O dia terminou em uma nota suave para o time no Cântaro. Cada um foi para seu quarto reservado mais ou menos como em Magenta, e o descanso estava programado, dentro da agenda da próxima parada: Zhefaq.
Tarja havia vindo pelo trem do Zhefaq, quando chegou, já quando ainda era uma Carpata em busca de aventuras. O trem não era novidade para Valaravas, que supostamente vivia na Fáscia com Ayla por muitos anos, indo e vindo.
Ariel e Erlan por outro lado estavam prestes a embarcar em uma nova quebra de barreiras em sua recente aventura com os Harata. Não só iriam enfrentar o trem pela primeira vez, mas iriam entrar no Zhefaq, uma fortaleza da Armada, que foi construída para entre outras coisas, impedir que Silvani atravessassem para Erítria.
O trem para Luar era uma composição velha, adequada ao tráfego escasso e lento de passageiros destinados a uma cidade que não os convidava, e não os acolhia.
O trem para o Zhefaq era diferente. Passageiros sobravam e acotovelavam-se nos carros mais baratos. Felizmente, esse não era o destino do time.
Depois de acordar cedo e desfrutar de um desjejum elaborado para o convidado de muita influência, eles dirigiram-se diretamente à estação.
O trem era conhecido de longe pelos Silvani. A pressão do vapor e o ondular vibrante das turbinas supercríticas muito mais imponente quando se está perto do que estando de fora da estação.
Fora o trem tinha uma aparência bem similar ao trem de Luar, apenas mais novo, e mais moderno. O vagão parecia apenas a mesma caixa de metal decorada com mobília e interiores que eles viram em Luar.
Ao entrarem porém, a cena era diferente. O carro, marcado com o logotipo de 'Fundos de Investimento Luar' era magnânimo em sua expressividade. Ele era uma 'moradia' em comparação com os quartos no Cântaro de onde acabavam de sair há algumas horas.
Fundos de Investimento Luar é o meio que Ravantes, o Barão Harata, tem de negociar entre sua base na Fáscia, e sua Cidade, Luar. Os interesses vão desde a exploração dos negócios em Luar, até os mercados da Fáscia, passando pelas várias rotas de comércio com Erítria. Como nada pode ser estrangeiro em Erítria, uma forma de negociar com a Federação é patrocinar seus empreendimentos não militares, e dessa forma, diversas mercadorias de conforto e logística civil em Erítria que não podem ser conseguidas em Onachinia são fornecidas por alguma empresa ligada aos Fundos Luar. E mesmo a própria Eletrochinia tem sua parte em empréstimos com eles.
A anfitriã Harata, vestida com seu informe impecável e colado às suas formas, recebeu os Silvani com seu charme nativo e sua voz polida e treinada. Nenhuma novidade entre Harata, o novo era sua familiaridade com os Silvani. Não que ela os confundisse com Urbani, mas os identificando prontamente como Silvani.
Ao entrar, o vagão era todo dedicado aos convidados do patrocinador. Tinha seis cabines internas, e todas elas preparadas para uma vida, mesmo que a viagem fosse apenas algumas horas até Zhefaq.
— Se vocês estão assim aqui, imagina quando chegar no Verme. — Tarja disse, rindo-se.
— Verme? — Erlan disse em Silvani, perdendo o contexto.
— Verme? — Ariel repetiu em Silvani.
— Verme, porque ele vai pelo túnel debaixo da terra. — Valaravas passou falando, diretamente para o fundo do vagão, já verificando as reservas de comida e bebida.
Eles se acomodaram no vagão com facilidade. O espaço era dedicado a acomodar muito mais pessoas, e com uma sensação de luxo diferente. Ao contrário do trem de Luar, que passaria por uma terra sem dono, o trem para o Zhefaq era comercial e a rota protegida pelos Dragões. Ninguém seria estúpido o suficiente para atacar um trem que dividia caminho com o ícone da destruição sobre trilhos.
A viagem era rápida, mas tanto Valaravas quanto Tarja estavam dedicados a esgotar a reserva de provisões disponíveis. Não eram grandes refeições, mas estavam ali, e seria um desperdício não aproveitar.
Quanto aos Silvani, eles estavam mais pensativos. Entrar no mezanino do Cântaro é uma prova de coragem em um sentido. O que eles estavam prestes a fazer era entrar em uma fortaleza da Armada em que armas existiam com o específico objetivo de conter ou eliminar seu povo.
Provavelmente, a viagem iria durar muito mais para eles do que duraria para o resto do time, e uma visão que estavam por ter iria fazer isso muito mais intenso.
Em um trilho passando algumas centenas de metros eles viram o Dragão Vermelho vindo um tanto mais rápido no mesmo sentido que o trem que eles estavam.
A máquina era como eles nunca haviam visto em suas vidas. Uma composição feita para ser e parecer uma arma em movimento. Canhões móveis por cima dos vagões. Vagões lançadores balísticos. Três locomotivas redundantes blindadas, e o símbolo do Dragão vermelho da Armada. Seu tamanho mesmo a distância os deixava inquietos. Era como se Erlan pudesse ver sua gente como ele conhecia observando aquele monstro se aproximando. Era como saber que a derrota estava certa muito tempo antes dela acontecer.
Pelo movimento do chão, ele calculava que a velocidade que estavam era alta, mas o Dragão estava bem mais rápido. A fumaça branca densa que deixava era como se fabricasse nuvens.
Eles estavam mesmerizados por toda a passagem do trem bestial.
Passaram mais o resto da viagem contemplando o que seria o Zhefaq, se aquilo ela um mero trem militar.
Ao chegarem, o trem criava uma neblina na estação. Distantes do sul quente da Trifronteira, já estavam no clima mais fresco do pé das montanhas. A condensação não os deixava ver muito além de onde estavam.
Quando estavam acabando de descarregar suas bagagens, e Ariel e Erlan pensaram-se prontos para seguir qualquer tipo de viagem que deveriam, quatro oficiais da Armada se apresentaram.
— Bem vindos ao Zhefaq. Sua presença é esperada no comando geral. Seus pertences podem ser deixados na ala civil da base, esperando instruções. O comando estará esperando às 12.
Um outro oficial trouxe um carro elétrico de carga, que devia carregar os pertences do grupo onde quer que estivessem indo.
Ao saírem da estação, a muralha perpendicular era tão alta que Erlan e Ariel demoraram em contemplação. Era impossível que algum grupo de pessoas tivesse construído tal coisa.
O portal mais à frente era como para que uma casa fosse transportada por ele, com telhado e tudo mais.
Os oficiais os acompanharam para um carro de transporte de pessoal. A mente tática de Ariel identificou a supremacia em seu design. Três tanques de Carbóleo redundantes, seis eixos motores, rodas elétricas, e a blindagem nível 5. E esse era apenas um carro para uso geral.
Ao se aproximarem dos portões, uma figura esperava, inflexível, serena, uma presença que exigia reconhecimento: General Svetlana Tarasovna Sedova.