmina bem afiada.
— Então, e quanto aos Chandravarta?
Pela primeira vez desde que entrara na Academia, ele fizera uma pergunta. Não era curiosidade ociosa, nem análise desapegada, havia algo pessoal na maneira como ele disse. O olhar aguçado de Syndra se voltou para ele, depois para Tarja, medindo ambos com um novo escrutínio. Uma mudança, um fio não dito se tecendo na conversa.
— Vocês sabem deles? O Grêmio tem sim estudado muito sobre eles em relíquias e material amostral do vale. Temos muitas teorias sobre eles. Nada exatamente concreto. Todos os encontros não tinham documentação clara.
Erlan se endireitou, não defensivamente, mas com uma certa presença, um peso em sua postura.
— Nós os conhecemos bem. Lutamos contra um. Matamos um.
A sala pareceu bilhar. Syndra parou, sua expressão permanecendo composta, mas algo sutil piscou por trás de seus olhos. Um cálculo.
— Vocês lutaram com um Chandravarta? — Sua voz estava mais suave. — De perto?
— Erlan mais de perto. — Tarja disse com um olhar orgulhoso.
Erlan assentiu lentamente.
— Ele era um de alta patente. Comandava dois tenentes de constituição como Onatra, dissidentes. Eles eram iguais em habilidade. Se não estivéssemos preparados...
Agora, os outros acadêmicos no laboratório haviam se virado, sua diligência silenciosa momentaneamente fraturada. O zumbido dos queimadores alquímicos, o arranhar das penas, pararam. A atenção mudara.
Tarja se exaltou. A memória daquela batalha não era tão facilmente descartada.
Um lampejo de preocupação passou pelo rosto de Syndra antes que ela se reafirmasse. Com um olhar para os eruditos ao redor, a atenção silenciosa agora voltada para eles, ela exalou levemente. Uma perturbação se formara na ordem do laboratório.
Ela assumiu o controle do momento antes que ele se desfizesse.
— Deveríamos nos mudar para um ambiente mais indutivo de conversas. — disse ela suavemente, já os empurrando em direção ao corredor. ­— Que tal uma pausa para o almoço?
Não era uma pergunta. E assim, sem mais discussão, eles a seguiram.
A expressão de Syndra mudou, não incredulidade, mas fascinação. A fome de uma erudita. Uma buscadora de conhecimento perdido encontrando algo que há muito suspeitava, mas nunca confirmara. Eles estavam marchando pelo corredor, mas, dado o alvoroço dos acadêmicos ali, não demoraria muito para que a sugestão de uma expedição corresse pelos corredores da Academia.